sexta-feira, 30 de junho de 2017

OS DESSEPULTOS - 2a PARTE >> Zoraya Cesar

Leia OS DESSEPULTOS – 1ª PARTEO professor Barain Samd e seus alunos precisavam de corpos, muitos corpos. Roubados de necrotérios e também de cemitérios. Farley, o assistente, não se incomodava em receber tal material, desde que seu pagamento estivesse em dia. Até que ele percebeu algo muito estranho em um dos cadáveres... 

Farley olhou pelo rasgão no plástico, surpreso. Podia jurar que era seu amigo Patrick, com quem, havia poucos dias, bebera aguardente até caírem. Ali, à luz difusa dos faróis da Ranger e da luminária que pendia à porta do laboratório, ele parecia tão... vivo!

O motorista que trazia os cadáveres grunhiu, impaciente com a demora. Era um tipo esquisito, assemelhava-se a um lobisomem, baixo, atarracado, musculoso e peludo, a bocarra cheia de dentes grandes e amarelados. Farley sentia arrepios perto dele. Apressou-se a tirar o cadáver da caçamba e a pagar ao sujeito o estipulado. Só entrou quando, aliviado,  viu os faróis se afastarem na escuridão.

Lá dentro, olhou melhor. Era mesmo Patrick! Mas, como? Patrick era saudável e forte como uma mula. Farley tocou em sua pele – estava quente e macia, mais se assemelhava a quem caíra no sono e não na morte. Não havia batidas de coração. Então, estava morto. Mas não parecia morto. Farley tremia, nervoso. Ainda pensou em sair antes do amanhecer, mas, apavorado com os estranhos sons que vinham da floresta naquela noite - uma mistura de uivos e terra revolvida - resolveu esperar.

Quando voltou ao laboratório, na tarde do dia seguinte, Farley não encontrou o corpo de Patrick, mas nada perguntou ao professor. Os dias passaram, os cadáveres continuaram a ser entregues periodicamente, cadáveres decentes, pensou Farley, evidentemente roubados de cemitérios e necrotérios. E ele debitou o estranhamento com o cadáver de Patrick a algum problema nos nervos, provocado pelo excesso de aguardente e pelas noitadas de jogatina. Afinal, porque Patrick não morreria? Não morríamos todos? Vai ver, pensou, aquele era um cadáver muito normal, não sou médico, que sei eu de cadáveres?

Uma noite, porém, foi trazido um pacote que também não parecia ter sido roubado de cemitérios ou necrotérios. Assim que os faróis da Ranger sumiram na noite, Farley trancou o laboratório e abriu o pacote na altura do rosto do cadáver. Não reconheceu a quem pertencia o corpo, mas tinha as mesmas características do cadáver de Patrick: quente, macio, sem batimentos cardíacos.

Tomado por um pânico irreprimível, impensadamente resolveu entrar no lugar que lhe era interdito: o sótão, onde eram dissolvidos os cadáveres inservíveis. Não encontrando o interruptor que ligava luz do sótão, pegou uma lanterna e subiu. 

O silêncio era opressivo. As mãos de Farley tremiam e suavam tanto que ele teve dificuldades em segurar a lanterna. O raio estreito e difuso de luz não iluminava a totalidade do ambiente, formando sombras indistinguíveis e aterrorizantes para sua mente já abalada pela suspeita de que algo terrível e pervertido acontecia ali. Derrubou um recipiente, cujo conteúdo rolou pelo chão com um ruído úmido e macabro. Farley não teve coragem de olhar para ver o que derrubara.

Vislumbrou, mais do que viu, restos de velas; a banheira; potes cujo conteúdo amarelado e denso lembravam gordura animal; esquisitos tapetes em variados tons de pele; escalpos sem cabeça e cabeças sem escalpo... E uma cabeça destacada do corpo, sobre uma mesa, que Farley reconheceu como sendo de Patrick. 

Movido por uma irresistível morbidez, Farley aproximou-se, sentindo seus pés pisarem em coisas que estalavam como tomates esmagados, ploft, ploft. Sentiu engulhos, e fixou os olhos à frente, para não ver no que pisava. Provavelmente o conteúdo do pote que caíra.

O couro cabeludo de Patrick tinha sido recortado e depois recosturado de volta à cabeça. O ‘serviço’ ainda não havia sido terminado, deixando à mostra pedaços caídos de pele, o osso do crânio e partes de músculo. Farley molhou as calças, descontrolado. Viu, nos restos da face de Patrick, sangue fresco e – horror dos horrores - teve certeza de que os olhos do morto se voltaram para ele, num mudo pedido de socorro. Sua mente entrou num looping descendente para um território infernal, no qual ele pensava sem parar: ‘o sangue continua pingando, ele morreu há dias e o sangue continua pingando, ele morreu há dias e o sangue continua pingando, ele olhou para mim, ele olhou...’.

Num frenesi, Farley desceu correndo, tropeçando pelos degraus, apenas para seu coração quase sair do corpo ao encontrar o Dr. Barain Samd esperando por ele. 

De braços cruzados, vestido com seu jaleco imaculadamente branco, sorrindo sardonicamente, sim, o Dr. Barain Samd esperava por ele.

Antes que ele pudesse pensar ou reagir, num movimento rápido e calculado o professor passou as mãos nos braços de Farley, esfregando-os com uma gosma verde-escura, que cheirava a pântano. Em alguns segundos as batidas do coração de Farley diminuíram e ele ficou paralisado, sob o efeito da droga que o médico passara em sua pele.

- Você pisou em olhos e testículos que serviriam para meus rituais e para o estudo de meus alunos. Esse material custa caro. Estou pensando em usar os seus olhos e testículos em substituição àqueles. E deixá-lo em estado latente, como seu amigo.

A casa onde se localizava o laboratório.
Qualquer que fosse a decisão de Farley,
ele estaria eternamente aprisionado
ao professor Barain Samd,
amaldiçoado para todo o sempre. 
A mente de Farley congelou. O medo era grande demais para que ele absorvesse todo o horror da situação: o ex-médico e seus alunos estudavam em cadáveres roubados de cemitérios e necrotérios, mas também faziam experiências e rituais diabólicos com corpos em estado de hibernação. Seu subconsciente compreendeu tudo, mas sua mente tentava se refugiar num estado de loucura irreversível. 

- Mas, se me trouxer corpos dessepultos ou em estado vivo-morto, como posso te ensinar a fazer, você escapa de virar um espécime do meu laboratório. Ou a se parecer com o meu motorista. De qualquer forma, será meu prisioneiro. O efeito da droga passará em alguns minutos, preciso saber qual sua escolha... 

Farley desmaiou. Quando acordou, estava amarrado a uma das macas, com vários alunos em volta, olhando-o com curiosidade. E, ao seu lado, sorrindo com seus dentes ebúrneos e cruéis, segurando um bisturi, o professor Barain Samd pergunta, um laivo de cinismo na voz:

- Então, o que vai ser?



Foto: Tristine Penderson in Pinterest


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quinta-feira, 29 de junho de 2017

ALEJANDRA, CONFEITARIA, TEQUILA>>Analu

Eu não sabia da existência de Alejandra Pizarnik  até esta semana, quando li o texto de uma das cartas que ela enviou a seu psicanalista. Descobri que ela era poeta e tradutora, argentina (ninguém é perfeito) e que morou em Paris, num quartinho na casa de uma família para a qual fazia uns trabalhos de babá. Alejandra Pizarnik cuidava de uma criança enquanto pensava coisas como :

"Minha única súplica constante é que a fé não me abandone em alguns valores espirituais (poesia, pintura). Quando ela me deixa temporariamente vem a loucura, o mundo se esvazia e soa como um casal de robôs copulando".

