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Será que dessa vez é pra valer? >> Felipe Holder

Ano vai, ano vem, é sempre a mesma coisa: felicidades pra cá, felicidades pra lá, desejo isso, desejo aquilo, todo mundo querendo que o mundo seja melhor... mas o que é que se faz pra que isso se torne verdade? Nada, ou quase nada.

As promessas, as boas intenções, parece que tudo só dura até a meia-noite do dia 31 de dezembro. Ou até as primeiras hoas do dia 1º de janeiro. É só dormir que, ao acordar, ninguém se lembra de mais nada. Aí começa o ano de verdade e tudo volta a ser como antes.

É por isso que eu não acredito em promessas de Ano Novo. E não as faço. Claro que a maioria dessas promessas é autêntica, é sincera, mas como quase sempre elas caem no esquecimento, terminam soando como hipocrisia. Prefiro desejar o bem caladinho, procurando agir pra que isso se torne verdade e procurando mudar todo dia, a cada erro que eu venha a cometer — que infelizmente não são poucos.

Um f* da p* foi rezar e estacionou bem na frente da igreja, numa curva, em local proibido e pondo em risco a segurança alheia? Vontade eu tenho, de buzinar bem alto sem querer saber se vou atrapalhar a missa, mas não tenho o direito. Melhor passar em silêncio. Melhor torcer para os outros que estão lá dentro não sejam como ele, apesar de ser levado a pensar exatamente o contrário. Não fosse assim, não haveria tantos carros na mesma situação. Por que tanta hipocrisia? Não sei, não faço a mínima idéia. Talvez nem chegue a ser hipocrisia, talvez seja só indiferença mesmo. Faço de conta, para Deus e para os outros, que desejo e busco um mundo melhor. Mas a verdade é que tanto faz, pois enquanto estou lá dentro rezando e jurando seguir os ensinamentos divinos, meu carro está ali na frente, em local perigoso, pondo em risco a vida das outras pessoas. Da mesma forma que quando desejo o bem no Ano Novo, e continuo fazendo tudo como antes. Quero um mundo melhor, mas não me chame pra ajudar a mudá-lo. O problema não é meu.

Começa um novo ano. Tudo se repete: as promessas, os desejos... do jeito que vêm, vão embora. São esquecidos até o próximo Natal. Mas devemos ter esperança, não é mesmo? Devemos ser otimistas. Uma crônica assim, aparentemente pessimista, não tem nada a ver com o clima de Ano Novo. Peço desculpas, mas justifico: é que hoje já é dia 6, o momento já passou, e ninguém se lembra mais de nada. Nem das promessas nem dos desejos.

Mas vamos, sim, ser otimistas. Será que dessa vez é pra valer? Eu não sei. Gostaria muito que fosse. O que você acha?

Comentários

Beleza, Felipe! Você já está eleito o fiscal das boas intenções (com direito a flagrantes fotográficos). :)
Debora Bottcher disse…
Seu tom não é pessimista, é realista. De toda forma, eu acho que não é hipocrisia, mas um desejo de mudança, em que a gente tem que se esforçar pra fazer acontecer - o que é muito difícil. Talvez seja melhor viver um dia de cada vez, que é o que, de fato, está ao nosso alcance. Expectativas demais são o que minam as boas intenções e, infelizmente, não dá pra salvar o mundo - muitas vezes, a gente só consegue salvar a si próprio, o que dá uma enorme impotência...
Mas como se tem que continuar, há que se inflar o peito com esperanças, não acha? :)
Beijo pra vc.

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