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Mostrando postagens de Junho, 2012

O PEDIDO >> Fernanda Pinho

O pedido de casamento começou a se desenhar quando ele ligou para minha casa e me disse que precisava falar com a minha irmã. É claro que minha intenção era perguntá-la depois qual era o assunto. Mas o destino parece torcer para o romantismo pois fez com que um primo meu chegasse na minha casa justo nessa hora, de modo que fui atendê-lo e me esqueci por completo do telefonema. Como é fácil fazer surpresa pra gente lerda. E como é fácil quando se tem uma cúmplice sagaz como minha irmã que, sei lá porque cargas d'água, sabia com precisão o número do meu dedo (eu, por minha vez, nem sabia que dedo tinha número).
Três semanas depois ele desembarcou no Brasil, com o anel e duas horas de atraso. Só quem já namorou à distância sabe o que duas horas de atraso significam. A sensação que se tem é que vai chegar seu aniversário de 80 anos e seu amor não terá desembarcado. Tamanha ansiedade fez com que, ao ler "avião no pátio" no painel do desembarque eu fosse acometida por uma va…

DOZE ENCANTAMENTOS >> Carla Dias >>

Minha crônica de hoje é, na verdade, uma lembrança.

Em 2004, uma amiga perguntou se eu poderia escrever  doze textos curtos para compor um calendário, como se fossem poções preparadas por uma bruxa. Eu escrevi os textos, mas como encantamentos, porque apreciava mais a ideia de evocação do que preparação.

O projeto não aconteceu, mas ao encontrar os textos nos meus arquivos, senti-me compelida a dividi-los com vocês pela leveza e simplicidade do sugerido.

Então, bom encantamento a todos!


Encantamento 1 – Para fazer amigos Primeiro, coloque nesse caldeirão que é o seu coração, uma porção de afeto. O afeto é um ingrediente muito importante para se fazer amigos, pois ele nos deixa preparados para aceitar a empatia e nos ajuda a perceber a nossa sintonia com as outras pessoas.  Depois, adicione algumas pitadas de atenção, pois a distração em excesso pode lhe transformar em um solitário e os amigos precisam da companhia uns dos outros. Para finalizar, um pouquinho de paciência. Há muito pode…

SEGUINDO EM FRENTE >> Clara Braga

“Clara, quando seus antigos namoros terminaram, como você fez pra esquecer seus ex-namorados?” Essa foi a pergunta que um amigo meu me fez esses dias depois de terminar um namoro de quatro anos! O que eu respondi? Um monte de coisas que eu não sei se vão ajudar de alguma forma. Coisas como: Tenta não pensar nisso, arruma alguma coisa que você possa fazer para ocupar a cabeça, essas coisas que a gente fala, mas que sabe que são fáceis de serem ditas e difíceis de serem executadas. Mas, por favor, atire a primeira pedra quem não acha difícil ver um amigo nessa situação e não saber o que dizer, porque se é que alguém tem uma boa resposta para essa pergunta não hesite em me contar!

A verdade é que a melhor resposta que se pode dar, na minha opinião, é: Não tem nada que você possa fazer. Mas quem vai falar isso para uma pessoa que está sofrendo? Não dá, quando você vê um amigo nessa situação você só procura falar coisas que possam ajudar a amenizar a dificuldade do problema, mas volto a di…

PEDRA NO CAMINHO >> Whisner Fraga

Vovô e família moravam em um sítio beirando o Rio Tijuco. Os filhos, lógico, estudavam em uma escola rural, mas não sei ao certo onde ficava, porque os detalhes das histórias que ouvi me escapam. Não tive muito contato com parentes, confesso que não me apeguei a primos e tios e os considerava “pessoas de fora”. Tenho a impressão que o desdém era mútuo, pois eram raras as visitas que nos faziam. O que não quer dizer que estou me lixando para as pessoas. Não. Valorizo a amizade como poucos.