Se for pensar bem, tem um monte de gente por aí que é comum e grande ao mesmo tempo. Olha isto: uma mulher que fala do quartinho onde mora e de loucura, fé, robôs copulando. Bendita Internet que me mostra Alejandras.
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Fui fazer um bolo de coco, porque a faxineira me desafiou a fazer um e eu, que não gosto de desafios, resolvi aceitar aquele, considerando que na mesma semana minha regra de "não-competição" já tinha ido para as cucuias quando cedi a pressões para virar um shot de "tequila golden" (vejam bem, este foi um desafio com perspectivas de enjoo e vexame bem maiores que aceitar uma provocação do estilo  "você faz bolo? é sério?"). 

O bolo ficou ótimo, modéstia à parte. Cremoso, que nem aqueles que serviam em festa de criança, quando eu era uma. Bendita Internet que me mostra receitas de bolo de coco. Agora sou alguém que se arrisca na cozinha e faz um lanchinho relativamente respeitável. Enquanto batia a massa, eu pensava: de Alejandra Pizarnik a confeitaria, passando por um negócio demoníaco chamado tequila golden, ainda tem tanta coisa pra eu conhecer...




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quarta-feira, 28 de junho de 2017

ONDE ESTÃO OS PÁSSAROS? >> Carla Dias >>


Parada no meio da rua, enlouquecendo motoristas e atiçando buzinas. Quem é essa que se coloca dessa forma em uma avenida?  Não importa a aparência dela, mas a de seu gesto. Em menos de um minuto, muitas são as teorias a respeito dessa insana a atropelar a rotina das pessoas, a sujeita-las à possibilidade de terem de pagar franquia no caso de uma avaria em seus automóveis, e de atraso cumulativo, que atrasados todos sempre estamos nessa metrópole. Quanta dor de cabeça por causa de uma mulher qualquer cometendo a loucura de ficar assim, parada, à mercê dos possantes e dos olhares dos frequentadores de calçadas.

Nas avenidas, as línguas não são domesticadas, tampouco educadas. São bichos soltos, desavergonhadas com a benção da propriedade. Ninguém pode julgar aqueles que estão em suas casas de duas ou quatro portas. É propriedade ambulante, e há daquele que se coloque em seu caminho. Dependendo do desânimo, do grau de complexidade do sentimento vigente, nem mesmo o mais cuidadoso transeunte escapa de um possível acidente. Não importam os semáforos. Não importa o cuidado dos sem-carro. Transgredir em avenidas, às vezes abraça o sentido de fuga, e fugas são estopins de imprevistos.

E essa mulher? O que diabo ela faz ali, parada no meio da avenida, via de mão dupla, um vai e volta enlouquecedor, típico de cidade desvairada?

Chamem o resgate que o estrago vai ser dos grandes.

E muitos já escutam, imaginariamente, o som dos ossos dela sendo quebrados no impacto dos carros com seu corpo. Da carne sendo esfolada ao deslizar com violência na tez do asfalto. Muitos já formulam seus monólogos da hora do almoço, quando, alvoroçados e excitados, irão relatar aquele acidente lá na avenida, dos quais foram espectadores Vips. Falarão do sangue espalhado, ainda quente, sobre o cinza estriado do asfalto.

Ela caminha a passos ralentados pela avenida, ziguezagueando, colocando-se em perigo em ambas as vias. Os pés descalços, alguém os percebeu? Os pés descalços sangram alguma tragédia anterior. Contudo, ninguém está preocupado com tragédias anteriores. A que importa é a vigente, aquela que os telejornais alcançam em minutos, com a ajuda de dedicados informantes-espectadores e seus celulares dinâmicos, parcelados em dez vezes ou importados por dez salários mínimos.

Não demora e os helicópteros tomam conta daquele pedaço de céu.

As buzinas enlouquecidas, uma sinfonia de desespero sendo amplificada pelos gritos. Os gritos enlouquecidos, uma sinfonia de intolerância sendo amplificada pela incapacidade de se observar, antes de se render ao desejo desenfreado de criar enredo para a história que não nos pertence.

Logo ali, alguns carros adiante, uma senhora assina a autoria da biografia da mulher, enviando mensagens a um amigo que trabalha em um site de notícias. De acordo com ela, a mulher está atrapalhando o trânsito, colocando a vida dos motoristas em risco. Provavelmente, é uma dessas aí que gostam de uma boa bebida e um sexo selvagem com direito a cachê no final da performance. Essas sempre endoidecem, se dão mal. Ela fecha seu depoimento ao suposto repórter com o que se tornará a manchete do artigo que ele publicará daqui a cinco minutos:

Mulher insana desfila na marginal para enlouquecer motoristas do bem.

A questão é simples, ao menos nesse caso. Ninguém sabe por que a mulher se colocou em tal posição. Talvez, nem mesmo ela saiba, porque os distraídos, com a excitação e o deleite de presenciar um absurdo, sequer atentaram para o fato de que os cabelos dela estão coloridos pelo sangue vindo de um ferimento causado por uma pancada na cabeça. Que seu vestido está rasgado, de tal forma, que nem mesmo a moda contemporânea pode explicar. Os olhos dela? Um deles está fora de órbita.

Os pés descalços sangram de um jeito que não há como entender como ela ainda caminha.

Longos artigos foram escritos sobre a insana da avenida. Ela ficou famosa nos meios de comunicação como aquela que se impôs ao trânsito. Dizem por aí que foi protesto, que ela queria mostrar a imprudência dos motoristas e dos transeuntes. Porém, a versão da amiga do suposto jornalista é a que prevalece.

Alguns dias depois, foi inaugurada uma estátua da mulher insana na calçada da avenida onde ela se atreveu a caminhar. O artista concedeu várias entrevistas para elucidar a inspiração que o tomou ao ver aquela cena na tevê, captada em vários ângulos, por vários helicópteros. O prefeito da cidade se mostrou compadecido por aqueles que tiveram de assistir a tal espetáculo.

Antes que o resgate chegasse, que a polícia intervisse, que aquele meio de comunicação sempre atrasado soltasse uma nota a respeito, a mulher foi atingida não por um, mas por dois carros. Alguns escutaram o som dos seus ossos quebrados no impacto. Alguns viram a cena de sua carne deslizando com violência no asfalto. Alguns observaram o sangue quente dela se espalhando pelo cinza estriado do asfalto.

O corpo foi retirado e o trânsito voltou a fluir na sua anormalidade rotineira, aquela que todos reconhecem, da qual reclamam, mas com a qual convivem em paz. Helicópteros tomaram outros espaços do céu.

Uma hora depois, o auê era pelo ator de novela que entrou nu em um shopping center para comprar roupas novas em uma loja de puro requinte.

Para os não tão distraídos, sim, houve tragédia anterior. Não vamos debulhá-la, que já passou do momento. Mas fica a curiosidade sobre como tudo teria ocorrido se, antes de tomar para si a autoria da história daquela mulher, alguém a tivesse observado e perguntado:

Como posso ajudá-la?

Há uma pergunta que um astuto transeunte escutou a mulher fazer, um pouco antes do seu último suspiro. Ele se sentiu atormentado com aquele questionamento e comentou sobre sua agonia a um dos repórteres que chegaram, pouco depois. Qual será o significado de tal reflexão às margens da morte? Afinal, por que ela perguntaria:

Onde estão os pássaros?

Após um longo e confuso debate, eles concluíram que ela morreu com o desejo de voar de helicóptero.

A insana da avenida tinha um sonho.

