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Mostrando postagens de Agosto, 2014

QUAL O GOSTO DE UMA MANHÃ? >> Cristiana Moura

Tenho um deslumbre quase secreto: a sensorialidade dos corpos no caminhar. Às vezes fecho os olhos, respiro fundo e imagino todos os meus poros dilatando-se. Hoje fiz uma curta caminhada. O calor do Sol já quente na pele, o barulho dos automóveis , a tranquilidade dos gatos, os sorrisos e cumprimentos de outros caminhantes, os desvios dos passos das calçadas quebradas, a buzina do motorista apressado que parece preferir que não existissem pedestres.  A cidade me adentra num entrelace de sentidos.

Ontem assisti a um filme que acorda , no corpo, uma dessas experiências que, depois, a gente nem sabe dizer. É coisa de alegria quieta, de prazer leve, como se um silêncio bom gritasse por dentro. Que filme? A Cem Passos de um Sonho. O enredo do filme não vou contar. Corram e vão assistir. Posso dizer que ele fala desse universo sensorial. Mais que isto - ele desperta os sentidos. Sentidos acordados nas relações sendo vividas no seu dia a dia. Fiquei inundada de Beleza.

Lembrei-me da fala da …

É SÓ O MEU JEITINHO >> Fernanda Pinho

Sabe um troço que me irrita (além de sachê de catchup que a gente não consegue abrir, obras na vizinhança que começam às 8h da manhã de um sábado e propaganda política enviada pro nosso celular)? Gente que justifica falhas de caráter dizendo que aquele é o “seu jeito”. Acho que começa na infância. Sabe aquela mãe que ao ver o filho fazendo diabruras apenas dá um sorriso amarelo e diz “ele é assim mesmo”? Pois é. Deve ser a origem do que mais tarde se tornará uma autodefesa. 
Da moça grosseira. Do cara galinha. Da senhora que não cumprimenta ninguém. Do rapaz que nunca chega no horário. Diante da cobrança por uma falha, lá vem com a mais esfarrapada das justificativa: “eu sou assim”. E o problema não é ser assim. Todo mundo é de algum jeito e esse jeito inclui coisas boas e ruins. O que me irrita é a pessoa aceitar seus defeitos como condição imutável e ainda impor isso aos outros. Sou assim, me ame ou me deixe.
Acho de uma pobreza de espírito imensa, pois acredito que estamos no mund…

UM ABRAÇO OU UMA CANÇÃO? >> Carla Dias >>

Não sabe dizer que dia é hoje, que já se vão alguns em que ele não sai de casa, não abre as janelas, não acende as luzes, não sai da cama, fala com ninguém. Sabe que é noite por conta dos sons que lhe chegam do lá fora, um silêncio rompido pela conversa animada de jovens que passam pela sua janela sem saberem que dentro dessa casa vive — como sempre lhe diz o melhor amigo, quando lhe é permitido fazer visita — “um homem esquisito, mas de esquisitices simpáticas”.

A mãe o visita uma vez ao mês, que mora em cidade distante. Traz sempre o bolo preferido dele quando criança, sem compreender que o ele adulto se tornou intolerante ao doce. Para ela, adoçar-lhe a boca é como abraçá-lo, que entre as esquisitices dele está a incapacidade de demonstrar afeto fisicamente. Nele tudo é à distância, mesmo quando inspira intimidade.

Não sabe se é segunda, terça ou quarta, mas está certo de que não pode ser quinta, já que esse é o dia em que aquele melhor amigo aparece para um breve bate-papo e para…

