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Mostrando postagens de Fevereiro, 2020

COTOVELOS >> Sergio Geia

Algo preocupante me ocorreu nesta manhã. Saí de casa para o trabalho, apertei o botão do elevador, entrei. A cabeça estava na segunda-feira, na semana que começava, nesta roda gigante que é a vida. De repente, meu olhar pousou no canto do espelho, na imagem que refletia um homem sonolento. Nesse momento vi, e a visão fez meu mundo cair: velhos; meus cotovelos estão velhos. 
Talvez você não tenha compreendido (ainda) a dimensão dessa simples constatação. Pode achá-la tola, e você está no seu direito. Mas me dê uma chance de explicá-la, quem sabe você me dê razão. 
Os sinais da velhice são ocultados de diversas formas: cabelos brancos, por exemplo, recebem tinta; vincos da face, cremes. Você até elimina esses vincos; pode remodelar o tamanho dos lábios, afinar nariz, clarear dentes e alinhá-los, pode perder peso, fabricar músculos, espetar um brinco na orelha, desenhar um dragão no ombro, pode o diabo a quatro para manter a juventude que teima em partir. 
Pode usar calça apertada, cami…

CEGUEIRA >> Paulo Meireles Barguil

"Sou cego
Não nego
Enxergo quando puder." (Humberto Gessinger, Ilusão de ótica).


Ah, Saramago, depois que li seu Ensaio sobre a cegueira, nunca mais a vi da mesma forma!


Antes, amaldiçoada.


Depois, abençoada.


Antes, lamentada.


Depois, jubilada.


Antes, rejeitada.


Depois, acolhida.


Ah, tantas coisas que eu choro por não ter enxergado...


Há tantos fatos que gostaria de não ter presenciado!


Ah, tantas ocorrências que eu adoraria ter assistido...


Há tantos acontecimentos que agradeço por não ter alcançado!

ACONTECEU DE SER >> Carla Dias >>

Contempla o acontecimento. 
Se pudesse, permaneceria nele até que se tornasse o único ambiente onde soubesse viver. Não porque tem medo do novo. Não porque lhe incomodam as mudanças. Não porque os barulhos da cidade lhe agoniem.
Sente como se aqui nem lugar fosse.
Não é o primeiro acontecimento pelo qual se deslumbra. Contudo, se até no mais atrevido de sermos - que é o amar sem pudores –, enganamo-nos no apreço, pode dizer que todos os outros aqui foram paraísos que visitou, onde aprendeu muito e se perdeu por mais vezes do que um habilidoso matemático calcularia ser possível. 
Porém, nenhum dos anteriores é este.
Ocorre de este acontecimento ser único.
Sente-se acomodar no que falta. Não há excesso, transbordamento. Não há a excitação das descobertas e do compor planos. Neste acontecimento, há uma lucidez que se regala da sua intenção de compreendê-la. Lucidez que se sente curiosamente agradecida por ter lhe fisgado a atenção. Então, que ela conta fatos escondidos entre invencionic…

QUE DIA É HOJE?? >> Clara Braga

Acordei sem ter hora para acordar.
Da janela, via a chuva fina que caía junto com uma brisa fria. O clima embala o silêncio das ruas, nada melhor do que ficar embaixo das cobertas curtindo o frio e a preguiça! O cenário é de um típico domingo chuvoso.
O café saiu tarde e o almoço mais ainda! Nem todos os restaurantes estavam abertos, nem todo mundo trabalha no domingo.
A tarde em família também faz parte da programação de domingo. Sair para andar de bicicleta, brincar no parquinho, correr com a cachorra, chutar bola, enfim, são muitas as atividades possíveis.
Chega o fim do dia e a vontade de comer pizza parece que sabe o dia da semana. Hoje definitivamente não é dia para pensar em dieta, domingo é dia de relaxar.
Ao longe escuto alguém comentar que enfim o ano vai poder começar! Aquele velho clichê de final de carnaval que deixa triste a quantidade enorme de pessoas que já deram tão duro nesses dois meses que hoje já poderia ser ano novo.
Espera aí, mas o carnaval não termina no dom…

