Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de Julho, 2010

ENVELHECER [Debora Bottcher]

Andei pensando sobre isso que é envelhecer.

Um fato, antes de qualquer coisa. Algo que não se pode mudar, estancar, retardar: envelhecemos e pronto. A questão, nesse momento, é quando envelhecemos.

Todos os dias nos olhamos no espelho. O rosto que se reflete no último olhar da noite, é o mesmo com o qual nos deparamos pela manhã - um pouco amassado, talvez com olheiras, quem sabe mal dormido, mas ainda assim, a mesma face.

Não se percebe, de um dia pra outro, uma linha de expressão nova, uma ruga diferente, um fio de cabelo esbranquiçado que até então não existia.

O processo, embora vagaroso, quando descoberto soa repentino: envelhecemos todos os anos acumulados entre o ocaso e a alvorada. É um segundo e você se vê com outra casca: ficou pra trás o viço da pele, o brilho acentuado dos olhos, o rubro dos lábios. De repente, tudo é palidez - e saudade... Outro você o olha através da imagem...

Esse é o jeito mais simples de caminhar entre as eras - e, você sabe, envelhecer é a única mane…

MONK >> Leonardo Marona

Favor lerem este texto ouvindo Thelonious Monk.
1. Monk’s Dream
Uma rodada de dados – “Willie “the Lion” Smith é a cabeça do meu pau!” – então ele ergue as calças e se manda pela janela. Um tiro lhe trespassa o colarinho da camisa. Consegue ainda salvar o trompete. Cai em cima de uma montanha de lixo. O lixo se espalha pelo chão. Nosso homem agora deve mais de 50 mangos e por isso não pode morrer. Tosse. Sangra a palma da mão. Um mendigo se acorda, deitado no chão (parecia sonhar): “meu irmão, por que não dá o fora?”. Nosso homem leva a mão ao chapéu de feltro de duas bandas. Impressionante como é fácil substituir palavras de contato. Agora ele grita para o mundo da rua dos esgotos abertos – o mesmo primeiro movimento põe toda relação a perder, toda convenção – na direção de uma sacada. Um mulher grita de volta mais alto, com a voz muito esganiçada. Diz as coisas mais terríveis. Mais um homem se apaixona. Bate na porta. Esmurra. Tosse. Sangra a palma da mão. Tateia os bolsos. Num deles…

O PIANO >> Fernanda Pinho

E então eu estava novamente no meu quarto com piso de taco, parede rosa e cortina branca com casinhas vermelhas. A cama de cerejeira já estava danificada pelas figurinhas do álbum da Xuxa que eu decidi colecionar na cama, e não no álbum. A cama estava no meio do quarto, como esteve até minha irmã nascer. E, ao seu lado esquerdo, meu brinquedo preferido. Amei muito minhas panelinhas, minha bicicleta, minhas Barbies. Mas nada que se comparava ao que sentia por ele, meu pianinho de cauda. Era lindo, uma miniatura perfeita de um verdadeiro piano de cauda branco. Ao revê-lo, corri para perto dele com a euforia de quem vê um amigo sumido. Sentei em seu banquinho e, embora já com 1.80m de altura, fiquei perfeitamente acomodada. Pena que ao tocar numa das teclas acordei. Mas acordei feliz com o reencontro, embora tenha durado tão pouco. Sonhei com meu piano pela primeira vez, em mais de duas décadas. Provavelmente, alguma parte adormecida do meu inconsciente despertou depois que encontrei na …

ONDE ENCONTRAR A POESIA >> Carla Dias >>

Às vezes eu me perco na poesia alheia... Modéstia minha: eu o faço com frequência, uma frequência atinada pela curiosidade sobre como bate o coração do outro.

Como bate o seu?

Em qual desfecho, compasso, taquicardia?

Na poesia, os opostos não se atraem, se completam, e quase sempre, não se dão conta disso. Talvez aí more a beleza dela.

E a poesia que se esconde no cotidiano? Como a da cena do menino atravessando a rua, agarrado de um jeito no braço da mãe, engolindo um medo virado, desespero cravado no olhar. Não sei se ele teme perder a mãe ou se ser atingido por um carro... Seja como for, essa poesia é dolente, mas só até chegar ao outro lado, pés na calçada, o moleque respira tão aliviado, abraçando as pernas da mãe que lhe beija a cabeça.

A poesia que nos faz manter os olhos no outro, observando seus gestos, ouvindo atentamente as palavras que saem de sua boca, aprendendo com a experiência dele, transformando-o em guia, dando-lhe permissão para cortejar a nossa alma.

Mas há quem encontr…

FÉRIAS EM FAMÍLIA >> Clara Braga

Crianças são seres engraçados e peculiares. Eu adoro criança, acho engraçado como cada uma tem seus medos bobos, sua forma de chamar a atenção, suas birras, etc. Eu fui uma criança chatinha. Não que eu lembre da minha infância toda, mas a minha família faz questão de não me deixar esquecer.