DILEMAS DA VIDA >> Clara Braga

Tenho sono, mas não posso dormir até terminar o que tenho que terminar. Durmo tarde, acordo cedo, sinto sono à tarde. Não aguento, capoto depois do almoço, atraso o que tenho para fazer e fico, novamente, acordada até de madrugada.
Quero emagrecer, então como de forma saudável o dia todo. Mas quando vai chegando a noite, tenho que correr com meus afazeres para não ir dormir tão tarde, então como qualquer coisa mesmo, mato a fome e vou trabalhar. No dia seguinte, claro, sempre começo com um chá bem light, afinal, todo dia de manhã a minha missão é emagrecer, pena que eu vou esquecendo dela ao longo do dia.
Não sei ficar muito tempo sem fazer nada. Gosto de dias cheios que me façam sentir produtiva. Quando estou de férias, sempre chega um momento em que eu quero voltar à ativa e ocupar meus dias. No primeiro dia de trabalho, já estou implorando por férias.
Estudo muito para ser uma boa professora. Levo horas preparando uma aula. Na hora da aula, sempre tem uma turma que não presta a me…

NO LABORATÓRIO >> Sergio Geia

“Acho conveniente eu me deitar”.

“Não esquenta, é rapidinho; cê vai ver, é dois palito”.

“Mas eu costumo me sentir mal todas as vezes que preciso extrair sangue. Eu preciso me deitar. É sério!”.

“Calma, meu jovem. Vai ser rapidinho”.

“Ai... Ai...

“Calma, que vai dar tudo certo. É uma picadinha só. De formiguinha”.

“Ai... Ai...”.

“Calma”.

“Aaaaiiiii... O que houve? Não tá encontrando?”.

“Além de tudo, meu camarada, sua veia é bailarina. A gente acha e ela salta”.

“Eu não estou me sentindo bem”.

“Calma, meu amigo! É assim mesmo. Às vezes acontece. Ela escapa. Mas a gente resolve. Me dê sua mão”.

“O quê? Minha mão? Pra quê? Você pretende tirar sangue da minha mão?”.

“Fique tranquilo. É rápido”.

“A minha vista tá escurecendo”.

“Tá quase lá. Deixa ver o outro braço. Nossa, que bração mais branco. Cadê a veia?”.

“Eu acho...”.

“Melissa! Melissa! Me ajuda aqui, Melissa! O cara desmaiou! Me ajuda!”.

“O que aconteceu?”.

“Sei lá! O cara desmaiou! Olha os óculos dele aí no chão! Os óculos!”.

“Vix…

SEGURANÇA E LIBERDADE >> Paulo Meireles Barguil

Era uma vez uma menina de 3 anos.

Como toda criança, o que mais desejava era se sentir segura, protegida, amada.

Naquela casa, repleta de homens — 4 irmãos mais velhos e o pai —, a sua mãe era o único referencial feminino, além das eventuais empregadas, que auxiliavam na organização do lar.

Sua genitora trabalhava os dois expedientes e elas pouco conviviam.

A criança, bastante criativa, inventava muitas brincadeiras sozinha, além de acompanhar os irmãos em tudo que era possível: jogava futebol, andava de bicicleta, jogava bila (bola de gude), andava de patins...

O mundo era mesmo muito divertido!

Ela, contudo, sentia falta do aconchego da sua mãe, por isso, nos dias úteis, a menina sempre ia para o portão, no final de tarde, esperá-la voltar da labuta.

O tempo foi passando e a menina se tornou uma moça muito espontânea e cheia de vida. O seu mantra era liberdade!

Numa festa de 15 anos, tal como nos contos de fadas, sua história foi marcada para sempre. Uma discussão com o pai e o …

O RECALQUE ACABOU COM A COMPAIXÃO
>> Mariana Scherma

Dizem muito sobre a falta de irmandade entre nós, mulheres. “Entre mulher, não há amizade sincera, só competição”. “Amiga mulher é falsa”. “Amiga mulher é fresca”. “Eu prefiro amigos homens”. Como se a grande benção do universo fosse nascer homem. Até concordo que tem mulher chata pra caramba, competitiva demais, mas também existem homens chatos, competitivos, frescos... Apoiar essa máxima de que amizade entre meninas não existe, pra mim, é dar sustentação a um machismo ultrapassado. As mulheres dirigem caminhão, táxi, trabalham fora (e trabalham em casa depois)... Enfim, ganharam o mundo, mas não sabem ser amigas verdadeiras? Ah, qual é!

