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Mostrando postagens de Agosto, 2012

TODOS MAIS OU MENOS IGUAIS
>> Zoraya Cesar

Finalmente, depois de muito esforço, reza forte, pequenas patifarias, Carlos Wilson conseguiu casar com a filha do dono da agência de automóveis e chegar a gerente, cargo pelo qual teria dado a vida. Como não lhe pediram a vida, deu apenas a própria integridade, que saiu mais barato. 
Vocês sabem, quem nunca comeu melado, quando come se lambuza; quem nasce pataca, nunca chega a vintém. E quem... chega, vamos à história. Logo no primeiro dia ele cortou gratificações aqui, distribuiu-as ali, e deslocou D. Vanda, secretária mais antiga que a própria firma, para o fundo do salão. Proibiu os mecânicos de almoçarem no mesmo refeitório com a equipe de vendedores, imagina, cada macaco no seu galho, dizia, a boca cheia de importância.
Em pouco tempo já era considerado um perfeito pulha. Apenas uma coisa ele fez que agradou a todos: contratou Glorinha.
Glorinha era... era... como descrever Glorinha sem reduzi-la a um estereótipo? As roupas apertadas, decotes audazes, saltos altos, vestidos …

UM PULINHO EM CÓRDOBA
>> FERNANDA PINHO

Córdoba era uma frustração em minha vida porque eu detesto "quase" e certa vez quase estive lá. Eu estava no nordeste a trabalho, de onde deveria seguir para a Argentina, mas o evento que eu cobriria foi cancelado e a viagem nunca aconteceu. Uma frustração que pairava no ar sempre que a Córdoba era mencionada, o que não era raro já que tenho um amigo que morou por lá e é um verdadeiro entusiasta da cidade.
Mas então, semana passada tivemos uma ideia. Vamos pra Córdoba? Vamos. Quando? Sábado. E fomos. Com uma mala, uns mapas toscos que eu imprimi do Google, algumas dicas do amigo entusiasta e nenhum planejamento.
Qualquer viagem que parte daqui de Santiago já começa bem com o espetacular cruzamento da Cordilheira dos Andes que, a essa altura do ano, está branquinha como montanhas de embalagem de chocolate. Não demorou muito e chegamos ao nosso destino. Voo rápido. Como de Belo Horizonte a São Paulo, me apressei em dizer (acho que estou ficando um pouco chata, para tudo tenho…

NASCIDA FEITA >> Carla Dias >>

Minha crônica de hoje é dedicada, porque calhou de ela acontecer no mesmo dia em que uma amiga muito querida faz aniversário. Essa crônica é dedicada à Drika Bourquim, pessoa que, mesmo quando fica brava comigo, respeita meu jeito bicho do mato de ser. Sem contar que tem um coração de ouro e uma energia boa que só. Feliz aniversário, Drikota!
Tem gente que nasce feita. Sabe como? Já se sabe, assim, de cara, que ela será isso ou aquilo quando crescer. Conheci uma menina que nasceu feita, tudo muito certinho. Seu rosto era lindo, lindo, aqueles olhos grandes e gentis comoviam até o mais durão dos homens, uma coisa. Ela podia tudo, porque seu caminhar era digno de enfeitiçar olhares, como se desfilasse a nossa frente uma entidade detentora do conhecimento maior sobre o ser humano. Que carregava em sua bolsinha de crochê cor lilás as respostas para perguntas cruciais:
Quem somos? A que viemos? Para onde vamos?
Aquela era a bolsinha de crochê cor lilás mais cobiçada de todo o planeta.
Obvia…

SOLDADOS >> Albir José Inácio da Silva

Dentre os personagens que embalam nossa imaginação na infância, destaca-se o soldado. O garbo de seu uniforme, a altivez de seu porte e a coragem de suas ações encantam crianças desde sempre. Do soldadinho de chumbo sofremos os apuros nas histórias e temos ciúmes do pequeno exemplar que nos enfeita o armário. Nas brincadeiras, marchamos com chapéu de jornal e espada de madeira pelos campos de batalha e quintais inimigos.

