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Mostrando postagens de 2021

(IN)DISPONÍVEL >> Paulo Meireles Barguil

Entre direitos e deveres, (sobre/sub)vivemos. Há pessoas que, independentemente da idade cronológica, acreditam que o Universo existe para lhes satisfazer. Comprometidas com o seu prazer, elas não se preocupam com o bem estar alheio, apenas, é claro, se isso lhe beneficiar. Para outras a vida é uma infindável jornada de tarefas, realizáveis ou não, pois são reféns de condições materiais e/ou psíquicas extremamente adversas.  Obrigadas a comer dos frutos obtidos do suor do seu corpo e da pureza da sua alma, elas, raramente, conseguem, sozinhas ou com a ajuda de alguém, pagar o resgate e se libertarem do fardo insuportável. Poucas são as que equilibram, mesmo com frequentes e inesperadas oscilações, os aspectos constituintes do existir. Atentas e cuidadosas, elas se sabem intimamente ligadas a todas criaturas e ao Cosmos, motivo pelo qual são comprometidas com a mutação do mundo, que reputam como histórico, ou seja, não determinado. Sem dúvida, atender as múltiplas e contraditórias deman

A MULHER DOS GATOS >>> Nádia Coldebella

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Eu, literalmente, sou a mulher dos gatos. Uma mulher dos gatos não é uma dona de gatos. Os gatos é que moram com ela. Geralmente são achados, adotados, acolhidos. Aqui na minha casa moram cinco, dois de propósito, três por acidente. Pantufa, Samantha, Nutella, Y. e Agatha, a gata. Mas é lógico que não chamo nenhum pelo nome de batismo, prefiro um bom apelido ou um nome estranho. Samantha - vulga Sami, SamiCleusa ou Sami-anta, quando faz besteira - é branca como um floco de neve. Minha filha mais velha, Stella, uma criança autista pra lá de criativa, foi quem a encontrou, trouxe para casa dentro de uma bolsa e a batizou. Tudo por causa de uma cena de Frozen 2, em que Olaf, procurando seus amigos, grita: - Ana, Elsa, Samantha... Quem é Samantha? Eu nem sei quem é Samantha! - A piadinha ficou repetitiva, como é típico nesses casos naquela cabecinha, e só cessou quando a gata foi batizada. Uma gata gentil, firme e delicada. Uma fofa. Samantha é uma das gatas de propósito. Os três filhotes,

À MÃO >> Carla Dias

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Às vezes, ele me faz sentir assim: inútil. É um tempo longo desperdiçado em espera vã. Ainda bem que o sofá é confortável. Já me afundei nele mil vezes nas últimas horas. Só que diante da repetição, sem qualquer ação para justificar tantas pausas emendadas, não tarda para o meu relacionamento com o sofá azedar, desconfortar. Sei que estou na lista dos sujeitos-objetos mais abjetos dos últimos tempos, ao menos lá na repartição, onde detestam que eu apareça. Sou das poucas beneficiadas com a distância oferecida pela tecnologia.  Às vezes, ficar à toa até me agrada, faz o sangue circular tinindo. Tinta. Faz a tinta que circula nas minhas veias se desesperar em busca de saída. Querer se escoar de mim, abandonar as estreitas vias de acesso ao desimportante. Ele tem prazer em escrever à mão. A irmã volta sempre ao assunto das árvores, da natureza quase morta feito a retratada por alguns pintores de quadros. Insiste para que ele compreenda que as folhas de papel abandonadas sobre a sua escriv

UM DIA DE NÃO >> Albir José Inácio da Silva

  Um dia ele amanheceu sem dores, e a mulher não reclamou de nada. Os filhos não pediram dinheiro nem brigaram antes de sair pra escola. Não recebeu nenhum telefonema de cobrança e, diga-se, o telefone nem estava cortado. Não viu o jogo ontem - nem sabe o porquê - mas seu time não perdeu, ou o vizinho já o estaria sacaneando aos berros. Naquele dia também não teve que sair de madrugada com recortes de empregos para ouvir nãos e voltar com tristeza, cansaço e fome. Não o fizeram acreditar que era um fracassado, e uma espécie de conselho de família e amigos, embora reunido, não concluiu que ele era imprestável e preguiçoso. Passaram apressados e olharam como se, pela primeira vez, se preocupassem com sua doença. Depois de muitos anos não ficou triste ao acordar, não teve vontade de se matar, não rezou sem fé, nem se arrependeu de nada. Bastava! Não ia mais aturar desaforos. Quem pensam que são? Como diz Pessoa em linha reta, estão sempre campeões em tudo? São semideuses? Só ele é

FÉRIAS >> Sandra Modesto

 A cronista Sandra Modesto está de férias.

