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Mostrando postagens de Agosto, 2011

A VIDA SENDO VIVIDA >> Carla Dias >>

Eu vi o futuro no daqui a pouco anunciado. Não se tratava de um estandarte, de um acontecimento no qual a euforia era a mãe de todos os atos. Eu alcancei um futuro plácido, com momentos grandiosos metafisicamente alinhados. E nele havia muitas formas de se dizer o oposto do que era esperado. Maneiras tantas de reciclar relacionamentos com a simples constatação de que, quase sempre, perdemos tempo demais com guerras – particulares e universais.

Naquele futuro, eu me sentia muito menos autocrítica, vivenciando a leveza de quem já sabe reconhecer a fragilidade da natureza humana, assim como a engrenagem criada para vivermos a vida como cidadãos. E nessa contemplação me veio a constatação de que os erros fazem parte da arquitetura do que construímos sendo. E o que define se serão eles a nos guiar no adiante são as escolhas que fazemos a partir das consequências por eles criadas.

Eu cometi uma série de erros nos últimos dias. Nenhum deles vai mudar o curso da vida de outra pessoa, tampouco…

UMA LIÇÃO DE VIDA >> Clara Braga

Querem saber um assunto que dá pano para manga? É esse tal de amor. Difícil achar quem nunca tenha escrito, falado, pensado ou qualquer coisa do tipo em relação ao amor. Aliás, difícil não, impossível.

Engraçado é perceber que isso acontece por um motivo muito curioso. O homem faz de tudo para entender aquilo que para ele ainda é muito abstrato ou incontrolável. Hoje em dia temos a impressão, só impressão mesmo, de que conseguimos controlar muitas coisas, mas o amor é uma das coisas que não se consegue controlar, e isso parece ser incômodo para muitos.

Não sou entendida no assunto e também não vou tentar definir nada, mas não gosto quando me deparo com textos que tentam generalizar o amor. Essa história de amor eterno depois de todo casamento não cola faz tempo. E essa conversa de que toda mãe tem um amor incondicional pelos filhos para mim também não desce. Se fosse realmente assim, não tinha um monte de mãe jogando filho em lixeiras, bueiros e afins.

Gosto de livros e textos que…

SE VOCÊ NÃO TEM FILHO >> Kika Coutinho

Se você não filhos não sabe uma porção de coisas, mas ouve dizer. Só que tem outras que não te dizem e que vou te contar agora. São coisas pequeninas, quase que insignificantes, mas que somadas representam uma vida nova tão rica e abundante que chega a ser pesada.

Porque é demasiadamente intensa e carregada a vida de quem tem filhos pequenos.

Quando você os tiver, verá que por todos os lados terá sinais da infância transbordando na sua vida de adulta.

Naquela sua sapatilha delicada, aquela toda feita à mão, que você queria usar numa tarde de shopping com as amigas — a tal tarde de shopping que nunca mais acontecerá, ou pelo menos não até seus filhos completarem 15 anos. Pois então, voltando à sapatilha que você foi buscar no armário e, quando colocar, notará que tem areia dentro dela. Areia, um bocado dela. “Ai, aquele dia no parquinho...”, se lembrará arrependida de uma tarde em que ia só dar uma passadinha no térreo, mas acabou sentando no tanque de areia e... bom, filhos pequen…

EM BUSCA DO TEMPO >> Eduardo Loureiro Jr.

Não sei por onde começar. São dezenas de galhos que se bifurcam em centenas de galhos que se bifurcam em  milhares de galhos. O passado não é tempo, é espaço. A memória é planta. E quando vamos ao quintal colher a fruta da lembrança no pé, é difícil achar o caminho de volta para a casa do presente...

Recebi um e-mail convidando para um reencontro, em Fortaleza, de ex-participantes do Grupo de Jovens São Vicente de Paulo (GSV, para os íntimos e para os preguiçosos). Eu era um dos 36 destinatários do e-mail, todos com os endereços expostos feito galhos, inocentes de suas vergonhas descobertas. Não reconheci alguns nomes, não relembrei exatamente a fisionomia de outros, mas alguns fizeram parte do que a gente costuma chamar de "minha história".