Na adolescência a história nos ensina sobre os soldados egípcios, que ficavam honrados em morrer por seu faraó; dos soldados romanos com seus chapéus imponentes que dominavam o mundo; dos heróis gregos na guerra de tróia; e de todos os guerreiros que varriam os campos e conquistavam as cidades. Na idade média os soldados defendiam castelos, conquistavam reinos e salvavam donzelas. Os templários eram soldados que conquistavam a terra sagrada. Sagrada também para outros, mas que deveria ser só deles.

Depois os soldados participaram dos grandes descobrimentos. Estavam no…

CAFONA [Carla Cintia Conteiro]

Quando ela começou a discorrer sobre a cafonice alheia, meus olhos imediatamente escanearam o seu modelito escolhido para a ocasião. Mais uma vez, absolutamente desfavorável ao seu tipo físico, concluí. Sempre relevei sua falta de tino para se vestir, porque imaginava seus cuidados intelectuais e espirituais, que me faziam admirá-la tanto, ocupando todo seu tempo, não deixando espaço para esse tipo de mundanice. Ouvi-la argumentando porque Fulana e Beltrana eram cafonas me fez ratificar a impressão de que cafona mesmo é falar da cafonice dos outros. Afinal, infelizmente, nosso próprio rabo nos é invisível e atribuir-lhe adjetivos é tarefa absolutamente subjetiva.

Já reparou que as canções do estilo de música de que você não gosta sempre soam iguais umas as outras, suas estruturas harmônicas e versos tão previsíveis e repetitivos e, se não isso, são apenas enfadonhas e incômodas? Pois pergunte para alguém que não gosta dos gêneros que você curte o que acha da sua música e ele vai dizer…

UMA CANÇÃO SOBRE SENTIMENTOS USADOS >> Carla Dias >>

Você sabe que a pior escolha é esperar para ser a melhor pessoa possível em um futuro que julga próximo. Diferente das contas dos carnês, com parcelas com vencimento em 5 de agosto, 5 de setembro, 5 de outubro, 5 de novembro, até 5 de dezembro de dois anos adiante do vigente, entende que depois de quitado o sonho se transforma em lembrança para ser desfiada em dia de jantar em família.  E que flores em vasos são impacientes e partem adiantado, e isso em nada tem a ver com o fim da primavera.  Compreende a solidão dos almoços em dia de trabalho, quando seu olhar reconhece as feições dos estranhos mastigando comida e se alimentando de urgências: pegar a roupa na lavanderia, escrever para o diretor, comprar laranja lima, pedir o divórcio, colocar o analgésico na bolsa. E sempre alguma urgência se destaca, roubando-lhe a atenção entre uma garfada e outra, às vezes distraindo tanto que a sua comida acaba no prato no final da hora do almoço. Como aquela urgência reconhecida no homem de cab…

SÓ PARA OS QUE NÃO TÊM NOJO >> Clara Braga

Há um tempo, publiquei uma crônica aqui falando a respeito de um livro que estava fazendo sucesso por contar um novo segredo para o emagrecimento. Disse que não concordava com o livro, e hoje venho por meio desta mostrar mais um argumento que defende a minha ideia de que de inovador esse livro não tem nada! Bom, o tal livro não é inovador pelo simples fato de que eu tenho a mais nova descoberta do milagre do emagrecimento. Não sei se é tão nova assim para todo mundo, mas para mim, pelo menos, é.

Antes de revelar a minha descoberta, queria avisar às pessoas que têm estômago fraco e que estão próximas do horário de alguma refeição, que talvez seja melhor deixar para ler esta crônica em um outro momento.

Bom, então vamos lá. Estava eu em mais um dia de estágio, assistindo a filmes e classificando. Como a maioria das estagiárias não curtem muito filmes de ação, acabou sobrando para mim um desses filmes que são adaptações de histórias em quadrinhos. Eu não tenho o menor problema com isso, …

JÁ NÃO EXISTIA >> ANDRÉ FERRER

Finalmente, o trabalho na farmácia ajudou-me a descobrir um texto. Foi na quarta-feira. Lembrei-me, então, da necessidade de entregar esta crônica (parece-me, no entanto, que não deixei de pensar na urgência da redação um minuto sequer na última semana) e o texto começou a nascer enquanto eu atendia àquela senhora.
Ela devia ter uma casinha humilde e bem arrumada. Tricô e crochê no dormitório. Um nicho no corredor — o espaço dos boletos bancários, das queixas e da Nossa Senhora. Na sala de estar, entretanto, não devia faltar o paganismo kitsch e suburbano. Um diligente deus Hermes, um comboio de elefantes hindus coloridos e, entre outras cerâmicas, um galinho do tempo disposto à direita do televisor ligado. Para cada bibelô, uma história dividida com o marido. Há quase trinta dias, ela o visitava no hospital. — Hoje, meu velho, eu vou à tarde. Logo depois do almoço. Ao prestar atenção na entrevista, ela parecia fazer esquecer o próprio drama. Indiferente, a velha devia ter o hábito de as…

