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Mostrando postagens de Fevereiro, 2011

MINHA PEQUENA TERRORISTA
>> Kika Coutinho

Ela come areia, rasga cartas, engole pedras (pequenas, mas engole).

Ela quebra os eletrônicos, besunta-se de cocô, acorda inteirinha molhada de xixi.

Ela finge que vai te beijar e morde tua bochecha. Morde teu nariz e quase arranca a pele da tua mão com seus pequeninos dentes.

Ela anda na ponta dos pés, corre até cair, dança pra ficar tonta. Ela grita, chora, ri e esperneia em altíssimos decibéis.

Ela enfia o dedo na tomada, pega abelha com a mão e abraça – forte – o rottweiler desconhecido.

Ela bate no amigo, no inimigo e estapeia a mãe. “Não pode!”, gritamos, incansavelmente. Ela ri seu riso malandro e disfarça olhando pra cima.

Ela fala um idioma próprio, puxa os próprios cabelos e tenta arrancar as próprias orelhas.

Ela pula na pisicina, no mar ou na privada. Onde houver água, ela se joga.

Ela fecha o próprio dedo no armário, depois na gaveta, e depois na porta.

Ela beija o espelho, o copo de requeijão e a planta.

Ela come sabão, cospe água e engole pomadas de assadura – muita, …

CERTAS COISAS DENTRO DA CAIXA
>> Eduardo Loureiro Jr.

— Me diz por que é que eu me meto em certas coisas? — perguntou uma amiga enquanto esperávamos o início de uma reunião.

Eu sorri e respondi:

— Talvez pelo mesmo motivo que EU me meto em certas coisas.

E a reunião começou antes que minha amiga pudesse fazer a pergunta fatal, para a qual eu não tinha resposta: "Então por que VOCÊ se mete em certas coisas?".

Porque a verdade é que eu estou mesmo metido em certas coisas. Por exemplo, na produção do primeiro livro, da primeira coletânea de escritores, aqui do Crônica do Dia. E mesmo eu tendo convocado seis amigos para levar isso adiante comigo, tem horas em que eu me pergunto: "Homem rapaz, estava tudo tão tranquilo, cada um escrevendo e publicando sua própria crônica, você só tendo o trabalho de dar uma revisadinha e de escrever aos domingos, por que é que você foi se meter nessa história de livro?"

Incapaz de responder à pergunta, fui deixando para lá...

Até que me meti em outra certa coisa: um teatro de bolso, na fal…

MORANGOS E VINHO >> Leonardo Marona

Foram morangos com vinho, que ela comeu no jantar. Agora no chão na minha frente misturados numa poça de bílis e maresia. Foram morangos com vinho ou era minha alma que ela tinha bebido, agora despedaçada em pequenos coágulos cheirosos pelo chão de tábua corrida. Eu trouxe a vodca, trouxe a vida, mas estou sendo perseguido, não há dúvidas, e quero que ela me ache ali no meio da poça, onde posso ver meu reflexo. Onde posso cobrar a dívida do desejo desperdiçado pelo zelo. O reflexo sorri e eu não. E por quê? Porque foram morangos com vinho. Foi agorinha. Não fiquei surpreso. Abriu a porta, um beijo rápido, sentamos no sofá, pernas sobre pernas, aquele silêncio tão raro, então se virou de lado, de olhos fechados, e tudo ficou bem ali no chão de taco esparramado, meu rosto refletido. Não era como eu, e parecia tão eu mesmo. Agora ela dorme no sofá encardido de filme inglês. Ronca, uma vez baixo, outra vez alto, então se engasga, golfa, engole o ar. Na prateleira, “A Convidada”, da Simone…

SÓ ACONTECE COMIGO >> Fernanda Pinho

À que saiu de casa toda arrumada e levou banho de poça d'água. Ao que levou um pé na bunda às vésperas do casamento. Ao que acabou de receber e teve todo o salário roubado. À que se apaixonou tarde demais por alguém que já foi apaixonado por ela. À que engravidou na primeira transa. Ao que quebrou o dente da frente no dia em que ia dar uma palestra. À que ficou menstruada no dia em que resolveu sair de roupa branca. Ao que desistiu de investir em um negócio e depois acompanhou o seu sucesso. Ao que foi demitido no dia do aniversário. Ao que foi confundindo com um terrorista ao tentar entrar nos Estados Unidos. À que teve as malas extraviadas durante a viagem. À que desmaiou durante a primeira visita à casa do novo namorado. Ao que ficou doente justamente quando conseguiu tirar férias.
A todos estes só parece restar uma curiosa alternativa: a de se consolar se julgando importante demais e proferir a famigerada pérola: só acontece comigo! "Só acontece comigo" tem cara de u…

AS GIRLS SE DIVERTIRAM! >> Carla Dias >>

Natal de 1987...