Normalmente as famílias, quando se reúnem, lembram nostalgicamente o quão lindos eram os netos e filhos quando eram pequenos, contam história engraçadas e se divertem. Se eu disser que minha família não faz isso eu estaria mentindo, ela até faz, mas só até chegar a hora de lembrar da minha infância. Ninguém tem pudor, eles não medem palavras pra dizer o tanto de escândalo que eu fiz, o quanto eu nunca precisei de motivos pra começar a chorar como se o mundo estivesse acabando, o quanto eles tinham certeza de que eu nunca na vida teria amigos e assim por diante.

Recentemente, em uma dessas reuniões, eu fui apresentada a uma história nova da minha infância. Enquanto lembrávamos saudosamente do meu …

E AGORA, COMADRE?
>> Albir José Inácio da Silva

Estou escrevendo para dar notícias do povo daqui e também pra me desabafar. Saiu umas coisas no jornal e eu fiquei muito indignada. Diz que tem lei agora que não pode mais bater em criança, dar palmada, beliscão, puxão de cabelo, nada, nenhum ensinamento. Com as crianças do jeito que estão, como é que elas vão ficar?

Professora já não podia bater há muito tempo. Desde o meu tempo de escola. Lembro de mãe fazendo escândalo na escola porque a professora tinha beliscado o filho dela. A minha mãe não, se eu apanhasse na escola ela até gostava. Dizia que a escola também tinha que ensinar porque os maridos já não ajudam em nada e a gente depois é que tem que aturar menino malcriado.

Se a gente não bate, eles vão apanhar na rua e, mais tarde, da polícia. É melhor a gente bater, que a gente bate com amor. Às vezes tem que bater com mais força porque eles vão se acostumando e crescendo, mas é só enquanto eles precisam. Se a gente não corrige, o que é que vai ser deles?

O filho de Giza, por e…

O EGOÍSTA E O INDIVIDUALISTA
>> Eduardo Loureiro Jr.

É fácil reconhecer o egoísta. Ele é aquele que, indignado, corado, colérico, chama outra pessoa de — adivinhem — egoísta. A pessoa que é chamada de egoísta não tem nada de egoísta, normalmente é individualista.

Se você não entendeu, provavelmente você é um egoísta. Se deu um risadinha irônica, provavelmente é um individualista. Se apenas compreendeu, impassível, você é um santo. Não trataremos de santidade nesta crônica. O único propósito das palavras que seguem é esclarecer o egoísta que ignora sua própria condição...

O egoísta é aquele em torno do qual o mundo gira ou deveria girar — na visão do próprio, é claro. Ou, nas palavras do Houaiss, alguém que "subordina o interesse dos outros a seus próprios interesses". O egoísta é sutil, pois parece interessado nos outros. Porém é um interesse interessado mesmo, de quem quer que os outros se submetam a si. O egoísta é um grande controlador que tenta mover os outros como se esses fossem um conjunto de peças de um jogo. Como joga…

UM TE AMO ANTES DO FIM
>> Leonardo Marona

Nunca morri de amores por casamentos. Eles são realmente inacreditáveis. Por conseqüência direta, nunca acreditei muito em todo aquele amor matrimonial, braços cruzados bebendo champanhe, gordinhas desesperadas atrás de pedaços de buquê. Ao observar um casório, tinha quase sempre a impressão de que o noivo precisava de uns conselhos. Não sei bem por que, mas a noiva nunca precisava de conselhos; as mulheres sempre sabem o que fazem. De qualquer modo, um casamento me consumiria a manhã e a tarde de sábado e isso deveria ser desagradável para qualquer um. E eu tenho certeza de que tinha umas cem pessoas pensando nisso enquanto amarravam os sapatos. Mas, de fato, minha cozinha parecia o campo de Auschwitz e eu não tinha um puto. Achei que, nesse caso, um casamento seria uma boa oportunidade para encher bem a pança com aquela mistura maravilhosa de petiscos e cerveja. Só podia ser coisa de brasileiro mesmo: petiscos e cerveja. Entendo porque os europeus bebem e comem pra caralho e estão s…

