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Mostrando postagens de Junho, 2017

OS DESSEPULTOS - 2a PARTE >> Zoraya Cesar

Leia OS DESSEPULTOS – 1ª PARTEO professor Barain Samd e seus alunos precisavam de corpos, muitos corpos. Roubados de necrotérios e também de cemitérios. Farley, o assistente, não se incomodava em receber tal material, desde que seu pagamento estivesse em dia. Até que ele percebeu algo muito estranho em um dos cadáveres... 
Farley olhou pelo rasgão no plástico, surpreso. Podia jurar que era seu amigo Patrick, com quem, havia poucos dias, bebera aguardente até caírem. Ali, à luz difusa dos faróis da Ranger e da luminária que pendia à porta do laboratório, ele parecia tão... vivo!
O motorista que trazia os cadáveres grunhiu, impaciente com a demora. Era um tipo esquisito, assemelhava-se a um lobisomem, baixo, atarracado, musculoso e peludo, a bocarra cheia de dentes grandes e amarelados. Farley sentia arrepios perto dele. Apressou-se a tirar o cadáver da caçamba e a pagar ao sujeito o estipulado. Só entrou quando, aliviado,  viu os faróis se afastarem na escuridão.
Lá dentro, olhou melh…

ALEJANDRA, CONFEITARIA, TEQUILA>>Analu

Eu não sabia da existência de Alejandra Pizarnik  até esta semana, quando li o texto de uma das cartas que ela enviou a seu psicanalista. Descobri que ela era poeta e tradutora, argentina (ninguém é perfeito) e que morou em Paris, num quartinho na casa de uma família para a qual fazia uns trabalhos de babá. Alejandra Pizarnik cuidava de uma criança enquanto pensava coisas como :

"Minha única súplica constante é que a fé não me abandone em alguns valores espirituais (poesia, pintura). Quando ela me deixa temporariamente vem a loucura, o mundo se esvazia e soa como um casal de robôs copulando".
Se for pensar bem, tem um monte de gente por aí que é comum e grande ao mesmo tempo. Olha isto: uma mulher que fala do quartinho onde mora e de loucura, fé, robôs copulando. Bendita Internet que me mostra Alejandras. -------------------------------------------------------------------------------------------------------------
Fui fazer um bolo de coco, porque a faxineira me desafiou a faz…

ONDE ESTÃO OS PÁSSAROS? >> Carla Dias >>

Parada no meio da rua, enlouquecendo motoristas e atiçando buzinas. Quem é essa que se coloca dessa forma em uma avenida?  Não importa a aparência dela, mas a de seu gesto. Em menos de um minuto, muitas são as teorias a respeito dessa insana a atropelar a rotina das pessoas, a sujeita-las à possibilidade de terem de pagar franquia no caso de uma avaria em seus automóveis, e de atraso cumulativo, que atrasados todos sempre estamos nessa metrópole. Quanta dor de cabeça por causa de uma mulher qualquer cometendo a loucura de ficar assim, parada, à mercê dos possantes e dos olhares dos frequentadores de calçadas.

Nas avenidas, as línguas não são domesticadas, tampouco educadas. São bichos soltos, desavergonhadas com a benção da propriedade. Ninguém pode julgar aqueles que estão em suas casas de duas ou quatro portas. É propriedade ambulante, e há daquele que se coloque em seu caminho. Dependendo do desânimo, do grau de complexidade do sentimento vigente, nem mesmo o mais cuidadoso transe…

LUA DE MEL, SOL DE FEL, LUA DE MEL... >> Paulo Meireles Barguil

 Parece que algumas relações afetivas são baseadas na brincadeira bem-me-quer, malmequer, bem-me-quer... As margaridas, tão singelas e belas, merecem melhor destino do que terem as suas folhas arrancadas por mãos negligentes. O que dizer, então, dos deslumbrantes seres humanos? Impacientes, só queremos o mel e que esse seja trazido, quando o desejamos, pelo outro! É por isso que muitos de nós vagueamos entre lua de mel e sol de fel, sendo esse bem mais frequente do que aquela. Verdades sejam ditas: o mel não está na lua, nem o fel está no sol. Somos nós que criamos a realidade, pessoal e social.

Essa gestação, tal como as demais, é influenciada por vários aspectos e tem ritmo peculiar.  Quem quer conhecer e transformar a sua matriz? A natureza nos convida a assumir a responsabilidade pelo cultivo de jardins internos e externos.
Necessário, pois, revolver as entranhas e a terra, retirar delas o que impede o desabrochar da vida e nelas colocar insumos indispensáveis para que a metamor…

AOS LETÁRGICOS >> Carla Dias >>

Não despertar sentimentos incômodos. Mantê-los ressonando em tom de resistência profunda. Evitar barulhos dissonantes e palavras irreverentes. Paz na terra aos homens e às mulheres que costumam debulhar cansaços próprios. Permitir ao silêncio ser a canção das vinte e quatro horas de cada dia mergulhado em esperas.

