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Mostrando postagens de Janeiro, 2008

VAMPIROS >> Carla Dias >>

Ed Woodé um filme que me fascina, não somente por se tratar da história bem contada de um cineasta que, por falta de talento para este fazer, o de contar uma história, foi considerado pelos críticos um dos piores do mundo. A sempre celebrada parceria entre o diretor Tim Burton e o ator Johnny Depp conseguiu dar a esta obra o tom certo de estranheza e devoção que permearam a vida de Wood, que podia até não ter talento, mas certamente cultivava um inquestionável amor pela sétima arte.

O encontro de Ed Wood com o ator Bela Lugosi é retratado com impressionante sensibilidade, e um quê de humor, por Johnny Depp e Martin Landau. Lugosi está deitado em um caixão e Wood, ao ver o astro dos filmes de terror, seu ídolo, pára em frente à loja e o observa. Lugosi abre os olhos, esbraveja sobre o caixão ser pequeno demais para os seus braços, levanta-se e saí da loja, deparando-se com um encantado Ed Wood. Birrento, charmosamente quase intragável, Martin Landau é um Bela Lugosi fantástico; quase tã…

TRÊS ASSUNTOS E UM TEMPISTA >> Eduardo Loureiro Jr.

Quem me acompanha sabe que eu não acredito em falta de inspiração. Eu não tenho o nariz entupido para escrever. Acontece mesmo de eu ter mais assuntos do que cabem em um texto. Meu maior trabalho sempre é escolher; escrever é fácil. Esta semana, não pude optar. São três assuntos, os três entram pelas narinas, os três querem ser escritos, os três desejam aparecer... e eu que não sou leão-de-chácara, que sou cronista — tempista —, resolvi dar passagem a todos.

A água e outros lubrificantes
Há algum tempo, recebi um conselho e um pedido. O conselho era de um mestre: "sempre que estiver discutindo ou prestes a discutir com alguém, dê um jeito de trazer um copo d'água para o ambiente; a água acalmará os ânimos". Eu, que não sou de briga, tive oportunidade de experimentar o conselho uma única vez, e foi milagroso. Incrível como uma discussão acalorada se transformou em escuta mútua. Já o pedido foi de uma amante (no sentido de amar e ser amada): a camisinha lhe irritava a delica…

RESQUÍCIOS [Ana Carolina Coutinho]

Conversando no MSN com uma amiga dia desses, ela me conta as novidades, e diz, pesarosa, que o ex-marido vai se casar de novo. Antes que eu pudesse escrever de volta, a tela em minha frente já piscou: “Já estou bem resolvida com isso, claro. Mas é que, poxa, se casar com ela?”. Ela se justificou, sem nem precisar.


Entendi. E entendi imediatamente. Nós, mulheres, somos todas assim. Ou quase todas. É raro, muito raro, uma mulher que consiga ser indiferente a um homem por quem nutriu especial amor e dedicação. Ela pode passar a ter carinho por ele, pode passar a odiá-lo até, mas dificilmente se tornará totalmente indiferente diante de notícias como essa. Vai fingir talvez, e nisso sim há mérito. Fingimos bem, às vezes enganamos a nós mesmas, mas, bastará um pouco de reflexão que a pergunta que surgiu à minha amiga Simone, surgiria em todas nós: Casar com ela? Em questão de minutos, o traste do ex-marido é lembrado como um homem divertido e inteligente com quem ela foi, não angustiada e s…

A INVENÇÃO DO AMOR >> Leonardo Marona

depois do furacão do corpo, com a alma enregelada, corremos em direção ao topo, corremos de olhos fechados – estaremos juntos, enfim? não sabemos mais plantar novos mistérios, mas estamos confiantes diante do buraco negro, a pensar caminhos – de repente somos atalho. sim, de mãos vazias, de mãos dadas vamos, cada um com seu planeta, sim, de olhos abertos seguimos rumo ao peito dissonante, sim, múltiplos, ocultados delicadamente pelos abismos da ilusão doce, tudo muito rápido: maquinaria de trombetas ensandecidas e estamos lá – estaremos enganados? sim, estamos muito perto de repente, e longe de tudo, longe do resto, do deus que criaram para nós e que nos recrimina, longe das cascas de pão largadas em trilhas sombrias – longe demais?
estamos juntos – e só isso nos importa – somos juntos o desnudamento das horas, a unificação do âmago sem cafonice, somos juntos o que se chamou ingenuidade, ao se desdenhar da origem de cada sentimento. ardemos juntos pela dor da comunhão, estamos sós, de rep…

JOVENS DEMAIS PARA MORRER >> Carla Dias

A primeira vez que assisti Heath Ledger foi em Dez Coisas Que Odeio Em Você (10 Things I Hate About You). Eu já não era uma adolescente, mas o filme me fisgou, assim como Ledger. Foi assim que me tornei apreciadora do trabalho deste ator.

