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Mostrando postagens de Outubro, 2014

CALIGRAFIA E GARATUJAS >> Paulo Meireles Barguil

— Seu registro geral está vencido! — sentenciou o atendente.

— E ele tem data de vencimento? — indaguei surpreso.

— Não e sim. Oficialmente, não. Mas o seu tem mais de 30 anos. Sugiro você providenciar um novo — foi o que ouvi.

Admito que minha foto no documento não me agrada e que, há muitos anos, cogito trocá-lo.

O motivo de eu ainda não ter materializado tal intento é devido eu ser uma pessoa otimista e paciente, pois acredito que o número único de Registro de Identidade Civil, instituído pela Lei nº 9.454, de 07 de abril de 1997, será implantado quando eu ainda estiver vivo.

A Lei previa, no seu artigo 6º, que "[...] No prazo máximo de cinco anos da promulgação desta Lei, perderão a validade todos os documentos de identificação que estiverem em desacordo com ela.".

Desnecessário dizer que tal dispositivo foi ignorado, tendo sido revogado somente em 2009...

Ou seja, durante 7 anos, os brasileiros utilizamos documentos sem validade!

Advogados de plantão, sirvam-se à vontade dess…

PERDAS E MUDANÇAS >> Mariana Scherma

Uma vez, em uma aula bem frustrante de física, no primeiro dia do curso pré-vestibular, com vários alunos que queriam estar em qualquer lugar menos naquela sala, meu professor disse: “as coisas mudam quando vocês menos esperam, não desanimem”. Pra muita gente ali, soou como blábláblá motivacional, eu fiquei com aquela frase na cabeça ressoando até o fim da aula. Motivo: tinha esperança de ser chamada pela faculdade, já que era a primeira da fila de espera. Para todo mundo, minha situação no cursinho já tinha data pra acabar, mas eu sempre fui do time de São Tomé e só acreditava vendo.
Não se passaram nem dois dias, minha mãe surgiu com o maior sorriso do mundo na janela do cursinho. A faculdade tinha me ligado na sexta-feira e eu precisava me apresentar na próxima segunda. Desde esse dia, tive certeza de que as coisas mudam mesmo – e é quando a gente menos espera. Talvez hoje eu esteja escrevendo sobre mudanças porque estou morrendo de saudade daquele sorriso enorme da mami. Faz dias, …

A MÚSICA DISSE... >> Carla Dias >>

Minha mãe cantando para nós, os filhos, enquanto lava a louça: “Derrubei pau a machado/ E o mato fino rocei/Depois que o mato secou/Eu botei fogo e queimei”, melodia triste, letra ainda mais triste. Ainda assim, uma lindeza. Meu avô lá na sala, lustrando o seu sapato: “Acorda, Maria Bonita/ Levanta e vai fazer o café/Que o dia já vem raiando/E a policia já está de pé”.

“Marmelada de banana/Bananada de goiaba/Goiabada de marmelo/Sítio do Pica-Pau-Amarelo”, e a minha avó cozinhando feijão no fogão à lenha para o jantar, em tempo de, depois do Sítio, assistir à novela: “Vida de negro é difícil/É difícil como quê/Eu quero morrer de noite/Na tocaia me matar/Eu quero morrer de açoite/Se tu negra me deixar”. Lerê, lerê.

“The warden threw a party in the county jail/The prison band was there and they began to wail/The band was jumpin' and the joint began to swing/You should've heard those knocked out jailbirds sing/ Let's rock, everybody, let's rock/Everybody in the whole cell…