Para que o leitor possa compreender o impacto desse e-mail é necessário que vez por outra, assim como eu, costume olhar para trás, para o passado, e se perguntar o que teria sido de sua vida se tivesse feito uma escolha diferente em dete…

BRINCANDO DE CASINHA [Mariana Monici]

Desde muito cedo, nós, mulheres, somos apresentadas às brincadeiras de casinha, de mamãe e filhinho, etc. Na de casinha aprendemos a servir o chá com destreza, a organizar a cozinha, fazer comidinhas. Depois até lançaram brinquedos para facilitar a vida das pequenas donas de casa.

Lembro de microondas de brinquedos, liquidificador, maquininha de fazer sorvete. Tínhamos uma fritadeira também, em que se podia colocar água e as comidinhas, e, com uma bombinha de ar, soltava bolhinhas parecendo fritura. Para a criançada que gostava de comer porcarias em geral, existia um McDonalds em miniatura que era muito bonitinho — mas este nunca ganhamos. Fomos direcionadas para sermos mais saudáveis, acho.

Isso era a brincadeira de "casinha", que podia ou não incluir filhos, que estavam mesmo presentes era na brincadeira de "mamãe e filhinho". Lembro que lá pelos 7 anos, meu irmão cinco anos mais novo já tinha perdido as roupinhas de bebê, então andávamos pra lá e pra cá com um…

ANDO OUVINDO BELCHIOR
>> Leonardo Marona

como criança sem pernas mergulho
perplexo sobre o indivisível feixe.
mais que perplexo, e na verdade
não mergulho, empurram-me em direção
ao meu destino de criança sem pernas,
e sou obrigado a me diluir ou morrer.

a escolha óbvia sobrepõe a resolução
das pendengas, sem chance ou esperança
sinto-me pasmo com o rumo das coisas,
caverna e dinheiro, as duas simbologias
me determinam e me arrancam pedaços.
as pernas que me faltam eu tento forjá-las
na cabeça, e nada me resta a não ser criar
um novo gólem, e então admitir: o futuro
é para os mortos, presente a morte anunciada.

com o que chamo de meu corpo desconhecido
parto como quem arrasta o próprio corpo
que cai do oitavo andar, os fundilhos das calças
esfarelam em contato com a pele que
os pernilongos ávidos por mim não me deixam
esquecer que é doce como doce é minha gangrena
quando as hienas se aproximam, e repentinamente
são muitas as hienas sedentas de doçura,
mitologias suicidas seduzem meu coração desesperado…

ÍNDICE COXINHA DE SATISFAÇÃO
>> Fernanda Pinho

Minha irmã chegou de uma festa de formatura - daquelas com bufê, banda e adereços carnavalescos que avacalham o traje passeio completo - e a primeira coisa que eu quis saber, claro, era se a festa estava boa. "Tinha coxinha". Foi o que ela me respondeu, cheia de empolgação e, pra mim, já era o suficiente pra saber que valeu a pena passar três horas no salão de beleza. Eu e minha irmã respeitamos muito as festas onde são servidas boas coxinhas. Principalmente, agora, com o mundo cada vez mais metido a besta, onde a coxinha parece estar perdendo - injustamente - lugar para frescuras feitas com damasco, salmão, ricota, tomate seco, ervas finas e outras bobagens do gênero.
Acho muito frustrante chegar em uma festa e descobri que não tem coxinha. Eliminem a cerveja, o bolo de aniversário, que seja, mas não a coxinha! Em compensação, poucas situações são tão aliviantes quanto a de estar numa festa cheia de comida antipática e avistar um garçom trazendo uma farta bandeja de coxinha…

