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Mostrando postagens de Julho, 2015

A REZADEIRA — 3ª E ÚLTIMA PARTE >> Zoraya Cesar

A Rezadeira - 1ª parte
A Rezadeira - 2ª parte
— Conte-me a verdade, repetiu Velha Vó Dindinha, empertigada, as mãos nodosas e ossudas sobre os joelhos.
Tiffanny Cristine entreabriu os lábios, deixando à mostra uma fileira de dentes pequeninos; os da frente, um tanto separados, davam-lhe um certo ar infantil e carente. Como as aparências enganam, pensou a Rezadeira.
— Não vou ser bonita e gostosa pra sempre. Antes que Edgar me troque por outra, quero o dinheiro todo dele. Agora. 
Velha Vó Dindinha aguardou. Essa parte ela já intuíra. Interessava-lhe o que ainda não fora dito. 
— Preparei um feitiço pra ele me obedecer cegamente, e assinar um papel me passando todos os bens.
Magia negra básica. O que dera errado? Por que uma entidade invadiu o corpo do marido, corrompendo seus canais energéticos com tanta violência, que o cheiro nauseabundo da podridão exalava para o plano físico?
— O que você prometeu em troca?
— Por que acha que prometi alguma coisa? — respondeu Tiffany, petulante.
— Porque …

ESTE LADO PARA CIMA >> Analu Faria

Todo amor é um invasor. Eu olho para o meu namorado ali deitado, ocupando o sofá todo e penso nos mosquitos e borboletas que entram no meu pequeno apartamento, se eu deixar a janela aberta. Lembro também dos ensinamentos do meu irmão, que era engenheiro florestal, e me dizia que ficava tudo mais perigoso e a vida se enchia de possibilidades quando há espécies invasoras numa floresta.

O invasor é antes de tudo um forte. E vai modificar a paisagem com minigarrafinhas de Coca-Cola com o seu nome e o dele, e um porta-retratos com uma foto mostrando como foi legal se divertir mesmo naquele passeio mega sem graça. Vai também tornar a paisagem insípida sem a sua presença, de forma que, quando for embora, vai te deixar perguntando como é que se vivia naquele semiárido antes, naquela falta de diversidade. Os sons da casa não são os mesmos sem os zumbidos do invasor, trocando o canal da TV, rindo, apanhando do novo aplicativo, abrindo uma cerveja ou lavando a louça. E você vai contar os dias pa…

EU E ELE NUNCA SEREMOS NÓS >> Carla Dias >>

O mundo se tornou um lugar para poucos. Pensei que isso nunca aconteceria... Que haveria uma saída que nos levasse para longe desse destino. Ainda assim, aqui estou: sentado em uma cadeira, próximo à porta que dá para o jardim. Perfeitamente vestido, corpo na postura correta, olhos o acompanhando, enquanto ele faz o seu monólogo matutino, andando de lá para cá.

“Sabe como é difícil conseguir um exemplar como você?” Ele se refere ao fato de eu ter cabelos negros e bem lisos, pele branca, olhos azuis, mais alto do que a média e corpo atlético. “Exemplares como você não dão sopa por aí”.

Esse lugar para poucos...

Respondi ao anúncio, após compreender que não havia outro jeito e eu precisava sobreviver. Todos os meus recursos haviam se esgotado, e eu já tinha perdido emprego e casa, não tinha mais como comprar comida. Eu olhava nos olhos daquela miséria sobre a qual, até então, eu só ouvira falar. A miséria que se oberva de longe, lamenta-se como se tal compadecimento pudesse colaborar d…

S.O.S. ACADEMIA >> Albir José Inácio da Silva

Hoje me movimento já com algum desembaraço pelos aparelhos da academia, mas não posso esquecer minhas desventuras de principiante no fitness.
A timidez não chega a me paralisar. Se tenho que fazer, faço, depois contabilizo os resultados. Mas confesso que aquela garotada irreverente, fazendo coisas difíceis com facilidade, assustava um pouco minhas acumuladas primaveras.
Por isso escolhi um mês de férias no trabalho, para que tivesse o tempo necessário à adaptação e, como tinham me orientado, pudesse frequentar no meio da tarde — horário em que a academia ficava quase vazia.
O professor rabiscou uma série e explicou rapidamente os aparelhos, tudo muito fácil segundo ele. Sobre os pesos, ou carga — esse é o nome correto — disse que era pessoal e o aluno adaptava à medida que evoluía no treinamento. E seguiu para outras muitas atividades.
Tarde sonolenta, academia vazia, professor ocupado, um garoto solitário na esteira, uma magrinha e eu. Eu, meio perdido, com uma ficha na mão, articul…

NÃO SE MEXA, MEU AMOR
>>Eduardo Loureiro Jr.