COMO ME TORNEI PALMEIRENSE
>> Whisner Fraga

Outro dia vi que o Boa Esporte está brigando de igual para igual na segunda divisão do Campeonato Brasileiro, o que me deixa muito contente. Sempre que vou a algum lugar e tem uma televisão transmitindo os jogos da segundona, falo, cheio de orgulho, que aquele time é da minha cidade. Tudo bem que atualmente eles estão instalados em Varginha, mas essa situação logo vai mudar, pelo que ando vendo sobre a construção do nosso estádio, em Ituiutaba.

Quando vim para São Paulo, me perguntavam para qual time eu torcia. Meus alunos tinham essa curiosidade também. Então eu respondia que era cruzeirense. Pronto, o assunto acabava ali, pois os paulistas não conhecem outro time que não seja do seu estado. Uma pena, porque era uma boa chance de me aproximar dos pupilos. Acredito firmemente que, para que haja aprendizagem, é necessário um envolvimento social. E para que aconteça a amizade é necessário que existam paixões partilhadas.

Então conheci minha atual esposa e com ela vieram as viagens para…

TIN MAN >> Zoraya Cesar

Quando era mais novo, tão mais novo, meu Deus, que ele sentia dor só de pensar, seu grande barato (pela gíria, dá para inferir a idade do nosso amigo) era tirar umas musiquinhas no violão.
A música lhe trouxera muitas alegrias, amigos, namoros, festas, às vezes até uns trocados. Na verdade, nem era grande coisa, mas dava para o gasto e, melhor que tudo, fazia-o entrar em contato consigo mesmo, sentir-se inteiro. 
Mas todo adolescente um dia vira adulto, as festinhas de violão, sexo, drogas e rock n’roll um dia acabam, e eis que a vida adulta chegou como um roldão: entrou na faculdade, conheceu a mulher da sua vida, começou a trabalhar e largou o violão. Largou? Sim, largou no fundo do armário, de onde só o tirava para as festinhas de família ou, quando sozinho em casa, para mexer os dedos, não perder a prática. 
E agora cabem algumas explicações. O título, por exemplo, por que Tin Man? Porque nosso amigo era fã de carteirinha (essa história está repleta de arcaísmos, não reparem, …

MORAR E VIVER >> Fernanda Pinho

Morar todo mundo mora. Até os moradores de rua moram. Ao longo da vida a gente costuma morar em vários lugares. Lugares bons até. Mas alguns, não bons o suficiente para que o morar seja promovido ao viver. E ser um lugar bom para viver (e não simplesmente morar) nada tem a ver com dinheiro e outras superficialidades. Tem gente que mora em mansão. Tem gente que vive em favela.

Morar é estar num eterno desejo de mudança, ainda que não existam planos concretos para sair dali. Viver é construir o quarto para quando vier o bebê, ainda que não existam planos para uma gravidez.

Para o lugar que a gente mora compramos um vaso de planta para o hall de entrada que orna com a cor da parede. No lugar onde a gente vive plantamos uma palmeira que vai demorar dez anos para crescer.

No lugar onde a gente mora descobrimos um restaurante superbacana na rua de trás. No lugar onde a gente vive,temos uma panela de pedra guardada no armarinho lá de fora que é perfeita pra fazer o frango com quiabo igual o…