Depois de anos participando de amigo secreto e ganhando cozinha de brinquedo, boneca, joguinhos, batom, fitas para os cabelos, camiseta e etc, eu já estava velha o suficiente para um presente diferente: um disco.

Eu insistia em espalhar a palavra: meu amigo secreto querido, por favor, um Long Play é o que quero, e assim segui, durante o mês que antecedeu o Natal deste ano: fazendo campanha para o presente perfeito.

O disco era o True Colors, da Cyndi Lauper. Eu escutara na rádio uma das músicas, e não era o hit que dá nome ao disco, mas sim Calm Inside The Storm. Apaixonei-me pela música, apesar de não entender nadinha do que ela dizia, a voz dela me encantou. Enfim, tornei-me fã, antes de concordar que as Girls Just Want to Have Fun.

Ontem, eu fui à casa de shows Via Funchal, aqui em São Paulo, para assistir ao show da Cyndi Lauper. “Borboletas no estômago”, porque, cada vez mais, tenho por certo que as músicas que trazemos no playlist da nossa alma têm sim a função de c…

TALVEZ >> Albir José Inácio da Silva

Lá fora tem um sol desses de assar gringo sorridente. Eles se deitam de barriga pra cima e ficam lá sentindo o calorzinho e o ventinho, o calorzinho e o ventinho até que um deles grita, reconhecendo no outro a brasa em que se transformaram. Mas essa divagação sobre gringos é pra fugir do problema. Talvez a praia não fosse um problema, se fosse a única possibilidade.

Mas a praia não é a única possibilidade e, além disso, tem areia quente, raios cancerígenos e a água que pode estar contaminada. Talvez eu fique melhor lendo aquele livro que já comecei quatro vezes. Isso talvez signifique melhor descanso porque hoje é domingo e aquele bando de gente barulhenta da praia não descansa ninguém.

Mas talvez eu não esteja precisando de descanso nenhum. Preciso, isso sim, de atitude, movimento, para que a semana comece bem, com energia, e não se arraste sem graça e repetida como se durasse um mês.

Ou talvez deva mesmo ficar em casa, mas pra fazer aquele trabalho chato que já cobraram tantas vezes e…

PAPEL >> Eduardo Loureiro Jr.

O papel parece coisa pouca, mas é ele muitas vezes o primeiro tabuleiro das crianças em seu jogo-da-velha.

Vencido pelo corte da tesoura, o papel embrulha e vence a pedra. São de papel as pipas, as raias ou os papagaios. De papel são os concentrados cadernos, e também os descontraídos confetes e suas repentinas serpentinas. Beijos-de-moça são envoltos em papel e dele são as línguas-de-sogra. Ficam nele, no papel, muitos sonhos de mocidade.

As lembranças — cartas e fotografias — são de papel e ficam guardadas em embalagens e caixas, também de papel.

Cédulas, cardápios, exames, multas, diplomas, documentos em geral, estão em papel. Está escrito, papel passado, é compromisso. Se for preciso, é filtro, lixa, adesivo. Sem distinção de raça — branco e pardo —, papel.

Nele se fixa, nele se imprime. Papel que tudo aceita: lembretes, rabiscos, rascunhos e obras-primas.

Papel dúplex e de muitas outras faces: papel-alumínio, papel-bíblia, papel-carbono, papel-manteiga, papel almaço, papel cuchê,…

EM DEFESA DA POESIA SANGUÍNEA
>> Leonardo Marona

Quero começar falando de Marllamé. E o que é Marallmé? Certamente não é Mallarmé. E Mallarmé, o que seria? Nada além de alguém que poucos leram, e um dos maiores escritores de todos os tempos – antes de tudo, um dos maiores inventores. Indo mais fundo, o que é Mallarmé senão um erro de nome, um “começar-errado-um-texto-pensando-em-algo-além-de-nós”. Mallarmé é um gênio justamente porque é um alarme falso, um aviso de que, por melhor que fosse, não, isso não era coisa para ser aguentar por muito tempo. As invenções têm esse dilema incrível. São tão intensas e profundas que ferem de bom grado a existência, mas, como não são a existência e sim uma luta contra ela, elas jamais poderão ser duráveis como escudo, porque se deterioram conforme a existência – substância maleável – vai mudando de espécie e exigindo um novo nome de combate. E queremos, todos aqui, corresponder às armas da nova violência enternecida.