— Não, Mô. Isso, assim. Um, dois, três, X... Saiu borrada. De novo. Fica imóvel, não mexe nem um pingo. Mas sorri. Sorri direito. Não, não faz esse sorriso de quem tem que sorrir pra foto. Faz aquele sorriso original, o primeiro que eu vi, aquele que me fez apaixonar por você. Isso. Segura esse sorriso. Com naturalidade, senão sai aquele sorriso forçado. Um, dois, três, X... Ficou ótima! Linda! Vou postar... Vamos tirar outra? Deixa de chatice, só mais uma. Depois você faz o que você quer fazer. É que reparei agora que apareceu sua chinela no fundo da foto. Horrorosa essa chinela. Quando é que você vai usar a chinela que lhe dei de presente de aniversário? Vamos lá. Me abraça. Mais forte. Não tão forte, assim você vai me sufocar. Me abraça do jeito que você abraça sua mãe. Você não sabe como você abraça sua mãe? Assim, ó. Isso. Sorri, você já sabe, daquele jeito. Sorriso sincero, por favor. Você não está sorrindo sinceramente. Você não pode tirar uma foto direito comigo? Duas, dez, qu…

É >> Cristiana Moura

É que hoje as palavras me faltaram. É tanta linda gente, com tantas belas histórias. É tanta linda gente com tantas duras histórias. Tantas pessoas com seus sons, seus gestos, seus entraves encantando esse sábado do cotidiano que as palavras se ausentaram de mim.

É coisa de andar por meio aos grupos. De ver cada um caminhando seu próprio caminhar e procurando fincar os pés ao chão. São muitas as alegrias. São muitas as dores. Tem gente que hoje é triste. Tem gente que voa. Tem gente que brinca de escorregar. Tem sorrisos e pensamentos que não leio, mas os sinto.

É que gosto de gente sendo gente. Cada vez que alguém, num vislumbre, é o que é sinto-me encantada como que por uma varinha dos contos da infância.  São tantos os olhares que, hoje, as palavras me faltaram.


Imagem: S/ título - Cristiana Moura

ESTAMOS AQUI >> Paulo Meireles Barguil

Comovente.
Impactante.
Escrito por Jéssica Paula e publicado recentemente, Estamos aqui relata alguns capítulos da saga de milhares de pessoas no leste da África, que tentam, há várias décadas, sobreviver a vários conflitos.
Ao longo de quase 300 páginas, a autora apresenta uma descrição pujante de sua odisseia, durante três meses em 2013, por quatro países africanos: Etiópia, Sudão, Sudão do Sul e Uganda.

O livro é recheado com fotos, que permitem ao leitor ampliar, consideravelmente, as suas sensações afloradas pelo texto envolvente.

A obstinação da viajante, na busca de alcançar seus objetivos, assemelha-se à determinação de irmãos africanos, que, em meio a ameaças diversas e com intensidades variadas, olham para frente.

Após a leitura da obra, profundamente atônito, pergunto-me:
— Onde é mesmo que nós estamos?

CHEIRO DE ALMA NOVA >> Mariana Scherma

Poucos cheiros me deixam mais feliz do que o de café. Abrir um saco novo de pó de café de manhãzinha me faz querer acabar logo com ele pra abrir um outro. Acordar na casa da mamis com cheiro de café funciona mais do que despertador barulhento ou despertador com música gostosa.
Esse amor todo deve ter a ver com aquela história de memória olfativa. A lembrança mais antiga que tenho de café é de quando era beeem piralhinha e fazia minha mãe me levar pra casa da vó Ana e tomar café com ela. Hoje eu sei que o café da vó era o mais forte que já bebi na vida. Perto do dela, o meu é quase forte. Perto dos outros, o meu é forte, sim.
Café fraco pra mim é coisa de covarde, de gente que não demonstra sentimento. Aqueles copos gigantes de café que a gente vê em seriado dos EUA é enrolação, ninguém tomaria um copão daqueles do café da vó Ana impunemente, sem ficar o resto do dia acordado – e animaaaado. Café fraco é tão ruim que, sério, não merece ser chamado de café, chafé mesmo.
Outra coisa que…

PÉS NUS >> Carla Dias >>

Caminha pela casa, mãos colhendo vento, olhos embriagados por imagens inéditas, dignas do embaralhar memórias com sonhos. Sabe que não é assim, que veio do mundo das certezas, do tempo despendido em tarefas concretas, do preencher formulários, sair para almoçar com colegas de trabalho, guardar as roupas passadas pela diarista, ir para a cama antes da madrugada. Cinco horas de descanso, então, começar tudo de novo.