Então, os dois meninos acordavam de madrugada, se arrumavam com a ajuda de minha avó, tomavam um leite, e seguiam, embirrados, sonolentos, para a escola, palco de suas diabruras. Experimentavam de tudo para cabular a aula, para tirar sarro dos colegas e da professora. Coitada, se soubessem mais a respeito de sua vida, de seu salário, de suas dificuldades, talvez fossem mais condescendentes. Ela ralhava, ameaçava, enviava bilhetes aos pais, mas a trégua era momentânea. Memória de moleque é bastante c…

O RIO E O AMIGO [Ana González]

Quantas vezes não ouvimos histórias diferentes sobre uma mesma situação, por exemplo, sobre uma festa? Uma pessoa adorou, outra detestou. Pessoas passam por experiências semelhantes de maneira diferentes. Recentemente vivi uma situação dessas com um amigo.
Estávamos em um congresso de astrologia em New Orleans e aproveitávamos o tempo livre para um passeio pela cidade numa tarde ensolarada e quente. Fomos ao cais em que se encontrava um grande barco para o passeio pelo Mississipi, o longo rio de franceses, espanhóis, ingleses, índios e africanos e inúmeros cenários de guerras e trocas de governo, lutas. Tudo o que sempre fez a região interessante a meus olhos na distância. Mas, confesso que minha imaginação sempre se fixou nos navios e nos barcos a vapor andando pelo rio, portador de histórias cheias de mistérios e casos especiais.
Estávamos no cais vendo os passeios disponíveis. Eu não tinha tempo para o cruzeiro desejado que o amigo iria fazer no dia seguinte. Então, ele sugeriu que…

MICOS >> Zoraya Cesar

Aquele que ri de si mesmo é, antes de tudo, um iluminado. Se tem coragem de contar aos amigos, então, é quase um avatar. Em homenagem aos amigos miquentos, conto algumas de suas aventuras – deles, apenas, que não sou tão iluminada assim.
I – Distraída - Estava pronta para sair e mais atrasada que o Coelho Branco, só faltava a calcinha, onde mesmo botara a calcinha, meu Deus? A pressa era tanta que ela desistiu de procurar, vestiu outra e saiu correndo. Parou rapidamente para conversar com o porteiro sobre a falta de água no prédio, pediu informações ao guarda do metrô e, muito ciosa de seus saltos altos, da roupa elegante e dos olhares que recebera desde que saíra de casa, desfilava tranquilamente pela plataforma da estação. Encontrou o chefe na recepção, com quem trocou algumas palavras inteligentes, entrou no elevador e só então, ao se olhar no espelho, descobriu, horrorizada, onde estava a calcinha perdida: pendurada no cinto do vestido preto, a calcinha, vermelha, acenava escadalo…

LIKE CRAZY >> Carla Dias >>

Vivemos em processo de idealização e desapontamento. Não há como negar que, sempre que possível, criamos versões para desfechos sobre os quais não temos qualquer poder de mudança, esperando sempre pelo melhor para nós mesmos e para quem amamos.
Não acho isso errado, contanto que saibamos lidar com os possíveis – e frequentes – resultados diferentes e, às vezes, até mesmo contrários aos esperados. É preciso saber desapontar-se.
Like Crazy (2011) aborda bem o tema da idealização, mas de uma forma quase hipnótica, porque, neste caso, o idealizado aconteceu, mas se perdeu nos acontecimentos.
No filme, uma jovem britânica conhece um jovem americano em uma faculdade em Los Angeles, nos Estados Unidos. Eles se apaixonam, ficam juntos durante o tempo que resta da faculdade e então o visto dela expira. Ela tem de voltar para a Inglaterra para fazer a renovação, mas vislumbrando o tempo que teria de ficar longe do seu namorado, decide adiar a viagem, perdendo o prazo para renovação do visto. Qua…

CORRENTE DO BEM >> Clara Braga

Sei que já disse isso aqui antes, mas vou repetir mesmo assim: não acredito que exista alguém que saiba de fato lidar com a morte de algum ente querido. Sei que tem os que lidam melhor, outros que lidam pior e tem até os que surtam de vez, mas alguém que tenha uma fórmula mágica e diga: É assim que se deve lidar com a morte, nisso eu não acredito!

Falo isso pois outro dia fiquei muito feliz, e por que não dizer emocionada, com a atitude de uma colega e sua família. Faz um ano que ela perdeu o irmão em um acidente de carro. Não entrei em detalhes, não sei como foi o acidente nem nada do tipo, mas isso também não vem ao caso. O fato é que ela e a família arrumaram uma forma muito bonita de tentar de alguma forma amenizar a dor que é perder alguém que você ama, principalmente de uma forma brusca e inesperada.