UM BREVE ADEUS – uma aventura de Marta Atanasiou – espiã e assassina - 2a parte >> Zoraya Cesar - setembro 03, 2021

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A mulher era pequena e magra. Uma aparência frágil que já fizera muitos desavisados pagarem com a vida sua ingenuidade. Por alguns segundos o bar ficou em silêncio. Respirações suspensas, gestos parados no meio do ar: "ela" chegara. Marta Atanasiou, uma lenda da espionagem e das mortes perfeitas. Um dos raros agentes, como o homem que entrara antes dela, que conseguira se aposentar.  Vestia-se de preto e de Chanel, da cabeça aos pés, incluindo a bolsa, na qual trazia sua pistola preferida, a Glock G21, adaptada para canhotos. O elegante corte nos cabelos inteiramente brancos – excetuando uma única mecha preta na franja - deixava à mostra seu pescoço branco, fino como uma palmeira. Intenso brilho luzia por trás das lentes dos óculos de aros azuis. Portava uma bengala de cedro do Líbano, que ocultava uma lâmina forjada pela mais tradicional cutelaria de Toledo. Aquela arma já matara mais gente do que nossa vã imaginação gostaria de pensar. Se a velhice não abatera sua saúde ou

CONFORTO >> whisner fraga

a paineira e um redemoinho de cores, a manhã desliza pelo vento, esperando essa contemplação, as pessoas tombam como gravetos, mas lá fora, os disparos, as fomes, as violências não alcançam o quarto, ao menos hoje, quando a beleza estremece, mesmo com as janelas imitando fronteiras, é tudo macio, a menina e as músicas incomuns, as ninharias inesperadas, e tudo é do tamanho de uma ansiedade, menos o tempo e suas teias derramadas vida afora, a menina ainda não percebeu a brutalidade das horas, a menina e seus desenhos interpretando vastidões, o eco de um ronronar, a ressonância de corpos demolidos, mas lá fora, os dias atravessam o vidro e esmagam cuidadosamente os ciclos, e os olhos se acovardam diante da verdade, o que fazer, menina, se todos caem?, onde arrumaremos mãos para erguer essas carnes desprezadas?, é justo que tudo fique lá fora?.

O AFOITAMENTO DO SUSPIRO >> Carla Dias

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Reprime o suspiro. Sente como se engolisse comida ruim, aceitasse chantagem, tivesse de resumir a si em três palavras que nem sabe quais são. As paredes falam, as horas passam, tudo e todos se manifestam e ela assim, calada por precaução. Vai que deixe escapar suspiro que não sabe se comportar. Está ciente de que precisa tentar domá-lo, pois o dito adora um prolongamento de fazer os olhares dos outros se espantarem com atrevimento sonoro-emocional. No entanto, suspirar não faz parte da pauta da reunião. Só que o suspiro caminha por dentro, atiçando seus sentidos, mostrando-se incapaz de se retirar em silêncio, dar-se por vencido. O suspiro se atraca com elas, as palavras, e as muda de lugar, leva as tais para um passeio proibido em horário comercial, quando um suspiro pode criar instabilidade profissional. Quando vem sem avisar, bancando o amplificador de dor de coração partido, o fôlego se exibe, porque sabe que não é de frequentar esquecimento. Ela sente o suspiro represado se rebela

Saudade azul >> Alfonsina Salomão

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Saudade azul. Desde quando saudade tinha cor? A esperança era verde, a raiva vermelha... Sim, a saudade também deveria ter sua cor, e o azul parecia apropriado. Não dava para ser amarelo, porque saudade nunca amarela... Rosa era uma cor por demais feminina, e o laranja muito ensolarado. Preto e violeta eram fúnebres. É verdade que às vezes a saudade doía tanto que dava vontade de morrer, principalmente quando era saudade de alguém que já se fora. Mas a maior parte do tempo era apenas melancólica.   Então decidiu: saudade azul. E agora, como continuar? Como descrever isso que me acostumei a chamar de saudade, mas desconfio seja mesmo solidão? Seria saudade azul o mal-estar que não me deixa sair da cama quando acordo, fazendo-me relançar o alarme diversas vezes antes de abrir os olhos? Que torna o gesto seguinte, o de colocar os óculos, um esforço? Que me leva a ficar meia-hora lendo bobagens no celular antes de ter coragem de botar os pés no chão?   Depois o dia engrenava e a saudade az