MAS LOUCO É QUEM ME DIZ >> Clara Braga

Imagina só, um belo dia você está passando por aquele mesmo lugar que sempre passa, mas se depara com algo que não estava ali. Um balanço! Sim, esses balanços de parquinho de criança! Não negue, você não daria pelo menos um sorriso? E se você se permitir ser um pouquinho mais ousado, irá parar o que está fazendo e irá balançar no balanço. Aí sim você irá abrir um belo sorriso!
E se estivesse saindo de casa e se deparasse com uma flor ou uma árvore plantada no seu jardim com o seguinte recado: com amor, jardineira secreta. Com certeza passaria o resto do dia se perguntando quem seria a tal pessoa secreta e porque ela escolheria justo o seu quintal para plantar uma flor?
A verdade é simples assim, algumas pessoas ficam felizes simplesmente por fazerem outras pessoas sorrirem, nem que seja por alguns minutos. E essas pessoas, as que realmente fazem pelo prazer de fazer, não precisam se identificar, não esperam algo em retorno, um prêmio, nem um muito obrigado, elas apenas curtem a sensa…

AINDA ESTAMOS LONGE >> Whisner Fraga

Tenho lido intelectuais defenderem que esta eleição nos entregou um país dividido, que os candidatos contribuíram para aguçar posições opostas. Não acho que foi o pleito que segmentou esta nação em pobres e ricos, em analfabetos e letrados, em negros e brancos, em sim e não: foi a sua história. Essa divisão começa com nossa história e talvez a transparência (ainda engatinhando) que vivemos hoje nos tenha alertado para a existência dessas diferenças, tão profundas em um povo que se proclama sem preconceitos.

Notei, por parte dos militantes, que havia uma tentativa de convencer o adversário de que seu candidato era o melhor. Faz parte da democracia. Neste clima de disputa acirrada, ocorreram vários excessos. Amigos se desentenderam, conhecidos brigaram. Espero que, a partir de amanhã comecem a reparar seus equívocos e tentem reatar esses laços. Muitos boatos foram espalhados, revistas e jornais escancararam sua preferência, de um lado e de outro. Esperamos que quem for eleito puna devid…

TENTANDO CONSEGUIR >> Cristiana Moura

Não havia cabimento em fingir-se triste ou tensa, mas tanta alegria em tempos adversos a constrangia.

— Tá conseguindo estudar?
— Tô tentando conseguir.

Tentar já lhe bastava. Não exigia muito nem de sei mesma, nem dos outros. Este deve ser o segredo da alegria de Clarice — ela se contenta. Ela só ainda não sabe chorar. Talvez por isso, vira e mexe, senta  falta de ar.

— Viver, por vezes, tira-me o fôlego — ouvi-la dizer certa vez.

Tanto sua alegria, quanto seu desassossego marcaram encontro com aquele moço. Philos mexe com ela. Pode contar nos dedos de uma só mão as vezes em que se encontraram. No entanto, se sente como se o conhecesse há vidas. Ele acredita que o que ela sente é só desejo. Mas como dizer só em se falar em desejo? O moço do Sul não percebe toda a intensidade e urgência de seus sentimentos.

Clarice não tem grandes conflitos. Gosta do trabalho, segue seus estudos. Tem boas relações familiares. Seu filho já é grande e bem encaminhado. Parece uma mulher comum. Mas toda e…

INVEJOSO >> Zoraya Cesar

Espichou o pescoço acima do muro e olhou longamente para a grama do vizinho. Que, se não era mais verde, parecia mais apetitosa. (Não que Antonio fosse um ruminante no sentido estrito da palavra – talvez no sentido lato, vejamos). 
Sua esposa seria definida como “mulata sestrosa”, se ainda soubéssemos o que isso significa. Todos diziam que Antonio era um homem de sorte: cama, mesa e banho, ela dava conta de tudo, com louvor. 
Algumas pessoas, no entanto, nascem com o germe da verde, pegajosa, jamais assumida inveja. O invejoso nunca se contenta com suas posses e haveres; mesmo vestindo Armani, cobiça a camiseta Renner do vizinho. Quase uma doença, não fosse mau-caratismo mesmo.
Falávamos de apetites, então, e também de mulheres, gramas, muros e o que mais? Ah, vizinhos. Cortemos as psicanálises e entremos diretamente no terreno alheio. 
Moema, a mulher do vizinho (que, ao contrário da letra do João Bosco, não sustentava  qualquer vagabundo), era uma coisinha franzina e esquálida, lou…