FIDELISSIMAMENTE - Final >> Albir José Inácio da Silva

No meio da noite, Benta ouviu os passos do marido. Ouviu também um tropel de cavalos. Chegou à porta no momento em que amarravam as mãos de Fidélio e a ponta da corda num arreio.Lá se foi o Fidélio com passos trôpegos tentando acompanhar o trote do cavalo.
Benta esperou o dia clarear e foi procurar a vizinha noviça. A trupe estaria na praça à tarde. Se tinham que fugir, era agora!
***
A praça estava lotada pelos que já aguardavam o espetáculo e por aqueles que foram atraídos pelos tambores e trombetas que precediam o entrudo.
Benta e a noviça chegaram cedo, só com a roupa do corpo para não chamar atenção, e ficaram atrás de uma carroça.
- Será que vão nos aceitar? – perguntou a amiga ainda desajeitada sem o hábito de freira.
- De certo que sim! Somos bonitas, jovens e gostamos de dançar – animou-se Benta.
A trupe já despontava na curva quando se ouviu o barulho da cavalaria. Os soldados passaram pelos lados da praça e se postaram a meio caminho entre os artistas e o público.
O arauto …

POEMA QUE ROMPE >>> Sandra Modesto

Tudo no meu caminhar é tanto

É manto é denso é riso

Tudo no meu caminhar é lento é pressa é doce é fera é sôfrego

Tudo no meu caminhar é estranho é amigo é ela

É exato é dúvida

Tudo no meu caminhar é complexo

Controverso

Teclado

Rascunho murmurante

Festa no agora

Gozo sem hora

Júbilo

Imprecisão

Tudo no meu caminhar é amanhã.



P.S.  Poema publicado originalmente, na revista " LITERALIVRE" edição de 2020 
Imagem via Pinterest https://pin.it/qjvg55lmjlx2jo

ENTRE CAIXAS E SEGREDOS >> Cristiana Moura

Dia desses, dediquei o tempo a arrumar gavetas, estantes, armários. Estas coisas que, por vezes, deixamos para depois. À medida em que dobro uma roupa, em que separo meias, ou penduro todos os vestidos de um mesmo lado do guarda-roupas, algo dentro de mim vai se arrumando também: emoções, ideias, quereres. Na arrumação encontrei pequenos objetos perdidos pelas gavetas, memórias e segredos de tempos outros preservados em caixas de sapatos.

Numa das minhas memórias, encontro poema escrito em adolescência paulistana. Li e lembtrei-me de Mayara, seus 16 anos repletos de novas experiências, sonhos, altas expectativa e exigência consigo mesma, medos e desejos aglutinados. A menina-moça experimenta o corpo mudando, a paixão, o prazer. Nutre-se mais de livros e suas histórias do que de comida. Sabem aquelas pessoas que mergulham fundo em si mesmas? Ela é assim.

Mayara, dentre tanto novo a ser vivido, também tem provado as viagens e a alteração de consciência possibilitadas por substâncias ta…

UM DESVIO NO CAMINHO É OUTRO CAMINHO - 3a parte >> Zoraya Cesar

Margoleen abriu o alforje de Hosmaryn. Pela Lei, agora tudo lhe pertencia. Dentro, encontrou o conjunto de itens correspondentes à cura, proteção, ataque que toda Curandeira, ao viajar, levava consigo. Pomada cicatrizante, chá repelente, folhas cegantes foram as escolhas de Hosmaryn. Cura, proteção, ataque. Que de nada serviram contra o Craobh, entristeceu-se Margoleen. 
Então ela chorou. Chorou muito, seus lamentos escorrendo pelas paredes, saindo pelas janelas, enchendo o ar da floresta. Quando silenciou, esvaziada, a vida ao redor penetrou pelas frestas: a dama da noite explodiu em aromas; sapos-voadores farfalhavam alegremente as folhas das árvores com seu coaxar abaritonado; mariposas-pirilampo batiam suas asas fosforescentes em volta das açucenas – algumas entraram na sala, sua luminosidade formando estranhas sombras no teto. Toda Curandeira entendia o ciclo da vida e morte. Um ciclo se completara. Chegara a hora de começar outro. Margoleen preparou-se para cumprir sua missão.