Imagem: The Pretty Bird © Bernardus Johannes Blommers

carladias.com

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sexta-feira, 23 de junho de 2017

LUA DE MEL, SOL DE FEL, LUA DE MEL... >> Paulo Meireles Barguil


Parece que algumas relações afetivas são baseadas na brincadeira bem-me-quer, malmequer, bem-me-quer...
 
As margaridas, tão singelas e belas, merecem melhor destino do que terem as suas folhas arrancadas por mãos negligentes.
 
O que dizer, então, dos deslumbrantes seres humanos?
 
Impacientes, só queremos o mel e que esse seja trazido, quando o desejamos, pelo outro!
 
É por isso que muitos de nós vagueamos entre lua de mel e sol de fel, sendo esse bem mais frequente do que aquela.
 
Verdades sejam ditas: o mel não está na lua, nem o fel está no sol.
 
Somos nós que criamos a realidade, pessoal e social.

Essa gestação, tal como as demais, é influenciada por vários aspectos e tem ritmo peculiar. 
 
Quem quer conhecer e transformar a sua matriz?
 
A natureza nos convida a assumir a responsabilidade pelo cultivo de jardins internos e externos.

Necessário, pois, revolver as entranhas e a terra, retirar delas o que impede o desabrochar da vida e nelas colocar insumos indispensáveis para que a metamorfose aconteça.
 
Quem tem coragem de sair da Matrix?
 
Podemos aprender tanto sobre a vida com as plantas!
 
Amanhar margaridas, ao invés de desfolhá-las, é um bom começo.

Bem eu quero, Bem me quero, Bem te quero, Bem eu quero...


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quarta-feira, 21 de junho de 2017

AOS LETÁRGICOS >> Carla Dias >>


Não despertar sentimentos incômodos. Mantê-los ressonando em tom de resistência profunda. Evitar barulhos dissonantes e palavras irreverentes. Paz na terra aos homens e às mulheres que costumam debulhar cansaços próprios. Permitir ao silêncio ser a canção das vinte e quatro horas de cada dia mergulhado em esperas.

Que os relógios se libertem de nós, amém.

Alhear-se das saídas de emergência, entregando-se ao balé das portas e janelas, eles já entregues – corpos e dobradiças –  à irreverência do vento. Coabitar salas interiores das quais os fascínios indesejados são os proprietários. Render-se ao escapismo pontual. Nublar diálogos complexos ao meditar sobre o episódio de ontem da novela.

Caminhar sobre o piso frio da indiferença, ignorando os abismos que ela tece com tanta elegância arrependida. Tatear a escuridão das presenças ignoradas, para sentir a frigidez de suas vontades. Acumular manuais de instruções e roupas que não cabem mais.

Silenciar desejos impróprios para letargia e ruminações. Estender insignificâncias nos varais das intensidades. Jamais se entregar aos devaneios ofertados por troca de olhares.

Crucificar esperanças teimosas e alegrias furtivas. Então, banhar-se em nostalgia sequestrada da biografia de outros. Cometer pequenos delitos emocionais e maldizer margaridas.

Deve-se estabelecer uma longa distância geográfica das flores, seja em vasos ou jardins, para que elas não inventem de inspirar suspiros e atos de rebeldia, como o de se enxergar beleza em fim de tarde, enfeitar-se com a companhia do outro, cantarolar canção que morava no esquecimento. Deliciar-se com perfumes e delírios. Emaranhar-se nos cabelos da esperança. Saciar-se com cores em buquês.

Acordar-se.

Imagem © Henri Fantin-Latour



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terça-feira, 20 de junho de 2017

ENCONTRO INESPERADO >> Clara Braga

Lá estava eu naquele lugar de novo. Já fui lá incontáveis vezes, afinal, ir nesse lugar é rotina de família muito antes de eu pensar em nascer nessa família.

De lá pra cá muita coisa mudou, e de muitas dessas mudanças eu não tenho recordação, mas está tudo registrado. O que não mudou é o fato do local ter várias casinhas coloridas e aconchegantes. Já entrei em todas elas, mas confesso que a que eu menos entrei era a que eu mais deveria ter entrado, afinal, é ela que está ali aberta vendendo aquele monte de coisas para quem quiser comprar.

Para ele era tudo novidade. Já havia ido lá, mas justo no dia que foi ficou entretido com outras coisas e esqueceu de visitar a casa onde funciona o bazar. Imagina, justo ele que não pode nem ouvir a palavra bazar que já começa a se coçar para comprar coisas.

Da segunda vez não poderia haver falhas, a visita na casinha amarela era obrigatória.

E assim aconteceu.

Eu acompanhei. Quase que sem opção, mas acompanhei. Mas de longe já comecei a perceber que aquela não seria uma inocente ida a um bazar, dessa vez algo já estava chamando minha atenção. 

Seria possível?

Fui me aproximando cautelosa, afinal, aquele podia ser um momento importante.

Olhei para ela, ela olhou pra mim. Tive certeza de que era ela, mas preferi não chamar muita atenção, melhor olhar com cuidado.

Me aproximei, segurei com minhas mãos. Era ela! Mas calma, essas coisas são caras, outro dia mesmo eu estava pesquisando por ela na internet e desisti de comprar por causa do preço.

Mentira, está custando apenas isso? Calma! Então só pode ser por não ser ela de verdade, melhor conferir na internet.

Uma pesquisa rápida e tudo se confirmou, era ela! Não estava com as roupas originais, mas quem liga? Quando eu imaginaria que ela ia aparecer ali na minha frente por esse preço?

Segurei, paguei e fui embora feliz com a minha Barbie Spice Girl na sacola! Agora faltam só 4 e a roupa original dessa primeira para completar minha coleção! Se alguém souber onde posso encontrar, não deixe de fazer essa criança feliz! 

Grata!