É do tempo oferecido ao conforto da companhia dos amigos, das gargalhadas e histórias de vida compartilhadas, da resiliência diante da presteza do desapontamento em provar que, quando quer, é ele quem manda na situação. Ainda assim, caminha cadenciado pelos cômodos da casa, nessa quase dança de coreografia extravagante, o corpo a movimentar-se como se não lhe pertencesse, rendido ao barulho do silêncio sufocante.

A casa abriga mais do que sua realidade. Ultimamente, tem sido palco da sua imaginação. Há quem diga que sua criatividade libertou-se do aprisionamento do cotidian…

E TUDO MUDOU... >> CLARA BRAGA

O australiano nem imaginava. Ou até imaginava, já que ser surfista tem o possível encontro com tubarões como lado perigoso da profissão. Mas deve ser uma daquelas coisas que a gente vê acontecendo com os outros e acha que com a gente nunca vai acontecer. E ai, quando perguntado sobre o que ele sentiu quando saiu do ataque ileso, a resposta não podia ser outra: “Nasci de novo!”

Parece clichê, mas nós, que nunca passamos por uma situação parecida, não estamos aptos a julgar. A sensação deve ser exatamente essa, um novo nascimento. A gente fica apenas acreditando que de fato deve existir uma força maior, seja lá no que você acredita, que “salva” a gente quando ainda não chegou a nossa hora.

Aliás, essa história da hora certa também é um outro clichê com o qual a gente se depara o tempo todo. Até como forma de consolo quando o final não é tão feliz quanto no caso do surfista, afinal, quem somos nós para questionarmos as atitudes da tal força maior? Se ela salva, deve saber muito bem quand…

UMA ALEGRIA >> Whisner Fraga

Quarenta semanas de gestação (não estou certo quanto a esse número, pois sou do tempo que a gravidez era computada aos meses) e chegava o dia. Meu irmão arruma a tralha (duas ou três malas) e ruma para o hospital com minha cunhada. Lá se lembrarão que deixaram muito para trás, pois um bebê é imprevisível, a começar pelo dia que vai nascer e precisa de tanta coisa que não sabemos! Estão apreensivos, ansiosos. Tanto tempo de preparação e parece que a teoria se transformaria em prática. Meses de desenvolvimento (não evolução) e uma vida de transformação para descobrir, enfim, que nunca passará de casulo.

Chega como chegam todos: aos prantos. Um choro que será seu vocabulário por alguns meses. Utilizará desse expediente quando tiver fome, frio, dor. Crescerá em uma sociedade violenta, inóspita, competitiva, mas também compreensiva, acolhedora, fraterna, como era há cinco ou dez mil anos. Perceberá que não se muda nada da noite para o dia, mas que é nossa obrigação tentar a mudança. Repito…

CONTRA A CALVÍCIE >> Sergio Geia

“Um novo produto contra a calvície chega ao mercado brasileiro, amigo.” A notícia, que leio em voz alta pro Julio, garante que o negócio é bom, daqueles da China; que possui ingredientes fantásticos, cientificamente comprovados, capazes de dar cabo da coisa.
“E não é só isso não!”, continuo, agora com a voz numa tonalidade mais elevada: “Além de segurar os fugidios numa espécie de carandiru capilar, ele recupera, revertendo o processo de queda, fortalecendo, revitalizando, nutrindo, fabricando um chumação igual ao tempo em que você tocava na noite lá em Ubatuba, Caraguá, São Sebastião, e ostentava uma floresta amazônica na cabeça. Sem efeitos colaterais, isso é bom anotar, e sem gastar tanto dinheiro, olha que maravilha. Seus fios serão novos rebentos, aptos a uma vida decente em sociedade. Veja aqui, veja... a foto do cara que tomou.”
Julio me olha com incredulidade, mas enxergo nele uma fina ironia nascendo de seus grandes olhos, como quem já tá preparando o troco. “Sem efeitos cola…