O Segredo De Brokeback Mountain (Brokeback Mountain) pode até ser um filme desafiador, bacana, que elevou o status de Ledger como artista que aceita desafios. Mas para mim sua participação em filmes como A Última Ceia (Monster’s Ball), As Quatro Plumas (The Four Feathers) e Devorador De Pecados (The Order) é que o define.

Heath Ledger morreu ontem, 22 de janeiro, em Nova York, aos 28 anos de idade, o que me fez lembrar de outro ator que partiu cedo; não pelas condições, já que ainda não se sabe realmente o que causou a morte de Ledger. Lembrou-me de River Phoenix, mas pela sensação que deixou em mim essa partida ainda na infância das suas realizações. Phoenix morreu aos 23 anos de idade.

Sempre que assisto Apostando no Amor (Dogfight), com River Phoenix…

BEM GUARDADO -- Paula Pimenta

Sou saudosista. Talvez essa seja uma das minhas características internas mais marcantes. Não sei se herdei isso geneticamente, se é do meu mapa astral, se foi da criação... mas o caso é que eu não consigo me desligar do passado, por mais que o presente seja muito melhor.

Até hoje tenho todas as minhas agendas-diários da época do colégio e volta e meia recorro a elas para ver o que eu fiz em tal dia de tal ano... e então me pego em uma viagem no tempo, de risos e de lágrimas, que às vezes dura dias.

Cartões de aniversário eu tenho aos montes, por mais que eles digam a mesma coisa ano após ano. Simplesmente não consigo jogar fora algo carinhoso que alguém escreveu para ou sobre mim.

Por esse motivo, outro dia assustei quando meu namorado me contou que não guarda nada. Eu disse que nunca teria coragem de colocar no lixo algo que ele tivesse me dado, até o papel que embrulha os presentes dele eu tenho dificuldade de me desfazer, mas ele acha que o que eu escrevo ou digo hoje, vale apenas pa…

CAPIBA VAI CANTAR! >> Felipe Holder

Recife, final de 1989. Segundo turno das eleições presidenciais. Na avenida Dantas Barreto, no centro da cidade, mais de cem mil pessoas (segundo os jornais, a Polícia Militar e os organizadores) aguardavam espremidas pelo comício de Lula - talvez o maior que a cidade já viu até hoje.

Tinha tanta gente que não era possível tirar o pé do chão. Quem tirasse corria o risco de não conseguir pôr de volta e virar saci por um bom tempo. Parecia um desfile do Galo da Madrugada, só que ninguém podia se mexer.

Do meu lado, uma maluca dizia uma bobagem por minuto. E cada besteira era reprimida por outra mulher que estava ao seu lado, que sempre pedia pra ela ficar calada. Lá pelas tantas, quando João Amazonas apareceu no palanque para discursar, a doida gritou:

- Capiba vai cantar!

Aí eu não agüentei. Soltei uma gargalhada e disse a ela, educadamente:

- Não, minha filha. Nem ele vai cantar, nem ele é Capiba. Quem está ali do lado de Lula é João Amazonas, presidente do PC do B. Capiba não canta, nunca…

EU E PLATÃO: OU COMO FILOSOFAR LIVRE E IMPUNEMENTE [Heloisa Reis]

Desde meus dias de adolescente e das primeiras aulas de Filosofia tenho uma queda por Platão, e uma ligação de caráter - evidentemente - platônico.As primeiras impressões foram ligadas à figura física, quando soube que tinha ombros largos e compleição forte, além de inteligência extra e incomum. Um sucesso para minha imaginação!

Seus escritos famosos e celebradíssimos sobre Arte, Teorias do Conhecimento, e até sobre a atualmente tão falada Ética, provoca em mim um certo modo de ler seus textos indiretamente. Sim, até porque não sendo capaz de ler grego arcaico tenho que contentar-me com traduções e, naturalmente, interpretações.

Contudo, um sábio como ele, lançador das bases da Filosofia do lado de cá do mundo merece toda consideração e respeito e é desta forma que ouso escrever estas míseras considerações de caráter crônico/filosófico.