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sábado, 17 de junho de 2017

ENVELHECENDO >> Sergio Geia



Pois não é que fui parar num pronto-socorro? Meio sem vontade, claro; aliás, quem vai com vontade a um pronto-socorro? Mas imaginar aquela parafernália toda, a demora, e, geralmente, o resultado, que é quase sempre previsível, pelo menos pra mim, já me serve como um bom desestimulante ou uma boa terapêutica, vai, remedinho da hora pra me deixar novo em folha. No entanto, o dia foi passando, o sol mudando de lado e eu nada de melhorar. De café da manhã, uma maçã; de almoço, uma pera.
No caminho fui fazendo o diagnóstico (eu sempre faço isso): vômito + diarreia + calafrio + desânimo + dor abdominal = intoxicação.
A minha única dúvida era saber a causa. Primeiro pensei nuns salgadinhos que eu tinha comido numa festa sábado à noite. Depois, num frango à parmegiana que tinha comprado no sábado, pra comer no domingo. Por fim, o excesso de estrogonofe do almoço de domingo. Tem também aqueles que falam que não foi a comida, mas eu mesmo que não estava num dia bom, pois é. Mas a vilania mesmo, depois de pensar muito, eu entreguei a esse chocolate dos deuses da indústria brasileira: o Ouro Branco. De quinta a domingo, se não errei a conta, comi uns 25.
Comentário 1. Tá bom, eu reconheço, foi demais. Acontece que hoje, com 48, qualquer coisa que eu coma fora de contexto, e fora de contexto quer dizer tudo o que não seja um arrozinho, feijão, grelhados, saladas, legumes, já causa um terremoto na minha barriga. Antigamente eu chegava meia-noite em casa, comia um x-tudo, depois dormia como um anjo. Não precisa dizer. Eu sei. O tempo passou.
Pois não é que fui fazer xixi e a urina saiu vermelha? Sangue. Parecia uma cerveja bock. Primeiro pensei se tinha comido beterraba. Pensei em hepatite (eu já tive hepatite na infância), infecção de urina, pedra nos rins. A recomendação que dei a mim mesmo naquele momento (eu sempre faço isso) foi beber água, muita água, um caminhão-pipa. E a urina foi clareando, clareando, clareando, até normalizar. No dia seguinte, pela manhã, ela voltou vermelha. Fiz a mesma coisa. Ela normalizou, e já faz dias que está normal. Mesmo assim, procurei um médico. Tô fazendo exames. Já vi que na urina, as hemácias estão elevadas; leucócitos também. Amanhã faço um ultrassom dos rins e das vias urinárias. Hoje estou sentindo um desconforto na bexiga que vai e vem.
Pois não é que acordei com uma mancha nas costas? Assim do nada, de coisa nenhuma, tal como aparecem as dores, o torcicolo, o espirro. Dormi com as costas limpas, acordei com ela manchada. De repente, a mancha se instalou na omoplata e lá ficou; gostou das minhas costas. Uma nuvem escura no céu da minha costela. E como o PSDB, não há nada que a faça desembarcar.
Meio arroxeada, ligeiramente escura, e coça. No começo não liguei. Fiz pouco caso, mesmo porque o incômodo era risível. Achei que fosse como mais uma dessas insignificâncias que aparecem, e tão rápido como aparecem, somem. Não foi o caso. Já fui a três médicos, até biópsia quiseram fazer. O diagnóstico que deram é que não é nada, apenas uma inofensiva manchinha. É da idade, disse-me um deles. No máximo uma pomadinha pra aliviar a coceira e, quem sabe, dar uma ligeira clareada.
Pois não é que outro dia eu não arriei o cóccix? Não conseguia fazer yoga, nem andar de bicicleta, uma simples encostada na parede eu já tremia de dor. Nos exames, nada. Segui as prescrições e nada. Com o tempo a dor sumiu. Misteriosamente. Só que eu já tinha ido num clínico geral, num urologista, num proctologista (não me pergunte o que eu fui fazer lá, ok?), nuns dois ortopedistas, muitos exames pelo caminho até chegar ao cóccix.
Comentário 2. É triste, amigo. E inexorável. A não ser que as ideias do Aubrey de Grey comecem a vingar logo, as visitas a médicos, hospitais, laboratórios, clínicas, farmácias, ocuparão cada vez mais um espação na nossa corrida pela vida.
Pois não é que fui comer um amendoinzinho e o dente quebrou? Enchi um copo de cerveja...

Ilustração: Vincent van Gogh


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sexta-feira, 16 de junho de 2017

OS DESSEPULTOS - 1a PARTE >> Zoraya Cesar

O ‘laboratório’ ficava a alguns quilômetros do vilarejo, afastado de qualquer cidade grande. No meio de uma floresta, acessível apenas de carro. Quando o professor Barain Samd se instalou ali, causou um certo rebuliço nas pessoas simples do lugar. 

Ninguém sabia coisa alguma ao certo, mas dizia-se que fora expulso de uma prestigiosa faculdade de Medicina, onde era titular da cátedra de Anatomia, por práticas pouco ortodoxas. Sua fama como professor, no entanto, não feneceu com o banimento e, ao contrário, pareceu crescer com o opróbrio. Era um chamariz irresistível para os futuros médicos que desejavam fama e conhecimento de qualidade inquestionável – e que não tivessem grandes pruridos morais para consegui-los. Uma dezena de alunos fieis frequentava o laboratório, e cada um deles tinha um cadáver para chamar de seu. Um cadáver periodicamente renovado. 

Os alunos formavam uma irmandade unida por rituais de sangue e morte, na qual imperava a lei da omertà – a lei do silêncio da máfia italiana dos velhos tempos. Pagavam muito dinheiro por essas aulas exclusivas, mas, para eles, valia a pena. Os alunos “especiais” do professor Barain Samd formavam-se com conhecimentos extensos e profundos sobre o assunto, tornando-se exímios legistas, respeitados catedráticos, doutores de renome. 

As aulas extracurriculares eram totalmente ignoradas pela sociedade médica, um segredo passado à socapa, para poucos. Nenhum desses estudantes jamais denunciou a fonte de seus vastos conhecimentos nem os estranhos métodos do professor. Apenas um aluno, não se sabe o motivo, um dia surtou, gritando ‘estavam vivos, estavam vivos’ e atirou-se pela janela do apartamento onde morava, morrendo junto com o significado daquelas palavras. 

E os habitantes do vilarejo, o que tinham a dizer sobre o taciturno professor, sobre seus alunos de olhos sagazes, suas práticas inconfessas? Nada. Eram gente pobre e humilde. Viviam longe de hospitais, escolas, postos de polícia, nem cemitério tinham, seus mortos eram enterrados na cidade vizinha. O professor se ofereceu para levar os corpos em seu próprio carro, dando carona aos parentes chorosos, o que lhes economizava um bom dinheiro – dinheiro que, diga-se, não tinham. Por que se importariam com o que era feito no meio da floresta? Se o dinheiro em excesso tende a tornar as pessoas indiferentes, a necessidade tende a torná-las práticas. 

Por cínico que fosse, de vez em quando
Farley sentia um certo tremor
quando vislumbrava, saindo da noite,
a luz dos faróis da caminhonete.
Mas era seu trabalho  e ele recebia
muito bem para aguardar as encomendas. 
E Farley era muito prático. E endividado. E amoral. E tanto fez que conseguiu ser contratado como assistente do professor. Sua tarefa era manter o laboratório impecavelmente limpo; o material – facas, serrotes, bisturis – afiado; as macas e cadáveres arrumados; os pós e líquidos em ordem. E receber, na inquieta madrugada, o homem que trazia, na caçamba de uma Ranger, cadáveres novos, embalados em plástico. Farley pagava pelas encomendas, arrumava os recém-chegados nas macas e aguardava o amanhecer para ir embora. Ele sabia que os corpos descartados eram dissolvidos numa das misturas ácidas e corrosivas que o professor guardava no sótão, mas a técnica só era ensinada aos alunos; ele mesmo nunca vira. Isso, no entanto, não o agastava. Era interesseiro, não curioso. Amoral, não indiscreto. Desde que continuasse a receber em dia e houvesse o suficiente para pagar mulheres e jogo, tudo bem. Provavelmente os corpos eram de indigentes, roubados de algum necrotério ou cova rasa, ninguém os reclamaria, era melhor que tivessem uma utilidade. Afinal, pensava, cinicamente, melhor um cadáver na mão que dois no caixão. 

Cínico e feliz, realmente, viveu os primeiros meses de sua nova função. 

Até que numa noite sem lua ou estrelas, o homem da Ranger trouxe um pacote que Farley percebeu diferente. Não havia restos de terra úmida, grudados tenazmente no plástico que envolvia o corpo, como se protestando para levá-lo de volta ao lugar que, por direito, lhe pertencia, desde que a alma o abandonara. Não havia, em volta, aquele estranho cheiro de éter. Não parecia, portanto, tirado de alguma cova ou necrotério.

E, por entre um rasgão no plástico, ele percebeu algo mais. 

Continua dia 30 de junho. 
Foto: Sai-Kiran-Anagani - 7490 in Pixabay


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quinta-feira, 15 de junho de 2017

ESTREIAS>>Analu Faria

Um vestido de verão, mesmo sendo inverno. Um novo encantamento com o mundo. Dançar forró depois de anos. Sair sozinha depois de anos. A notícia da amiga: "Estou grávida". A notícia da família: "Sua avó faleceu". Uma nova serenidade com o mundo.  Estreamos no corpo uma emoção nova, o mundo estreia em nós uma vontade nova. Não é só o rio que é novo a todo o tempo. O corpo no rio é novo a cada segundo.