A REZADEIRA — 2ª PARTE >> Zoraya Cesar

Leia A REZADEIRA - 1ª parte
A mulher do outro lado da linha quase gritava, aos prantos, alguma coisa sobre possessão, marido, espíritos malignos. 
Chovia muito, estava um pouco frio — e as articulações reumáticas da velha Rezadeira lhe diziam que esfriaria mais. O ideal seria tomar uma boa xícara de chocolate quente e ficar em casa, mas alguém lhe pedira ajuda; portanto, ajudar ela iria. 
Preparou o ritual que sempre fazia antes de sair a trabalho: ofereceu uma vela na intenção de Nossa Senhora do Desterro, outra a São Cipriano; sentou-se em sua cadeira de balanço, acendeu o cachimbo e entrou em oração. Pediu por seu Espírito, para que não arrefecesse frente ao medo ou às tentações; por sua Alma, para que não fosse arrastada pelas forças do Inferno; e luz, para cumprir sua Missão de acordo com a Vontade Divina.
Entre uma baforada e outra, os olhos fechados, deslizava os dedos por suas guias de contas e cantava. Cantava cantigas de proteção e exortação que, um dia, algum xamã, pajé, cu…

BRICOLAGEM, PALAVRÃO E HOMEOPATIA
>> Analu Faria

Eu gosto de umas palavras sem nem saber o significado delas. Tipo “bricolagem”. Quando ouvi essa palavra pela primeira vez, fiquei repetindo para mim mesma “bricolagem, bricolagem, bricolagem...”. Em seguida, criei diálogos imaginários com ela, tentando adivinhar o significado. Uma forma de artesanato? “Quero aprender bricolagem, minha tia é artesã e disse que bricolar [é claro que eu ia derivar um verbo disso] é superdesestressante.” Uma manobra política? “Os deputados usaram de bricolagem na aprovação do projeto de lei.” Ou ainda uma brincadeira irritante de criança? “Parem de bricolagem, vocês dois, ou eu chamo a diretora!”

Outras palavras eu trago comigo como remédio. Muitas são palavrões. Toda vez que estou acometida de alguma tristeza não requisitada, ou de raiva, ou, pior, de preguiça, valho-me de um deles. Bosta é meu favorito. Faz uma explosão na boca quando a gente fala, assim: b*OOO*sta! (Eu geralmente acrescento um “ô” antes: “Ôôôô b*OOO*sta!”). É terapêutico!

Está claro, …

OLHA O JORNAL! >> Carla Dias >>

A primeira vez que um texto meu foi publicado em um caderno cultural de jornal foi em 1994. Eu fiquei feliz, meu namorado nem tanto, que ao ler o conto, mesmo sem eu ter inserido no tal seu nome e endereço, reconheceu-se nele de imediato.

Foi assim que eu descobri que nem todos gostam de servir de inspiração.

A segunda vez foi um tanto mais emocionante, e nem teve de prefaciar fim de namoro. Foi em 1999, dois anos depois de meu primeiro livro ser publicado. Zanoto foi muito gentil com o meu Azul, chegando a publicar meus poemas na sua coluna do Correio do Sul, a Diversos Caminhos. Ele não só publicava os meus poemas, como me mandava o jornal, direto do Sul de Minas, e sempre com alguma anotação. Mas um deles me deixou pra lá de feliz. Não somente pelas palavras, mas novamente pela gentileza de Zanoto.




Então, a internet ganhou espaço de vez. Um imenso espaço.

Não, eu não sou contra a internet. Na verdade, eu adoro a internet. Acredito que, quando usada com sabedoria, ela pode nos forn…

E O QUE É FÉRIAS? >> Clara Braga

Férias, segundo o dicionário da língua portuguesa da Larousse Cultural, significa dias consecutivos destinados ao descanso dos trabalhadores e estudantes.
Segundo a wikipédia, férias é um período de descanso periódico de uma atividade constante, geralmente trabalho ou aulas, e maior que um fim de semana. O período de férias varia de acordo com a legislação de cada país. No Brasil, a legislação trabalhista estabelece um mínimo de 30 dias consecutivos de férias após o período de doze meses de trabalho.
Deixando de lado os significados técnicos, para muitos férias é sinônimo de viagem. Talvez não na atual crise, mas no geral… Em Brasília, as pessoas correm logo para perto de uma praia, principalmente aqueles que conseguem tirar férias no período da seca.
Para outros, férias é sinônimo de trabalho dobrado. Nada melhor do que férias para investir no crescimento da sua própria empresa. Ou talvez seja um ótimo período para crescimento pessoal, então férias passa a ser sinônimo de muito estu…

