domingo, 16 de setembro de 2007

UÁ UÁ! >> Felipe Holder

Há quatro meses eu não durmo direito. Desde então tenho sido acordado no meio da noite pra escutar gritos e queixas numa altura de fazer doer o tímpano. E a cada interrupção, nunca menos meia hora para voltar a dormir.

Há quatro meses não posso mais dedicar meu tempinho do final da noite às coisas de que tanto gosto, como ler meus e-mails, visitar meus blogs preferidos, vasculhar as últimas do mundo do software livre e, às vezes, navegar sem rumo até chegar o sono. O sono sempre chega antes. E com a certeza de que vai ser interrompido logo, logo.

Há quatro meses minha vida mudou radicalmente. Nada de sair mais à noite, nada de tomar uma coca-cola com os amigos depois do trabalho, nada de pegar um cineminha com a esposa pelo menos uma vez por semana. Não sou mais dono da minha vida.

Há quatro meses, porém, eu sou o homem mais feliz do mundo. Desde então passei a ver todo dia o sorriso mais lindo que já vi na vida: em abril nasceu o meu filho Eduardo. Finalmente entendi o que meus amigos queriam dizer quando falavam em "mudança radical" da vida depois de um filho. A vida muda, sim. Nada será como antes.

A chegada de um filho é uma nova chance que a gente tem de aprender a viver melhor. Aprender a ser mais paciente, mais tolerante, mais compreensivo e — principalmente — aprender que, por mais desesperadora que uma situação possa parecer, é possível que se venha a se transformar num grande momento de felicidade. Eu explico.

Um dia desses tivemos uma madrugada pra lá de atribulada: Eduardo o tempo todo inquieto, nosso sono interrompido várias vezes pelo choro desesperado — às vezes irritado, às vezes sofrido — e não havia nada que o consolasse. Parecia que não iríamos dormir nunca mais. Mas por volta das quatro e meia ele finalmente dormiu. Pouco depois das cinco, nós quase conseguindo... ele acordou de novo. Parecia um pesadelo. Cheguei a pensar: “Meu Deus, o que é que eu faço, eu não agüento mais!” e já fui me preparando para escutar mais um chorinho e recomeçar o sofrimento. Mas que chorinho que nada! Com o rosto mais inocente do mundo ele virou a cabeça pro meu lado e, como se nada tivesse acontecido, abriu um sorriso e de sua boca saiu um inesperado “Uá uá!”. Dessa vez quem chorou fui eu. De rir, de felicidade.

Partilhar

2 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Eita, esse meu xará, o Eduardo, é mesmo poderoso. Fez até o pai voltar a escrever. :)

Bela crônica, meu amigo!

Blog do Cintrão disse...

Nossa! Tem um Abu Zadim Jr.? Eu não saia!!! Puxa, Abu, parabéns!!! Fico super feliz. Mais feliz ainda em ler suas eltras por aqui. Parabéns pelo Eduardo. Parabéns pelo texto.
Beijos a todos,
Balu