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Mostrando postagens de 2021

OFÍCIO >> Whisner Fraga

às vezes penso na frivolidade da escrita, sobretudo quando me sento diante da tela e tento, imaginem!, trabalhar, mas há uma cidade inteira morta: são carlos, foz do iguaçu, ou imperatriz, chegar até uma cidade inteira morta, mais de duzentos e cinquenta mil corpos, desprotegidos, expostos, desarmados, é concebível?, alguns amigos, como se estivessem nesta cidade inteira morta: enio, sr. dimas, mortos nesta cidade inteira morta,  aí tento rabiscar algo, a mão hesita, não quer, não precisa, a mão, as mãos, se adaptam à cabeça, como se ela precisasse de apoio, e precisa, badernam o cabelo que nem penteio mais, e a única palavra que balbucio é vergonha, ou medo, ou catástrofe, ou desgraça, ou saudade, mas uma de cada vez, tento escrever um conto: vergonha medo catástrofe desgraça saudade vergonha vergonha vergonha vergonha vergonha uma cidade inteira morta, helena, e só posso chorar estes mortos.

LITERAL E METAFORICAMENTE >> Carla Dias

Coração dispara quase ao mesmo tempo em que o fragor solta a língua. Percebe-se arfante por medo que ainda não sabe qual. Desconfiado por não ter conhecimento sobre o que encontrará no seguinte.  No seguinte: levanta-se do seu sofá cansado de apoiá-lo nas preguiças, nas desilusões, na profundez da depressão não diagnosticada para manter a integridade do currículo. Ela que o acompanha e endossa a única fidelidade possível. Joga o cobertor no chão e se levanta como se estivesse pronto para o combate. Leva quase tempo nenhum para que seu corpo arqueie novamente, alinhando-se ao que o consome e não tem nome. Tentou dar nome ao que o incomodava. Sempre enxergou verdades nos incômodos. Assim, conseguiu alcunhar a maioria deles, lidando com suas indistintas rupturas. Até então, não sabia que havia aqueles que não tinham nome, não cabiam em estratégias, não eram eliminados com boas práticas de abnegação. Coração não aceita ralentar ritmo, mantendo-se a ruminar o desespero próprio dos músculos

SOBRE NEUROSES, PSICANÁLISE E MATERNIDADE >> Clara Braga

Um dos vícios que adquiri na quarentena, foi o do podcast. Sim, eu sou atrasada nas tecnologias e até março do ano passado ainda era o tipo de pessoa que se perguntava o que era e para que servia exatamente o tal do podcast. Mas vejam que evolução, agora sou uma pessoa que até indica podcasts. Um dos que mais gosto e que estou ouvindo frequentemente chama-se Calcinha Larga. São três mulheres, mães, que entrevistam outras mães sobre diversos tópicos, mas sempre ressaltando a tal maternidade real, afinal, passou da hora de entendermos de uma vez por todas que a maternidade tem sim seus dias de glória, mas os dias de luta são exaustivos e isso não faz de nenhuma mãe, menos mãe. O último episódio que ouvi me fez gargalhar alto várias vezes, pois falava sobre neurose. Se você conhece uma mãe que não é nem um pouquinho neurótica, manda estudar, pois ela é uma raridade. Eu comecei a ouvir o tal episódio com a certeza de que eu sou a neurótica nível um ou dois, no máximo. Ou seja, tenho minhas

Anabela >> Alfonsina Salomão

          Em meio aos convidados da festa de casamento, Leandro se destacava. Ali todos eram jovens, bonitos e cheios de vida, mas ele sobressaía, com seu traje original, seus óculos de lentes laranjas, seu sorriso desavergonhado e seguro de si. “Nada a ver comigo”, pensou Anabela, que observava a algazarra de longe, uma taça de champanhe na mão para disfarçar a solidão.             Não que fosse feia, longe disso. Era esbelta, bem proporcionada, os cabelos morenos caíam-lhe sobre os ombros com suavidade. Mas era observadora demais para agir naturalmente. Seu senso crítico deixava pouco lugar para a espontaneidade. No seu canto, Anabela refletia sobre a fragilidade das relações sociais e o ridículo dos ritos de passagem. Ela olhava com desdém os sorrisos embriagados e as gargalhadas vazias dos outros convidados.      Apesar da severidade dos seus pensamentos, ou talvez por causa deles, Anabela sentiu-se estranhamento atraída pelo personagem mais despachado de todos. Não conseguia tirar