O QUE DIZER? >> Carla Dias >>

Dizem por aí que o país foi à lona, ao invés de ir à forra, e que por isso morremos pela boca, já que demos de mastigar indiferença há tempos. E que me desculpem, mas apenas se quiserem - se realmente quiserem -, os que assinam embaixo de tal declaração. É que o meu país jamais morrerá por falta de desejo de continuar em pé. Não será nocauteado ou irá à forra, porque ir à forra é também comandar revoluções desimportantes. Meu país, esse que vai além do país-umbigo, que nem dá bola para país-megalomaníaco, é sonhado a cada noite, e até durante o dia, por sonhadores conectados pelos desejos coletivos: praças, jardins, alamedas, casa, comida, educação, felicidade, e nem me venha rotular colando a palavra na minha testa, tentando me fazer parecer atração principal do circo dos horrores sentimentais. Não se trata de utopia, mas do fato de que o sonho tem alimentado as grandes realizações que hoje comandam a nossa realidade, até mesmo essa precária realidade que teima ser a principal, de f…

SEJAMOS FELIZES >> Clara Braga

Comprei o último livro da Martha Medeiros. Fiquei instigada com o título, Feliz por nada. Acho a felicidade um tema curioso, afinal é algo que todo mundo busca e que, infelizmente para alguns, parece estar cada vez mais difícil de encontrar. Quanto mais difícil achar a felicidade, mais fácil encontrar pessoas que dizem ter a receita certa para encontrá-la.

O que achei ótimo na crônica que dá título ao livro foi que ela passa bem longe dessas receitas doidas que estão inventando. Para ser feliz não precisa acender velas, dar pulinhos, rezar o pai-nosso quinze vezes, nem nada do tipo. No livro, ela diz apenas que, quando se está feliz, sempre se tem um porquê: ou ganhou algo, ou comprou algo novo, ou arrumou um novo amor. Mas quando a novidade passa, e normalmente ela passa rápido, a felicidade passa junto. Então a solução é ser feliz por nada.

Achei isso extremamente interessante e me lembrei logo de algo que me disseram uma vez e que guardei com muito carinho. Não lembro quem me dis…

O MEU NOME É ZÉ >> Albir José Inácio da Silva

Ou rosê como dizem meus vizinhos de fala enrolada. Não vou contar minha história porque ela não tem nada de interessante. Quero falar do meu primo Samuel, esse sim uma vida gloriosa.

Temos quase a mesma idade, mas ele sempre mereceu maior respeito. Todos nós lhe pedimos a bênção. Os mais pobres insistimos nesse parentesco na esperança de alguma intimidade. Intimidade que ele nunca quis e parentesco que ele nunca reconheceu, porque de nada lhe serviria.

Samuel sabia que não era amado e se dizia respeitado. Os críticos corrigiam: era temido. Parecia respeito, reconheciam que era poderoso, rico e sabido, mas o que sentiam era medo. Ele tinha muitos jagunços e muitas armas. Seu dinheiro se multiplicava porque era implacável na administração de suas posses com sangue conquistadas dos bugres preguiçosos. Preguiça que encontrava agora à sua volta.

Acostumou-se às reclamações. Não tinha culpa da miséria de ninguém, dizia, e miséria sempre foi fruto da preguiça. Não podia era permitir que l…

POEMA DESATADOR >> Eduardo Loureiro Jr.

Não tenho moral para criticar o fast food. Pratico a fast poetry — poesia ligeira — com meus minúsculos poemas. Poeminhas que normalmente ficam no seu canto de blog sem incomodar ninguém e sem que quase ninguém se incomode com eles. Mas de vez em quando aparece um poema engraçadinho, metido a besta — como que a querer confirmar o provérbio de que tamanho não é documento — e resolve aprontar para cima do seu criador.

O primeiro era um poema que se escrevia assim:

Não sou Pacífico,
sou Atlântico
— Mar Tenebroso.
Quem atravessar,
ganha um mundo novo.

Eu tinha vinte e poucos anos, estava todo cheio de mim: "quem quiser encarar, que venha; não sou fácil, mas o prêmio é bom".

Anos depois, o poema — intrometido — me chamou para uma conversa: "não é bem assim", patati, patatá... e o poema e o poeta se reescreveram:

Não sou Pacífico,
sou Atlântico
— Mar Tenebroso.
Quando atravessar,
ganho um mundo novo.