APENAS UM RETRATO >> Sergio Geia

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  Retiro o porta-retratos da estante, desloco-o até minha mesa de trabalho. Quero observar enquanto escrevo. Há dias penso nisso.    Céu branco, o dia era frio. Eu tinha farto cabelo castanho. É possível ver na fotografia os tufos crescendo sobre a nuca e ameaçando descer pelas costas. Uma blusa de moletom azul e branca, a gola de uma camisa escura para fora no pescoço. Nas minhas mãos um violão de tampo bege, eu toco e canto.    Talvez 1988 ou 1989. Tempos em que eu acalentava sonhos, que tocava guitarra e cantava num grupo de rock.    Ao lado, Darci faz um si maior no meu violão, um Giannini comprado do Hugo Cursino, tampo laranja, pequeno, bem jeitoso, gostoso de tocar. Darci era magro e cabeludo, assim como eu, e não usávamos óculos. Ao seu lado, Érito no pandeiro, e o saudoso Fabinho Monteiro no chocalho feito de latinhas de refrigerante. Os quatro tocam instrumentos e cantam, menos Fabinho, que parece carregar um cigarro no canto da boca.    Estávamos num palco erguido no pátio

FARSA >> Paulo Meireles Barguil

No contexto teatral, conforme o Houaiss, ela é uma pequena peça cômica, com gracejos e situações ridículas, bem como qualquer coisa de caráter burlesco, que provoca riso ou zombaria. Conforme a mesma fonte, ela também pode significar ação ou representação que induz ao logro; mentira ardilosa, embuste. A depender da perspectiva da pessoa, um acontecimento pode ser interpretado de uma forma ou de outra, sendo esta antagônica daquela. A Humanidade sempre teve burladores, alguns mais hábeis do que outros, tal como acontece em todos os ofícios, seja em uma perspectiva ou em outra. Desafio, sempre atual, é identificar personagens burlantes, pois o discurso e o gesto vigorosos costumam inebriar as plateias, sedentas e famintas de justiça e igualdade. Desolado, sinto-me, quanto percebo que poucos no palco diminuto, de um lado ou de outro, querem realmente interromper a tragédia, a qual é ignorada, embora intensamente vivida, pela multidão. A despeito deste roteiro e cenário, para os quais não

A MENINA E O GIRASSOL >>> Nádia Coldebella

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Um dia a menina resolveu que já podia amar. Tinha o coração puro, o espírito livre e um amor como o seu muitos iriam querer - isso era óbvio para todos, mas não para ela, que agora decidiu passear por campos floridos que desconhecia. Arrumou a pequena mochila dos seus tempos de criança com as coisas necessárias para a pequena viagem. Saiu de casa cheia de expectativa e temor, coração batendo forte e descompassado.  Logo seu coração amainou-se diante da beleza do campo. Flores de todos os tipos, cores e tamanhos lhe lançavam seu perfume e demoravam-se em performances estudadas, na tentativa de atrair seu olhar. Embora lindas, as flores não lhe falavam ao coração, pois estavam mais interessadas na própria aparência: - Oh, menina... - dizia uma rosa mirando seu reflexo numa pequena poça de água - Veja como sou bela!  - E sinta o meu perfume! - dizia uma orquídea, covardemente agarrada ao tronco de uma árvore – Eu permito que você sinta, mas poucos terão este prazer. - Olhe para mim! – gri