Eu tenho poucas amigas, mas nós sabemos o que é amizade. Quando saímos à noite, a intenção é sempre dar risada, não disputar os homens do bar/balada nem conferir quem atrai mais os olhares dos caras no recinto, tipo leoas numa selva de um único leão. Jamais! Quando uma das minhas amigas está mal, eu faço o possível pra deixá-la mais feliz, não comemo…

DE NASCENÇA >> Carla Dias >>

Nascido, sabe onde. Criado, sabe como. Amado, nem sempre, mas sabe que tem culpa no cartório das desistências emocionais. Estudioso de autobiografia, inescrupuloso quando se trata de dar voz de prisão ao lamento. Acreditou, até os dezesseis, que se agarraria à felicidade de tal forma que não haveria tristeza que fosse capaz de desancorá-lo dela. Enganou-se, e aceita isso bem aos trinta e tantos, que se a vida fosse somente felicidade, ele não teria conhecido o silêncio.

Nascido na boca do trilho, escutando música de trem, encarando os passageiros que lutaram valentemente pelo banco da janela, enquanto ele estendia suas roupas, na cerca de arame, em dias de lavanderia coletiva na caixa d’água. Foi criado com a bola no pé, a roupa puída, a voz esganiçada na hora de pedir pão com manteiga e uma média, anos depois a pinga, dobre a dose, meu senhor, que hoje eu perdi o emprego e ele tem de se esbaldar na liberdade imposta, antes de voltar ao barraco e dar a notícia à mãe.

Bom de palavra, …

ALGUÉM CHAMA O MÁGICO DE OZ >> Clara Braga

É, agora é mais do que inegável, as redes sociais definitivamente modificaram a forma das pessoas se relacionar. Mas o problema maior nem é esse, uma mudança ou outra é até importante, o problema mesmo é que a mudança tem sido para muito pior. Quando o assunto é rede social, a imagem que me vem à cabeça é da educação saindo para fumar um cigarro e nunca mais voltando.
Parece que estamos virando um monte de homens de lata e, agora, pra voltar a ter um coração, só mesmo o Mágico de OZ. É impressionante como as pessoas não se afetam pela dor do outro. Acho que o distanciamento entre as pessoas, que a tecnologia acabou causando, fez com que as pessoas se vissem tão distantes da realidade dos outros que não conseguem se colocar no lugar delas, acham que o que acontece com o outro jamais aconteceria com ele.
Da morte do Robin Williams até a tragédia que matou Eduardo Campos, é inaceitável a quantidade de piadas e comentários maldosos que eu já vi. Tem frieza para todos os gostos, dos extre…

COINCIDÊNCIA >> Whisner Fraga

Meu irmão tem muitas histórias e acho que nunca falei sobre nenhuma delas neste espaço. Sei que devia ter feito, mas algum assunto de última hora certamente se tornou mais urgente e deixei os causos do Wildner para depois. Wild, como os amigos o chamam e a família também. Hoje vou esquecer a candidatura de Marina, as questões em Israel, as baixarias em torno das eleições presidenciais, os problemas de minha cidade, para narrar algo mais engraçado.

Naquele dia o Wild olhou para o colega de trabalho e ambos tiveram uma revelação: precisavam de dinheiro para o final de semana. Ninguém consegue se divertir muito com os bolsos vazios neste nosso país e talvez em nenhum outro. Assim, meu irmão propôs que fossem ao banco para sacarem o bastante para as distrações de sábado e domingo. Fecharam as portas da loja e foram rumo a um caixa-rápido. O trânsito estava terrível, como tem acontecido com frequência em muitas cidades brasileiras. Lembrei-me de que o bom do engarrafamento é que é mais ou …

QUANDO O INFINITO CABE NO COLO
(para Luís Eduardo)
>> Cristiana Moura

Ele chegou nesta quinta-feira. Na verdade, já havia chegado. Já era vida vivendo em amor aquático. Ele era ele. Ele era ela. Para nós, do lado terrestre da vida, eram ainda faíscas de amor no corpo e olhar de Fabiana. E, num esperado repente, o pequenino começa a ser, sem pressa, só ele. Seu nome ganha rosto, corpo e sons em altos choros que nos dizem: podem chegar, podem se aproximar.