Para entender a parte central da filosofia de Platão - a teoria das formas, ou o mundo das idéias, sempre penso num círculo e tento …

A Barata da Finlândia >> Leonardo Marona

Vinha subindo a ladeira da Sacopã, onde os ricos fazem suas estripulias em grupos escondidos e vão murchando aos goles de Moët qualquer coisa sem saber falar francês, e eu vinha com meu calhambeque verde, duas portas já não abriam mais por dentro, daqui pouco estaria preso para sempre ali, mas sempre tive essa estranha sensação de estar preso nos lugares.
Logo na virada da última curva avistei um sujeitinho de bermuda agachado atrás de um carro. Usava um capuz e uma camisa regata. Parei a uns vinte metros dele. Então o sujeitinho saiu de trás do carro acenando para mim com uma arma prateada: eu não sabia se era para ficar parado ou dar o fora dali. Pensei: se fico parado vão me cortar todo lá dentro da mansão que estão assaltando. Vão arrancar a minha pele, vai ter um ritual com a minha alma ali dentro, ou com o que quer que esteja aqui dentro. Quando se dá poder a um pé-rapado, o risco de ele fazer emergir a essência humana é muito grande – nada fica mais humano que um pé-rapado poder…

MEMÓRIA {Anna Christina Saeta de Aguiar]

Quantas pessoas a gente encontra e perde ao longo da vida? Pessoas que um dia fizeram parte da nossa rotina, e de quem hoje lembramos apenas o nome ou o apelido. Gente da nossa infância ou adolescência, tempo bom em que quase todo mundo vira amigo, mas que hoje poderia dançar sem roupa em cima da mesa na nossa frente que não reconheceríamos nem que a nossa vida dependesse disso. Com quanta gente eu já dividi um chocolate, um cigarro, uma ida ao cinema e que, por uma circunstância qualquer, sem nenhuma briga ou rompimento, ficou para trás, enquanto a vida seguiu?

Algumas dessas pessoas que perdi pelo tempo devem também se lembrar de mim, espero. De algumas, lembro histórias, casos, situações. Todas elas foram de tal forma perdidas que seria impossível reencontrá-las se quisesse. Não há sobrenomes ou pistas que permitam qualquer busca. E, para falar a verdade, não sinto qualquer simpatia pela idéia de resgatá-las, pois estão tão bem situadas na minha história passada que prefiro manter a…

RECADO >> Carla Dias >>

Tenho um recado para você.
Não caiu do céu o tal, nem das tardes solitárias, observando impossibilidades. O que tenho a dizer está estampado na rotina das coisas e dos pensamentos. Foi fisgado à luz da lamparina, ao tremular das chamas das velas, e de toda forma de iluminação.
Meu recado não está escrito em papel de pão, sulfite ou bloco de notas. Não vem das cartas e seus mistérios. Não precisa ser lido pelos búzios. O que tenho a lhe dizer é um tanto menos espetacular... Apesar da importância que abarca, de ser indispensável a consciência sobre o que representa.
Esteja atento aos mistérios, que sinuosos e intrigantes, aguçam a nossa capacidade de reverberar significados.
E espero que, recado dado, você possa maravilhar-se com o que está ao seu alcance, antes de alçar vôos mais ousados, pois para tudo há tempo e ciência. É preciso prestar atenção a cada volta que a alma da gente dá. E também contemplar os resultados das nossas jornadas. Senão, viveremos pela metade, sem sabedoria para de…

UNS PÉS >> Eduardo Loureiro Jr.

Enquanto ela massageava deliciosamente meus pés, eu falei sem desconfiar que abalaria sua auto-estima sexual:

— Isso é melhor do que sexo!

Do próprio Jesus Cristo, eu não invejo o poder de fazer milagres, mas o fato de ter tido os pés lavados, e depois enxutos, pelos cabelos de Maria, a irmã da trabalhadora Marta. E o reconheço como Mestre não por ter morrido numa cruz, mas por ter lavado os pés de seus discípulos.

Cabeça, coração, olhos, sexos... partes do corpo tão presenteadas com louvores em contos, romances, versos e canções. E o que sobrou para os pés? Um jogo estranho com a mais incompreensível das regras: o impedimento. Mesmo assim, em sua humildade, os pés transformam chute em dança.

Quando dormimos, eles estão de pé, alertas, prontos para qualquer eventualidade. Quando despertamos e nos levantamos, eles nos suportam, passo a passo, muitas vezes aprisionados em chinelos, sandálias, sapatos.