SOMOS >> Carla Dias

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Tira um maço de cigarros do bolso do paletó. Insiste na repetição mental da frase mágica que o tem salvado de quebrar promessa: mais um dia sem fumar. Anda com o maço de cigarros no bolso, porque precisa ser lembrado do que deve esquecer em nome da saúde (pigarreia ao devolvê-lo ao bolso) e da promessa que fez a quem não vem ao caso, por conta do que não interessa. É apenas um homem que precisa trabalhar arduamente para pagar promessa e plano de saúde. Sou um feixe de luz a mparando dolências que amargam olhares, tr ansfiguram semblantes? Para ela não é problema encontrar-se com a solidão no começo da noite, depois do expediente, nem mesmo nos fins de semana, enquanto os barulhos da rotina incluem o programa de auditório no último volume vindo da televisão da vizinha quase surda.  Apropriou-se da solidão antes que ela a esvaziasse. Há muito tempo a vem preenchendo com palavras cruzadas, experiências culinárias, descobertas científicas necessárias na sua área de atuação profissional, ob

CONHECEREIS A VERDADE >> Albir José Inácio da Silva

  No início ninguém ligou muito, só a mãe percebeu, mas agora todos se assustaram. Quem era aquele novo ser? Bindito, como o chamava a avó, começou a evitar as reuniões de família e passava o dia em frente ao computador. Na mesa do jantar não brincava, não ria, não tirava os olhos do celular e era defensivo nas respostas, quando respondia. Piorou quando ele trocou o silêncio por discursos agressivos, evocando conspirações e ameaças dos inimigos. Inimigos eram quase todos: a ONU, principalmente a OMS, os cientistas – todos satanistas, os gays e as universidades públicas. E desconfiava até de alguns membros daquela família, avisou. Eu conheci Benedito quando a Terra ainda lhe era redonda.   Falava do amor cristão sem fogueiras, fuzis ou metralhadoras. Gostava de ler e conversar, escrevia versos açucarados e era só gentileza. Um “fofo”, como diziam todos. Nunca foi afetado pelas más influências. Pelo menos não naquela época. Mas agora ele pregava cloroquina mesmo quando Trump paro

FÉRIAS >> Sandra Modesto

  A cronista Sandra Modesto está de férias.

GENTE QUE NÃO (EN)CAIXA << Cristiana Moura

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O ser humano é mesmo assim: tende a querer segurança. Quer mudar e nem sempre quer mudança. Eita bicho esquisito é esse bicho gente! Tem essa gente que gosta de ver outras gentes em caixas. Quer se ame a caixa ou não, se for caixa, bem fechada, bem vedada, já é algo — som de segurança. Que segurança é essa? Mulher negra, bisexual, mãe de Gabriel, ex-esposa de Nauplio, avó de Miguel, sogra de Raisse, namorada de Alessandra. Essa sou eu. Ah, minha gente bonita, me deixa gritar! O amor não depende dos órgãos genitais que você carrega! Pois é, é possível. Vocês tem medo? Talvez. Temor de macular a tal monogamia. Receio, traição, fantasias. Meu povo, amar tem genitália fixa não! Amor tem buceta, pau, punheta! Amor é entrega, cuidado, carinho, admiração desvelada. Ora aqui, ora ali, sei que incomodo. Lamento moça. Lamento moço. Esse incomodo é seu. E caixas, ah... essas caixas não me cabem mais! Imagem disponível em: http://lounge.obviousmag.org/espaco_da_palmitcha/2016/05/sobre-pensar-fora-

UM BREVE ADEUS – uma aventura de Marta Atanasiou – espiã e assassina - 1a parte >> Zoraya Cesar

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O bar era tão escondido que nem letreiro tinha. A rua inteira de galpões abandonados tinha um único lampião, cuja luz era suficiente apenas para iluminar uma porta verde oliva descascada e velha. Alguns carros e motos se espalhavam no meio da escuridão.  Atrás da porta, um bar restrito a sócios bastante especiais: aqueles seres perigosos e exóticos que viviam nas camadas mais profundas do submundo, desconhecido das pessoas comuns, como nós.  Era um lugar exclusivo para as gentes que andam nas sombras, contraventores, policiais, detetives, espiões, ladrões internacionais, traficantes de bebidas, assassinos de aluguel de alta categoria, strippers, músicos underground, lutadores clandestinos, jogadores profissionais...Todos eram bem-vindos, desde que soubessem se comportar e fossem indicados por outro sócio. Lugares como aquele havia em todas as partes do mundo. Escondidos em ruas desertas e assustadoras, docas, hangares abandonados.  ------------------------- Era uma espelunca bem cuidad