OS MESMOS >> Carla Dias >>

Tem gente que sente fome de tempo, e vive lutando com a vida para garantir um direito inexistente, o de manter-se o mesmo. Isso não é direito, parece-me até meio torto, porque manter-se o mesmo remete à canção de melodia descuidada, ao verso em loop, à repetição. Manter-se o mesmo não é direito, mas vai contra o direito nosso de nos construirmos a cada dia, porque a vida nos influencia de tantas formas, e nem sempre nos damos conta de tais inspirações.
Ainda ontem, a vida cochichou algo em meus ouvidos. Meu corpo - há anos acostumado ao ritmo de quem trabalha sentada por quase doze horas ao dia, contemplando o horizonte da tela do computador - lembrou-se de alguns tombos que levou quando eu andava de carrinho de rolimã e brincava de queimada com as irmãs e as primas. E das vezes em que sonhou, escondido e baixinho, em ter coragem, como tinham suas tias e mãe, de pendurar no cipó da mata que ficava no fundo do quintal. De balançar com o vento. Isso eu não fiz, faltou-me coragem.
Não n…

NÃO LEVE A SÉRIO >> Clara Braga

Estava assistindo a umas entrevistas com escritores diversos, e eles respondiam, em ocasiões diferentes, o que é escrever e o que os motiva a escrever. As respostas foram das mais diferentes e interessantes possíveis, mas duas me chamaram mais a atenção, não por serem melhores, mas porque me identifiquei com elas.

Um deles dizia que escrever é colocar uma palavra após a outra, depois outro complementa dizendo que, após colocar uma após a outra você começa a lapidar a fim de chegar até o ponto que te interessa, da forma que mais te interessa. E o outro dizia que escrevia para tornar a vida dele mais interessante. Tem resposta mais genial que essa?

Eu adoro colocar uma palavra atrás da outra, principalmente para falar sobre coisas que me aconteceram ou sobre coisas que eu penso. Mas não dá para falar de qualquer jeito, pra contar algo a gente tem que mudar nosso olhar sobre as coisas. Não dá para ver todos os acontecimentos como simples acontecimentos do cotidiano e contar como coisas …

A HERRANÇA >> Albir José Inácio da Silva

Bertinho voltou a Paracambi depois de três dias no Rio, segundo ele, procurando trabalho. Estranhou os olhares curiosos. Curiosos? Não, ele podia jurar que eram respeitosos. Isso nunca aconteceu antes e tratou de aproveitar. Estufou o peito e foi retribuindo os cumprimentos, que também sabia ser educado.

Não que fosse maltratado, afinal aquela cidade o vira crescer. Mas era mantido a meia distância. Tinha fama de não gostar do batente, pedia muito e pagava pouco. Rolava as dívidas para quando arranjasse trabalho, mas nenhum lhe servia.

Essa sua ida para o Rio tinha deixado os vizinhos revoltados. Conseguiu desfalcar, choramingando, a pensão de uma pobre viúva: tinha que viajar para fechar um ótimo emprego na Barra da Tijuca. Agora voltava reafirmando sua má sorte. O trabalho já era seu, mas na última hora o patrão deu pra trás.

Mas, para sua surpresa, dessa vez a desculpa não provocou a indignação de sempre.

- Não ligue não, Seu Bertim, Deus sabe o que faz. – consolou a viúva desfalcada, …

UNS VERSOS >> Junoca

Meu pai me pediu uns versos...

Primeiro pensei em fazê-los de fumaça, saindo em espirais suaves de dentro de meus dedos.
Mas eu não fumo, não sei como fazê-los.

Depois pensei em fazê-los de símbolos gravados em cartas ou em tabuleiro.
Mas confesso que me chateia jogar com meu pai e nunca ter como vencê-lo.

Pensei até em fazê-los de água — ardente — descaradamente embriagadores.
Mas meu pai não bebe mais, e eu também não bebo.

Talvez pudesse fazê-los de estampado tecido, perfeitamente arranjado em gravata.
Mas não aprendi com meu pai a dar nó em pescoço.

Poderia fazê-los da saliva de histórias repetidas à exaustão em encontros de família.
Mas não sou bom de memória, e da próxima vez preciso estar mais atento.

Poderia mesmo fazê-los de silêncios, tão perfeitos quanto os de meu pai me acolhendo.
Mas meu pai me pediu uns versos, e preciso fazê-los.

Faço, então, meio sem jeito,
versos de todos os momentos,
— até aqueles de que não me lembro —
em que meu pai me carregou nos braços,
me lev…

A TIA [Ana González]

Em meio a esta viagem de volta a minha casa chega a notícia já esperada. Ela se foi. Depois de uma cirurgia, quinze dias de UTI e a batalha entre diagnósticos controversos e notícias às vezes esperançosas. 