O PREÇO DE SER DE VERDADE >> Fernanda Pinho

Acabei de ler um livro que me marcou bastante. Chama-se “A Extraordinária Garota Chamada Estrela”, do autor Jerry Spinelli. Estrela tem um rato de estimação, fica feliz quando seu time faz cesta no basquete (mas quando o outro time pontua, também), distribui cartões de aniversários para desconhecidos, usa as roupas que gosta (e isso pode ser um vestido que esteve na moda duzentos anos atrás), tenta trazer um pouco de alegria tirando canções de seu ukulele que leva sempre a tiracolo. Num primeiro momento, junto com o impacto de sua chegada à escola nova, Estrela desperta simpatias. Afinal, este livro nada mais é que uma delicada e verdadeira metáfora da vida. 
E a princípio somos assim. Grandes admiradores da autenticidade. Capazes de fazer discursos inflamados defendendo a liberdade de cada um fazer o que quiser, respeitar as próprias convicções, seguir o que seu coração manda, persistir nos seus sonhos, manter relações com quem se sente à vontade, construir seu próprio caminho. Lind…

O DIÁLOGO >> Carla Dias >>

O que mais vem me impressionando nessas eleições é o comportamento de alguns cidadãos brasileiros, os reais detentores do poder de mudança que tortamente defendem. Ofensas são jogadas ao vento sem a menor preocupação sobre a quem elas vão atingir. Opiniões pessoais são tratadas como verdade irrefutável, o que somente colabora com a intolerância.

Dizem que é melhor não se falar sobre futebol, política e religião, porque sempre dá briga. Na verdade, acho que temos mais é de puxar a cadeira e nos aprofundarmos nesses assuntos, já que eles afetam diretamente as nossas vidas. O problema não é discutirmos sobre eles, mas fazê-lo impondo nossas certezas e atuando como provedores de monólogos, não participantes de um diálogo.

É essencial que aprendamos a conversar sobre assuntos complexos, que nos afetam como indivíduos e cidadãos, no pessoal e no coletivo, sem nos armarmos com a ideia de que não há outra saída, além daquela que é apresentada. Antes de chegarmos ao irrefutável, é preciso anal…

OBRIGADA LINDSAY LOHAN

Obrigada Lindsay Lohan!
Devo muito te agradecer pelos memes mais engraçados que há muito não apareciam pelas redes sociais e por ter descontraído o assunto mais polêmico - e chato - dos últimos tempos! Não aguentava mais comentários agressivos sobre as eleições. Cheguei a ver comentário mais agressivos que os dos próprios candidatos nesses debates que mais parecem um ringue de luta!
Aliás, os comentários mais agressivos que vi, foram de pessoas que pediam para que os debates não fossem mais agressivos, e sim uma oportunidade dos candidatos mostrarem suas propostas!
Afinal, que mania é essa que a gente tem de pedir paz sendo agressivo, pedir silêncio gritando, pedir que as pessoas sejam pontuais nos atrasando, pedir paciência sendo impaciente?
Não gosto muito de falar sobre política, acho que mexe com um lado das pessoas que às vezes é melhor não mexer, mas na minha opinião, esse segundo turno expressa bem essa atitude generalizada de pensar em tudo olhando para o próprio umbigo. Viro…

MÃE E FILHO >> Sergio Geia

“Bacana ver vocês dois”. Ela me olha assustada. “Esse carinho. Mãe e filho. É uma imagem bacana. Sacumé, né, dias de hoje, esse mundo babaca de tão podre, uma imagem dessas faz bem. Olha, daria até uma crônica”. Ela põe o menino no colo. Sorri pra mim. Ele pede para ir ao parquinho.
Fiquei pensando nisso um bom tempo. Uma imagem que fez minha sexta-feira começar com o pé direito, rumo ao final de semana. E foi isso que senti saboreando aquele sorriso no caminho do trabalho. Até o dia despencar em mim como um Niágara de aporrinhação.
Primeiro a tevê, no quilo. O sujeito sendo transportado pro Rio numa operação de guerra. Em Cascavel, pessoas presas num hospital. No elevador, na fila do banco, ebola para todos os gostos. Todo mundo preocupado, índices de mortalidade na ponta da língua, chances de cura, países castigados, formas de transmissão. No dia seguinte se confirmou que não era ebola. No mesmo dia vi o Ministro da Saúde dizer que o Brasil continua sendo um país com pouco risco de c…