UM PAPO COM SÃO PEDRO E SÃO PAULO >> Sergio Geia

  De um lado vejo Pedro. Do outro, Paulo.    O velho Pedro segura uma bíblia na mão direita. Ele a tem próxima à cintura, como se fosse um caderno. Me lembra um estudante despreocupado indo pra escola. Na outra mão ele traz as chaves do Reino dos Céus. Procuro um cajado, cadê o cajado, Pedro? Não há cajado. Seu semblante é leve, está zen, bem zen, passa a serenidade dos grandes líderes, embora um pouco pálido.    Paulo também tem uma bíblia nas mãos. Diferente de Pedro, ele a traz junto ao coração, como se fosse um objeto precioso e de amor. Vendo a cena de Paulo e sua bíblia, me vem à mente o tio Nilson, Nirsão pros irmãos. Certa vez ele me encontrou numa dessas festas de fim de ano, era só assim que nos encontrávamos. Entre discussões fervorosas sobre temas variados — tio Nilson entendia um pouco de tudo e aqueles encontros em família eram ricos de discussões acaloradas — e um gole de cerveja, ele me disse:    — Serginho, você que gosta de ler, tenho um livro lá. Vou lhe dar de pre

ALARME >> Paulo Meireles Barguil

23h58 A crônica está sem título e eu busco, numa lista imaginária e em branco, um assunto para escrever.  A situação é crítica, pois amanhã de manhã não terei tempo para realizar o meu ofício quinzenal. E, então, o alarme de algum carro toca algumas vezes. Por sorte para quem está dormindo, ele logo desligou. Também sou agraciado, pois ganhei uma inspiração para redigir. Esses sinais, que costumam ser sonoros, indicam que uma situação foi modificada, ou que poderá ser em breve, sendo necessário implementar alguma atitude para restaurar o equilíbrio anterior ou minorar o inevitável prejuízo.  00h14 Consegui avançar na escrita, mas não tenho a menor ideia de como irei concluir esse texto. Uma coruja, então, avisa que está alerta, esperando o alimento incerto. Numa situação de perigo, o organismo libera adrenalina para que uma ação, lutar ou fugir, seja implementada e possibilite a continuação da vida. O único perigo que vislumbro nesse momento é não dormir bem e comprometer a qualidade d

NEVE NEGRA: PARTE 3

A sombra da Rainha Morta    Em seu estarrecimento, o Rei não percebeu o horror no rosto da feiticeira e nem deu-se conta de que Madorno havia fixado seus olhos no espelho, pendurado logo acima da cama, e pronunciado as três palavras que devem ter sido as últimas a tocarem os lábios da rainha: escuridão, sangue e frio.    O rei parou de se mover. As palavras do anão ecoaram em seu peito oco. Tentou fazer um grito desesperado subir pela garganta, mas na verdade não queria gritar. Parecia flutuar em uma banheira de água morna, desprendido de qualquer contato com o solo.  - Morrer é assim? - estranhou-se. Não sentia nada.  Sua visão agora estava embaçada e uma névoa cinza fechou-se ao seu redor, delineando parcamente uma paisagem monocromática. Uma silhueta começou a tomar forma. Logo ele viu a si próprio e os acontecimentos das últimas semanas desenrolaram-se a sua frente. Não sabemos se ela sobreviverá, disseram os médicos. E ele saíra em busca de Angèlle, coração descompassado no peito.