Ela foi referência em minha vida, como são todas as pessoas de que guardamos importantes lembranças, marcas de tempos que foram bons. Permanências que provocam um calor dentro de nós e que são fáceis de carregar.

São de outra espécie as lágrimas que correm dentro de mim, em forma de memórias se desenrolando lentamente num cenário interno acinzentado. Assim cinza é o meu choro começando a escorrer devagarzinho dos meus olhos que seguem as paisagens rápidas se movendo na janela deste ônibus que me leva. Eles não estão mais secos como estavam no tempo da espera. Espera do fim, do inominável. É começo de noite e a lua –imensa e cheia - despeja um clarão suave sobre meu colo. Prata líquida.

Foram muitas as férias na infância no interior de Minas, com queijos na casa em estilo anos cinqüent…

NÃO SEJA UM CHATO HOJE À NOITE
>> Leonardo Marona

eram dez da noite de um domingo nevoento e fresco, estranho à natureza da cidade, e eu estava prostrado numa cama rangente assistindo a ridículos programas de auditório e pensando serei despejado mas não consigo me mexer, estou paralisado pela ansiedade quase infantil quase entusiasmada de não ter finalmente casa e ser apenas pele em movimento apocalíptico mas também com muito medo e eu então pensava preciso me apaixonar ou será o pior fim já que tanto o desespero quanto a paixão levam à mesma ruína mas antes morrer de paixão porque assim ao menos escreverei pequenas cartas e quem sabe assim as coisas não ficariam mais tranquilas ou pelo menos desimportantes e foi justamente nessa hora quando na TV dois travestis disputavam um quiz show de perguntas e respostas no programa do Silvio Santos que você que nunca liga telefonou com o simples convite de vamos até a Praia do Arpoador? e eu disse não estou em casa e nem me sinto bem mas você estava tão animada extremamente animada acho até q…

FASCINAR-SE É PRECISO >> Carla Dias >>

Com que clareza verbaliza delícias, com palavras dedicadas ao auxílio necessário à realidade, para incrementá-la com o fantástico de experimentar fascínios. Fascinar-se é coisa séria, por vezes difícil, delicada no sentido que nos faz temer a incapacidade de realizar essa busca efêmera. Porque o fascínio, quase sempre, chega e passa com a velocidade de uma noite bem dormida. Porém, quando se estende para a eternidade daquilo pelo qual nos apaixonamos, bem, o fascínio ultrapassa a duração e se eterniza na gente.
Como o meu fascinar, que é de moça despreocupada com o zelo emocional, que sai sentindo sem pedir permissão a si mesma, dando pouca importância ao quanto pode doer o próximo tombo. A julgar pela facilidade do meu sentir, diria o poeta do bairro, a empunhar copo americano cheio de destilado, lá no boteco da esquina, que sou uma devassa emocional, uma meretriz desavergonhada e de unhas cravadas no sentimento. E por meio da poesia do poeta bêbado, meus sentimentos se tornariam em…

VAMOS INVESTIR NOS PSICÓLOGOS!
>> Clara Braga

Eu sei que as olimpíadas ainda não terminaram, mas vamos pensar longe. Daqui até as próximas olimpíadas, nós temos 4 anos, e isso é tempo mais que suficiente para nos prepararmos.

Os atletas vão se preparar acertando as coisas que deram errado nessa olimpíada, vão treinar bastante enquanto outros vão se aposentar, já deram tudo que podiam. E nós vamos nos preparar psicologicamente para recebermos as olimpíadas aqui no Brasil. Alguns vão se preparar apenas para torcer, mas outros vão se preparar para trabalhar — parece que muitos empregos serão gerados...

Eu acho que, diante dos resultados dessas olimpíadas, nós devíamos pensar em investir mesmo nesses novos empregos. Investir em preparar pessoas para falar diversas línguas, inclusive libras, preparar as pessoas para dar informações nos aeroportos, preparar os hotéis e assim por diante. Mas confesso que acho que tem uma profissão na qual deveríamos investir com força: nos psicólogos.

