terça-feira, 6 de junho de 2017

HISTÓRIAS DE UMA VIDA INTEIRA >> Clara Braga

Esses dias conheci uma senhora que é o tipo de pessoa que eu gosto de conhecer: aquela que é cheia de histórias para contar. Conversamos por um tempo e eu já fiquei sabendo boa parte de sua vida e daqueles com quem ela convive.

Logo no início ela falou de sua profissão, professora como eu. Mas estava afastada da sala de aula havia 8 anos, sua última experiência tinha sido um pouco traumática. Parece que a diretora da escola não gostava muito dela, queria que um outro professor assumisse em seu lugar então decidiu complicar sua vida até que ela desistiu e saiu.

Agora estava voltando a trabalhar, tinha cansado de ficar em casa fazendo crochê. O problema é que a escola que ela estava trabalhando era muito longe. De carro era uma viagem de mais ou menos uma hora e meia quando não tinha trânsito, se pegasse engarrafamento a viagem chegava a duas horas fácil. Mas ela estava sem carro então tinha que pegar ônibus, o que fazia com que a viagem passasse a ter três horas de duração. Ao todo passava seis horas viajando por dia, o que a fazia perder muito tempo do seu dia. Isso seria ruim para o seu negócio de crochê, pois iria atrasar as entregas e poderia acabar perdendo seus clientes.

Não que perder os clientes agora fosse muito problemático, pois seu marido trabalha e seus filhos já são grandes. Filhos aliás que dão trabalho desde pequenos. Que gestação complicada foi a dela! Parece que a placenta foi formada muito baixa e isso causava muitas dores e por vezes tinha hemorragia. Dos 9 meses da gestação acabou ficando mais em hospital fazendo repouso do que em casa.

Comecei a reparar que em nossa conversa eu estava frequentemente falando a frase: nossa, que complicado, deve ter sido difícil! Mas isso não era nada, foi então que ela começou a comentar o quanto estava cansada, pois no fim de semana havia ido a um enterro. Uma amiga próxima perdeu o filho em um acidente de moto. Ela fez questão de detalhar o acidente e o estado do corpo quando a mãe encontrou o filho. Eu já estava classificando a senhora como uma pessoa trágica, que é a classificação que eu dou para pessoas que só contam histórias com final triste ou que para cada história que você conta ela tem uma pior ou mais difícil para contar.

Foi nesse momento que ela disse: eu detesto enterros, mas me senti no dever de ir, pois sinto que é como se fosse uma missão minha mostrar para essas mães que a vida continua. Eu perdi meu filho de 21 anos em um acidente de carro. Para ir ao trabalho passo todo dia pelo local do acidente e lembro do dia que cheguei exatamente naquele local para reconhecer o corpo do meu filho e ajudar a tirar o corpo de dentro do carro.

Levei meu primeiro tapa na cara, afinal, “pessoas trágicas” devem ter um motivo para serem assim. Por quais situações será que todas as outras pessoas que eu já classifiquei assim não passaram e seguiram em frente? Foi então que a senhora continuou: sabe, não foi fácil estar naquele enterro e ficar relembrando do acidente do meu filho. A dor de enterrar um filho não deveria ser sentida por mãe nenhuma, mas a mensagem que eu quero passar para as outras mães é que a vida continua e que Deus nunca nos dá uma prova pela qual a gente não consiga passar.

Levei meu segundo e último tapa na cara. As vezes a gente precisa mesmo de um sacode desses, lembrar que não precisamos reclamar de tudo, entender que até quem conta histórias super negativas encontra força para ser positiva na hora que precisa. Não sei se é Deus que dá essas provas ou não, não sei se é Ele que dá a força ou não, mas depois dessa conversa eu tive certeza de que de fato a gente nunca vai passar por uma situação pela qual a gente não consiga passar, seja lá qual for a força que precise intervir por nós. 


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