Que atire a primeira pedra quem nunca deixou um verão passar diante dos olhos, sem ter aproveitado a estação. Que atire a primeira pedra quem deixou a rotina ofuscar o brilho do mundo. Que atire a primeira pedra quem não teve vergonha de dançar, vergonha dos pés, vergonha dos braços, vergonha. Que atire a primeira pedra quem não se sentiu meio estranho, meio fascinado, meio medroso ao sair sozinho, sem um parceiro, pela primeira vez depois de anos. Que atire a primeira vez quem não se emocionou com a gravidez dos amigos. Que atire a primeira pedra quem não sentiu o chão fugir dos pés quando ouviu a notícia da morte de um familiar.

Que atire a primeira pedra quem nunca quis que o corpo fosse o mesmo, que o rio fosse o mesmo.

Que atire a primeira pedra quem nunca teve medo das estreias do mundo. E quem nunca se maravilhou com elas.








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quarta-feira, 14 de junho de 2017

DÁ TRABALHO SER >> Carla Dias >>


Nossas mazelas nunca foram tão populares, feito moda exposta em vitrine que, ainda que de fato não agrade, é consumida porque está no expositor mais importante da cidade. Aliás, essa importância nascida do bel-prazer, baseada exclusivamente no que um indivíduo pensa. Aplicada, escandalosamente, no coletivo, ela tem ajudado a deixar nossas mazelas com um verdadeiro spot apontado para elas.

Confesso que estou bem agoniada com o filme que ando assistindo. Ficção vem se tornando uma realidade moldada pela ignorância. Ele me faz lembrar de conversas que já presenciei, tendo de disfarçar o fastio, porque ainda era muito menina para expressar opinião sobre assuntos de adultos. Conversas nas quais eram desfiados todos os tipos de impropérios, alguns que acreditei terem sido banidos da nossa existência, em nome da evolução. Mas então, aqui estamos, revisitando alguns deles. Tomando-os como critérios e batizando cada um deles como ingredientes para se tornar um ser humano decente.

Enganando-nos.

Sinto dizer, mas a indecência anda de caso com a humanidade. Nem é a indecência dos prazeres consentidos, das que inspiram os poetas, das que fazem o mundo girar de um jeito que não o leve ao fim. É a indecência da miséria humana, daquele espírito ralo que já não se importa em observar e compreender o que é isso e o que é aquilo. Joga tudo em sua sacola reciclável, numa tentativa de bancar o descolado, e sai andando por aí, distribuindo intolerância.

Não, essa coisa de político corrupto desmembrando a nossa realidade é de deixar qualquer um acossado. Falam sobre milhões como se fossem troco de pão, enquanto a maioria dos brasileiros cata as moedas perdidas em bolsos esquecidos, tentando sobreviver, mês a mês. E não importa se na mesa de um o que falta é o pão, enquanto na do outro falta o champanhe. A desigualdade social apenas escancara com o que já sabemos: sobreviver é para os teimosos.

Há sim muito de positivo e transformador acontecendo por aí. A questão é que nosso olhar anda cada vez menos capaz de localizar esses acontecimentos. E não vale colocar nesse balaio aquele vídeo lindo que você compartilhou no seu perfil de rede social, que o emocionou por dois segundos e, depois, seu significado se perdeu no emaranhado de contravenções existenciais que você não consegue deixar de cometer. Não há nada tão letal – a si e ao outro – quanto se comportar como se ninguém mais importasse, além de você.

Em tempos de tantas conquistas pontuais, o retrocesso se abanca para assistir ao resultado de sua tempestuosa contribuição à nossa existência. Até anteontem, na lista de pecados moravam itens que não eram pecados, mas por falta de onde encaixá-los - ou ausência de empatia para fazê-lo -, lá estavam. Burocraticamente, impedimentos ridículos cerceavam direitos devidos. Tivemos um breve momento em que eles ganharam espaço, mas muitos deles voltaram para o exílio da burocracia que escraviza.

Não sei viver tranquilamente em um mundo onde um juiz julga se baseando no quão elástica é a reputação de uma mulher, porque ela pousou nua. Em que programas sociais são cancelados, porque há de se cobrir os rombos feitos pelos ladrões graduados e detentores do poder. E , e porque a disputa de poder não permite se endossar projetos de partidos opositores. No qual esses mesmos figurantes – porque políticos de fato eles não são, já que trabalham para si, não para o povo – tratam um problema de saúde pública da pior forma possível: com descaso, de olho no que pode ser positivo a sua gestão, não à vida das pessoas envolvidas. A culpa, essa sim tem sido bem elástica a esses senhores. Assim como a justiça.

Não há como se curvar a um cenário em que um indivíduo se acha no direito de julgar, sequestrar, tatuar a testa de um menor com a acusação escolhida, ou seja, torturá-lo. A matemática aí é das mais simples: e se fosse você? Seu filho? Seu irmão? Seu neto? Seu marido? Você realmente continuaria a bradar o bom, velho e completamente sem noção “bem feito”? Você não optaria pelos trâmites legais, pelo direito de seu afeto ser defendido? Direito a sua própria defesa? Porque, a meu ver, não há nada de bom em se tornar o algoz do outro, agir por conta, investir contra o outro a sua capacidade de cometer atrocidades.

Incomoda-me a aceitação que alimentamos sendo coniventes com o que já deveríamos ter compreendido. Mulheres negras sendo processadas, enquanto são vítimas que procuraram a polícia e encontram o preconceito. Crianças sendo espancadas por colegas de escola, que depois publicam os vídeos na internet. Indivíduos que propagam mentiras, simplesmente porque essas mentiras são agradáveis a seu paladar.

Amar dá trabalho. Compreender a situação de forma ampla, dá trabalho, e muito. Agir em nome do coletivo, dá trabalho que só. Manter-se positivo, diante de tantas atrocidades acontecendo, nada fácil, mas possível.

Dá trabalho ser humano. Melhor, então,  não sermos preguiçosos.

Imagem © Max Ernst

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sábado, 10 de junho de 2017

INVASÕES COTIDIANAS >> Cristiana Moura




Sinto-me invadida.

É a própria vida que me invade: O aroma dos jasmins na Universidade; a lembrança mágica da cachoeira do Buracão na Chapada Diamantina; a lista da feira; as contas a fazer das contas a pagar; o choro de Miguel na madrugada; pensamentos inoportunos quando estou estudando; a cor púrpura das orquídeas; as palavras de Sartre e Simone; a serenidade de Miguel; o abraço bem vindo do amigo; a promiscuidade entre a língua e os morangos prestes a serem destruídos.

Invade-me a vida maculada pelo vivido.

Amém.


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sexta-feira, 9 de junho de 2017

7 x 7 = 49 >> Paulo Meireles Barguil


Por que os grãos de areia insistem em voar?

As sementes de girassol não são amarelas?

E as bolhas de sabão não sabem contar até 10?

Onde estão os sorrisos de criança que eu espalhava com destemor?

As bolas de gude que guardei para brincar com meus netos?

E os olhos de espelho com os quais eu me aventurava no mundo?

Será que as gotas dágua não se cansam de molhar e evaporar?


[Montagem com fotografias que abrem os capítulos homônimos daquelas do meu livro Há sempre algo novo!, publicado em 2000].

[Fotografias de minha autoria, com exceção da 4ª, em que sou modelo ;-)].