E não podemos apenas ser o que sofremos. Não conseguimos, a forma é pouco, quere…

EU TENHO UM PLANO >> Fernanda Pinho

Acordo no meio da noite, provavelmente despertada por algum sonho ruim. Olho as horas: duas da manhã. Ui, delícia! Ainda posso dormir muito. Fecho os olhos e viro para a parede. Ei, sono, cadê você? Escapuliu, o danado. Nem discuto. Sei que não adianta. Aproveito para pensar. Raramente tenho tempo para pensar durante o dia. E a imaginação vai longe. Direto, sabe-se lá por que, para um presídio feminino. Imagina se eu for presa um dia? Por engano ou não, isso não vem ao caso. Acho que o ideal é me comportar bem. Não arrumar treta com as outras presas. Mas sem ser boazinha demais. Tá na cara que elas não gostam de puxa-saco. Talvez eu possa ser útil em alguma coisa. Será que ainda tem presa que não sabe ler? Se tiver, eu posso ensinar, né? É bom que ajuda a passar o tempo. Aliás, o tempo deve ser o grande inimigo dos que estão presos e a única forma de lutar contra ele seria me mantendo ocupada. Sendo assim, eu seria uma presa totalmente engajada nas tarefas propostas pela penitenciária…

PASSARAM POR MIM>> Carla Dias >>

A Laura era uma moça bonita, de cabelos longos e loiros, muito animada. Fazíamos aniversário no mesmo dia, duas escorpianas mais diferentes impossível. Foi a Laura que me deu o primeiro buquê de flores da minha vida, no dia do meu aniversário, quando completei dezesseis anos. Já são aí quase vinte e cinco anos, desde lá, e até hoje sou grata a ela, pois com tal gesto, fui eu que aprendi o quanto é bom oferecer flores... Em buquês ou em jardins.

A primeira vez que entrei em uma livraria, sozinha - enfrentando aquele bichinho interior que me fazia temer pra diacho estar em qualquer lugar público, ter de lidar com a dinâmica desses lugares e falar com desconhecidos -, foi para dar um alô a um amigo do colégio, o Gilson, que trabalhava na Saraiva do calçadão da Oliveira Lima, no centro da minha querida Santo André. Agradeço a ele até hoje, porque dei de frequentar livrarias, desde então, como a maioria das mulheres frequentam os catálogos da Avon.

Uma das amigas que eu trouxe daquela época …

MOMENTO DE LUCIDEZ >> Clara Braga

Mais cedo ou mais tarde, a gente acaba percebendo que, realmente, mães têm sempre razão. Em alguns momentos, parecem até gurus, sabem da gente melhor do que nós mesmos.

Eu sou um exemplo de pessoa que demorou para entender isso. Talvez eu até já tivesse entendido antes, mas eu queria testar se era verdade, então algumas vezes escutava minha mãe, outras não. Escutava quando me era conveniente; quando não era, eu fingia que queria testar as leis do universo para não ter que assumir ser preguiçosa.

Uma das coisas que minha mãe vivia me mandando fazer era arrumar meu quarto, então eu embolava tudo que estava na cama e jogava dentro do armário, tudo que estava no chão e jogava no outro armário, tudo que eu não sabia onde guardar e jogava no baú.

Sempre que minha mãe me mandava arrumar o quarto direito, eu dizia que o problema era que meu quarto era muito pequeno, não que estava bagunçado. E na verdade ela tinha razão quando dizia que meu quarto não era pequeno, era entulhado.

Algumas pesso…

ARAPUCA >> Kika coutinho

Eu morava em um apartamento muito pequeno quando conheci o meu amor. Foi para esse mesmo apartamento que ele se mudou de vez quando nos casamos. Ainda me lembro das flores amarelas que reluziam sobre o sol quando chegamos da nossa lua-de-mel. A cama arrumada, a casa toda enfeitada, repleta de mudas de amor-perfeito que nasciam aos montes nas nossas pequenas janelas. Era primavera naquele meu outono inesquecível.