Luís Eduardo, nome de origem germânica, quer dizer combatente glorioso e guardião das bênçãos. Que seja abençoada esta tão bem-vinda vida. Adentra nossos cotidianos que aqui, para você, é só amor.

Talvez este texto fique clichê, enfim, quem não se emociona diante de um bebê? Eu estou assim, boba em sua presença. Já não tenho poder sobre isto. Vê-lo ali, tão miúdo, agarrado com toda força aos seios fartos de minha irmã, faz borbulhar por dentro uma comoção inominável. Vê-lo ali, embalado nos braços tranquilos de seu pai me dá uma sensação de certeza e leveza nem sei direito do que, mas é vida sendo vivid…

PAPO DE VENDEDORA >> Fernanda Pinho

Aconteceu quando eu estava em Tiradentes, acompanhada do meu marido e dos meus sogros. Caminhando pelas bucólicas ruas de pedra, entrando e saindo de lojinhas de artesanato, acabamos numa especializada em cachaça. Eu entrei seguindo os três. Os três entraram seguindo o aroma da cachaça que parece fasciná-los. Não me surpreendi. Praticamente todos os programas que fazemos quando eles, chilenos, estão no Brasil envolvem cachaça em algum momento. Acontece também de, vez ou outra, meu sogro me fazer alguma pergunta sobre nossa famosa bebida. Já até pensei em dar respostas fantasiosas que me ocorrem, muito mais frutos da minha imaginação que dos meus conhecimentos. Mas, geralmente, respondo constrangida a verdade: “não sei”. Aliás, o pouco que sei sobre o assunto aprendi com as perguntas que os forasteiros me fazem sobre o tema. Uma vergonha. Afinal, sou brasileira. E o que é pior: sou mineira. Tenho obrigação de apreciar e entender tudo sobre cachaça. Pelo menos foi o que eu compreendi e…

PARA NÃO ESTRAGAR O MUNDO >> Carla Dias >>

Falar com o espelho é de praxe. E com a tevê, que se nega a passar os filmes que ela deseja assistir. Também com o beija-flor, que dá uma passadinha no bebedouro pendurado na varanda. Há dias em que fala com o teto, dá de discutir com ele a sua teoria sobre o silêncio.

No silêncio, faz as tarefas cotidianas. Às vezes, até dá espaço à música, mas a maior parte do tempo é o silêncio que acompanha a sua rotina. O que não significa que ela evite os longos monólogos, advertências e conselhos que costuma dar a si mesma, como se fosse outra pessoa que conduzisse a quase intervenção.

Para quem é conhecida por não falar palavra que seja, gerando comentários trágicos sobre sua saúde e apostas sobre uma possível voz tão irritante que melhor deixar no mute, até que ela é faladeira. Veja bem, mesmo com a cafeteira ela fala, porque há dias em que parece que o café fresco leva décadas para ficar pronto. Normalmente, isso acontece na manhã seguinte à noite em que o vinho fez o seu trabalho direitinh…

AOS GÊNIOS >> Clara Braga

Dei aquela olhadinha rápida no Facebook e fui tomar um banho. É bem verdade que eu não sou de tomar banho muito rápido, mas dessa vez parecia que eu tinha levado uma eternidade. Quando voltei, meu Facebook estava inteiramente tomado pelas notícias e pelos pêsames pela morte de Robin Williams.
Acho muito legal ver quando um artista consegue de fato tocar as pessoas de uma forma tão profunda que a gente acaba se sentindo um pouco íntimo dele. Com certeza Robin Williams foi um desses, pois os comentários são unânimes, uma grande perda. E então nos pegamos parando por alguns segundos em meio a essas nossas vidas extremamente atribuladas para desejar que ele vá em paz e que os que ficam possam ter forças para encarar essa situação tão pesada. No mínimo irônico, justo uma pessoa tão lembrada por nos fazer rir e trazer leveza para dias pesados, partindo em uma circunstância nada confortável.
O pior é que essa situação não tem sido nada incomum. Lembro das diversas vezes em que estava assist…