TRADUZINDO OS MUNDOS >> Paulo Meireles Barguil

 O convite do Universo ao Homem é que esse o decifre, interprete, bem como a si mesmo.
A singeleza da convocação é inversamente proporcional à complexidade da sua realização...
Imprevisível que nos fascina. Garantia de brincadeira eterna.
Quem vai? Quem fica?
Quem está de bandeirinha? Quem é café com leite?
Será que a curiosidade é filha do medo?
E haja adrenalina, dopamina, noradrenalina, serotonina, endorfina, acetilcolina...
Abrir as entranhas do mundo e de si.
Macro e micro profundamente vinculados.
Identificar padrões. Descobrir uma lógica. Constituir leis.
O mundo, afinal, muda ou não muda?
Sofremos porque não admitimos que a transitoriedade é inerente à vida.
Aceite a vida. Aceite a morte. Aceite a alegria. Aceite a tristeza.
Tão simples. Tão difícil.
Brigamos — muitas vezes literalmente! — com o mundo. Gritamos o quanto ele é injusto.
Agonizamos porque ficamos congelados no episódio dolorido, o qual se eterniza em variadas situações.
Ninguém pode nos libertar dessa calcifi…

CARTA ABERTA A UM POSSÍVEL AMOR >> Mariana Scherma

Se não for me pedir pra ficar, por favor, não me mande mais mensagem. É crueldade me encher de expectativa, sumir com o vento e me deixar esperando a mensagem que vai dizer que você nunca deveria ter ido embora. Ela não vai vir, eu sei disso, no fundo e na superfície também. Mas a cada mero oi-com-sorriso que eu recebo seu, viro uma boba, esqueço o que já aconteceu e me transformo numa menina de 15 anos que perde a fome fácil, porque se alimenta dos sonhos que brotam ao saber que você ainda pensa em mim. Que não apagou meu número.
Talvez eu nem devesse falar essas coisas e manter minha aparente frieza, que é só aparente, convenhamos, mas talvez você não saiba disso porque eu sempre fui a divertida-desencanada-livre. Meio que continuo sendo, mas com uma pitada de tristeza porque você não quis ficar. Aliás, que mal lhe pergunte, por que você não quis ficar? Eu gostei de você no primeiro abraço, na primeira vez que senti seu perfume. Gostei de você na simplicidade com que nossas conversas…

APRENDIZADO >> Carla Dias >>

Para a Dona Elisabete, a professora
que viu em mim a pessoa que eu jamais
conseguiria reconhecer sozinha.


Ensinou os cinco filhos a beleza que inspira um mecânico a sê-lo. Carro tem sentimentos, costumava dizer, mesmo enquanto a mãe torcia o nariz, e comentava, com um quê de ironia no ponto de deixá-la charmosa, que carro é só um jeito de levar as pessoas aonde os sentimentos acontecem.

Todos os dias, levantava-se cedo, tomava banho e se vestia bonito, depois encontrava a esposa na cozinha, beijando-lhe os lábios demoradamente. Com tanta criança na casa eram raros os momentos em que eles podiam flertar, feito os namorados que sempre foram. Então, pegava uma caneca com café e dava uma voltinha pelo jardim, a fim de colocar os pensamentos em ordem.

