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Mostrando postagens de Outubro, 2013

QUEM TEM PENA DOS HAMSTERS? >> Mariana Scherma

Beagles sofrendo, com um dos olhos faltando, vivendo em ambientes sujos, maus tratos (aparentemente) descarados... Impossível não se comover e tentar invadir um lugar no qual bichinhos tão inofensivos e fofos (gente, o Snoopy é um beagle!) para salvá-los desse mundo cruel. Tomados por esse espírito heróico, diversos ativistas invadiram o Instituto Royal no interior de São Paulo. Ok, eles deram liberdade aos bichinhos, tanta que alguns ficaram até perdidos na rua. Qualquer pessoa com um mínimo de sensibilidade saberia que bichos criados sempre fechados se perderiam na rua. A expressão “mais perdido que cachorro caído da mudança” não existe à toa. E foi isso que me fez questionar a boa vontade desse grupo ativista. Eles queriam vender a causa com uma promoção excessiva ou cuidar dos beagles?
Não, eu não fui contra essa manifestação. Quer dizer, não fui totalmente contra porque detesto excesso de violência. O fato é que testes em animais, infelizmente, ainda são necessários e são permitid…

ÀS VEZES... >> Carla Dias >>

Vendo os dias passarem, feito criança com cara encostada no vidro da janela do ônibus, cantando uma canção inventada, que fala a respeito de como elas dançam sobre nuvens e se dependuram em uma corda formada por gotas de chuva. Cantando uma canção inventada para um público formado por transeuntes, dos quais às vezes enxerga apenas o vulto. Nos quais às vezes se reconhece.

Dias em que a imaginação age feito antisséptico sobre mágoas em carne viva, fazendo as dolências se tornarem apenas o que já deveriam ser: passageiras.

Sentindo os dias passarem, imaginando formas plausíveis de torná-los amparo, desnutrindo-os da capacidade de arrefecer sonho que, hora sim, hora não, rouba-nos o fôlego. E donos plenos da nossa respiração, os tais desatam os nós da nossas gargantas, sopram delírios nas nossas cabeças. Delírios estes que agem como relaxante muscular para esse nosso coração sempre apressado, estressado, batendo além da velocidade máxima, em busca destemida pelo momento de bater, mas nã…

FAVOR COMPARTILHAR ATÉ CHEGAR NA BEYONCÉ (PARTE II) >> Clara Braga

Mrs. Carter ou Beyoncé,
sim, sou eu de novo. Depois de escrever aquela primeira carta para você, senti que precisava te dar um retorno sobre como seria o show do Aerosmith. Como o show foi semana passada, aqui estou eu novamente para te dizer que, apesar de ter dito que eu espero que você volte à minha cidade, talvez seja melhor você esperar um tempo - um bom tempo - antes de vir novamente a Brasília. Pelo visto, construíram um local para que grandes shows viessem para cá, mas não prepararam pessoas para trabalharem nesses grandes eventos.
O som estava consideravelmente melhor, dessa vez eu consegui ser uma das pessoas que interagiam e cantavam junto. Mas como disse na carta anterior, dessa vez eu fui na pista, não sei como estava o som para as pessoas da arquibancada. Inclusive, acho que vou tentar descobrir, pois talvez seja o caso de também escrever uma carta para o Steven Tyler. Ainda assim, mesmo estando melhor, ainda estava ruim, um pouco abafado e embolado, não sei se existe u…

CARROS ANTIGOS OU "O PASSADO" [Ana Claudia Vargas]

O passado, mais ou menos fantástico, ou mais ou menos organizado, posteriormente, age sobre o futuro com um poder comparável ao do próprio presente. (Paul Valéry)
Era só um evento desses que acontecem Brasil afora nos quais carros das décadas passadas são expostos para que (hoje) possam ser vistos com vagar, como peças de museu, como outros sobreviventes de um  tempo que se foi. Na grande praça central da cidade do sul das Geraes, as pessoas vão chegando animadas e sorridentes porque o dia ensolarado e luminoso torna tudo agradável.
Ver os carros antigos sob o manto de folhas das árvores frondosas é um afago na alma: lá estão os carros, dezenas deles, parados em meio à sombra dessas árvores e é como se eles ‘soubessem’ que são alvos de admiração.
São como modelos na passarela, aquelas mulheres que imolam suas existências para serem apenas objetos de desejo e que quando envelhecem, por exemplo, são imediatamente substituídas por outras mais frescas, mais de acordo com o presente. Mulheres…