Que os relógios se libertem de nós, amém.

Alhear-se das saídas de emergência, entregando-se ao balé das portas e janelas, eles já entregues – corpos e dobradiças –  à irreverência do vento. Coabitar salas interiores das quais os fascínios indesejados são os proprietários. Render-se ao escapismo pontual. Nublar diálogos complexos ao meditar sobre o episódio de ontem da novela.

Caminhar sobre o piso frio da indiferença, ignorando os abismos que ela tece com tanta elegância arrependida. Tatear a escuridão das presenças ignoradas, para sentir a frigidez de suas vontades. Acumular manuais de instruções e roupas que não cabem mais.

Silenciar desejos impróprios para letargia e rum…

ENCONTRO INESPERADO >> Clara Braga

Lá estava eu naquele lugar de novo. Já fui lá incontáveis vezes, afinal, ir nesse lugar é rotina de família muito antes de eu pensar em nascer nessa família.
De lá pra cá muita coisa mudou, e de muitas dessas mudanças eu não tenho recordação, mas está tudo registrado. O que não mudou é o fato do local ter várias casinhas coloridas e aconchegantes. Já entrei em todas elas, mas confesso que a que eu menos entrei era a que eu mais deveria ter entrado, afinal, é ela que está ali aberta vendendo aquele monte de coisas para quem quiser comprar.
Para ele era tudo novidade. Já havia ido lá, mas justo no dia que foi ficou entretido com outras coisas e esqueceu de visitar a casa onde funciona o bazar. Imagina, justo ele que não pode nem ouvir a palavra bazar que já começa a se coçar para comprar coisas.
Da segunda vez não poderia haver falhas, a visita na casinha amarela era obrigatória.
E assim aconteceu.
Eu acompanhei. Quase que sem opção, mas acompanhei. Mas de longe já comecei a perceber q…

ENVELHECENDO >> Sergio Geia

Pois não é que fui parar num pronto-socorro? Meio sem vontade, claro; aliás, quem vai com vontade a um pronto-socorro? Mas imaginar aquela parafernália toda, a demora, e, geralmente, o resultado, que é quase sempre previsível, pelo menos pra mim, já me serve como um bom desestimulante ou uma boa terapêutica, vai, remedinho da hora pra me deixar novo em folha. No entanto, o dia foi passando, o sol mudando de lado e eu nada de melhorar. De café da manhã, uma maçã; de almoço, uma pera. No caminho fui fazendo o diagnóstico (eu sempre faço isso): vômito + diarreia + calafrio + desânimo + dor abdominal = intoxicação. A minha única dúvida era saber a causa. Primeiro pensei nuns salgadinhos que eu tinha comido numa festa sábado à noite. Depois, num frango à parmegiana que tinha comprado no sábado, pra comer no domingo. Por fim, o excesso de estrogonofe do almoço de domingo. Tem também aqueles que falam que não foi a comida, mas eu mesmo que não estava num dia bom, pois é. Mas a vilania mesmo, …

OS DESSEPULTOS - 1a PARTE >> Zoraya Cesar

O ‘laboratório’ ficava a alguns quilômetros do vilarejo, afastado de qualquer cidade grande. No meio de uma floresta, acessível apenas de carro. Quando o professor Barain Samd se instalou ali, causou um certo rebuliço nas pessoas simples do lugar. 
Ninguém sabia coisa alguma ao certo, mas dizia-se que fora expulso de uma prestigiosa faculdade de Medicina, onde era titular da cátedra de Anatomia, por práticas pouco ortodoxas. Sua fama como professor, no entanto, não feneceu com o banimento e, ao contrário, pareceu crescer com o opróbrio. Era um chamariz irresistível para os futuros médicos que desejavam fama e conhecimento de qualidade inquestionável – e que não tivessem grandes pruridos morais para consegui-los. Uma dezena de alunos fieis frequentava o laboratório, e cada um deles tinha um cadáver para chamar de seu. Um cadáver periodicamente renovado. 
Os alunos formavam uma irmandade unida por rituais de sangue e morte, na qual imperava a lei da omertà – a lei do silêncio da máfia ita…

ESTREIAS>>Analu Faria

Um vestido de verão, mesmo sendo inverno. Um novo encantamento com o mundo. Dançar forró depois de anos. Sair sozinha depois de anos. A notícia da amiga: "Estou grávida". A notícia da família: "Sua avó faleceu". Uma nova serenidade com o mundo.  Estreamos no corpo uma emoção nova, o mundo estreia em nós uma vontade nova. Não é só o rio que é novo a todo o tempo. O corpo no rio é novo a cada segundo.

