domingo, 3 de junho de 2012

VISTA CANSADA >> Eduardo Loureiro Jr.

Dias desses, estive no oftalmologista pela primeira vez. Não estou contando aqui as vezes em que fiz exame de vista para renovação de carteira de motorista: aquilo é um teste-relâmpago oftalmológico. O que me surpreendeu na consulta dessa semana foi que o médico não tinha nenhuma solução inovadora para o meu problema — dificuldade para enxergar de perto — nem esperança de que ele pudesse ser resolvido.

Após alguns exames e algumas gotas para dilatar minha pupila, o oftalmologista deu o diagnóstico — vista cansada — e me passou uma receita para encomendar óculos de 1 grau em cada olho. E foi isso. Como se eu fosse a um ortopedista procurando auxílio para meu andar claudicante e ele me diagnosticasse com "andar cansado" e me passasse uma muleta. Cheguei a perguntar se havia algum tipo de alimento que favorecesse mais a visão. O médico disse que não havia nada específico para o meu caso — "vista cansada", ele repetiu —, e fez lá algumas recomendações para a visão e para a saúde em geral.

Veja bem, eu não estou reclamando do médico, que me atendeu muito atenciosamente com toda a sua equipe (uma moça para fazer exame prévio e pingar colírio no meu olho, e outra para me conduzir até a sala e registrar no computador o que o oftalmologista ia falando enquanto me examinava). Apenas fiquei surpreso com a conformação dele.

Na vida, a gente costuma querer resolver as coisas, conseguir um trabalho melhor, arranjar um casamento, ficar curado de uma doença... Mas, às vezes, não está disponível uma solução imediata. A gente por vezes insiste, força um pouco a barra, e mesmo assim não consegue. Ficamos sujeitos a nos rebelar, desistir de vez. Já imaginou se eu respondo ao diagnóstico e à prescrição do meu oftalmologista dizendo "doutor, se o senhor não pode curar minha vista cansada, então não vou usar óculos"? Parece um absurdo, mas não é isso que a gente faz algumas vezes? Não obtemos o que queremos — a visão perfeita — e recusamos cuidar daquilo que efetivamente temos — uma vista cansada.

Aliás, tenho me perguntado por que minha vista está cansada? Dizem que é uma coisa da idade. Depois dos quarenta anos, o braço vai ficando curto para afastar o papel na hora de ler. Trata-se de uma pandemia de vista cansada. E pelo visto os médicos estão conformados com isso, não há nenhuma cura em vista. Mas do que nos cansamos, então, nós que já passamos dos quarenta anos? Será que, assim como cansamos as pernas ao caminhar, nossos olhos estão cansados de tanto olhar? Será que as muitas telas que usamos (televisão, computador, celular) estão nos fatigando? Será que se olhássemos mais para pessoas, bichos, árvores, teríamos uma vista mais repousada? Quem está disposto a fazer a experiência, diariamente e por muitos e muitos anos: descansar a vista para além das oito horas de sono?

Bom, vou ali descansar os olhos da tela preparando o almoço. E se, do tanto que já têm visto, meus olhos ficarem cansados na próxima vez em que eu ler um texto, revista ou livro, pegarei humildemente meus óculos de grau, tão conformado quanto meus amigos quarentões e meu oftalmologista.


P.S. SERVIÇO: Coincidente, lendo essa semana notícias sobre tecnologia, me deparei com os Eyejusters (um trocadinho em inglês entre as palavras olhos e ajustador; em português, seria algo como Olhustador). São óculos em que o próprio usuário ajusta o grau, girando uma rodinha que fica na lateral da armação. Quem quiser conferir (em inglês), siga o link.



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10 comentários:

Tia Monca disse...

Bem vindo ao time, Junoca :o) Por enquanto o que achei, de melhor, para contornar essa situação chata de usar óculos foram as lentes de contato progressivas - ainda um preço meio salgadinho - mas a gente até esquece que tem vista cansada :o)

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Dica anotada, Tia. :)

albir disse...

Caro Edu,
lembro que nossos avós já tinham vista cansada muito antes de computadores, televisões e celulares. Muitos deles, inclusive passavam o dia olhando campos, árvores, animais e pessoas, e isso não os livrou das lentes. O nome disso é velhice, e acho que talvez por regra de três, considerando-se o grau dos óculos, se possa calcular a idade de uma pessoa. Abraço.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Albir, você matou minha esperança. :)

fernanda disse...

O chato é que depois de cansada, a vista fica preguiçosa. Quando comecei a usar óculos, me esquecia deles frenquentemente. Hoje em dia, não consigo colocar o pé fora da cama sem.

Mas devo dizer que fiquei muito surpresa com o fato de que você ainda não usava óculos. Acho óculos tão a cara de escritores brilhantes como você. Agora sim, é um escritor completo :)

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Muito engraçadinha você, Fernanda. :) Só não vou aí lhe dar um beijo na bochecha porque você está morando mais longe agora. :)

Carla Dias disse...

Eduardo... Para a visão metafórica, acredito que sim, necessitamos descansar o olhar em outras paragens para mantê-lo forte para as telas e para os textos. Para a visão no sentido oftalmológico, nesse ano fiz uma consulta e, depois de quase vinte anos usando óculos para descanso, o oftalmologista me liberou de usá-lo. Minha vista está ótima para os meus 41 anos de idade. Claro que não me desapeguei do utensílio, não consigo liberar os óculos. Enfim... Beijo!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Então tem cura, Carla? Já começo a imaginar como poderei me separar desses óculos aos quais já começo a me afeiçoar. :)

Zoraya disse...

Desde que seus olhos nao se cansem de procurar o íntimo das coisas para que você depois as coloque aqui para nós, tudo bem. E quando eu tiver vista cansada estarei frita, pois ela vai competir com a miopia que nao deixa eu nem acordar direito e já ir pegando os óculos.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

O íntimo das coisas, ah, "o íntimo das coisas"... você plantou uma coisa em meu íntimo, Zoraya. :)