O ESTRATAGEMA - PARTE II >> Zoraya Cesar

Síntese da Parte I - Lucio mata a ex-mulher, que o estava atormentando e tentando perturbar seu novo casamento, e  que, não menos importante, sabia de todas as falcatruas que ele perpetrava na empresa. Para ler a íntegra de O Estratagema, parte I, clique aqui
Lúcio saiu, e, verdade seja dita, um pouco nervoso. Era a primeira vez que matava alguém. E já que a verdade é para ser dita, vamos esclarecer que seu nervosismo era antes excitação que propriamente arrependimento. Afinal, pensava, aquela louca estava infernizando sua vida. Agora, quem estava no inferno era ela, concluiu, rindo. 
Somente ao chegar à segurança de sua garagem Lucio percebeu a dor no estômago, os olhos esbugalhados e o suor que encharcava sua camisa, apesar do ar refrigerado ligado ao máximo. E se o tivessem visto? E se Violeta deixara alguma carta incriminando-o? E se ela falou a alguém sobre o encontro? E se ele não tivesse álibi? Ele respirou fundo e tratou de tirar a fita adesiva que adulterava a placa do carro.…

O QUE TEM EM BELO HORIZONTE >> Fernanda Pinho

Quando percebem que sou brasileira, a primeira coisa que os chilenos me perguntam é: “de que parte do Brasil?”. Eu digo Belo Horizonte e daí, geralmente, é das duas uma: ou eles ignoram a informação por não ter o que dizer e contam que já viajaram/ou gostariam de viajar para Florianópolis ou Búzios, ou perguntam se Belo Horizonte fica perto do Rio de Janeiro ou de São Paulo. Ok. Não posso ser injusta, neste um ano e meio morando aqui houve uma meia dúzia de bem informados que retrucou o dado perguntando se eu torcia para o Atlético ou para o Cruzeiro (normalmente, fanáticos por futebol que, por conhecerem todas as equipes, conhecem todas as cidades. Depois ainda dizem que futebol não é cultura).
E há ainda alguns poucos que nunca ouviram falar de Belo Horizonte mas, diante da oportunidade, querem saber mais. E aí vem uma outra pergunta recorrente: “O que tem em Belo Horizonte?”. Interrogativa normalmente seguida de outra: “Tem praia?”. Eu digo que não, não tem praia. Mas tem montanh…

PORTA DA ESPERANÇA >> Carla Dias >>

Apesar de a minha memória ser seletiva, e nem sempre colaborar comigo, lembro-me claramente de quando minha avó, a Dona Anita, na época em que comecei a estudar música, costumava dizer, com toda seriedade, que iria escrever para a Porta da Esperança.

Você se lembra da Porta da Esperança?

Minha avó amava esse quadro do Programa Silvio Santos. Na época, ela morava conosco, sendo assim, todos assistíamos ao quadro. E nem era a coisa mais difícil do mundo, porque ver pessoas recebendo algo do qual precisavam, mas não podiam custear, ou apenas tendo seus desejos realizados era bem animador, apesar do merchandising de programa de auditório, que me parecia irritante já na infância.

Eu e minhas irmãs ficávamos inventando o que ganharíamos (até parece que não queríamos mesmo ganhar!), como se fôssemos as escolhidas da vez. E sim, às vezes dizíamos “Vamos abrir as portas da esperança”, junto com o Silvio Santos, em coro.

Claro que me incomodava profundamente não entender o motivo de ele dizer “…

MI BUENOS AIRES QUERIDA [Ana González]

Viajar é exercício de imaginação. Imagens e desejos que se adiantam ao deslocamento físico me capturam e me provocam. Foi assim dessa vez. O destino era Buenos Aires.

Logo após a chegada ao hotel em San Telmo, fui ao café da manhã duas quadras à frente. Aconchego em lugar antigo de histórias a serem adivinhadas. Enquanto bebericava o chá com leite e comia as torradas negras com um tipo de queijo cremoso, percebi que em dois ou três ônibus que passaram pelas janelas que davam para a esquina, grupos barulhentos agitavam bandeiras verde-brancas. Seria manifestação política?