Nesse mesmo apartamento, eu aprendi a fazer ovo frito, omelete e penne. Errei um milhão de bolos, acertei algumas massas. Nesse apartamento, assistíamos seriados em domingos intermináveis, comendo M&Ms que escapavam entre os lençóis. Lá, brigamos um pouco e rimos muito. Lá, eu chorei sozinha, no chão de um banheiro frio, por um teste de gravidez que dava negativo. Lá, eu chorei sozinha, no chão de um banheiro frio, por um teste de gravidez que, enfim, dava positivo...

Mudamos desse apartamento para a rua de cima e, com um barrigão de sete meses, despedi-me do nosso minipa…

A CASA ALÉM DA ESPERANÇA
>> Eduardo Loureiro Jr.

A esperança é a penúltima que morre. Após seu falecimento, seguimos nós, os vivos, viúvos de tão terna companheira. Levamos os dias sem verde de olhos, de plantas, de mar. Para nós, os últimos a realmente morrer, os dias são cinzas cinzentas de um fogo que já se apagou.

Num desses dias é que chego em casa de minha mãe, coisa que faço a cada três ou quatro meses. Nesses últimos anos, em que tenho morado longe e venho só de visita, tenho prestado mais atenção à sua casa que me recebe por alguns dias.

Em sua casa, há sempre uma novidade. Não uma novidade grande, daquelas que aparecem em revistas de decoração de ambientes, mas pequenas novidades que vou encontrando aos poucos, feito ovinhos de chocolate descobertos na Páscoa.

Desta vez foi um liquidificador, um tampo de mesa e um relógio de parede. O liquidificador não tem luxos, foi ganho num sorteio de quermesse, mas veio em boa hora, porque o antigo já dava sinais de cansaço. O tampo de vidro, hexagonal, foi colocado sobre a mesa redon…

APENAS TRÊS LETRAS E UM TIL [Maria Rita Lemos]

Três letras e um til, somente, e formo a palavra “não”. Simples assim? Nem sempre. Pensando bem, pode ser que você seja aquela pessoa que está o tempo todo ajudando todo mundo a fazer tudo, o possível e o nem tanto, sem esperar nada, sem receber nada em troca. Pode ser você aquela que empresta dinheiro para amigos, parentes e até inimigos, quem sabe? E por isso vive pendurada no cheque especial, devendo você mesmo aquilo que salvou tanta gente de sentir na pele e no bolso... Talvez você, com sua santa bondade, tenha aberto mão, por amor a amigos e parentes, por estar devendo o que emprestou a eles, daquela viagem maravilhosa com a qual você sonhou tanto, daquele carro que sonhou em trocar este ano, daquele Natal em Natal, só para lembrar uma única viagem...

Você aprendeu, a vida toda, recitou um antigo mantra, que dizia, milhões de vezes, que os problemas das pessoas são muito mais sérios que os seus, que é preciso pensar primeiro nos outros.... pois esqueça, enquanto é tempo!

Apren…

Eu e Tonto Poe e Annabel Lee do outro lado da lua >> Leonardo Marona

Tem sido uma tarefa difícil fazer o fácil. Tenho tentado um armistício com o passado. Olhando no espelho rio dos meus resultados. Mas como sou fraco! Não consigo ser eu mesmo meu próprio resultado. Me parecendo tão cedo para mais um trago da morte e mais um parto, me sinto enquadrado. Não triste. Tristes são as venezianas que, sempre nas janelas, não ganham descanso do vento, do sol, da escuridão, da luz cansada e lenta das velas. Quando a noite por aqui terminar e quando meu amigo sem amigos Tonto Poe der sua última volta depois do pingo-fim da última garrafa e quando os corvos todos já bateram asas e sobrou apenas meu gato preto e minha carne dentro de paredes tijoladas sobre o tempo do que nem me lembro mais da minha mocidade, algum feixe raro se fará rajada do outro lado da lua cheia: o lado que não se poetiza porque agora é tarde. A rajada será colorida, verde, cheia, constante e seremos eu e Tonto Poe abraçados no meio da rua, cambaleantes como a última onda do mar de luz da ami…