Desde então, e já se passaram muitos anos, estou nesta empreitada de me atravessa…

TEMPO DE SAUDADE [Debora Bottcher]

Então ela sentiu saudades. Do tempo em que sua maior preocupação era chegar a tempo da escola para ver Jeanny é um Gênio e Penélope Charmosa. De quando suas lágrimas eram só porque a mãe a mandava tomar banho quando ela ainda queria brincar.

Também sentiu saudades do pai: de quando andava com ele de mãos dadas pela feira, atrapalhando na escolha das frutas; de quando ele a jogava na piscina de adultos para ensiná-la a nadar, esperando, ansioso e atento, que ela emergisse sã e salva do fundo; de quando a mãe foi embora - porque as relações podem ficar muito complicadas mesmo que uma criança não seja capaz de entender - e ele cuidou dela e dos irmãos como nenhum outro pai faria.

Sentiu saudades de quando dormia em seus braços deitada no tapete da sala vendo TV e ele a levava para a cama - seu beijo delicado depois de cobri-la; de quando ele não chegou a tempo para a sua formatura.

Teve saudades também de quando ele caminhou ao seu lado, relutante, rumo ao altar a fim de entregá-la…

SEMO 3 >> Zoraya Cesar

O encontro prometia. Também, há dois longos anos sem namorar (no sentido bíblico, inclusive), sem conhecer um qualquer que fosse, nem para um café. Nessas circunstâncias, e com o relógio biológico uivando aos 34 anos do 2º tempo, qualquer encontro seria bem-vindo.

Até porque sua amiga Rita nunca a metera em furada. E Rita garantira com todas as juras de pés juntos que o primo do primo de seu namorado era do tipo caseiro, família tradicional mineira, boa pessoa e ela nem quis saber o resto, já estava bom demais. Encontro, aí foi ela.

Não vou aborrecer os leitores com os detalhes de depilações, pés, mãos, cabelos, massagens, cremes, roupas e perfumes novos. E as leitoras conhecem bem tais rituais, tampouco precisam de detalhes. Portanto, vamos à conclusão: ela ficou um espetáculo. As leitoras aprovariam, os leitores cairiam a seus pés, incontrolavelmente fascinados.

(Tá bom, vamos confessar, há um certo exagero, mas que ela ficou um arraso, ah, isso ficou. O decote na medida certa, o p…

A MELHOR CASA DO MUNDO
>> Fernanda Pinho

O que eu faço da vida? Definindo simploriamente, escrevo sobre casas. Apartamentos triplex, puro mármore carrara, com vista para a Lagoa Rodrigo de Freitas. Mansões sustentáveis com telhados verdes, referência arquitetônica em Cingapura. Moradas espanholas esculpidas em concreto, praticamente obras de arte contemporânea. Lofts californianos, ousadia em layout, mobiliário e design.
Escrevo com honestidade, gosto do que faço e, obviamente, sempre que abro o material fotográfico, a primeira coisa que me passa pela cabeça é “ah, se eu morasse nessa casa”. Mas não passa de um suspiro. Não chega a ser uma ambição nem ao menos um desejo.  Não sou de muitas pretensões. Sou de uma pretensão única: ser feliz. E, sabe, eu consigo ser feliz na minha própria casa. Pode parecer romântico, ingênuo ou até forçado o que eu vou dizer, mas eu realmente acredito que o que faz de uma casa um lar não é o material que a construiu, mas os sentimentos que a mantém erguida.  A intimidade que temos com a casa é …

DIA DOS SORRISOS E DAS CANÇÕES
>> Carla Dias >>

Das tantas coisas que nos acontece, diariamente, uma e outra certamente são boas, trazem sorrisos e amansamentos. Complicado é, em meio a essas tantas coisas, mergulharmos e trazermos as boas para a superfície.
Eu estava no ponto de ônibus, com meu player e meus fones de ouvido, Dave Matthews Band, Ella Fitzgerald e The Swell Season no playlist. Neste dia, eu não quis voltar pra casa de metrô, porque às vezes sinto uma saudade imensa de ver a cidade através da janela do ônibus. Então, nem me importei se a espera era de mais de quarenta minutos. Eu escolhi a espera e a jornada.
Cerca de dez minutos depois de eu chegar ao ponto, aproximou-se essa senhora, sessenta e poucos anos, miúda, cabelos brancos, roupas puídas, sorriso banguela. Começou a falar comigo bem na hora em que o Dave Matthews cantava One sweet world/Around a star is spinning /One sweet world /And in her breath I'm swimming /And here we will rest in peace. Mal terminei de cantarolar mentalmente, tirei os fones e pedi …