Que atire a primeira pedra quem nunca deixou um verão passar diante dos olhos, sem ter aproveitado a estação. Que atire a primeira pedra quem deixou a rotina ofuscar o brilho do mundo. Que atire a primeira pedra quem não teve vergonha de dançar, vergonha dos pés, vergonha dos braços, vergonha. Que atire a primeira pedra quem não se sentiu meio estranho, meio fascinado, meio medroso ao sair sozinho, sem um parceiro, pela primeira vez depois de anos. Que atire a primeira vez quem não se emocionou com a gravidez dos amigos. Que atire a primeira pedra quem não sentiu o chão…

DÁ TRABALHO SER >> Carla Dias >>

Nossas mazelas nunca foram tão populares, feito moda exposta em vitrine que, ainda que de fato não agrade, é consumida porque está no expositor mais importante da cidade. Aliás, essa importância nascida do bel-prazer, baseada exclusivamente no que um indivíduo pensa. Aplicada, escandalosamente, no coletivo, ela tem ajudado a deixar nossas mazelas com um verdadeiro spot apontado para elas.

Confesso que estou bem agoniada com o filme que ando assistindo. Ficção vem se tornando uma realidade moldada pela ignorância. Ele me faz lembrar de conversas que já presenciei, tendo de disfarçar o fastio, porque ainda era muito menina para expressar opinião sobre assuntos de adultos. Conversas nas quais eram desfiados todos os tipos de impropérios, alguns que acreditei terem sido banidos da nossa existência, em nome da evolução. Mas então, aqui estamos, revisitando alguns deles. Tomando-os como critérios e batizando cada um deles como ingredientes para se tornar um ser humano decente.

Enganando-no…

INVASÕES COTIDIANAS >> Cristiana Moura

Sinto-me invadida.
É a própria vida que me invade: O aroma dos jasmins na Universidade; a lembrança mágica da cachoeira do Buracão na Chapada Diamantina; a lista da feira; as contas a fazer das contas a pagar; o choro de Miguel na madrugada; pensamentos inoportunos quando estou estudando; a cor púrpura das orquídeas; as palavras de Sartre e Simone; a serenidade de Miguel; o abraço bem vindo do amigo; a promiscuidade entre a língua e os morangos prestes a serem destruídos.
Invade-me a vida maculada pelo vivido.
Amém.

7 x 7 = 49 >> Paulo Meireles Barguil

 Por que os grãos de areia insistem em voar?

As sementes de girassol não são amarelas?

E as bolhas de sabão não sabem contar até 10?

Onde estão os sorrisos de criança que eu espalhava com destemor?

As bolas de gude que guardei para brincar com meus netos?

E os olhos de espelho com os quais eu me aventurava no mundo?

Será que as gotas dágua não se cansam de molhar e evaporar?


[Montagem com fotografias que abrem os capítulos homônimos daquelas do meu livro Há sempre algo novo!, publicado em 2000].
[Fotografias de minha autoria, com exceção da 4ª, em que sou modelo ;-)].

MONSTRO >> Carla Dias >>

A pergunta reverberava pelos corredores da escola, pelas ruas da cidade, durante as reuniões de família. Reverberava em diferentes nuances, em tons venenosos, daqueles que machucam com a habilidade das cicatrizes que nem o mais talentoso cirurgião plástico é capaz de disfarçar. Machucam e eternizam a dor na memória do corte.

Esse falatório acerca de quem ele era o entristecia, mas ele nunca entrou em discussão por causa dele. Desde menino, sentia-se confortável com o desprezo e o susto do outro, porque era o que ele conhecia desde sempre. Diferente, consternador seria se lhe oferecessem uma atenção que não fosse das melindradas pela fealdade de sua condição.