QUANDO SER >> Carla Dias

Vem assim, em uma languidez incomensurável. Carregar corpo é quase fardo. Carregar espírito é um recostar constante em dúvidas, inconveniências, engasgos. Vai se espalhando, na agilidade das interrupções, elas que são ardilosas e primam pela velocidade-corte, aquela que desanca esperanças, desacredita futuros. Tudo muito profundo, como ela tem evitado que seja há uma vida, sem sucesso. Fosse personagem de ficção, ao menos seria interessante para alguém. Porque alguém é sempre o alguém de alguém, ainda que esses alguéns nunca se encontrem. E esse desencontro, que cai na conta do destino, da falta de boa sorte, do não pertencer a uma história que mereça ser contada, desfalece os planos dela. Usurpa a energia das suas vontades, enquanto ela serve o café a conhecidos de quem não sabe os nomes, as histórias, mas que, todos os dias, enfileiram-se diante dela. Não olham para ela, apenas para suas mãos oferecedoras do líquido quente,  o arranque para a rotina deles.  Uma fraqueza intrínseca se

REVOLUÇÕES CIBERNÉTICAS >> Clara Braga

A primeira e única vez que participei de uma live, já estávamos de quarentena à pelo menos 10 meses! Até hoje não sei quem esteve e participou dessa live, pois conversar e ler os comentários ao mesmo tempo, foi simplesmente impossível para mim! Já reuniões online eu participei de duas, ainda é pouco, mas prefiro olhar pela perspectiva que mostra que foi o dobro de lives. Uma era de fato uma reunião e outra era o aniversário de uma amiga. Porém, as plataformas usadas para cada reunião foram diferentes, o que fez com que eu sofresse em dobro, pois quando aprendi a usar uma, já estavam usando outra! O aniversário online, como era mais descontraído, não me preocupou muito! Mas a reunião realmente me deixou um tanto nervosa, pois foram necessários uns 30 minutos no qual eu mal respirava para não atrapalhar quem estava falando e rezava 30 ave marias em 1 minuto pedindo à Deus para que a cachorra não latisse, até descobrir onde ficava o botão para deixar o microfone no mudo! Outra coisa que r

HOME OFFICE >> Albir José Inácio da Silva

                                                                                                Março   O homem certo no lugar certo - era assim que se enxergava o Plínio no trabalho e na vida. Pelo menos até ser atropelado pela “prisão domiciliar”, que era como chamava o isolamento promovido pelos “maricas” que queriam parar o país.   Apesar do medo que assombrava o planeta e da ojeriza que sente pelo “fique em casa”, Plínio não podia dizer que não estava gostando. A mulher, companheira impecável de tantos anos, os filhos, seu orgulho, a quem nunca pôde se dedicar. Precisava recuperar o tempo com as pessoas mais importantes de sua vida.   Homem dinâmico que acreditava no mercado, na pátria e na produção, era também um homem prático, que se adaptava rapidamente às situações.   Ainda mais se a situação não tinha despertador, nem trânsito, nem correrias.   Compras por telefone, reuniões por vídeo, um cafezinho, conversa com os filhos, fotos antigas, nostalgia. Sim, estava g

DILEMAS DA EDUCAÇÃO >> Cristiana Moura

Eu já estava quase pronta quando, cedinho da manhã, Miguel entra no meu quarto  —Vovoooó!!! Exclama em voz alta. — Migueeel!!! Retribuo a exclamação. Eu estava terminando de me vestir. Coloquei a máscara e foi quando ele perguntou: — Você já vai sair? — Vou sim. Rapidamente, sem sequer mover o pescoço , lançou um olhar abrangente, considerando a pessoa miúda de quatro anos incompletos que é, sobre todo o território. Olhou nos meus olhos e questionou? — Antes de arrumar o seu quarto?

