sábado, 12 de janeiro de 2008

SILÊNCIO! [Mariana Monici]


Eu não consigo funcionar bem mental e emocionalmente com ruídos. Ou uma coisa ou outra - acho que não sei nem preencher um cheque com fones no ouvido. Não entendo a escolha deliberada de poluir sonoramente um ambiente que já não é tranqüilo. Já repararam a quantas andam os ambientes pelos quais circulamos? É uma coisa impressionante. Tem lugares que não se pode escolher, ok, faz parte: trânsito, aniversário infantil em buffett , shows, isto tudo é compreensível e vem no pacote da escolha do programa predileto ou necessário.

Por outro lado, alguns lugares são extremamente barulhentos e nos expulsam como que um grito de horror em castelo mal assombrado (tá, posso ter exagerado... são duas da madrugada!). Hoje fui a um supermercado, destes bem grandes e que tem um nome forte. Não calculei bem, ou não me lembrei que era sexta-feira e acho que isto justifica estar um pouco cheio de gente comprando e abastecendo o fim de semana. A maioria carregava latas de cerveja, outro vi carregando fraldas e outros um monitor LCD. Pensei: “Que mundo mais maluco, eu só quero fazer um jantar...” Claro, maluca sou eu, que encaro um negócio destes em plena sexta por causa de um jantar pra duas pessoas.

Bom, o ar condicionado estava quebrado, de forma que ouvia os clientes reclamando e as meninas de patins suando e se justificando - o próprio caos. Eu não precisava mais do que dez itens, o que me dava uma enorme vantagem de encerrar logo o perrengue. Fui à banca de queijos e quando me abaixei par escolher, veio o som dentro dos meus ouvidos, tirando qualquer concentração nos queijos, ou no jantar ou em qualquer coisa: uma televisão estava instalada bem no meio dos queijos. Nela, passavam propagandas dos produtos e anúncios da TV à cabo. Não podia acreditar: nem na minha casa ligo a televisão, não era possível que precisasse me deparar com aquilo!?

Ouvia crianças chorando e algumas tomavam bronca por isso, outras totalmente sem limites subiam atrás dos carrinhos de compra e deixavam que o destino as freassem bem em cima das garrafas de vinho; as mães não diziam nada. Novamente quis estar em minha casa, assistindo um bom DVD tomando coca-cola gelada e mandar pelos ares o tal jantar.

Quando chego na fila do caixa rápido, algumas pessoas tiravam suas compras do carrinho e equilibravam diversas caixas de leite nas mãos para ter o direito de estar na fila dos 15 itens. E mais uma novidade: uma TV instalada na fila, com um som baixo que ninguém entendia, mas também incomodava.

Então, me dei conta: porque esta escolha pelo barulho? Já havia tanta gente falando, música no supermercado e mais a televisão, além dos barulhos pelos quais não temos escolha: criança chorando, cliente reclamando - coca e cerveja geladas não existiam para vender, apenas marcas estranhas e totalmente suspeitas.

No trânsito não é diferente: mal abre o semáforo e alguém já está buzinando. Sem falar nos motoqueiros que fazem questão de acelerar com aquele barulho que nem sei como fazem, mas penso que seja proposital.

Em casa, ninguém se levanta para falar com a pessoa ao redor. Um está no quarto, o outro na sala e, então, gritam suas solicitações querendo ser mais poderosos do que a TV, o rádio ou mesmo a conversa estabelecida com um terceiro.

Eu, que não gosto do marasmo, simbolicamente vivo pedindo que aumentem o som, mas não é disso que estou falando... Vamos combinar que silêncio é essencial para o bom funcionamento do indivíduo. Exceto, sábado a noite quando, por escolha, você PRE-CI-SA de barulho pra dançar.

Minha proposta, então, é diminuirmos o ruído, que este mundo até quieto, está pra lá de barulhento! Acabo até me lembrando das minhas professoras primárias de quase trinta anos atrás pedindo silêncio... Afinal, quem consegue pensar no meio da confusão?

Outras Cenas

Imagens: Dial, Mathias Kulka; Engren, Peter Maltz

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2 comentários:

Debora Bottcher disse...

Eu, que amo o silêncio, concordo plenamente. O mundo anda encerrado num infernal ciclo de barulho... É enlouquecedor mesmo...
Beijo.

Estrela disse...

Para todo o barulho que nos envolve, eu que sou ateia, só numa igreja consigo encontrar o silêncio de que necessito...