ALEGRIA CRÔNICA >> Fernanda Pinho

Queridos, começo com uma confissão. Adiantada que sou, sentei para escrever minha crônica de quinta dessa semana na segunda-feira. Não tive dificuldade em encontrar um assunto. Ao contrário de todos os outros dias, em que as milhares de possibilidades me atormentam, naquele dia um único assunto monopolizava toda a minha existência: minha tristeza. Eu estava triste, muito triste por motivos que já não vêm mais ao caso. Essa crônica não é aquela outra que ficou prá trás, afinal.
Dois dias depois de tê-la escrito, reli, para ver se estava tudo certo para postar aqui e, minha nossa, percebi que estava tudo errado. Eu sou totalmente errada quando triste. Era um texto feio. Sem a menor chance de tornar-se um texto bonito, ainda que passasse por zilhões de edições. Sua essência era feia. A dor, o medo, a dúvida. Mas sua feiúra não vinha daí. Vinha do fato de eu não saber escrever quando estou triste. Quantos e quantos escritores e poetas se alimentaram da tristeza para escrever obras primas.…

ACONTECE QUE ACONTECE >> Carla Dias >>

Quando passamos por uma experiência que mexe não apenas com a cabeça da gente, mas principalmente com a alma, fica difícil sintonizar a rotina, voltar ao nosso próprio universo.

Acredito que isso aconteça nas nossas vidas, vez ou outra, para nos lembrar de que pode sim haver momentos de plenitude, quando a alegria não nos deixa apreensivos, por esperarmos que ela fuja de nós, antes de podermos conhecê-la melhor. Quando sentimos que, quando ela partir, deixará boas lembranças, as quais poderemos sempre revisitar.

Momentos como este têm muita importância para mim, já que sou das que raramente os alcança. Minha alma é tão inquieta que, boba, perde com frequência a leveza dos acontecimentos. Mas quando consigo me permitir ficar onde está a leveza, a experiência é das raras.

Engraçado é que, com esta permissão para ficar, vem também a vontade de partir, de seguir adiante. Não conheço muitos lugares desse mundo, tampouco o mundo que cada um deles pode desvelar. Ao mesmo tempo, é como se este m…

AGONIA DA PO**A >> Clara Braga

Um dia desses estava conversando com um colega meu e ele disse que minha próxima crônica deveria se chamar "agonia da porra". Bom, até ai tudo bem, o problema foi que ele não me disse nada mais que isso, não me contou por que estava agoniado nem o que ele esperava de uma crônica com esse título.

Eu poderia chegar aqui e escrever sobre qualquer coisa, afinal, o tema é livre, mas eu fiquei com esse título na cabeça e comecei a pensar o que faz as pessoas ficarem agoniadas hoje em dia, ou pelo menos o que me deixa agoniada. Esperar telefonemas importantes, esperar resposta de emprego, ficar presa no trânsito tendo hora pra chegar em algum lugar, tentar escrever e nada interessante vir à mente, precisar muito usar o banheiro e não ter um perto, não ter roupa para usar em uma ocasião especial, ficar curiosa, ligar para alguém e cair na caixa postal, talher arrastando no prato, giz fazendo barulho no quadro, esperar chegar a hora de encontrar alguém com quem você quer muito estar,…

A FÁBRICA >> Kika Coutinho

Essa noite, quando a Sofia adormeceu no meu colo, aproveitei para fazer nela uma inalação básica.
Ali, naquele quarto escuro, meu marido esperava que terminássemos quando eu perguntei pra ele aos sussurros: “Não é inacreditável que foi a gente que fez esse bicho?”.

Ele fez que sim com a cebeça, pensativo. Eu continuei, ainda cochichando: “Pensa bem, amor, ela não existia. Dá pra acreditar?”. Ele, como não sabe sussurar direito, respondeu com a cabeça que não, não dava mesmo pra acreditar. “Será que ela não existia mesmo? Será que é verdade essa história de óvulo, espermatozóide e, de repente, uma criança?”. “Acho que é verdade, sim” ele respondeu, bem baixinho, me levando a sério demais.

A inalação acabou, ela dormiu e eu estou até agora me perguntando se não seria muito mais factível que essa coisa toda fosse uma farsa. Alguém fabrica os bebês, põe uma sedação na gente, e, depois, faz a gente achar que nós que fizemos, claro.

Pra mim, é muito mais óbvio que exista uma fábrica subter…

UM PROBLEMA DE TODOS [Debora Bottcher]

Nos últimos dias, as páginas dos noticiários dão conta da história que envolve o ex-goleiro do Flamengo e uma de suas namoradas - sim, porque a todo momento aparece uma nova mulher ligada a ele, o que a mim soa incrível. E a mídia aproveita a audiência que tais ocorrências provocam no público, pintando o quadro com requintes mais para segurar a audiência do que para expor o real problema que está no fundo de todo esse sensacionalismo.

E, no meu entender, independente dos envolvidos (e do caráter deles), o foco principal do 'evento' em questão, que daqui a alguns dias será novamente esquecido, é a violência contra a mulher.