O LIVRO DOS CARREGADORES - 3ª parte > > Zoraya Cesar

Resumo dos capítulos anteriores: O Carregador, envenenado pela Morte Violeta, não conseguiu impedir que um demônio roubasse sua preciosa carga. Mas, antes de morrer, logrou marcar o Livro com uma magia de rastreamento e, ao mesmo tempo, clamar por ajuda. Quando a Dama dos Portais veio buscá-lo para a Outra Vida, ela não veio sozinha. A invocação do desventurado Carregador fora ouvida.  ---------------- O Carregador, agora era, realmente, uma reles casca vazia. Sua ânima despregou-se do corpo e foi ao encontro da Dama dos Portais, que a absorveu num suspiro de nuvem. A partir desse momento, o Carregador entrara, definitivamente, no Outro Mundo.  A Dama dos Portais voltou-se para o homem que a acompanhara e acenou levemente com a cabeça, despedindo-se. Ainda havia muito o que fazer. Sempre havia.  ----------------------------- O homem, à primeira vista, parecia comum. Olhando mais de perto, porém, percebiam-se algumas peculiaridades: seu rosto não era jovem e sua expressão, severa, combi

NÃO HAVERÁ CARNAVAL >> Whisner Fraga

 este ano não tem carnaval?, a menina abeira, mas podemos pôr lady gagá? (gagá mesmo, rimos), podemos, e dançar também?, podemos, na piscina?, podemos, e a gente que achou que seria por decreto, né?, que seria por decreto que não haveria mais carnaval, né?, o vírus é o decreto, né?, brinquei, eu, você e mishinhi?, sim, nós três, posso passar batom?, pode, posso ir de cosplay?, na piscina?, melhor não, né?, melhor biquini, né?, mas vai ter dança mesmo?, vai, nossa, esse vai ser o melhor carnaval de todos, vai.

O INSANO >> Carla Dias

Olham para ele abismados, cochichadores ininterruptos de atrocidades pertencentes aos outros. Ele sabe o que eles pensam, não por ser um leitor de mentes ou se encaixar em qualquer cargo sobrenatural. Está claro no olhar deles, na forma como seus corpos recuam, indicando que deles não sairá esforço que seja para ajudá-lo. Está escancarado, mas ainda assim, somente o insano enxerga. Ele se comporta elegantemente, curvando-se para reverenciar seu público. Estão ali para conhecer a sua história e depois voltarem para suas casas com a certeza de que a vida que têm é melhor do que a dele. Nestes tempos em que não se sabe mais o que é loucura e o que é desespero, ele é o maestro da orquestra que coloca um pouco de lucidez na loucura divagante da solidão que assola o mundo. Não olhe para o lado, porque não adianta. É a solidão acompanhada, caros espectadores! É o que lhes resta, depois de tanto esforço para se resguardarem do que mesmo? Do que é dolente.  O mentecapto fica em silêncio, até qu

Alice >> Alfonsina Salomão

Kintsukuroi. Há dias a palavra ressoava em sua mente, como um desses refrãos de música sertaneja que grudam na cabeça e voltam cada vez que tentamos mudar o rumo do pensamento. Kintsukuroi. A palavra ia e vinha, tal uma garrafa pet largada na praia e resgatada pelas ondas do mar. Kintsukuroi. Alice mal tinha posto o pó de café no filtro e a palavra já estava na sua cabeça, kintsukuroi . Bebia o café pensando nas coisas a fazer, ia para o quarto se vestir e a danada voltava, kintsukuroi . Punha os sapatos, atravessava a porta de casa, cruzava os olhares das pessoas na rua e o termo reaparecia, kintsukuroi . Isso durava o dia todo, até o momento em que os pensamentos se misturavam desordenadamente em sua cabeça e enfim adormecia, tarde da noite. Já fazia uma semana que os dias corriam assim, à sombra da palavra japonesa, kintsukuroi. Desde que a ouvira pela primeira vez.    Tinha sido na casa de Tomoko, uma amiga sansei que conhecera nos tempos de faculdade. Tomoko havia acabado