SER OU NÃO SER >> Albir José Inácio da Silva

O Jornal dos Sports prometeu uma edição com o resultado para aquela tarde. Depois do almoço, tínhamos descido à banca umas quatro vezes cada um, eram cinco horas, e nada. Chefe e colegas estavam intrigados com nossas fugidas, segredos e olhares conspiratórios.
— Saiu nada não! — gritava já o jornaleiro antes que eu me aproximasse.
E foi assim até o final do expediente. Iríamos até a sede do jornal, que costumava colar o resultado na parede. Uma caminhada boa pelo Centro, mas era melhor que ficar esperando na banca.
No início daqueles plúmbeos anos setenta, naquele subúrbio que só comemorava a vitória da Portela, a salvação passava pelo juízo final chamado vestibular. Vestibular que podia dar o paraíso da universidade ou a eterna condenação de permanecer coisa nenhuma.
“Tornar-se alguém”, “virar gente” ou ainda “ser alguma coisa” eram expressões repetidas à exaustão em nossas cabeças adolescentes até se tornarem uma obsessão. E diziam todos que eles não tinham conseguido ser nada, mas…

QUERIA, MAS NÃO QUERIA
>> Eduardo Loureiro Jr.

Mana a mana, Aqueia e Romana.

Romana queria, mas não queria. Aqueia não queria... mas queria.
Quer? Não. Mas que iam...
Queira! Quero não. Amariam, mas.

Amar o quê?

Querer anão. Meios quereres? Quereriam? Quis. Masoquis. Mas quão? O querer não queria?

Não queria suas mãos — aquário. Mas suas mãos queriam — másquomo, riquema, mônaqua — e aquariam um maná a mais: quiara, másquara, riqueria.

Esqriquiariam, esqriquiam, esqriquiarão...

Anarquia? Monarquia. O querer amansa quem não mais queria. Aqueia e Romana, mano a mano, quorum quora, riam. Que quereiria!

E quem quiser que queira outras mais...

INUTILIDADES DOMÉSTICAS >> Cristiana Moura

Noutro dia, estava eu a espreitar a conversa alheia sobre compras feitas em viagens. O marido dizia aos que ali escutavam a conversa que ela e a amiga haviam comprado demais. Eles se hospedavam na casa de um amigo que muito consideram e o anfitrião já havia advertido previamente quanto ao excesso das compras.

Ela mesma confirmou. Eram sacolas e mais sacolas. Mostrou-me uma foto: as sacolas, ela e a amiga sentadas no chão do rol de entrada do apartamento onde estavam hospedadas. Na foto elas pareciam escondidas por detrás das compras. Estavam ali guardando as compras de lojas diferentes nas mesmas sacolas a fim de diminuí-las e assim parecer ser menor a extravagância das compras.

E a esposa foi contando em tom de animação dos diversos objetos e de suas utilidades. Foram tantos os objetos que se tornaram de consumo, sem talvez terem sido objetos de desejo, que me instigou. Um entre tantos me chamou especial atenção. Trata-se de um medidor de macarrão com a boca de boneco cuja função se…

HOJE É... >> Paulo Meireles Barguil

Hoje é 04 de julho.

Tendo em vista que viajarei próxima semana e ficarei impossibilitado de escrever, estou usufruindo, com alguns dias de antecedência, meu prazer quinzenal...

Nesse tempo de crise, com tudo indicando que ainda vai piorar bastante antes de começar a melhorar, é recomendável ter cuidado: já pensou se o Editor Chefe resolve me dispensar só porque eu deixei de escrever uma crônica?

Na qualidade de estudante, nunca gostei de faltar aula.

No papel de docente, então, o zelo é ainda maior.

Chove lá fora e aqui dentro.

Sem isso, a vida não floresce.

Estruturas celestes ameaçam o pulsar na Terra.

Corpos terrestres amedrontam a vida no Céu.

Atento e indiferente a isso, sigo.

Cego?

Chego?

Hoje é 05 de julho.