É muito comum perceber em qualquer pessoa que acabou de perder alguém que ama um sentimento de urgência. Parece que cai a ficha e todo mundo percebe que a vida é muito curta, que nã…

AMOR A JATO >> Albir José Inácio da Silva

Virgílio virgulava a manchete com palavrões, e a indignação dos outros o acompanhava num jogral que era também comemoração. Cidadão de bem fica feliz de ver na cadeia ladrões, corruptos, estelionatários e outros espertos. Comemoravam a prisão do sacerdote que prometia trazer em três horas a pessoa amada, em troca de módica contribuição para agradar as entidades.

Mas não havia consenso. Daniel, ativista de defesa do consumidor, exasperava-se:

- Seus métodos de cobrança são um absurdo!

Espumava com as ameaças de que Lúcifer em pessoa se encarregaria das punições espirituais se não fosse entregue a seu preposto o justo pagamento pela imediata devolução da amada. Pagamento antecipado ainda por cima. Se não bastassem tais pressões, Pai Brutus saía em campo para cobranças mais dolorosas. O contrato tinha de ser cumprido, mesmo modificado unilateralmente com acréscimo de parcelas, porque não estava sujeito à lei dos homens.

Tânia, intelectual que recuperara um namorado com a ajuda de uma cigana…

CRÔNICA DE FADAS >> Eduardo Loureiro Jr.

Escrevo para os noivos, em sentido amplo. Para aqueles que estão se casando, querem se casar ou intencionam continuar casados como se fossem personagens de um conto de fadas. À parte as solteironas e os solteirões convictos — e as crianças ainda não flechadas pela seta do cupido —, escrevo para todos.

Os votos de casamento podem assustar algumas pessoas: ser fiel, amar e respeitar na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza todos os dias da vida em comum pode parecer um projeto ousado. Paracantarolando Belchior, eu acalmo o noivo leitor e a noiva leitora: não se preocupe, meu amigo, com os horrores que eu lhe digo, isso é somente uma crônica, o casamento realmente é diferente, ao vivo é muito pior.

Cada um, no casamento, tem uma ideia diferente do que seja respeitar, amar e ser fiel. Isso já faz uma grande diferença nos (des)acertos. Um cônjuge desavisado pode avaliar o outro cônjuge com base em sua própria maneira de amar, respeitar e ser fiel. E aí é qu…

EU, DONA DE CASA >> Fernanda Pinho

Dizem que a maternidade traz para a mulher dois brindes, além do bebê: o primeiro é a plena compreensão de todas as atitudes de sua própria mãe. O segundo, um instinto que se abre como um pára-quedas de emergência, revelando nela um desconhecido dom para proteger e cuidar. É como eu me sinto no momento. Não estou grávida, mas agora tenho uma casa e as sensações me parecem semelhantes.
Hoje faz uma semana desde que eu e meu noivo estamos vivendo só os dois. Sem a minha mãe, sem a mãe dele. O que me configura na prosaica categoria de dona de casa. E o que posso dizer depois de uma semana é que estou impressionada.  De repente, todas as manias da minha mãe começaram a fazer total sentido. A de limpeza principalmente. Estou assustadoramente igual a ela. Pensamentos do tipo "preciso lavar umas calças de jeans" me assaltam no meio do trabalho (e o fato de eu trabalhar em casa, só agrava a situação). Separo o lixo para a coleta diariamente, mesmo que sendo duas pessoas não produza…

SOBRE ONTEM À NOITE >> Carla Dias >>

Passei no supermercado, ontem à noite, porque já era tarde e eu não queria cozinhar o jantar, precisava do “pronto para consumo”. Fiquei mais de vinte minutos na fila do caixa até dez volumes. Vai entender... Nem sempre menos significa economia de tempo.

Entretanto, algo me chamou a atenção de um jeito de quando vemos a cortina subir e revelar o palco. O supermercado estava cheio de namorados e namoradas ainda desencontrados dos seus respectivos afetos. As mulheres, quase todas e minoria, com garrafas de vinho nas mãos. Os homens, a maioria no supermercado em dia de afirmação de amor declarado e assumido, seguravam vasos e buquês de flores. Alguns deles também abraçavam garrafas de vinho.
Um olhar meu captou a visão colorida de uma sequência de quatro caixas nos quais repousavam, sobre a esteira, vasinhos de begônias. Nunca vi begônias dispostas dessa forma, principalmente à beira das nove horas da noite do Dia dos Namorados. Em outra fila, um moço segurava um vaso de margaridinhas, …

FELIZ DIA DOS NAMORADOS! >> Clara Braga

12 de junho, Dia dos Namorados. Dia esse que pode ser tão bom quanto controverso. Me divirto observando as diferentes atitudes das pessoas nesse dia que tem tudo para ser apenas mais um dia comum. Digo dia mas poderia facilmente dizer semana, pois desde a semana passada já podia ver pessoas celebrando e pessoas reclamando da data que estava para chegar, mas a verdade é que é difícil encontrar quem seja indiferente a essa data, mas por que será que ela é tão controversa assim?