AS TRÊS MARIAS (continuação)
>> Albir José Inácio da Silva

(Continuação de http://www.cronicadodia.com.br/2014/07/as-tres-marias-albir-jose-inacio-da.html)

No sertão de Sergipe uma vila se chamou “Enforcados” desde 1606. Ali eram enforcados os índios durante o seu longo processo de “salvação”. No século XIX o povoado passou a se chamar Nossa Senhora das Dores, um nome sem dúvida mais digno. É claro que lá também chegou a televisão e as novelas, com as lindas imagens do Rio de Janeiro. Maria das Dores se lembra da cena e não gosta mais de novela. Nem da vida. Ela conta por quê:

— Eu queria ter morrido nova, como morreram meus três irmãos. Assim não dava esse desgosto a meu pai. Meu pai é homem bom. Deixava de comer pra dar comida pra nós. Não precisava ter acontecido. Eu nem gostava daquele traste. Pra mim foi o diabo. Eu andava pensando umas bobagens, uns pecados, e não fui me confessar. O tinhoso aproveitou. Agora nunca mais vou ver meu pai. Aqui não é ruim. Madame me trata bem. Tem freguês que é bom. Ruim mesmo é a vida. Sabe de uma coisa:…

EM UBATUBA >> Sergio Geia

Ligo a máquina. Vou para o e-mail. Branco total. Cadê a senha? Procuro na memória. Nada. Tento uma. Outra. Clico em esqueci a senha. Digito o login, um código. Aparece um lembrete: “VIDA”. Putz! VIDA!? O que eu quis dizer com VIDA? Não me ajuda em nada. Vou tentando até que uma hora a ficha cai. Quer dizer, a senha. Parada sinistra, mermão!
Digito: “Fala Beto! Beleza? Não sei o que você tá aprontando, mas tudo bem. Aí vão algumas impressões sobre os dias que passei em Ubatuba, como você me pediu. Veja lá, hein?” Pulo uma linha e começo meu texto em formato de crônica.
A serra continua a mesma, meu querido. Quem é de Ubatuba, São Luiz ou Taubaté, já sabe. Mas quem não é se assusta. Oito quilômetros penosos, sem acostamento, curvas fechadas, descidão em segunda ou em primeira marcha. Outro dia o Governo duplicou a Tamoios. Quem sabe agora ele não olha pra nossa pobre Oswaldo Cruz. Tá precisando.
Desci a serra principalmente com a intenção de tomar banho de mar. Ah, um banho de mar... Dize…

LAÇOS EXISTENCIAIS >> Paulo Meireles Barguil

No final da década de 1980, eu era um estudante do Bacharelado em Computação, na Universidade Federal do Ceará, e não me divertia muito com os assuntos abordados — programação, banco de dados, compiladores, sistemas operacionais, redes, inteligência artificial... — motivo pelo qual, na metade do curso, minha vontade era pular fora, fosse pela porta ou pela janela...
Não o fiz simplesmente porque ignorava o que queria cursar e refutava em absoluto a hipótese de ficar de bobeira. Resolvi, então, obedecer à máxima: "Na dúvida, não desista!".
Quando eu descobri o próximo destino — Pedagogia — já estava no último ano e resolvi, em respeito à minha carga genética, mesclada com a pressão social, terminar a missão iniciada.
Refuto o entendimento de que o Homem é um computador, uma máquina de processar informações. Embora os componentes, de modo geral, sejam os mesmos, e a lógica de funcionamento deveras parecida, a depender do fabricante e do público alvo, a arquitetura, em virtude …

RELEVANTE >> Carla Dias >>

Logo cedo, senta-se diante do computador para conferir mensagens. Da média de 837 que recebe por dia, duas ou três são destinadas a ele, mas nem por isso são relevantes. A triagem é cansativa, e acaba por fazê-lo considerar se deve aproveitar aquela promoção que pipoca em sua caixa postal 321 vezes, até mesmo abrir uma conta naquele banco que insiste, 159 vezes, que ele deve atualizar um token que não lhe cabe.