Tirar os cinco moleques da cama era a atividade do dia mais prazerosa para ele, e que sempre acabava em alguma brincadeira, depois em beijos de despedida. Ele saía para o trabalho e a mulher ficava em casa, endoidecida, de um jeito amoroso, com…

TEM GENÉRICO? >> Clara Braga

Lá fui eu ao ortopedista. Expliquei o que sentia, mostrei onde doía. Ele examinou, fez diversas perguntas, examinou um pouco mais, explicou o que estava acontecendo com toda calma e deu seu veredicto: entre várias coisas, você precisa fortalecer sua coluna, um pilates, talvez?
Até gostei, estava mesmo curiosa para entender melhor sobre esse tal desse pilates que todo mundo fala tanto! Sempre ouço falar tão bem que acho que vai ser a solução para os meus problemas! Comecei a pesquisar alguns lugares, pedi algumas indicações e comecei as ligações. 
O primeiro lugar era totalmente fora do orçamento, vamos ao segundo. É… fora do orçamento também… próximo. É, deu uma leve melhorada, mas ainda é complicado. Não demorou muito para eu entender que pilates deve mesmo ser a solução para os problemas de todas as pessoas do mundo. Tanto quem faz, que deve curar qualquer problema, quanto quem aplica, que deve estar ganhando muito dinheiro! Que coisa cara!!!
Será que não existe um genérico do pila…

ESTAMOS EM GUERRA >> Whisner Fraga

Aspectos religiosos vira e mexe ganham destaque em eleições. Neste momento em que depositaremos na urna a esperança de uma sociedade mais justa e melhor, é importante deixar de lado nossas crenças, principalmente no que diz respeito a aspectos religiosos. O Brasil deve abandonar uma história de submissão a igrejas e se tornar de fato uma nação laica.

Há temas muito polêmicos nesta eleição, que estão sendo tratados com parcimônia por ambos os candidatos à presidência: aborto, casamento gay, legalização da maconha, pena de morte, entre outros. Nenhum deles desconhece o fato de que somos um país católico e que não podem se dar ao luxo de perder os votos dos fiéis. Então permanecem em cima do muro. Não é necessário que o cidadão se desespere, pois o novo presidente, seja quem for, não apoiará a descriminalização do aborto ou legalizará a maconha ou instaurará o casamento gay. Nenhum deles. Simplesmente porque não podem perder o importante apoio dos crentes. Apenas por isso.

Mas o eleitor …

A MULHER DENTRO DO ESPELHO ME ASSUSTA << Cristiana Moura

Causa-me estranhamento o  banheiro público. Banheiro é local privado, talvez o mais privado de todos. Quem nunca chorou trancado no banheiro, ou cantou secretamente? É aquele lugar de intimidade e solidão. Quando um banheiro se faz público, ou seja, compartilhado,  mora aí uma tensão.

Portas lado a lado e um espelho atravessando a parede diametralmente oposta. Ao sair da cabine, me deparo com a mulher dentro do espelho vindo em minha direção. Ela me assusta. Não vejo seu rosto. Nesta ausência, desejos nublados. Ela se sente manca como quem segue um trajeto de tropeços. Em sua claudicação posso ouvir os sons do invisível. É coisa de corpo recém habitado, ainda sem rosto, precisando traçar novas cartografias para seus sentimentos.

Essa moça me assusta. Essa moça me afeta. É que a mulher desperta em mim um tal desejo nem sei do quê. Ela, que dia após dia se transforma e rouba meu reflexo impondo a si, seu desequilíbrio, seus afetos em penumbra. "Essa moça tá diferente"*, já não…

A VIDA PASSA. AINDA BEM >> Zoraya Cesar

O casamento fora razoável enquanto durou. Casaram-se naquela época em que, se o rapaz não tinha ficha na polícia, não era tresloucado e ainda tinha um emprego razoável, já estava bom demais. A sociedade não o deixava solteiro muito tempo e moça casadoira não faltava. Casaram-se depois de curtíssimo noivado e ele trabalhava duro para sustentar a mulher e os três filhos,.
Era do tipo enrustido. Entrava mudo e saía calado. 
Um dia, ele saiu calado e não entrou mudo. Não entrou mudo, nem surdo, nem a pé e nem de trem.  Saiu para trabalhar e não voltou. Sumiu. Desapareceu Escafedeu-se. Não sei se ele teve ou não a decência de mandar um bilhete:
- “Prezada Ana, fui comprar cigarros e não encontrei o caminho de volta.”
Ou:
- “Prezada Ana, cansado de trabalhar como um mouro, resolvi trabalhar como um infiel.”
Ou:
- “Prezada Ana, encontrei o emprego dos meus sonhos. Vou continuar dormindo." 
Nem isso nem aquilo. Mas, enfim, ele era caladão mesmo. Ana passou semanas totalmente perdida, pr…