UM ANJO NA TERRA >> Clara Braga

Quem leu o título desta crônica e já imaginou que eu iria falar sobre o filme Cidade dos Anjos, errou! Eu gosto muito desse filme, e acho até que ele merece uma crônica, mas vai ficar para uma outra vez, agora o que eu quero mesmo é compartilhar uma grande descoberta: existem anjos entre nós! E esses anjos têm histórias que são tão bonitas quanto a de Cidade dos Anjos, só não viraram filme.

Só para que vocês possam entender melhor, eu estou falando de pessoas tão capazes de fazer o bem que acabam colocando a gente, meros mortais, em nossos devidos lugares quando julgamos que já estamos fazendo nossa parte quando doamos algumas roupas que não usamos para quem precisa, ou algo do tipo.

Vou explicar melhor: recentemente consegui uma bolsa pela universidade para trabalhar em um projeto chamado Pés?. Nesse projeto, nós ensinamos teatro e dança para portadores de necessidades especiais, desde aquele que só mexe um pouquinho os braços até aquele que tem uma deficiência quase imperceptível.…

LIÇÕES DE PAI [Debora Bottcher]

In memorian Rubens Böttcher
* 13/09/1946 / † 04/07/1998

Meu pai tinha o dom da alegria – o que não quer dizer necessariamente que fosse feliz; quer dizer que ele era capaz de rir e sorrir de coisas tolas, de continuar olhando o lado bom na adversidade, de persistir onde a maioria desiste.

Ele era um homem bonito: os olhos verdes, sempre brilhantes; a pele clara, os cabelos louros, um charme elegante no jeito de andar. Sempre gentil, galante, sedutor – um mestre, aliás, na arte de seduzir: quando conheceu minha mãe tinha sete namoradas.

Seu tom de voz era alegre, suave e ele raramente se alterava. Contava piadas (tinha um arsenal delas!) e vivia assoviando como se a vida se resumisse numa canção sem fim. Adorava Roberto Carlos e colecionava seus discos. Uma das imagens que guardo dele é a das manhãs de sábado, quando ele lavava os carros encarnando o próprio astro: a mangueira virava um microfone na garagem molhada. Eu ria muito...

Meu pai era um homem cansado. Penúltimo filho de…

QUANDO NÃO HÁ MAIS PERIGO
>> Leonardo Marona

para Julia

Pelo pouco que li e experimentei, sou obrigado a dizer que todo amor verdadeiro está fadado ao fracasso. Não nascemos para a comunhão do tempo, é essa a nossa inclinação mitológica - a dos amorosos - e nem mesmo nos damos conta disso. Um homem foi fadado ao fracasso por amor, sozinho numa cruz, e desde então não conseguimos mais deixar de copiar seus passos. Isso, é claro, vale para poucos. A organização do mundo nunca foi a organização do amor. Com a perda da ternura que nos fazia suar de amor por semanas, acabamos, de um modo ou de outro, assumindo novas ingrenagens: de repente importa mais agir do que experimentar através dos sentidos mais íntimos. E assim se fez o mundo em que vivemos. Os pobres adolescentes, doentes de amor, com os pés enraizados no chão e tão burros porque é impossível ser esperto e amar ao mesmo tempo, enfim, estas pobres criaturas antenas do contínuo comem um dobrado na mão de adultos que as empurram de encontro umas às outras como se olhassem seus r…