CENAS DO QUE SE TEM PRA HOJE >> Sergio Geia

  Nesses últimos dias ando bebendo. Uma bebida amarga, às vezes doce, às vezes uma bebida que não desce; em outras, que desce macio, que faz rir, mas sempre com o mesmo poder, de bebida que bagunça coisas lá dentro. Sinto-me um estéril, ou como se álcool estivesse a me tontear, como aconteceu numa festa, foram sei lá quantas doses. De manhã, quando o silêncio se mistura à brisa fina, eu vou. No meio da tarde, quando o calor já sufoca, eu vou. À noite, quando tudo está acabando e o Pops já baixou a porta, eu vou. Quanto mais bebo dessa bebida mais dá vontade de beber. Mas ela é finita e não há outra fonte. Ela, a fonte, não existe mais. Morreu.  Acordei hoje com a notícia estampada em sua rede social: o câncer na mama, metástase, insensibilidade de um médico estúpido que só soube perguntar se ela tinha grana pra custear o tratamento. E ela contando tudo em detalhes, pondo a cara à mostra, sem vergonha, forte, registrando, fotografando. Uma guerreira, eu pensei, uma guerreira que não tem

CASTIGO >> Paulo Meireles Barguil

Quem nunca escutou e falou (em voz alta ou baixa): "Você vai ficar de castigo!"? Essa frase pode ser uma ameaça ou a sentença fruto de um julgamento, o qual não precisa ter respeitado o princípio do contraditório, nem ser passível de recurso. As punições podem ser temporárias ou eternas. As unidades de medida das primeiras são minutos, horas, dias, semanas, meses e até anos. As demais são mais simples, pois dispensam a Matemática, sendo o exemplo mais conhecido, e que muitos creem, o que foi aplicado por Deus em Adão e Eva. Elas também variam quanto à dimensão humana que a recebe diretamente, corporal ou emocional, pois, independentemente do destino, a pessoa é integralmente atingida. A mão é, de longe, o principal órgão implementador da pena corporal, podendo ou não utilizar um instrumento para materializá-la: palmada, chinelada, cintada, açoitada, tapa, pedrada, murro... Em relação à pena emocional, a língua é o mais importante arauto, mediante ofensa ou silêncio, embora nã

NEVE NEGRA - parte 2 -- Nádia Coldebella

O nascimento da Herdeira       A rainha esperava um filho.. .. Havia quem dissesse que a ordem havia voltado ao palácio, mas desde seu adoecimento, a rainha nunca mais fora a mesma. Poucos sabiam que, antes de partir, Esternuto grasnara sobre o afeto que o Rei nutria pela feiticeira. E ninguém sabia que ela, em seu íntimo, desprezava a criança que crescia em seu ventre, que lhe roubava a beleza e a vitalidade. Elora não saia mais para as visitas costumeiras e permanecia muito tempo nos jardins reais. Só que não cantava mais, apenas se punha sentada, quieta, de testa franzida, rosto cansado e mãos sobre o ventre.  Quase não falava, mas era comum perceber seus suspiros profundos, seguidos de gemidos que pareciam ser de dor e consternação. Já era novamente inverno quando o nascimento da criança anunciou-se. No aposento real, o fogo crepitava na lareira, presenteando a rainha com chamas alaranjadas e bruxuleantes. Ele arriscava-se e compunha uma coreografia lúgubre nas paredes

OLHA QUE OLHAR ESTRANHO TEM O ESTRANHO QUE ATRAVESSA A RUA DO MUNDO DA LUA >> Carla Dias

Olha que olhar estranho tem o estranho que atravessa a rua do mundo da lua. Ele que sabe de cor o verso e o esconde do mundo por medo de o tempo lhe roubar a clareza do sentimento.  Que estranho esse estranho de olhar estranho atravessando a rua dos sentidos e dos ressentidos. Suas largas passadas tão lentas, maratona em  slow motion . O infinito lhe angustia de um jeito, que só lhe resta apertar o passo para alcançar quem lhe queira, ainda que estranho de olhar estranho e ainda mais estranho destino.  Quem me quer?  ele berrou no meio da rua do mundo da lua, em tom esganiçado, em dia de desespero descarrilado. O silêncio ecoou fascinado por ele, o estranho de olhar estranho, de andar estranho, de mãos enveredando pelos cabelos do vento, pensamento tentando catar explicação para essa solidão de homem de olhar estranho, que almeja afeto que lhe ofereça beijo. Mas veja que o olhar estranho do estranho que atravessa a rua do mundo da lua, busca palavra no muro que lhe salve da solidão, qu