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quarta-feira, 7 de junho de 2017

MONSTRO >> Carla Dias >>


A pergunta reverberava pelos corredores da escola, pelas ruas da cidade, durante as reuniões de família. Reverberava em diferentes nuances, em tons venenosos, daqueles que machucam com a habilidade das cicatrizes que nem o mais talentoso cirurgião plástico é capaz de disfarçar. Machucam e eternizam a dor na memória do corte.

Esse falatório acerca de quem ele era o entristecia, mas ele nunca entrou em discussão por causa dele. Desde menino, sentia-se confortável com o desprezo e o susto do outro, porque era o que ele conhecia desde sempre. Diferente, consternador seria se lhe oferecessem uma atenção que não fosse das melindradas pela fealdade de sua condição.

Ele teve amigos. Durante a escola foi difícil lidar com a solidão, mas não havia quem resistisse aos encantos dele, após uma breve conversa. A essa chance ele sempre se agarrou, porque sabia da importância dela para que sua feiura fosse abrandada, e as pessoas permanecessem por perto, ainda que somente por algum tempo. Porque, eventualmente, elas se afastavam, já que não conseguiam lidar com as ofensas que acompanhavam a convivência com ele.

Não se importava com os olhares curiosos, com as perguntas atrevidas, com as piadas ofensivas. As pessoas eram inconvenientes de tantas formas, que já não conseguiam mais nem mesmo surpreendê-lo. Os pais se frustravam com a forma com que o filho lidava com sua condição. Sentiam-se tristes e sofriam com o tratamento que outros dedicavam a ele. Queriam que ele reagisse, pregavam que impor-se era necessário, para que os outros reconhecessem seu valor.

Há algo poderoso a respeito do hábito. Pensamos nele como algo que adquirimos com o tempo, por meio de escolhas que fazemos. Lidamos com ele, de acordo com as questões que ele levanta. Mas, e quando ele é imposto? Nada na vida dele foi construído sem essa imposição. De onde ele tiraria conhecimento e força para lutar contra, se não conhecia o significado do que era o “a favor”?

Ainda na adolescência, durante mais um episódio de chacota coletiva, um dos alunos de sua escola o chamou de monstro. Até então, as ofensas variavam, ele lidava com elas e as descartava. Não as remoía, porque acreditava mesmo que se tratava de uma percepção nublada sobre ele. Só que nesse dia, escutando a palavra monstro reverberando pelo pátio da escola, acompanhada por gargalhadas histéricas, ele finalmente entendeu a humilhação, a rejeição, o desafeto, o descabimento de quem era.

A dor do reconhecimento foi tão intensa que gerou um grito gutural e assustador. Todos se calaram diante dele, abismados com a amargura contida naquele grito, e com sua feição de dor. Ninguém gargalhava e os olhos esbugalhados mostravam que aquele grito mudara tudo.

Naquele dia, ele se tornou o Monstro. Todos passaram a chamá-lo assim, e, em determinado momento, esqueceram-se do nome dele. Houve dia em que, durante a chamada de alunos, ele não reconheceu o próprio nome.

Pegou-se a pensar sobre o que os monstros fazem. Abraçou os da literatura, escolheu características que coubessem em sua realidade. Não gostava de pesquisar os reais. Monstros reais o fazem sentir doente.

Em pouco tempo, ninguém mais o atormentava. Aquele grito foi a sua canção autoral, seu hit na parada de sucessos. Aquele grito foi a libertação de seus demônios, o escancaramento de suas angústias. Ele tentou a normalidade pela vida toda, ignorando o peso do que a versão de si, criada pelo outro, insistia em alimentar. Então, encarou tudo de uma vez, misturado a uma palavra que sempre o assustou, porque temia os monstros desde criança. Temia os monstros e se tornara um.

Ao menos no nome.

Décadas depois, o branco já lhe tomou os cabelos, ele ainda se espanta com o que uma palavra fez em sua vida. Ela veio com uma reputação que nunca lhe pertenceu, mas que o ajuda a seguir seu caminho. Até hoje, não entende o motivo de as pessoas preferirem se curvar ao medo do significado que pode viver nessa palavra, do que simplesmente compreenderem que aquilo que os faz desviar o olhar dele, em um primeiro momento, não é um resumo de quem ele é.

Quem ele é vive batendo de frente com quem as pessoas acreditam que ele seja. No seu bairro, muitos apostam que ele vive de dinheiro sujo, da lavagem desse dinheiro nas suas lojas de conveniência, espalhadas pela cidade. Mães fazem questão de ensinar a seus filhos que, se o encontrarem na rua, não olhem diretamente para ele e atravessem. Mas a verdade é que aquele grito, o que o libertou e lhe deu novo nome, deu origem a alguém mais íntimo da verdade que tantos teimam em negar: a vida não é linda feito uma vista que se gosta de guardar em fotografia. Às vezes, a vida é feia mesmo, e ainda assim, nessa feiura encontramos a beleza de sermos. Para ele, ser é sua missão. Viver a vida, sua jornada mais importante.

Quem realmente o conhece, sabe do que se trata. Mora ali uma afetuosidade digna de um Seu Monstro, patrão; avô Monstro, família. Ainda lhe espanta a covardia dos outros monstros, aqueles que, em uma rotina de indiferença e prazer pela violência, desnudam a vida dos outros de qualquer possibilidade de se superar o ocorrido. Empobrecer o espírito do outro, deixando-o agonizar de falta e injustiça, ainda é a arma mais poderosa que existe. Os monstros sabem disso.




Imagem: Boris Karloff | Frankenstein (1931)

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terça-feira, 6 de junho de 2017

HISTÓRIAS DE UMA VIDA INTEIRA >> Clara Braga

Esses dias conheci uma senhora que é o tipo de pessoa que eu gosto de conhecer: aquela que é cheia de histórias para contar. Conversamos por um tempo e eu já fiquei sabendo boa parte de sua vida e daqueles com quem ela convive.

Logo no início ela falou de sua profissão, professora como eu. Mas estava afastada da sala de aula havia 8 anos, sua última experiência tinha sido um pouco traumática. Parece que a diretora da escola não gostava muito dela, queria que um outro professor assumisse em seu lugar então decidiu complicar sua vida até que ela desistiu e saiu.

Agora estava voltando a trabalhar, tinha cansado de ficar em casa fazendo crochê. O problema é que a escola que ela estava trabalhando era muito longe. De carro era uma viagem de mais ou menos uma hora e meia quando não tinha trânsito, se pegasse engarrafamento a viagem chegava a duas horas fácil. Mas ela estava sem carro então tinha que pegar ônibus, o que fazia com que a viagem passasse a ter três horas de duração. Ao todo passava seis horas viajando por dia, o que a fazia perder muito tempo do seu dia. Isso seria ruim para o seu negócio de crochê, pois iria atrasar as entregas e poderia acabar perdendo seus clientes.

Não que perder os clientes agora fosse muito problemático, pois seu marido trabalha e seus filhos já são grandes. Filhos aliás que dão trabalho desde pequenos. Que gestação complicada foi a dela! Parece que a placenta foi formada muito baixa e isso causava muitas dores e por vezes tinha hemorragia. Dos 9 meses da gestação acabou ficando mais em hospital fazendo repouso do que em casa.

Comecei a reparar que em nossa conversa eu estava frequentemente falando a frase: nossa, que complicado, deve ter sido difícil! Mas isso não era nada, foi então que ela começou a comentar o quanto estava cansada, pois no fim de semana havia ido a um enterro. Uma amiga próxima perdeu o filho em um acidente de moto. Ela fez questão de detalhar o acidente e o estado do corpo quando a mãe encontrou o filho. Eu já estava classificando a senhora como uma pessoa trágica, que é a classificação que eu dou para pessoas que só contam histórias com final triste ou que para cada história que você conta ela tem uma pior ou mais difícil para contar.