Você sabia que a cada QUINZE SEGUNDOS uma mulher é atacada no Brasil, e que uma em cada quatro brasileiras sofre com a violência doméstica? E que, apesar da Lei Maria da Penha, existem somente 274 juizados especiais de violência contra a mulher - para 5.600 municípios? Você sabia que, segundo estimativa da Anistia Internacional, pelo menos uma em cada três …

CONHECI UMA FEMINISTA DÉBIL MENTAL
E VAMOS NOS CASAR EM BREVE
>> Leonardo Marona

“Se você for capaz de ser um verme, será também capaz de ser um deus” (Henry Miller)
— Escuta aqui, Marona. O que é que você tá fazendo há horas nesse computador? Já não te pedi aquele release, hã? Quanto tempo faz isso, hein? Que porra é essa, Marona? Que bando de papel riscado é esse e que merda você tá fazendo nesse computador, além do texto que te pedi há um milhão de horas?!

Ele cuspia enquanto falava, usava uma camisa de botão salmão e tinha um N decalcado em bronze na fivela do cinto gasto. Era uma lontra estúpida e me pagava o salário do mês. Veio pra cima de mim enquanto eu dedilhava sem dar muita atenção.

— Hum, vamos ver... Que porra é essa, hein, Marona, você pode me dizer? — e meteu aquela barriga na minha frente, um cheiro de porra de anteontem saltava do seu colarinho direto pro meu desespero, como se fossem amigos. Então começou a ler, bem alto: “Ela teve dificuldade com o zíper, uma, duas vezes, depois puxou com força, manobrou a cueca e caiu de boca, enquanto Old Bull…

NÃO HÁ LUGAR >> Carla Dias >>

Novamente em suspenso...

Então que, quando me pego desse jeito, dou de fazer bobagens, coisinhas como aguar delícias interiores: ler poemas inventados no momento, beber café com a xícara quase transbordando, e às vezes até queimar a língua nesse feito, passando o dia como se a palavra tivesse sido arrancada de mim e por isso doesse tanto.

Quer passar ou transpassar?

Habitar?

Despertencer?

Agora quase eu dei de cara com o silêncio de uma pessoa que acabou de receber a notícia: não há lugar para você em mim. Fui testemunha desse desacato emocional, mas sem querer, por estar sentada ao lado, ser vizinha de tempo e de espaço.

Baixo a cabeça, respeitosamente. Quando não há lugar para nós naquele que amamos, a vida amarga uma solidão sem fim, das que nos faz perder rumo, cabeça, hora de chegar em casa, de sair da cama.

Ela ainda não sabe dos privilégios dos que não têm espaço em outro. Eles vergam mais facilmente para aguentar tempestades sem serem partidos ao meio. Esperam menos e ganham mais do …

DIARIAMENTE >> Clara Braga

Essas últimas duas semanas, eu tive o prazer de poder conferir mais de perto o trabalho de três artistas que eu já admirava muito, e agora admiro ainda mais.

O primeiro deles foi o Vander Lee. Ele é um cantor e compositor mineiro, desses que muita gente já regravou, suas músicas ficaram conhecidas em outras vozes e ele mesmo ficou meio esquecido. Mas eu devo dizer, ele é um dos melhores compositores que eu conheço. E que banda ele arrumou para acompanhá-lo!

A segunda foi a escritora Martha Medeiros. Ela veio à Brasília participar de um projeto que pretende trazer o escritor mais para perto de seu público, algo que eu considero muito importante tanto para o autor quanto para o leitor. Após a palestra, a atriz Cássia Kiss fez a leitura de algumas crônicas publicadas no último livro de dezoito já publicados, foi emocionante.

Por último, foi o percussionista Naná Vasconcelos. Ele faz a reprodução de sons que descobre em suas pesquisas pelo mundo, é de deixar qualquer um boquiaberto, é sim…

SANTO DE CASA >> Albir José Inácio da Silva

Nem bem soou o apito final e Jorge estava no bar com suas certezas e premonições. Jactava-se de não perder nem mesmo para Paul, o polvo sensitivo. Antecipava resultados impensáveis até para os grandes comentaristas. No jogo do Brasil, por exemplo, “vocês acham que aquele um a zero me enganou? Desde o início eu sabia que a Holanda ia ganhar!”. Estava realmente convencido de seus poderes divinatórios.

Os amigos mostravam paciência com aquela arrogância. Agora ele predizia mais que futebol. Adivinhava divórcios no dia mesmo dos casamentos, previa empregos para quem não os queria e demissões para trabalhadores estáveis. Confirmou até uma infidelidade que já se sabia, mas ninguém tinha coragem de falar, e, fora o marido, ninguém se indignou. Mas por que tanta indulgência com o falador?

A história começou há alguns meses. Vivendo com Celina fazia já três anos, tudo o que Jorge queria era um herdeiro. Mas não tinha simpatia, novena, despacho ou corrente de oração que fizesse crescer a barriga …