O USO DAS PALAVRAS E AS PALAVRAS EM USO >> Clara Braga

Grandes acontecimentos geram grandes mudanças. Não podemos afirmar se essas mudanças serão positivas ou negativas, mas não podemos negá-las. Assim como não podemos negar que grandes acontecimentos coletivos geram grandes mudanças coletivas. Sim, esse é um texto sobre a pandemia, outro texto sobre a pandemia. Mas prometo que vou compartilhar uma perspectiva diferente. Se você já chegou até aqui, te convido à ir até o fim, serei breve. Você já parou para reparar as mudanças que a pandemia proporcionou ou intensificou no nosso vocabulário? Para me explicar, começo do básico: vamos pensar sobre a palavra quarentena. Antes, essa palavra não era motivo de aflição e pouco estava relacionada à questões econômicas. Ah, também é preciso ressaltar que ela normalmente se referia à um período de, aproximadamente, 40 dias. Embora isso nunca tenha sido uma regra, hoje, no nosso "novo normal", parece até piada. Já que mencionei o fato de que o uso da palavra quarentena agora pode gerar angús

O VERBO >> Albir José Inácio da Silva

  -Seu marido foi embora, né? - Como é que a senhora sabe? Eu ainda não falei nada. - Iemanjá sabe tudo, minha filha. - E o que mais diz Iemanjá? -Iemanjá diz “trago seu homem em três dias”. Pagou, beijou a mão da madame e saiu com o coração aos pulos. Será? Deve ser. Iemanjá não mente. Devia ter vindo antes. Tantos meses de sofrimento. Um dia ele pegou a mala e disse vou pra São Paulo. Não teve choro, nem desmaio, nem pergunta que ele respondesse. Viu quando entrou no ônibus sem se virar. Andou como louca pelas ruas, depois foi pra casa e chorou todos os dias. Não é que não acreditasse. É que sua desgraça era tanta que achou que não tinha jeito. Só com muita falação das comadres é que resolveu fazer a consulta. Agora era esperar. Três dias. No primeiro dia vieram dizer que ele tinha chegado no ônibus das seis. Arrumou a casa , fez o peixe e comprou a cachaça. Ele não veio. No segundo, soube que ele perguntou por ela. Lavou os cabelos, botou perfume, e ele não veio.

O LIVRO DOS CARREGADORES - 2a parte >> Zoraya Cesar

O Carregador sentiu que a Dama dos Portais não tardaria a chegar. E soube que não conseguiria cumprir sua missão, sequer levantaria daquele banco, não sobreviveria à noite.  Era um pesquisador, mais afeito a combater o fungo dos livros e a decifrar manuscritos que a enfrentar demônios. Mas era, acima de tudo, um Carregador. Provido da coragem própria dos de sua profissão. E, mesmo estando derrotado, ainda poderia dar uma chance de o Livro chegar a seu destino.  - Vamos, vamos, seja razoável. Me entrega logo esse pacote. Não vê que fracassou? Não quero ter de quebrar seus braços. - A mulher fez um muxoxo irônico, demonstrando cabalmente que, ao contrário do que dizia, não teria pejo em perpetrar algum tipo de violência. O Carregador, por entre a mente enevoada, a boca entreabrindo-se, um filete de baba arroxeada escorrendo, olhou para ela, balbuciando fracamente palavras indistinguíveis, enquanto tamborilava o embrulho com seus dedos frágeis. A mulher piscou várias vezes, divertindo-se.