Foi nesse momento que ela disse: eu detesto enterros, mas me senti no dever de ir, pois sinto que é como se fosse uma missão minha mostrar para essas mães que a vida continua. Eu perdi meu filho de 21 anos em um acidente de carro. Para ir ao trabalho passo todo dia pelo local do acidente e lembro do dia que cheguei exatamente naquele local para reconhecer o corpo do meu filho e ajudar a tirar o corpo de dentro do carro.

Levei meu primeiro tapa na cara, afinal, “pessoas trágicas” devem ter um motivo para serem assim. Por quais situações será que todas as outras pessoas que eu já classifiquei assim não passaram e seguiram em frente? Foi então que a senhora continuou: sabe, não foi fácil estar naquele enterro e ficar relembrando do acidente do meu filho. A dor de enterrar um filho não deveria ser sentida por mãe nenhuma, mas a mensagem que eu quero passar para as outras mães é que a vida continua e que Deus nunca nos dá uma prova pela qual a gente não consiga passar.

Levei meu segundo e último tapa na cara. As vezes a gente precisa mesmo de um sacode desses, lembrar que não precisamos reclamar de tudo, entender que até quem conta histórias super negativas encontra força para ser positiva na hora que precisa. Não sei se é Deus que dá essas provas ou não, não sei se é Ele que dá a força ou não, mas depois dessa conversa eu tive certeza de que de fato a gente nunca vai passar por uma situação pela qual a gente não consiga passar, seja lá qual for a força que precise intervir por nós. 


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sábado, 3 de junho de 2017

ALMOÇO NA TIA >> Sergio Geia




Mãe: “O que tem na maionese?”
Viva: “Batata, cenoura, ovo. E maionese, né? Tá boa?”
Mãe: “Ahan!”
Viva: “A coca-cola no ‘Dia’ tava na promoção.”
Neto: “Mas você viu a validade? Tá na promoção porque tá vencendo.”
Viva: “Eu não vi; veja aí.”
Neto: “Tá dentro. Vai demorar pra vencer.”
Viva: “Eu não enxergo, Neto, é muito pequeno!”
Robson: “Eles tinham que colocar uma letra maior.”
Neto: “Eles fazem tanta lei inútil, por que uma lei dessas ninguém pensa?”
Eu: “Você viu a lei do hino nacional?”
Neto: “Não.”
Eu: “Nas atividades esportivas. Agora tem que tocar o hino inteiro. Dizem que é pra aumentar o patriotismo do povo. Mas precisa de hino inteiro pra aumentar o patriotismo do povo? E num jogo de futebol? Ninguém dá a mínima, ninguém respeita, nem os jogadores. Toca só a primeira parte, cacete! Tá tudo muito chato. Eu acho que nem o hino nacional eles deveriam pôr. Tem jogo todo dia, caraio!”
Neto: “Pra isso eles fazem lei, mas lei que preste eles não fazem!”
Eu: “Tem que tocar na escola, a criança tá em formação. Agora num campo de futebol, uma turma chapada, outra nem aí pra hora do Brasil, é idiotice!”
Robson: “Na escola também tem lei.”
Eu: “Tem.”
Viva: “Vocês não vêm comer não? Tem lugar na mesa!”
Mãe: “Sabe que hoje eu senti saudade da mamãe, Viva, de conversar. Ela sempre queria saber com quem eu tava, com quem eu tava saindo, mesmo depois de eu véia, ahahaha, ela queria me dar conselho.”
Eu: “Mas você tem sentido saudade da vó nos últimos dias...”
Mãe: “Tenho mesmo...”
Viva: “A mãe do Robson trouxe doce de laranja, de abóbora, a Ná trouxe sorvete...”
Mãe: “Ai, eu adoro doce de laranja!”
Eu: “Este pernil tá o ó.”
Viva: “Tá gostoso?”
Eu: “Tá incrível!”
Pai do Robson: “Outro dia eu trouxe um doce de limão de Caxambu, só não devolvi porque é muito longe, senão eu voltava lá.”
Carlinhos: “Por quê? Tava ruim?”
Pai do Robson: “Ah, tem que saber fazer, senão fica amargo.”
Mãe do Robson: “O de laranja também precisa saber fazer. Eu deixo de molho uns cinco dias, troco a água três vezes por dia. E não pode ser em qualquer panela. O de figo, por exemplo, o meu fica verdinho, verdinho.”
Mãe: “Mas que panela você usa?”
Mãe do Robson: “Tacho de cobre. O figo fica verdinho por causa do cobre. Se fosse alumínio não dava. Eu pus cravo e canela.”
Viva: “Toma mais cerveja, Sergio?”
Eu: “Não, chega. Tô com infecção de urina, tô tomando antibiótico. Só vou tomar uma mesmo. O médico disse até que pode, mas a cerveja é diurética, vai me levar mais vezes ao banheiro fazendo com que eu elimine o antibiótico com mais rapidez, daí dá um curto-circuito na coisa toda.”
Viva: “Eu não bebi quando tava com infecção.”
Eu: “São sete dias.”
Mãe: “Viva, vou pegar o doce na geladeira.”
Viva: “Pega, Ná.”
Mãe do Robson: “Experimenta pra você ver.”
Mãe: “Nossa, só pela cara a gente vê que tá bom.”
Eu: “Eu vou de Napolitano. E essa reforma de previdência vai me foder... O governo tá fazendo a reforma com muito açodamento.”
Neto: “Eles não conversam com a sociedade. Decidem o que fazer e pronto. Isso é representatividade? Isso é democracia representativa?”
Eu: “É que nem a trabalhista. Até agora eu não vi a mídia entrevistar um juiz do trabalho pra falar da reforma. O Jornal Nacional só coloca economista pra falar da reforma. Mas um juiz trabalhista, que vive os conflitos entre patrão e empregado no seu cotidiano, eles não põem!”
Neto: “Não colocam porque vai desandar, Sergio; a maionese da reforma vai desandar. Ela foi elaborada de forma enviesada, olhando apenas um lado.”
Eu: “Outro dia eu li uma notícia que dizia que um dos arquitetos da reforma integra o Conselho de Administração da Brasilprev; dizem que com a reforma da previdência, essas entidades vão encher o cu de tanto vender plano de previdência. No mínimo, ele é suspeito e não poderia participar...”
Neto: “E esse negócio de previdência deficitária tinha que ser melhor examinado; tem aquela DRU, aquele negócio de desvinculação de receita, o dinheiro da previdência pagando juros pra gerar superávit primário...”.
Eu: “Nos últimos 10 anos a Odebrecht deixou de pagar pelo menos R$ 8 bilhões em tributos, graças a algumas medidas provisórias.”
Robson: “A reforma vai resolver o problema da previdência, claro que vai. O brasileiro não vai mais aposentar; vai morrer antes.”
Eu: “Me dá mais Napolitano?”
Mãe: “Eu vou experimentar agora o de abóbora.”
 


“Almoço com a família” Lapalu 2006, p.10

 


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sexta-feira, 2 de junho de 2017

O BEIJO VERMELHO ou O HOMEM E SUA CUECA >> Zoraya Cesar

Os mais conservadores podem ficar chocados. A cena, porém, é bem mais comum do que aceita nossa vã imaginação. 

Comecemos pelo quarto, decorado feito uma tenda oriental no melhor estilo produção hollywoodiana do século passado: almofadas e tapetes multicoloridos espalhados pelo chão, uma cadeira otomana estilizada à moda antiga, um dossel sobre uma larga cama, bandejas com frutas e mel, enormes ventarolas de plumas... só faltavam os eunucos besuntados de óleo e as câmeras de filmagem, pois a odalisca, a odalisca estava lá. 