NEVE NEGRA - Parte 2>>> Nádia Coldebella

Segunda parte:
A sombra da Rainha Morta


Quando o rei voltou  com a feiticeira, encontrou a rainha morta na cama, com a criança em seu peito. Escuridão, sangue e frio, ela dissera - palavras que Madorno grasnara em frente ao espelho.
http://www.cronicadodia.com.br/2020/02/neve-negra-nadia-coldebella.html


O rei parou de se mover. As palavras do anão ecoavam em seu peito oco. Tentou fazer um grito desesperado subir pela garganta, mas na verdade não queria gritar. Parecia flutuar em uma banheira de água morna, desprendido de qualquer contato com o solo e de qualquer sentimento.
- Morrer é assim? - perguntou-se. Sua visão agora estava embaçada e uma névoa cinza fechou-se ao seu redor, delineando parcamente uma paisagem monocromática. Uma silhueta começou a tomar forma. Logo ele viu a si próprio e os acontecimentos das últimas semanas desenrolaram-se a sua frente. Não sabemos se ela sobreviverá, disseram os médicos - e ele saíra em busca de Angèlle, coração descompassado no peito.
- Angèlle...…

COLHEITA >> Carla Dias >>

De todas as decisões que tomou, trocaria duas ou três por permanecer calado. De resto, não se importaria de passar outros perrengues, por conta das escolhas feitas, das brigas compradas, das tiranias das quais teve de se defender. Pessoa feito ele não vive de estabilidade, tampouco se entrega ao possível, apenas porque a outra opção aponta para o improvável.
Já gastou sola na estrada da vida, o que o ensinou que as pessoas sentem diferente. Esse tipo de aprendizado leva tempo para maturar. Ele levou mais tempo do que um ser menos curioso levaria, porque seguiu parando nas encostas para apreciar os efeitos da compreensão, que nem sempre eram pacíficos e traziam alívio.
Não se acha especial, gosta de deixar isso bem claro. Enquanto deixa isso bem claro, deseja ser especial, um dia. E que seja mais simples do que o apego que muitos têm pelo dramático. Não precisa de grande produção, mas é necessário o envolvimento de doses de café nesse enredo, assim como de afeto que não o force a ser …

AMAR É... 2020 >> Clara Braga

Outro dia encontrei um álbum de figurinhas antigo daqueles bonequinhos do Amar é.... O álbum está incompleto, mas passei pelas mensagens das figurinhas e fiquei pensando: realmente, muitas questões dos relacionamentos são atemporais, porém, se tivéssemos um álbum Amar é em 2020, alguns pontos precisariam ser atualizados!
Por exemplo, os relacionamentos que sobreviveram às últimas eleições precisam ser lembrados, afinal, conheço muita gente que está até hoje sem se falar. Que tal um: Amar é... sobreviver a jantares familiares nos quais te culpam pelos problemas do país pois você defende ideais políticos contrários aos deles.
Outro ponto que precisa ser atualizado é a questão da comunicação, que ainda era feita por meio de correspondência e telefone fixo. Só esse assunto dá um álbum inteiro, mas acho que uma figurinha que eu faria seria: Amar é... entender que não é romântico querer a senha das redes sociais dele/dela.
As figurinhas também são um tanto machistas, a mulher sempre cozinh…

5 dias para o demônio >>>> branco

prólogo

praia de copacabana - rio de janeiro
31.12.2009/1º.01.2010

a virada
na escuridão da orla marítima  milhares de pessoas observam o grande relógio luminoso que inicia a contagem regressiva o espocar precoce de garrafas de champagne - ou espumante  conforme o poder aquisitivo - faz-se ouvir timidamente a ansiedade pelo ano novo ... 3 2 1 0 ... gritos abraços e desejos de felicidade fartura saúde  e riqueza tem inicio a linda loucura pirotécnica fogos desenhando na noite usando as 7 cores do arco-iris - e outras tantas que desconheço -  uma estrela azul explode no céu escuro a deusa dourada e verde que se transforma em cascata arroxeada grandes bolas vermelhas que terminam em fagulhas multicoloridas a chuva de prata se mistura à real - que tem caído incessantemente durante os últimos dias - um grande sol amarelo surge o milagre está feito o sol
 em plena noite chuvosa na passagem do ano obrigado senhor

parte I
angra dos reis - rio de janeiro
mesma data
onde a terra desce
em outra parte…