Não é homem de se deixar enganar por conteúdo de folhetim marqueteiro. Não adere às promoções, não lê nem metade de mensagem de estrangeiro querendo investir milhões no Brasil, não aceita convite de quem escreve “me adiciona aí, vai”, tampouco é bobo de clicar no link “aumente suas chances!”.

Chances de quê?

Uma caneca cheia de café, a de sempre, a de diariamente, de várias vezes no diariamente, desde aquela quarta-feira em que se encontrou com os amigos e eles o presentearam com tal caneca de louça, na qual estava escrito “anime-se, existe vida sem café”. Desde então, tem beb…

A SAGA DE SANDY >> André Ferrer

O tipo de pensamento que só acontece de madrugada. E se o cronista vem de um sono intranquilo diante da TV, o corpo magoado pelas duras corcovas da poltrona, o tal pensamento ocorrerá. No entanto, um pouco antes — graças à música inconfundível —, descobre-se que se assistirá ao filme "Nos tempos da brilhantina" ("Grease") pela enésima vez. Inevitavelmente, aquele pensamento: sim, o vaivém da moda não tem nada de espontâneo.
Aliás, nunca teve. No seu movimento pendular, a moda oculta um verdadeiro universo de intenções.
Grease é um filme dirigido à juventude dos anos de 1970, mas que retrata a geração anterior, dos pais, aqueles que eram jovens algumas décadas antes, em plena transição dos 1950 para os 1960. A história tem como eixo a educação sentimental de uma jovem, Sandy, o que perpassa, rapidamente, a inocência dos anos dourados e alcança os vestíbulos dos anos de 1980 e 90 quando, efetivamente, a mulherada trocou a espera na orla da pista de dança pelo ato assus…

O CAMINHO MENOS NAVEGADO
>> Eduardo Loureiro Jr.

Toda descoberta tem seu preço.

Há 522 anos, Cristóvão Colombo partiu de Granada, na Espanha, com destino às Índias. Não pelo “Oriente, por onde se costuma ir, mas pelo caminho do Ocidente, por onde até hoje não sabemos com segurança se alguém teria passado”, escreveu ele em seu diário. O Rei e a Rainha da Espanha, financiadores da viagem, “me concederam grandes mercês e me enobreceram para que daí por diante me intitulasse ‘Dom’ e fosse Almirante-Mor do Mar Oceano, Vice-Rei e Governador perpétuo de todas as ilhas e terra firme que descobrisse e conquistasse, e que doravante se descobrissem e conquistassem no Mar Oceano”. Foram descobertas e conquistas muitas vezes sangrentas, que nós hoje questionamos. Mas talvez nem existíssemos, enquanto latino americanos índios brancos negros, caso Colombo houvesse escolhido o caminho conhecido.

Há motivo para reclamações?

I MALEDETTI >> Zoraya Cesar

Toda vestida de preto, a velha caminhava lentamente, olhando para baixo, não se sabe se preocupada com as armadilhas fatais das calçadas esburacadas, ou se as costas curvadas não a deixavam andar de outro modo.
Colo, mãos e rosto engelhados e cinzas como o pescoço de um urubu, ela caminhava lenta e resolutamente, por bares, lojas e pessoas, quase que totalmente despercebida, apesar da aparência extravagante. Ou porque na azáfama do dia ninguém a via mesmo ou porque, se a viam, afastavam rapidamente o pensamento e o olhar, como pressentindo algo de pestilento e mortal na sua presença. Um grupo de pivetes passou arrancando algumas bolsas, colares, relógios, e uma das meninas ainda cobiçou a pequena sacola roxa que a velha carregava na mão descarnada, mas preferiu assaltar outra vítima.
Caminhava, clapt, clapt. Caminhava sem parar e assim foi até o entardecer, quando chegou, finalmente, ao seu destino, pouco antes de fecharem as portas.
O funcionário baixou os olhos quando ela atravesso…