Ele teve amigos. Durante a escola foi difícil lidar com a solidão, mas não havia quem resistisse aos encantos dele, após uma breve conversa. A essa chance ele sempre se agarrou, porque sabia da importância dela para que sua feiura fosse abrandada, e as pessoas permanecessem por perto, ainda que somente por algum tempo. Porque, ev…

HISTÓRIAS DE UMA VIDA INTEIRA >> Clara Braga

Esses dias conheci uma senhora que é o tipo de pessoa que eu gosto de conhecer: aquela que é cheia de histórias para contar. Conversamos por um tempo e eu já fiquei sabendo boa parte de sua vida e daqueles com quem ela convive.
Logo no início ela falou de sua profissão, professora como eu. Mas estava afastada da sala de aula havia 8 anos, sua última experiência tinha sido um pouco traumática. Parece que a diretora da escola não gostava muito dela, queria que um outro professor assumisse em seu lugar então decidiu complicar sua vida até que ela desistiu e saiu.
Agora estava voltando a trabalhar, tinha cansado de ficar em casa fazendo crochê. O problema é que a escola que ela estava trabalhando era muito longe. De carro era uma viagem de mais ou menos uma hora e meia quando não tinha trânsito, se pegasse engarrafamento a viagem chegava a duas horas fácil. Mas ela estava sem carro então tinha que pegar ônibus, o que fazia com que a viagem passasse a ter três horas de duração. Ao todo pa…

ALMOÇO NA TIA >> Sergio Geia

Mãe: “O que tem na maionese?” Viva: “Batata, cenoura, ovo. E maionese, né? Tá boa?” Mãe: “Ahan!” Viva: “A coca-cola no ‘Dia’ tava na promoção.” Neto: “Mas você viu a validade? Tá na promoção porque tá vencendo.” Viva: “Eu não vi; veja aí.” Neto: “Tá dentro. Vai demorar pra vencer.” Viva: “Eu não enxergo, Neto, é muito pequeno!” Robson: “Eles tinham que colocar uma letra maior.” Neto: “Eles fazem tanta lei inútil, por que uma lei dessas ninguém pensa?” Eu: “Você viu a lei do hino nacional?” Neto: “Não.” Eu: “Nas atividades esportivas. Agora tem que tocar o hino inteiro. Dizem que é pra aumentar o patriotismo do povo. Mas precisa de hino inteiro pra aumentar o patriotismo do povo? E num jogo de futebol? Ninguém dá a mínima, ninguém respeita, nem os jogadores. Toca só a primeira parte, cacete! Tá tudo muito chato. Eu acho que nem o hino nacional eles deveriam pôr. Tem jogo todo dia, caraio!” Neto: “Pra isso eles fazem lei, mas lei que preste eles não fazem!” Eu: “Tem que tocar na escola, a criança tá …

O BEIJO VERMELHO ou O HOMEM E SUA CUECA >> Zoraya Cesar

Os mais conservadores podem ficar chocados. A cena, porém, é bem mais comum do que aceita nossa vã imaginação. 
Comecemos pelo quarto, decorado feito uma tenda oriental no melhor estilo produção hollywoodiana do século passado: almofadas e tapetes multicoloridos espalhados pelo chão, uma cadeira otomana estilizada à moda antiga, um dossel sobre uma larga cama, bandejas com frutas e mel, enormes ventarolas de plumas... só faltavam os eunucos besuntados de óleo e as câmeras de filmagem, pois a odalisca, a odalisca estava lá. 
Se o décor era hollywoodiano, a atriz principal em nada lembrava as esqueléticas protagonistas contratadas pelos estúdios. Alta, o corpo cheio de carnes e curvas na medida certa, seios protuberantes. A pele muito branca, quase leitosa, contrastava escandalosamente com os olhos verde-perdição, com o batom vermelho-pecado e com os longos cabelos negros, mais negros que a asa da graúna – um momento. Ninguém aqui já viu uma graúna sequer, a não ser a do Henfil. Vamos de …

O OUVIDO É O MUNDO>>Analu Faria

O livro daquele autor-que-todo-mundo-diz-que-é-ruim falava sobre uma viagem mística por um roteiro espanhol esquecido. Essa obra de você-sabe-quem acabou reavivando o turismo religioso no Caminho de Santiago, em proporções inacreditáveis: antes do livro, pouco mais de mil peregrinos faziam a rota por ano; um ano depois do livro "estourar", mais duzentas mil colocaram a mochila nas costas rumo à Espanha. É quase um "levanta-te e anda!"em escala global. Aquele escritor-sobre-quem-ninguém-fala-bem fez um milagre de dar inveja a santo. 
O fenômeno, porém, não é absurdo: "it's the words, stupid!"* Eu sei que literatura boa às vezes não vende e blá blá blá uma pena o fulano ter morrido miserável porque blá blá blá as massas não sabem o que fazem blá blá blá. Só que eu não estudei o suficiente para falar sobre literatura boa e literatura ruim com propriedade numa crônica. Estou tentando mostrar que alguém, em algum ponto do universo, soube que outros muitos …