O MUNDO SEM ELA >> Carla Dias >>

O maestro — tomado pelo frenesi que lhe é peculiar — leva a orquestra para as ruas, para um ensaio. Alguns músicos e os dirigentes da orquestra ficam furiosos. Onde já se viu sair de uma sala de acústica perfeita para ensaiar em um estacionamento, ou espaço afim, no meio da cidade e seus barulhos, as buzinas, o falatório, os passos das pessoas rumo ao trabalho? Expostos à curiosidade dos comuns?

O produtor sofre com a demanda musical de sua gravadora. A música que antes lhe fascinava, e os artistas com os quais tinha prazer em trabalhar, resumem-se agora a pessoas que caibam em um modelo de sucesso. Ele sabe que retorno comercial é necessário, afinal, todos têm de ganhar a vida. Mas por que não um retorno comercial com boa música? Ele encontra essa compositora e decide que irá produzir o disco dela. Sem a parceria com a gravadora — da qual foi convidado a se retirar pelo seu sócio —, ele vai para as ruas. Grava todas as faixas do disco nas ruas, aproveitando os barulhos da cidade e de…

E VOCÊ, VOLTARIA? >> Clara Braga

Ele entrou no ônibus para ir trabalhar. Logo depois, ela entrou no mesmo ônibus, também ia trabalhar. Se fosse um livro do John Green eles iriam se apaixonar e viver um lindo romance até algum deles descobrir que está com leucemia, mas estamos falando desse nosso Brasil que está ficando "muito doido"!
Ele entrou no ônibus armado, é da polícia. Ela, médica! Os dois acreditavam que seria apenas mais um dia comum, mal sabia ele que pela primeira vez se sentiria na responsabilidade de atirar contra pessoas, correndo o risco de tirar uma vida para, talvez, salvar a vida de outras tantas.
O caso virou manchete em todos os jornais, foi reportagem destaque no Fantástico! Mas o caso chama atenção não por ser assalto a um ônibus, mas sim porque o policial teve que atirar nos bandidos para salvar as vidas que estavam no ônibus. Quando o tiroteio acaba, um dos assaltantes fica ferido, e quando a médica percebe que ele ainda está com vida, volta para o ônibus e socorre o bandido até a c…

SABE, QUEM MASCA FUMO >> André Ferrer

Quando criança, fui aos galos. Um amigo do meu avô, aficionado por rinhas, levou-me.
Tratava-se dos anos de 1980 e é interessante pensar que inúmeras coisas e atitudes daquele tempo agora são ilícitas. Hoje em dia, também, muito do que é e sempre será hediondo — bem, pelo menos, para algumas pessoas — já começa a ser considerado — assim, na boa, como se diz por aí — o suprassumo da virtude.
Enfim, a minha primeira e única experiência no universo do MMA galináceo veio à tona em plena semana em que o Zeca Camargo decidiu pintar a nossa cultura. Foi surpreendente porque, durante anos, achei que a única lição aprendida naquele recinto barulhento e esfumaçado tinha a ver com náusea e cheiro de fumo de corda. 
A verdade é que o tempo dá novo significado às coisas. Ele cria metáforas. Transforma livros para colorir e brigas de galo em lentes de aumento ou, dependendo do caso, em trave para os olhos. 

Agora, os administradores das apostas atiram as grandes questões do nosso tempo nas redes sociai…

CÉU, EU TE AMO! >> Sergio Geia

Tenho mania de ficar escutando música ativamente em busca de preciosidades poéticas. Quando eu falo escutar, eu falo escutar mesmo, me jogar de corpo e alma na canção e me deixar emocionar. Ponho o CD no aparelho, encho o copo de uísque e viajo.
Achei muita coisa boa no último CD do Chico. Na música Sem você 2, por exemplo: “Pois sem você o tempo é todo meu / Posso até ver o futebol / Ir ao museu, ou não / Passo o domingo olhando o mar / Ondas que vêm / Ondas que vão”. É melancólico, tá, eu sei, mas acho bacana. Acho que ele consegue captar um instante mágico – o cara se separou, tem o tempo todo pra ele (era o que queria), mas parece não estar feliz. Em Nina: “Nina diz que fez meu mapa / E no céu o meu destino rapta / O seu”. Acho isso maravilhoso: no céu o meu destino rapta o seu. Em Sinhá, Chico dá um show. Ele conta a história da sinhá que se envolve com um escravo. Será que se envolve mesmo ou é cisma do senhor de engenho? O escravo se defende: “Se a dona se banhou / Eu não estav…