Não que eu ache que vai ser tudo tão conturbado e co…

EM NOME DO PAI >> Whisner Fraga

Vivíamos numa penúria danada, à base do feijão com arroz dia sim dia não, do tipo que brincam por aí: vendendo o almoço para comprar a janta. Não tanto por culpa nossa, pois tínhamos uma casinha alugada, o que nos garantia um bife de vez em quando. Só que o inquilino não pagava o aluguel há três meses e minha mãe, divorciada, não sabia mais o que fazer.

Ela já havia tentado um diálogo, mas a coisa empacara. O sujeito argumentava que não ia pagar o aluguel porque não. Boa justificativa ele trazia. Então, como um dos homens da casa, resolvi correr atrás e ligar para o sujeito, cobrando. Atendeu a filha do malandro, na maior calma do mundo, me perguntando o que eu desejava. Disse que queria falar com o pai dela. Qual o assunto? Respondi: É particular, só com ele mesmo. Ela rebateu: sendo assim, não vou chamá-lo. Claro que ela não falou com essas palavras, até porque seu português era bastante limitado. Mas foi mais ou menos isso.

Tive de adiantar o assunto: que ligava para cobrar três a…

ESCOLHAS >> Zoraya Cesar

Um casamento desfeito, tentativas malfadadas de namoro e um certo comodismo resultaram em seis anos de vida sedentária e vários quilos a mais. Sozinha em casa, devorando um enorme prato de macarrão, ela, mais uma vez, repetiu a si mesma que aquilo não era vida. Preciso voltar a sair, pensou, conquistar novos espaços, ir audaciosamente onde nenhuma mulher jamais esteve.
Como sabemos todos, quem pede recebe. Mal terminara de comer o pudim, e uma amiga telefona, oferecendo um convite para a festa de encerramento de uma campanha política, naquela noite mesmo. Ela vibrou. Suas preces tinham sido atendidas.
Isabelinha estava confiante de que iria roubar corações, arrasar quarteirões, arrebanhar solteirões (desquitados e até casados também serviriam. Depois de anos incubado, o monstro conquistador despertara nela, rugindo, querendo alimento).
Ela precisava comprar sapatos, roupa, fazer as unhas e... esperem. Façamos uma pausa, para conversar com os rapazes, a fim de que eles entendam melhor…

NÃO ENCHE, ESTOU COM FRIO - O RETORNO >> Fernanda Pinho

Se você é um leitor fiel deste blog e com boa memória, talvez se recorde que, há dois anos, eu publiquei aqui uma crônica onde manifestava todo o meu desprezo pelo clima frio (se você é um leitor infiel, desmemoriado ou novato, pode ler tal lamento aqui).

Agora, exatos dois anos depois, venho me retratar humildemente e dizer que aquele texto não passa de um delírio inocente. Não, meus caros. Não fui flechada por um cupido de neve e acometida por um amor súbito pelo inverno. O que acontece é que minha nova realidade me fez constatar que aqueles 4554 caracteres não passavam de pura difamação, calúnia, injúria (algum advogado que possa me ajudar a diferenciar uma coisa da outra?) contra o ameno e, por isso, agradabilíssimo clima de Belo Horizonte.

Eu passava frio? Um friozinho besta talvez, na hora de entrar pro banho ou escovar os dentes. Aliás, naquele saudoso  e quente tempo, minha relação com a água se restringia às minhas atividades de higiene pessoal. Agora não. Agora sou uma dona…

O TEMPO DO OUTRO >> Carla Dias >>

Posso me distrair em muitas áreas da vida, e essas distrações causarem mais mal do que bem, mas não quando se trata de reconhecer o que outras pessoas me oferecem, e não falo de coisas materiais.
Até a adolescência, minha mãe costumava costurar a maioria das minhas roupas. Lembro-me de que não entendia muito bem por que ela se dedicava tanto a algo que era somente para mim. Independente de ser minha mãe, e isso me garantir o cuidado na minha criação, ela também era uma mulher com uma vida corrida, um trabalho complicado e quatro rebentos pra criar sozinha. Ainda assim, ela encontrava tempo para costurar minhas roupas e fazer os devidos agrados às minhas irmãs e irmão. Cada um de nós recebia dela um tempo para usufruto próprio.
Acredito que foi assim que aprendi a importância do tempo que uma pessoa dedica a outra, não importa o quanto ou a situação. Talvez por isso seja meu hábito agradecer as pessoas pelo mínimo de tempo que gastam comigo, seja pelo entretenimento ou pelos reveses d…