À procura do centro, saí pelas ruas do bairro histórico e boêmio, andando por seu esquadrinhado geométrico de ruas estreitas e casas com portas de bandeira alta. Eu olhava os janelões fechados, com vontade de saber o seu interior. Alguns quarteirões depois encontrei o que buscava.

Enquanto isso, grupos de homens a pé com bandeiras verde-brancas iam à mesma direção. Curiosa, seguia ao lado deles. Ao longo do caminho …

CONTEMPLADORA DE ALÉM >> Carla Dias >>

Quando criança, eu já era absorvida por assuntos que pescava das conversas dos adultos. A vida me preocupava profundamente, mesmo quando estava metida com as brincadeiras infantes. E não era uma preocupaçãozinha aqui e outra ali, não. Menina de tudo, eu já colecionava preocupações diversas, e a maioria delas não tinha a ver comigo, mas com pessoas a quem dedicava meu afeto.

Obviamente, isso não significa que eu não tenha me divertido muito – e brigado muito, também – com o monte primos e com as irmãs e irmãos, lá no quintal de casa.

O fato é que eu percebia coisas nos adultos que meus companheiros de infância não percebiam, porque estavam entretidos com as brincadeiras, ou seja, estavam fazendo o que deviam fazer: sendo crianças. Essa habilidade em mergulhar profundamente no que não me cabia espiar, levou-me a ser ótima contempladora de além, e péssima em compreender situações realistas e diretas. Até hoje, com quase quarenta e três anos, minhas irmãs me surpreendem com revelações so…

FELIZ DIA, PROFESSOR! >> Clara Braga

Eis que o dia do professor também cai em uma terça! Engraçado como ultimamente as datas comemorativas vem caindo nas terças, até meu aniversário caiu em uma. Mas, o que teria para se falar de um dia tão importante como hoje? Talvez a primeira coisa a se dizer seja que hoje deveria de fato ser muito importante para todo mundo, deveria ser o dia que cada um lembraria de valorizar o trabalho de um bom professor e a educação que recebeu. Aos poucos, essa valorização seria tão comum que nem precisaria mais de um dia, todos os dias seria o dia do professor e aí sim a gente ia ver quantos bons professores também iam começar a surgir.
Eu sou suspeita para falar, optei por seguir a carreira inspirada na minha mãe e na minha madrinha. E ao longo dos meus estudos, consegui perceber que o melhor professor é aquele que nunca para de estudar e que, principalmente, não tem medo de aprender com seus alunos. Tem que ter humildade para assimilar o conhecimento que hoje em dia vem de todos os cantos e …

À NOSSA! >> André Ferrer

Um compilador do conhecimento. Trabalhou em Alexandria, na famosa biblioteca que virou cinzas. Euclides estava no centro do Universo e, afinal, soube tirar proveito. Em Os Elementos, o mais importante dos seus escritos, reuniu toda a Geometria conhecida. O livro influenciou diversas culturas ainda na antiguidade. Os árabes, por exemplo, descobriram a obra em torno do ano 760 d. C.

– Euclides, então, é uma homenagem ao sábio!

– Nada consta. Meu pai era fã do Euclides da Cunha.

– O corno...

– Maldade sua meu amigo... “Aquilo que pode ser afirmado sem provas também pode ser negado sem provas.”

Tais palavras eram de Euclides. O geômetra grego. Não o repórter de O Estado de São Paulo que cobriu Canudos.

Euclides bebeu a cerveja do seu copo. Apanhou o cigarro e franziu os olhos quando houve fumaça.

Ele repetiu:

– “Aquilo que pode ser afirmado sem provas também pode ser negado sem provas.” Euclides de Alexandria.

