quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

AO SOM DAS BRITADEIRAS >> Carla Dias >>

Lá fora, os moços da Comgás aproveitam a madrugada para consertar sei lá o quê. Tivesse de ser consertado sob a luz do dia, certamente atrapalharia o movimento da avenida onde moro. Imagine o caos: desestabilizar o tráfego; ruir com a rotina do comércio, com o entra-e-sai nos bancos.

Aqui estou... Já é madrugada alta, e escrevo ao som das britadeiras. Imagine o caos: não conseguir fechar os olhos e dormir, às duas da madrugada, por causa do baile da Comgás. Antes nós, não é mesmo? Pessoas que precisam acordar cedo no dia seguinte para encarar correrias e trabalho. Nosso bem-estar, a quem mais importaria senão a nós mesmos?

Recorro ao mp3 player e às canções antigas, algumas mais antigas do que eu. Ando nessa de botar o passado na mesa. Lembro-me da última casa onde morei com minha mãe, e que ela levantava cedinho, porque fazia questão de preparar o meu café antes de eu sair para o trabalho. Às vezes, eu conseguia enganá-la... Acordava mais cedo, desligava o despertador e a deixava dormindo um pouco mais. Era um bairro silencioso. As britadeiras andavam longe de lá.

Estou em férias, mas parece que não conseguirei descansar de jeito nenhum. Minha cabeça fabrica pensamentos sem parar, e eu quieta, praticamente estática. Fazendo nada desses pensamentos. Fiz uns dias de dieta, mas deu uma fraqueza... Até que parei de pensar tanto e me senti vazia, o que não tinha nada a ver com a dieta. Comi dois tomates, além da conta, e pude fabricar pensamentos por mais algumas horas. Aí passou o efeito, e voltei ao vazio... E senti falta de mim ... Comi torradas e tomei coca-cola light.

A dieta dançou, mas os pensamentos vão bem, obrigada! Inclusive aquele que esclarece que, ao andar dessa carruagem, jamais entrarei no vestido de festa da vida. Mas ok. Quem sabe consigo, dia desses, confeccionar meus próprios vestidos. E caber neles como cabe em mim essa maluquice de pensar tanto sobre tudo.

Li na ficha técnica de um filme: "Assistente de Barulhos na Sala". Como já disse, estou em férias, e ela sempre me serve para perder a noção do tempo. Sobram o dia e a noite. O Assistente de Barulhos na Sala, hoje, é o homem que conduz a orquestra. Ao invés da batuta, a britadeira. Mas em dias de rotina, também eu ocupo essa função... Inventando barulhos, como os dos passos de um caminhar em círculos, enquanto busco o fio solto que abrirá caminho para um novo rumo.

Ah, o som das britadeiras se sobrepõe ao do meu mp3 player. Será uma longa e barulhenta madrugada. E amanhã, a avenida estará funcionando normalmente, mas nós, nem tanto.


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4 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

"Em mim essa maluquice de pensar tanto sobre tudo". Nunca havia pensado sobre o que poderia colocar na minha lápide até me deparar com essa frase sua, Carla. Que bela pepita essa que resultou da escavação das britadeiras em sua mente! :)

inês disse...

São Paulo inteiro deveria ler essa sua crônica. :)
Eu me acordei hoje me sentindo assim, vazia de mim... meio sufocada por essa cidade imensa, cheia de tanto e vazia de tudo...

Gostei muito!

Debora Bottcher disse...

Realmente... O mundo anda carecendo de silêncio, não? São Paulo então, nem se fala... :)
Beijo, bonita.

Eduardo - Adm disse...

Estou em situação parecida, tentando continuar meu trabalho de desenvolvedor de softwares, usando essencialmente minha concentração para desenrolar problemas transformando-os em belos algoritmos. MAS... ao lado da empresa, mais precisamente na minha janela, um prédio de 10 andares está sendo "desenvolvido", e um rapaz usa sua britadeira constantemente pelo segundo dia consecutivo...
Entao procurei na internet "Britadeira" e achei sua crônica sobre tal instrumento e seu "barulhinho".
Escreves muito bem, parabens!
Abraço
Eduardo