MUITO MAIS QUE ISSO >> Fernanda Pinho

Diferentemente da criança que era e da adulta que sou, fui uma adolescente muito introspectiva e tranquila. Posso garantir que, ao menos naquela fase, nunca desapontei meus pais em nada. Mas houve um dia em que eu achei que era a pior filha do mundo. Eu estava na sexta série verde. Na minha escola tinha isso de as turmas terem nomes de cores e, ironicamente, foi uma cor que acabou comigo. Aquele vermelho agressivo manchando com meu boletim.
Na minha cabeça de menina de 13 anos, as piores coisas que podiam acontecer a uma garota era ser ignorada pelo menino da oitava série e perder média. E, quando eu abri aquele maldito boletim, percebi que as duas coisas estavam acontecendo comigo, embora o menino da oitava série tenha se tornado totalmente insignificante diante da minha escandalosa nota vermelha. Fiquei apavorada, minhas pernas bambas, como quem recebe uma notícia de morte. E de certa forma era. Aquele 17 em matemática (a média era 18) estava matando a minha imagem de boa aluna, cul…

DEAR IDOL... >> Carla Dias >>

Eu gosto muito do programa American Idol. Para os que não sabem do que se trata, é um reality show voltado para a música, onde são selecionados cantores que podem se tornar o novo ícone musical americano. Entre alguns dos vencedores das nove edições já realizadas, estão Carrie Underwood, diva da música country, e a moça-rock.n-roll Kelly Clarkson.
O Brasil topou a franquia e fez a versão Ídolos, exibida atualmente pela TV Record. Confesso que não caí nas graças da versão brasileira, não acompanhei, assisti a pouquíssimos episódios. O derivado realmente não me ganhou.
Atualmente, a décima edição do American Idol, apresentado, desde a primeira edição, por Ryan Seacrest, está na fase das audições, quando são escolhidos aqueles que irão para Hollywood, antes de serem definidos os que serão os participantes oficiais. Nesta parte, uma labuta para os jurados, aparece de tudo: pessoas sem a menor noção de como interpretar uma canção, algumas com o ego tão em dia que nem enxergam a falta de tale…

NORMAL X ANORMAL >> Clara Braga

Sempre achei minha família um pouco diferente, mas, para mim, nós sempre fomos os normais e a família dos outros é que não era. Enquanto as famílias dos meus namorados e dos namorados da minha prima eram muito mais apegadas, a nossa sempre foi mais fria. Não que sejam antipáticos, eles só preferem esperar um tempo antes de tratarem um namorado como se fosse filho deles.

Eu, por estar acostumada com o jeito da minha família, sempre achei estranho chegar na casa de um namorado e já ser chamada de “minha netinha” pela vó deles. Não era ruim, faz a gente até se sentir mais a vontade, mas era muito estranho. Com o tempo fui percebendo que isso é muito mais normal do que eu imaginava, aconteceu comigo e com a maioria dos meus amigos.

Outra coisa que meus amigos contam que sempre acontece na família deles é a mãe chorar quando o namoro deles termina. Já ouvi falar de casos que o filho teve que consolar a mãe e não o contrário. Não é possível que eu seja a única que ache isso exagero. Meus …

UM DIA >> Albir José Inácio da Silva

Um dia ele amanheceu sem dores e a mulher não reclamou de nada. Os filhos não pediram dinheiro nem brigaram antes de sair pra escola. Não recebeu nenhum telefonema de cobrança e, diga-se, o telefone nem estava cortado. Não viu o jogo ontem - nem sabe por que motivo - mas seu time não deve ter perdido, ou seu vizinho já o estaria sacaneando aos berros.

Naquele dia também não teve que sair de madrugada com recortes de empregos para ouvir nãos e voltar com tristeza e fome. Não o fizeram acreditar que era um fracassado e uma espécie de conselho de família e amigos, embora reunido, não concluiu que ele era imprestável e preguiçoso. Passaram apressados e olharam como se, pela primeira vez, se preocupassem com sua doença.

Depois de muitos anos não ficou triste ao acordar, não teve vontade de se matar, não rezou sem fé, nem se arrependeu do que fez. Não ia mais aturar desaforos. Quem pensam que são? Como diz Pessoa em linha reta, estão sempre campeões em tudo? São semideuses? Só ele é vil? N…

MAUS ENTENDEDORES
>> Eduardo Loureiro Jr.