O QUE VOCÊ FOI QUANDO ERA CRIANÇA >> Fernanda Pinho

Os adultos e essa urgência sem sentido insistem em questionar às crianças sobre o que elas querem ser quando crescer. Era assim quando eu era menina e continua sendo (vira e mexe eu mesma mando a famigerada pergunta para algum pequeno diante da falta de assunto). Eu quis ser apresentadora de TV (a Xuxa, pra ser mais exata), juíza de direito (achava o supra sumo do poder bater o martelinho) e jornalista (que é o que eu acabei virando mesmo). Embora tivesse resposta, sempre respondia meio entediada, devido à obviedade e à constância com que a pergunta surgia. 
Ontem, porém, parada num engarrafamento, com a cabeça dando voltas em bobagens que de tão bobas viram grandes problemas, fui surpreendida com o reverso da pergunta. O anúncio na traseira de um ônibus questionava: "O que você foi quando era criança?”. Interessante indagação que depois descobri ser o nome de uma peça de teatro.
Viajei. Quando criança fui Princesa da Pipoca na festa junina. Fui filha única. Fui louca para ter u…

O FAZ-TUDO >> Carla Dias >>

Sou um faz-tudo com gosto e endosso do meu patrão. Gerencio, invento, recupero, limpo, exijo clareza, construo dos mais belos castelos de areia. Autodidata do fazer necessário, invoco com labirintos e os desafio, até eu achar a saída. Embebedo-me de café, enquanto passo pano, passo tempo, passo o olhar pela pele da moça que mora em trabalho, no escritório ao lado. Nunca vi aquele cubículo desfalcado da presença dela.

Meu escritório fica na Rua Aquelali, mas às vezes tem ponte que me leva ao lá fora, assim, sem pensar no caso. Como no dia da festa da firma, quando fui encarregado de fazer a alegria de setecentos e noventa e sete pessoas, durante quatro horas. As quatro horas eu tirei de letra. Difícil mesmo foi lidar com as setenta e duas que antecederam a festa, quando eu soube que teria de fazê-la acontecer, já que o encarregado da festança pediu demissão.

O mais interessante sobre um dedicado faz-tudo, é que a maioria das pessoas não compreende que ele aprende no processo. Elas dese…

O CAMISA-VERDE (Continuação) >> Albir José Inácio da Silva

(Continuação)
Quando os homens da lei desafivelaram seus próprios cintos, Dito estremeceu. A coisa podia ser bem pior que uma morte pura e simples – apavorou-se.
Mas as ditaduras podem ser generosas quando o adversário não representa grande ameaça. E tudo o que Dito experimentou foi uma surra de cintos militares e civis. Siá Maria o encontrou um frangalho, deitado numa folha de bananeira e coberto com outra. Se sua pele não estava muito íntegra, dignidade e macheza foram preservadas. Até porque surras não lhe eram novidade e não maculavam sua honra.
Siá Maria cuidou dele como sempre, lavou, aplicou compressas, ungüentos e rezas por três dias. No quarto dia ele se levantou, colocou roupa limpa, procurou trabalho, foi à igreja, se confessou e espantou primeiro Siá Maria, depois a todos. Pagou dívidas, pediu desculpas, agradeceu, participou de mutirões.
Veio a guerra e Dito felizmente não participou, arrimo de Siá Maria, que mentiu para o sargento do alistamento, dizendo que só tinha e…

CONVICÇÕES >> Sergio Geia

Sou um homem sem convicções. A única certeza que tenho nesta vida é que sou um homem desprovido de certezas. Não tenho certeza de nada. Ou tenho certeza apenas de que não tenho certezas. Me faltam convicções. As mais finas convicções. As grossas também. As de qualquer jeito. Finas. Grossas. Densas. Curtas. Me faltam convicções de todo gênero. Sou um sem-convicções.