Prosseguiu:

– Sempre que leio ou escuto essas palavras do meu xará, penso na angústia…

A ARTE DE FICAR À TOA >> Sílvia Tibo

Acordei sem inspiração alguma para a crônica de hoje. Talvez porque a semana tenha sido atribulada, o que significa que estive imersa em um milhão de coisas pra resolver e de obrigações a cumprir.  
Sempre que isso acontece, o resultado é o mesmo: as palavras desaparecem da minha mente e é um custo trazê-las de volta ao lugar de onde escapuliram.  
Por sorte, este foi um domingo leve. Desses em que não há nada pré-agendado. Como, aliás, deve ser um domingo verdadeiro e que se preze. 
Houve um tempo em que os domingos eram dias terríveis pra mim. Ao contrário de todo mundo, torcia para que eles não chegassem e, da mesma forma, vibrava assim que ouvia a despedida do Fantástico. 
É que, nessa época, meus domingos, na verdade, nada mais eram do que segundas ou terças-feiras disfarçadas. Como os demais dias da semana eram insuficientes para que eu cumprisse as mil e uma atividades a que eu havia me obrigado, o domingo era sempre o último dia que restava para concluir um trabalho da faculdade o…

A COMPANHIA DOS HOMENS >> Whisner Fraga

Fomos a um pet shop hoje. Nunca vi loja igual. Enorme, é um shopping devotado a artigos para todos os animais que dividem casa com humanos. Lá tem desde qualquer artigo para qualquer pet que imaginarmos, bem como tudo o que um gato ou cão precisa: de salão de beleza a farmácia e clínica veterinária. Caminhando pelo local, lendo orientações em embalagens, observando os peixes, os pássaros, um ramster, comecei a pensar em algumas frases que ouvi vida afora.

Uma delas é que em vez de acolher um pet, deveríamos adotar uma criança, já que há tanta passando fome. Poucas vezes ouvi um clichê desse naipe. Primeiro, quem disse que quem tem uma calopsita, na verdade queria ter era um bebê? Vamos lá, a questão do preço, só para começar a discussão: um gato ou cachorro custa, segundo especialistas, uns duzentos reais ao mês. Manter uma criança de quatro anos, filha de uma família de classe média, não sai por menos de um mil e quinhentos a dois mil reais nesse mesmo período. Convenhamos que são va…

O ESTRATAGEMA - PARTE I >> Zoraya Cesar

Depois de muito esforço e de concordar em pagar uma boa pensão,  Lucio finalmente conseguiu que Violeta saísse de casa, assinasse a separação e parasse de aborrecê-lo com seus recados carinhosos, seus emails, presentinhos, bilhetes, declarações de amor. Violeta era um grude, já entrara na meia idade e Lucio não a agüentava mais. 
Em menos de dois anos ele se apaixonou novamente e - tem homem que não consegue ficar sozinho - casou com a meiga, compreensiva e loura Cristiny. Alguns dias após a cerimônia, chegou o primeiro sinal de que Violeta não murchara nem fenecera na poeira do tempo. O presente de casamento foi parar diretamente nas mãos de nova esposa, acompanhado de um cartão gentil e meloso, e Lucio se preparou para a grande cena de ciúmes. Suou frio.

Cristiny, no entanto, teve uma reação totalmente inesperada: achou tudo muito civilizado e delicado da parte de Violeta e colocou o presente na sala. Lucio só faltou chorar de alívio, finalmente encontrara uma mulher sensata (Caros…

GRACIAS, ATACAMA >> Fernanda Pinho

Nunca tive um desejo particular por conhecer o Atacama até vir morar no Chile, quando comecei a olhar com mais atenção para o sul gélido e para o norte árido do país. A realização do desejo de subir ao deserto, no entanto, só aconteceu há duas semanas.
Desembarcamos no aeroporto da cidade de Calama numa sexta-feira, às oito da manhã, depois de duas horas de voo, saindo de Santiago.De Calama, tomamos um transfer até San Pedro de Atacama. No percurso de pouco mais de uma hora, apenas uma sensação: a de que eu estava no meio do nada. De um lado e do outro da estrada, apenas uma imensidão de um nada arenoso, vez ou outra interrompida por geradores de energia eólica. Começou bem. Era exatamente o que eu esperava de uma viagem ao deserto.
A chegada ao hotel foi uma grata surpresa. Além do local ser encantador, fomos extremamente bem recebidos. O povo do norte do Chile nos marcou com uma excelente primeira impressão, que ficou. Mas a viagem era curta. E embora recarregar as energias també…