Tenho evitado falar mal. De livro, de filme, de disco, de programa de TV. Falar mal é apenas uma forma alternativa — e ingênua — de fazer propaganda. Ultimamente tenho preferido falar bem das coisas que vejo,  leio, escuto e gosto. Mas hoje vou pedir licença aos meus leitores para falar mal um pouquinho de vocês, dos leitores. Claro que não me refiro a todos, nem à maioria deles, mas o justo vai pagar pelo pecador.

Eu não sei se o problema é não ler, não entender ou não obedecer. Também não sei o que é pior: o leitor ser um analfabeto funcional, um burro ou um desobediente. Talvez o leitor prefira ser desobediente, já que a rebeldia se tornou um comportamento de moda, mas confesso que prefiro os burros e os analfabetos funcionais, pois estes teriam conserto. Rebelde não tem conserto: não é possível ensinar um rebelde porque ele se insurgiria contra o próprio aprendizado.

O caso é que inventei de fazer uns projetos, vários projetos, e esses projetos envolvem solicitar coisas das pessoa…

VOCÊ TEM FOME DE QUÊ? >> Fernanda Pinho

Simplicidade é o último nível de sofisticação. Bonita a frase, não? Pena que não é minha. É do Leonardo da Vinci. Não sei dizer ao certo a que ele se referia, creio que não era sobre comida. Mas poderia ser. Me lembro bem de duas ocasiões na minha vida nas quais eu teria trocado qualquer coisa por um bom prato de arroz, feijão, bife e batata. Na primeira, eu era muito nova e idiota, e fui a um restaurante de comida japonesa com um namorado. Ele, todo felizão, pois era sua comida favorita. Eu, toda tensa, pois nem sabia manusear hashi. Foi triste. Ele enchia o prato daquelas coisas todas que até hoje não sei o nome - pois deixei de ser idiota, mas continuo odiando comida japonesa - e eu fazia o mesmo. Por falta de coragem de dizer que tinha pavor daquilo. Pedi uma Coca - saquê já seria demais - e pensei que facilmente colocaria tudo aquilo pra dentro (afinal, Coca até desentope pia, né?). Mas quem disse? Até hoje eu me lembro da sensação de eu mastigando aquelas coisas frias e sem gost…

SOBRE SALTOS >> Carla Dias >>

Um apresentador de um programa de canal a cabo pulou do sétimo andar de seu prédio. Era jovem, talentoso, o típico moço que a sua mãe diria que tem uma vida como a vida deve ser, e de quebra é lindo que só, perfeito para você... Que nunca pensou em saltar nem daquele murinho que separa a sua casa da rua, o que dirá do sétimo andar do seu prédio. Que não é linda que só, está longe do significado da perfeição. Enfim, para a sua mãe, você não é perfeita para ele, mas as mães sempre querem o melhor para suas filhas, certo?
E eu me pergunto: e quando a gente morre, deixamos o corpo físico, mas o que é feito do corpo virtual?
Um amigo me disse que essa vida paralela que levamos através da internet se aproxima, e muito, da ideia que temos do espírito. Podemos nos relacionar com as pessoas sem tocá-las, exercemos influência e somos influenciados, naturalmente, pelas verdades e mentiras contadas nesta terra onde jamais colocaremos os pés.
A noiva do apresentador postou no Twitter, no dia da morte…

ESSE TEXTO É MEU! >> Clara Braga

Que bom que somos cronistas preocupados em escrever bons textos e sempre assinamos com nossos próprios nomes. Aqui não se tem a intenção de escrever um texto e assinar no nome de outra pessoa só para ser lido. Que graça tem escrever o que se pensa com suas próprias palavras e assinar como outra pessoa só para que seu texto circule e muita gente leia?

O último que está rolando agora é um sobre o BBB, que o Luis Fernando Veríssimo já declarou não ser dele. Eu sou a pior pessoa para dizer quando um texto parece ou não ser de alguma pessoa, acredito sempre na assinatura. Santa inocência! Mas esse último é estranho, não se parece em momento algum com Veríssimo. Mas a verdade é essa, depois que a internet, e principalmente os blogs, viraram febre, é difícil ter controle sobre os "direitos autorais" dos textos de qualquer pessoa.

Não acho que no final das contas não se deve escrever para falar mal do BBB, vamos lá, vamos falar mal, vamos reconhecer que se aquelas pessoas que estão …