Ser um homem sem convicções é um problema muito sério, amigo. Seríssimo. A humanidade está fadada ao absoluto fracasso se o tecido social for costurado por homens sem convicções. Pobres homens, pobre humanidade. Pobre porque esses homens pobres serão arrebanhados facilmente, serão verdadeiras vaquinhas de presépio. Pobre humanidade por ter em seu conjunto social homens pobres, homens sem convicções. Enfim, meu amigo: falta de convicção significa pobreza. Uma pobreza só.

Mas não estou aqui para tratar dos problemas da humanidade. Os meus, pequeninos como  grãos de mostarda, já são de difícil manejo. Quem sou eu pra me meter …

O MENINO PASSARINHO >> Paulo Meireles Barguil

Era uma vez um menino que desejava voar.

Correr era algo que ele gostava de fazer, mas não o saciava, tamanha a sua vontade de conhecer outros lugares.

Enquanto não aprendia a nova habilidade, exercitava ao máximo as suas pernas, pois acreditava que  elas seriam necessárias no momento da decolagem.

No colégio, adorava jogar futebol e brincar de pega-pega.

Era fora da sala de aula que ele, assim como para quase todos os estudantes — de ontem, hoje e, talvez, amanhã — tinha seus momentos mais divertidos.

Quando ele tinha 9 anos, ao retornar do recreio, ouviu um barulho fora da sala e pediu à professora para ver o que estava acontecendo.

— Por essa porta, você não passa! — respondeu a mestre.

Para conciliar o seu desejo e a negativa da professora, o menino decidiu pular a janela.

A gritaria foi enorme: os colegas rindo e a docente chamando-o de volta...

Ao retornar da investigação, como era de se esperar, foi encaminhado à Diretoria.

Nesse ano, os conflitos do menino na escola só aument…

VAI, PLANETA! >> Mariana Scherma

As chuvas aqui no sudeste estão com tudo. O nível do reservatório da minha cidade está saudável e seca, agora, só mesmo nos telejornais, quando todo aquele refrão de economize água se perdeu. Tchau, uso racional de água, e até o inverno que vem. Faz parte. Pra mim, esse assunto não morreu. Minha mãe adora me chamar de a-patrulha-de-uma-pessoa-só. Até gosto, mas é muito solitário.
Até agora, não consigo ver uma pessoa maltratando o meio ambiente e seguir como se nada tivesse acontecido. Lavar calçada, carro, jogar lixo no chão, arrancar flor do jardim alheio... Eu sempre tenho um puxão de orelha pra passar a essas pessoas. É mais forte que eu. Lembra aquele desenho do Capitão Planeta? Pois é, sou possuída pelo espírito dele. Já chamei atenção de senhora lavando calçadas (umas vááárias vezes), de gente jogando chiclete no chão, de sem noção jogando bituca de cigarro, de fulana no banheiro da academia ligando todos os chuveiros por uns dez minutos até a água esquentar. Alô, mundo! Até meu…

O CORAÇÃO DO OUTRO >> Carla Dias >>

Hoje, um amigo muito querido passará por uma cirurgia em benefício do seu coração. Muitos são os que têm enviado boas vibrações para ele, já que, em matéria de nos fazer sentir bem, ele é bom à beça. É o toma lá dá cá da benquerença fazendo o seu papel.

Neste momento, não há como eu falar sobre outro assunto que não seja coração. Caso contrário, seria como comentar política e finalizar com “tem coração envolvido?”, para então lidar com olhares políticos estranhando pergunta feito essa, em um cenário feito aquele, onde o coração raramente abre a boca.

E quando a pessoa alimenta o coração alheio, assim, por que sim? Não é só o meu que se curva à beleza da música e da poesia daquele coração. Presenciei muitos se tornarem fãs do artista, para então concluírem, com apreço escancarado, que tiveram boa sorte de conhecê-lo. Porque acontece de conhecermos pessoas que, com seu talento, e gentileza ao compartilhá-lo, influenciam a felicidade da gente a se estender até o adiante, em momento em q…