UM DUQUE >> Sergio Geia

VISÃO >> Paulo Meireles Barguil

POW.
Estava no quarto, na semana passada, quando ouvi o barulho.
Achei-o parecido quando o quadro de energia se desarma.
Para testar a hipótese, apertei o interruptor e a luz acendeu.
Decidi, então, verificar a origem do som.
POW.
Ao sair do quarto, encontrei um passarinho vivo no chão da escada.
Ele acabara de se chocar, novamente, com a janela fixa situada no 2º andar, que fica acima da escada.
Presumi que ele entrou na casa por uma alguma abertura no térreo e tentou sair pelo local que tinha muita claridade.
Rapidamente, fechei as janelas do 2º andar, com exceção da que fica no escritório, a qual eu abri no máximo para que ele pudesse escapar da casa.
POW.
A cena é angustiante: ele voa com toda força e se choca com a parede de vidro, caindo, mais uma vez, no chão.
Decidi, então, também abrir totalmente as janelas que ficam no térreo.
Ao retornar, não mais o encontrei e conclui que ele havia saído com sucesso da casa.
Quantas vezes eu fui esse pássaro que, atraído por algo, entrei …

ELE CHEGARÁ >> Whisner Fraga

o medo atocaia meus passos, que pretendem a fuga. os postes na rua balbuciam uma claridade que nada ilumina. o medo é uma vasta sombra a abraçar tudo. eles não aceitam a existência do medo, mas a pontaria falha e trancam as portas. os dedos sapateiam ferozmente sobre a tela do celular propagando o medo: eles acreditam em mentiras e me acusam de não pactuar com a traição. o medo entra, liga a tv, senta no sofá e pede uma cerveja. uns passaram a acusar outros e ninguém tem razão: um dia todos acusarão o medo no outro e tentarão resolver isso a tiros. eles não sabem mais o que é mentira, mas sabem o preço das coisas, e o medo é mercadoria também. tenho medo que me enganem e me convençam que a desordem prevalecerá. tenho medo que me arranquem o medo e o substituam por uma arma. tenho medo desse novo diálogo. tenho medo que, em nome da justiça, implorem a mediação da bala. tenho medo. e isso é bom.

LET IT BE >> Carla Dias >>

Recolhe cacos, ajeita objetos, varre a sala de estar. Abre janelas, espana pó, espirra. Rinite, sinusite? Cansaço. Hoje: feriado. Amanhã: emenda. Depois, então: fim de semana. Quatro dias de descanso. Roupas lavadas, estendidas. Roupas recolhidas e passadas agora moram em gavetas perfumadas. As janelas precisam de banho. O jardim, terra remexida. Flores agonizam ao olhar de um sol escaldante. O cheiro de chuva invade narinas. A curiosidade dos vizinhos busca por enredos. Entrega a eles um aceno e um sorriso, que eles devolvem, gentileza encenada. Retira-se do quintal, endireitando o corpo ao chegar à cozinha. Espreguiçamento necessário para etapa seguinte. Pano de prato, toalha de mão, talheres expelindo som metálico. Água corre da torneira. Água despenca do céu. Lava, seca, guarda, engole um anti-histamínico e respira fundo. Próxima etapa: banho. Água quente derramada na cabeça. Xampu de camomila acalma pensamentos alvoroçados? Sabonete de açafrão, esfoliante corporal caseiro. Condi…

SEU NOME NUNCA MAIS SERÁ O MESMO >> Clara Braga

Renata, coitada, será sempre ingrata!
Juliana curte rock n' roll. Juliana não quer sambar. Ah, samba Juliana! O que que custa? Samba Juliana, SAMBA!
Ninguém sabe o que é passar os últimos 9 anos da sua vida ouvindo a mesma piada a respeito do seu nome. Inara sabe! Só Inara sabe o que é entrar em um recinto e ver um grupo de pessoas fingindo tocar pandeiro com as mãos e cantando: Inara, Inara, Inara, Inaraí! O pior de tudo é que esse grupo sempre acha que está sendo criativo. Inara finge que esteve privada de vida social todo esse tempo e nunca ouviu essa piada! Ou então finge ser fã número 1 de Katinguelê, dá aquela sambadinha marota, aquele sorriso amarelo e segue sua vida.
Janainas nunca serão mulheres diurnas, acordam todo dia às quatro e meia e já na hora de ir pra cama Janaina pensa que o dia não passou. Mas também né Janaina, 16:30 nem o banco está mais aberto.
Se você só pensa nela então o nome dela não é Ana, não é Denise, não é Roberta nem Marisa. Se você só pensa nela, …