EU TAMBÉM ME ESQUEÇO >> Fernanda Pinho

Aconteceu há uns dois meses, num bar meio boate, onde eu estava com uma amiga. Já estava na fila, para pagar, bem próxima do atendimento. Notei um garçom se aproximar da moça do caixa e entregar a ela um cartão de banco, dizendo que alguém havia perdido. Quis fazer um comentário sobre o fato, e como minha amiga havia ido ao banheiro, comentei com os desconhecidos da fila mesmo.
- Que gente lerda, né? Como perde o cartão do banco? Tem gente que só não perde a cabeça porque é colada no pescoço.
Também pensei em dizer que eu poderia apostar que o dono do cartão estava caindo de bêbado em algum canto do bar, mas aí eu me lembrei da minha amiga. Não bebe nem refrigerante, mas há anos vem construindo uma indestrutível fama de desligada e esquecida. Assim que ela retornou à fila, pedi que conferisse se não havia perdido o cartão. Ufa! Não havia!
Chegou, então, minha vez de ser atendida. Abri a bolsa. Remexi as coisas dentro da bolsa. Documento, chave, batom, chiclete. Virei a bolsa de cabeça …

SOLIDÕES >> Carla Dias >>

Eu adoro esse filme, e o tenho em VHS. Lembro-me que foi um trabalhão comprá-lo da locadora de vídeos da qual eu era sócia. E ainda o estou caçando em formato DVD para comprá-lo.

Já escrevi sobre ele, inclusive aqui. Porém, hoje ele será apenas o ponto de partida para a minha crônica.

Eu estava muito cansada, quase apagando, e zapeando antes de ir para a cama. Então, parei no TCM, um canal da tevê a cabo que passa filmes antigos, muitos clássicos. Eu levei um susto. Como assim? Não é clássico... E o que é clássico mesmo?

Clássico ou não, “Frankie e Johnny” foi lançado em 1991, tornando-se antigo o suficiente para entrar para a programação do TCM. Depois de suspirar mediante a década que me separava do dia em que o assisti pela primeira vez, entreguei os pontos, esqueci o sono, e o assisti novamente.

O filme não seria tão belo não fossem as atuações de Michelle Pfeiffer, a Frankie, e Al Pacino, o Johnny. Quando o tema é a solidão e o desejo de encontrar um amor que seja companheiro e v…

UMA BOA POLÊMICA >> Clara Braga

Sala de espera de clínica ginecológica só não é pior do que salão de beleza. A clínica em que vou costumava ter só revistas de fofoca, então ficavam aquelas mulheres lendo as revistas, esperando sua vez de serem atendidas e comentando as últimas notícias das vidas dos famosos: quem passou final de semana na Ilha de Caras, quem foi fotografada na praia com namorado novo, quem está grávida... e outras coisas do tipo sempre eram assuntos em pauta.

Nessa minha última, consulta tive uma surpresa ao entrar na sala de espera. Agora, além das revistas de fofoca, lá tem também uma televisão, e acertou quem já imaginou que ela estava ligada naqueles programas de fofoca que dizem até qual é a cor da calcinha da celebridade que estava passeando na rua.

Uma vez que eu estava lá, e a consulta estava atrasada, entrei no clima. Acabei descobrindo que o mundo das celebridades só pode estar muito sem assunto. A polêmica da vez foi uma declaração besta que a Sandy deu em uma entrevista para a Playboy…

O SEGREDO >> Albir José Inácio da Silva

- Por que você não vai pra casa, se não está bem?

Pronto! Até os colegas perderam a paciência. Ela já ouviu poucas e boas do chefe por bobagens que não costumava cometer. Teve a solidariedade de alguns olhares, mas agora até eles a condenam.

Eu era seu melhor amigo e logo de manhã percebi que havia algo errado. Mas só ouvi um “não posso falar”. A doçura de sempre se transformou em medo, a ponto de perguntar “o que é?” quando alguém se aproximava da sua mesa. A princípio aborrecidas com sua desconfiança e grosseria, as pessoas ficaram surpresas. O que poderia operar tamanha transformação?

Deixaram-na quieta. O mau-humor deu lugar a suspiros tão profundos e ressentidos que nos circunstantes a raiva deu lugar à pena. Afinal, ela tinha um segredo.

Ela tinha um segredo, e os problemas de quem tem um segredo. Segredos costumam ser insuportáveis, por isso vazam. Revelados, às vezes, criam outros dramas, mas enquanto segredos são devastadores. Segredo é uma forma de tortura, e não guardá-lo é m…