Se à minha futura esposa me fosse permitido fazer um único pedido, eu arriscaria que ela nã…

VOCÊ TEM MEDO DE QUÊ? >> Felipe Holder

Tem gente que gosta de alardear a própria coragem, dizendo que não tem medo de nada. Eu duvido. Todo mundo tem medo de alguma coisa, por mais que diga que não. Uns têm medo de morrer, outros têm medo de viver, outros têm medo de palhaço... tem gente até — imagine você! — que tem medo de borboleta!

Quando eu era pequeno tinha muitos medos: medo dos monstros de Perdidos no Espaço, medo dos filmes de Vincent Price, medo de ouvir o galo cantar de madrugada, mas o meu maior medo mesmo era medo do escuro. Medo comum, que quase todas as crianças têm, mas só que o meu não era exatamente medo. Era pavor. Eu tinha pavor do escuro. Depois de grande (bem grandinho, para ser mais preciso) o medo foi embora. E não foi por descobrir que o bicho-papão não existia, ou por saber que os fantasmas não iriam se aproveitar para aparecer na minha frente quando a luz se apagasse; simplesmente o medo foi embora. Inexplicavelmente.

Medo é mesmo uma coisa inexplicável. Você se lembra da campanha presidencial de 2…

SILÊNCIO! [Mariana Monici]

Eu não consigo funcionar bem mental e emocionalmente com ruídos. Ou uma coisa ou outra - acho que não sei nem preencher um cheque com fones no ouvido. Não entendo a escolha deliberada de poluir sonoramente um ambiente que já não é tranqüilo. Já repararam a quantas andam os ambientes pelos quais circulamos? É uma coisa impressionante. Tem lugares que não se pode escolher, ok, faz parte: trânsito, aniversário infantil em buffett , shows, isto tudo é compreensível e vem no pacote da escolha do programa predileto ou necessário.

Por outro lado, alguns lugares são extremamente barulhentos e nos expulsam como que um grito de horror em castelo mal assombrado (tá, posso ter exagerado... são duas da madrugada!). Hoje fui a um supermercado, destes bem grandes e que tem um nome forte. Não calculei bem, ou não me lembrei que era sexta-feira e acho que isto justifica estar um pouco cheio de gente comprando e abastecendo o fim de semana. A maioria carregava latas de cerveja, outro vi carregando frald…

INEVITABILIDADE >> Leonardo Marona

O ideal seria poder gritar para nunca mais olharem para mim daquela forma. E que não lessem isso como lamentação irada. E que meus dedos parassem de se mexer à toa. E eu de fato grito. E eu do grito faço a porra. Aquilo que vai e fica no pau dependurado. Mas o grito sai mudo e ninguém escuta nada. Porque tudo que é mudo muda tudo e rega a muda morta do bem e do mal. Enterro a dúvida para sempre debaixo da vala, faço da vida a morte da fala. Então somos capazes de sorrir. Mas os sorrisos de agora vivem da morte do entusiasmo. Porque esquecemos do que realmente se trata o entusiasmo. Afinal, quem se trata é paciente e eu tenho pressa em saber que doença é essa que pode desmentir meus olhos. E a morte é só aquilo que me dizem enquanto sangram os porcos. Então duvido de mim mesmo, dos ouvidos, dos sinônimos, do dilúvio, do desprezo. E penso: e peso: e meço as conseqüências. É isso enlouquecer? A balança não responde, está enlouquecida. E continuam me olhando de cima a baixo. Uns tentam en…

AO SOM DAS BRITADEIRAS >> Carla Dias >>

Lá fora, os moços da Comgás aproveitam a madrugada para consertar sei lá o quê. Tivesse de ser consertado sob a luz do dia, certamente atrapalharia o movimento da avenida onde moro. Imagine o caos: desestabilizar o tráfego; ruir com a rotina do comércio, com o entra-e-sai nos bancos.
Aqui estou... Já é madrugada alta, e escrevo ao som das britadeiras. Imagine o caos: não conseguir fechar os olhos e dormir, às duas da madrugada, por causa do baile da Comgás. Antes nós, não é mesmo? Pessoas que precisam acordar cedo no dia seguinte para encarar correrias e trabalho. Nosso bem-estar, a quem mais importaria senão a nós mesmos?
Recorro ao mp3 player e às canções antigas, algumas mais antigas do que eu. Ando nessa de botar o passado na mesa. Lembro-me da última casa onde morei com minha mãe, e que ela levantava cedinho, porque fazia questão de preparar o meu café antes de eu sair para o trabalho. Às vezes, eu conseguia enganá-la... Acordava mais cedo, desligava o despertador e a deixava dorm…