Eu hoje levantei supercedo para poder fazer uma surpresa para o meu namorado, assim como minha mãe que também acordou cedo para entregar um presente para o meu pai antes dele sair para o trabalho e tomar café da manhã junto com ele. Já meu pai foi apressadinho, entregou o presente ontem, só não foi mais apressado que meu namorado que entregou o meu quinta-feira passada. Enquanto isso meu irmão está agora no shopping comprando um presente de última hora.

Aqui em casa todos estão mobilizados pela data, cada um à su…

FAMÍLIA >> Kika Coutinho

É no cotidiano que assisto às minhas duas filhas se tornando irmãs. Já são, desde sempre, irmãs. Mas a mágica da intimidade, do afeto e do desafeto, dos ciúmes e do amor encantado dos irmãos, se faz na rotina cotidiana, aqueles dias repetidos, quando tudo parece igual. É nesses dias, cheios de simplicidade e ócio, que se forma a mágica, o milagre da construção de uma família. Quando as assisto às minhas filhas se descobrindo, quase rio ao pensar que um dia elas terão amigas sinceras, amizades fortes, que construirão na escola, na vizinhança, ou não sei onde; e a essas dirão que são como irmãs. Irão declarar amor eterno, contato eterno, juras e mais juras de que serão para sempre amigos, porque são irmãos escolhidos, algo assim. E eu juro que vou assistir calada, por mais que me tente a avisá-las que irmãos, irmãos mesmo, são esses que de bebezinho se conheciam. Irmãs com intimidade, que sabem onde uma tem pinta, onde a outra tem cócegas, do que é aquela cicatriz que ela tem na testa …

ÉRAMOS TODOS LOCUTORES >> Whisner Fraga

Meu pai trabalhava em uma Agropecuária, que tinha seu escritório em um edifício no centro de Ituiutaba, no Triângulo Mineiro. Todas as férias, eu também virava funcionário da empresa, pois era consenso na minha família que não poderíamos jamais ficar à toa. Eu adorava o emprego, por vários motivos: por causa do salário, que me permitia renovar o velho par de tênis, porque a sala tinha duas ou três máquinas de escrever, que eu usava para passar a limpo meus primeiros contos, por causa da revista Visão, que eu lia de cabo a rabo.

O fato é que eu atuava como office boy, responsável por algumas tarefas que não me agradavam totalmente, como ir ao Banco realizar uma série de transações comerciais para a Agropecuária. Às vezes meu pai viajava com o patrão para gerenciar uma venda de gado ou a vacinação anual, para uma fazenda em Goiás ou para outra em Mato Grosso e eu ficava sozinho, tomando conta do escritório. Com aquela idade eu não tomava conta nem de mim mesmo, mas era bom fingir ser im…

UM DIA DA CAÇA - OUTRO, DO CAÇADOR
>> Zoraya Cesar

O ídolo dos amigos. O Papa-Todas, o Irresistível, o Pegador eram alguns dos epítetos do nosso protagonista de hoje. Vamos chamá-lo de Luizão, porque o nome verdadeiro é confidencial. Objeto de inveja dos amigos casados, que não tinham condições de viver vida tão excitante, e dos solteiros, que, por mais que tentassem, não chegavam nem perto do sucesso numérico de Luizão, que açulava essa inveja contando todos os detalhes sórdidos de suas aventuras.
Mas suas conquistas eram de qualidade, dizia. Não se dava ao trabalho de seduzir qualquer uma não, a graça, para ele, era fazer com que mesmo as mais astutas e experientes caíssem em sua teia. Aos quase 40 anos, solteirão convicto, jamais se apegara a qualquer das vítimas enganadas. Gabava-se de poder conquistar a mais empedernida ou séria que fosse, fazê-la se apaixonar perdidamente, para só então levá-la para a cama (ou carros, praias, escadarias de prédios comerciais, banheiros públicos ou privados... a cidade era cheia de opções) e de…