Se o décor era hollywoodiano, a atriz principal em nada lembrava as esqueléticas protagonistas contratadas pelos estúdios. Alta, o corpo cheio de carnes e curvas na medida certa, seios protuberantes. A pele muito branca, quase leitosa, contrastava escandalosamente com os olhos verde-perdição, com o batom vermelho-pecado e com os longos cabelos negros, mais negros que a asa da graúna – um momento. Ninguém aqui já viu uma graúna sequer, a não ser a do Henfil. Vamos de novo: ela tinha os cabelos mais negros que carvão, assim como o esmalte das unhas, compridas e bem feitas. Vestia-se tal qual Jeannie é um gênio, com exceção de um pequeno detalhe, quase mínimo, não tivesse – esse detalhe – 15cm de comprimento: um chicote. Um chicote que a odalisca brandia, de tempos em tempos, acima do homem nu a seus pés.

Hein? Que homem nu? Ah, sim, desculpem, esqueci de terminar o cenário. Rastejando ao chão, um homem nu abjetamente implorava para beijar os pés da odalisca, ser pisado, chibatado, maltratado, pois ele era um menino mau, muito mau. 

Tudo mais falso que a decoração. Pura encenação. O homem em questão desmaiava ao ver sangue e não suportava dor. Ele queria mesmo era sentir medo, a sensação de que ela, se quisesse, poderia machucá-lo, feri-lo, vergastá-lo – poderia; mas não o faria. E, por algum motivo que foge à compreensão das almas mais cândidas, ele gostava de implorar para beijar os pés daquela mulher. Era o fetiche dele, fazer o quê?

As íris verde-perdição da odalisca olhavam-no com um misto de tédio e desdém. Estava acostumada àqueles tipos, era seu trabalho. Sua parte resumia-se a representar o papel de uma dominatrix das mil e uma noites, tal qual o imaginário popular exigia. Se o cliente queria algo, digamos, mais vívido, bem... para cada coisa, seu preço. Menos para o sexo. O programa incluía, tão somente, o uso convincente de apetrechos e pantomimas de dominação. 

Armado o cenário e explicado o argumento, continuemos o roteiro. Usualmente, ao acabar a sessão, os clientes se vestem, deixam o dinheiro e vão embora. Às vezes, no entanto, a odalisca os surpreende, vestindo-os, ela mesma, para, ao final, dar-lhes um tapa na cara. Um brinde de despedida, digamos, um mimo. (Alguns de seus clientes morreriam, matariam, pagariam fortunas por esse momento. Mas ela só o fazia quando lhe dava na telha. Como agora).

A primeira peça que ela pegou foi a cueca. Elogiou-lhe a brancura e a limpeza imaculadas. 

- É minha mulher quem lava. 

odalisca levantou uma das sobrancelhas, sem tecer comentário. Todos temos nossas idiossincrasias. Não vivia ela, exatamente, das idiossincrasias alheias? Continuou o jogo. Tendo o cuidado de não deixar marcas de seu batom vermelho-pecado, sussurrou-lhe ao ouvido:  eu também posso lavá-las pra você.

Ele ri, um tanto altaneiro, sem entender o jogo.

- Não, querida. Você é minha gostosa, não minha mulher. É privilégio da minha mulher lavar minhas cuecas e, antes dela, minha mãe. Eu nunca na minha vida lavei minhas cuecas.

Ela engole o "querida" e o "minha gostosa" com saliva, levanta ambas as sobrancelhas e, sem falar nada, circunda-o até postar-se atrás dele. Passa suavemente as unhas em suas costas, arrepiando-o de prazer e medo - e se aquela tigresa deixasse arranhões que ele não teria como explicar à esposa? A odalisca, no entanto, agacha-se e, lentamente, veste e sobe a cueca pelas pernas do homem que nunca lavara suas próprias peças íntimas. Murmurava e ciciava palavras doces e sensuais, deixando o sujeito inteiramente tonto, desapercebido do que acontecia às suas costas. 

O batom vermelho-despudorado
deixa sua marca na cueca,
não mais imaculadamente branca,
do homem que nunca lavara
suas próprias cuecas.
Ao terminar, os olhos verde-sedução dela apreciam divertidamente o resultado de sua obra: um grande e despudorado beijo vermelho-escândalo a marcar, para sempre, uma cueca que jamais voltará a ser branca, jamais voltará a ser lavada, um beijo que jamais terá explicação.

Sorriu, satisfeita consigo mesma. A marca indelével na cueca seria o tapa na cara, o brinde, o mimo de despedida. E, condescendente com o sujeito, terminou de vesti-lo, alegremente. 

Despediram-se. Até a próxima, disse ele. Até nunca mais, sabia ela. 

Fechada a porta, ela se despe da ridícula fantasia e recosta, preguiçosa, na cadeira otomana. Acende um cigarro, espreguiça-se tal qual um gato ao sol. Um homem que não lava as próprias cuecas, vê se pode isso!

E, langorosamente, retoca o batom vermelho-lição.



Foto:  4304553 in Pixabay



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quinta-feira, 1 de junho de 2017

O OUVIDO É O MUNDO>>Analu Faria

O livro daquele autor-que-todo-mundo-diz-que-é-ruim falava sobre uma viagem mística por um roteiro espanhol esquecido. Essa obra de você-sabe-quem acabou reavivando o turismo religioso no Caminho de Santiago, em proporções inacreditáveis: antes do livro, pouco mais de mil peregrinos faziam a rota por ano; um ano depois do livro "estourar", mais duzentas mil colocaram a mochila nas costas rumo à Espanha. É quase um "levanta-te e anda!"em escala global. Aquele escritor-sobre-quem-ninguém-fala-bem fez um milagre de dar inveja a santo. 

O fenômeno, porém, não é absurdo: "it's the words, stupid!"* Eu sei que literatura boa às vezes não vende e blá blá blá uma pena o fulano ter morrido miserável porque blá blá blá as massas não sabem o que fazem blá blá blá. Só que eu não estudei o suficiente para falar sobre literatura boa e literatura ruim com propriedade numa crônica. Estou tentando mostrar que alguém, em algum ponto do universo, soube que outros muitos alguéns gostariam de ouvir histórias sobre um mago que faz uma peregrinação cristã. 

Eu não sei se vale a pena escrever ou dizer o que as pessoas querem ouvir ou ler. O que eu sei é que é importante ouvir. Aquele-escritor-que-não-deve-ser-nomeado... será que ele estava atento a isso? Ao que as pessoas dizem, como dizem? Será que ele percebeu que o que as pessoas dizem revela o que elas querem ouvir? Será que foi assim que ele escreveu o livro? Será que entendeu que as pessoas precisavam ou queriam um mundo encantado? 

Não sei (muitos não-seis nesta crônica!) e nunca tive a oportunidade de conversar com o-escritor-que-quase-foi-linchado-quando-eleito-para-a-Academia-Brasileira-de-Letras. Só sei que as palavras certas na hora certa podem mover o mundo, talvez as palavras sejam até mais fortes que a economia! Quanto mais escrevo e quanto  mais fico calada, mais ouço coisa que deveria estar num livro. Isto, por exemplo (ouvido na rua,em Brasília): 

_ Eu posso te chamar de filis?
_ Como assim, mãe?
_ Ué, você me chama de mamis! Direitos iguais!




















*"São as palavras, seu burro!". Parodiei uma famosa frase de um estrategista de campanha de Bill Clinton. Originalmente, a frase é: "It's the economy, stupid!"



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