BOA COMPANHIA >> Fernanda Pinho

Um dia desses uma amiga desabafava comigo dizendo que, cada vez mais, tem gostado - e mais que gostado, preferido - sair para se divertir sozinha, em vez de acompanhada. Ela se sentia estranha por isso, e me perguntava o que eu achava. O que eu acho é: se ela é estranha, eu também sou.
Por não gostar de depender de ninguém, por ter meu próprio ritmo acelerado, por trabalhar em casa, por ter estado muito tempo solteira, eu me habituei a fazer muitas coisas sozinhas. E, assim como para minha amiga, o hábito se tornou preferência em determinadas situações.
Trabalhar sozinha, por exemplo. Claro que estou o tempo todo conectada com as pessoas que trabalham virtualmente comigo mas, fisicamente, estou sempre só. E acho uma maravilha. Nada me desconcentra, otimizo meu tempo pois não tenho com quem jogar conversa fora e não preciso dar explicações a ninguém sobre a desordem dos meus materiais de trabalho. Na minha bagunça silenciosa me encontro. E só a mim. Já nem sei mais se consigo produzir…

SAM ESCOLHEU SUAS ARMAS >> Carla Dias >>

"C'mon get up, get dressed
The world is spinning
Full of kindly beings
The one you love will love you back
And no-one's spoiling anything
Everything's just right
It makes you want to fill your lungs and sing
And ooh ...You silly pretty little thing"
Bob Geldof, da canção Silly Pretty Thing

Acordei pensando sobre esse filme que assisti semana passada. Acordei pensando como se o tivesse sonhado, sabe?  Ele tratava da história de um homem que chegou ao fundo poço, aos cafundós do abismo, ao fim do fim da linha por causa das drogas. Então, um dia ele pensou ter matado um homem e decidiu aderir à religião da esposa, que enquanto o marido estava na cadeia, deixou de ser stripper e foi cuidar da vida e da filha. 

O mais interessante é que, em determinado momento dessa aceitação de Deus, ele resolveu construir uma igreja que recebesse a todos os que as outras não aceitavam. Porque se Deus deu uma chance a ele, como não daria às prostitutas e aos drogados, aos bandidos em busca de…

O VERDADEIRO CAMPO MINADO >> Clara Braga

Troquei de academia! Essa foi minha última tentativa de me autoestimular a fazer algum exercício. A academia em que eu estava antes era uma daquelas em que você vai, faz o circuito de meia hora e volta pra casa feliz, alegre, contente e saltitante. O único problema é que para mim não estava dando muito resultado, não sei se pela academia ou pela preguiça de ter que pegar o carro e ir lá para longe em um lugar onde nunca tinha vaga para estacionar.

Agora, na nova academia onde eu estou malhando, além de ter todas aquelas aulas de exercícios aeróbicos, tipo bike indoor e essas coisas que te fazem suar muito e ter a sensação de que você é “o cara” da academia, fica na comercial da quadra onde eu moro, e quem mora em Brasília sabe que isso significa que com uma caminhada de 5 minutos eu estou na academia, já é o aquecimento!

E foi justo essa caminhada/aquecimento de 5 minutos até a academia que me motivou a escrever essa crônica. Quem mora em Brasília ou já esteve aqui por qualquer motivo…

O EMPREGO >> Albir José Inácio da Silva

Foi o último a chegar, assustado, não, desamparado. Todos conheciam sua ojeriza por assuntos de morte: enterros, capelas, cemitérios. Parava de freqüentar uma casa quando sabia que alguém tinha morrido lá. Mas nesse velório não teve como não ir. Felício era amigo de infância. Os outros até respeitavam sua aversão, mas não dessa vez: quando pretextou reumatismo, ameaçaram ir buscá-lo.

Se Alfredo – troquei o nome porque ele não me perdoaria – se desesperava só com essas conversas, imagine o leitor como estava se sentindo diante da materialidade da morte. Sofreu a vida toda com esse tema, que parecia ser o preferido de seus amigos. Não sei se gostavam mesmo ou se, sádicos, se divertiam com o sofrimento dele. Não perdiam oportunidade para falar da “indesejada das gentes” – poetizavam - enquanto Alfredo se contorcia. Felício, o agora velado, era o mais entusiasmado.

Alfredo também sofria de desemprego há quase um ano, com contas atrasadas e aviso de despejo. Há dois dias Felício chegou no b…