Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de 2010

A PRIMAVERA DOS CADÁVERES
>> Leonardo Marona

“Estar mortalmente doente é não poder morrer”
(E. M. Cioran)


O embate cresce na carne por dentro das unhas, longe da filosofia. É claro que caímos de duras quedas, e os holofotes não são mais os mesmos: desbotam a cor. A vontade de viver é diariamente compensada com presságios de fim de mundo, de fim dos homens. Mas nós permaneceremos, justamente porque foi dura a queda.

A conclusão patética: compartilhamos diariamente nossos neurônios com a terra que, em troca, não nos esclarece nada. Somos, em suma, desprezíveis, com a nossa interioridade revoltada, com nossos órgãos expostos, com nosso aspecto amoroso. Mas somente o que é desprezível pode ser santificado. E só um louco seria um santo. Acreditamos em pragas irreversíveis, carregamos flores entre os dentes. Estamos aqui, estamos em lugar nenhum. Somos o que é enquanto é apenas, e trata de ser pouco.

E não teremos empregos, ou teremos qualquer emprego: e não será por falta de habilidade prática, bem mais será porque a ocupação profund…

DESNAMORAMENTO >> Carla Dias >>

Comentando uma notícia, minha sobrinha de 10 anos soltou um 'desnamoramento', ao invés do desmoronamento sobre o qual queria falar. Passou o dia e aqui estou, escrevendo a crônica de hoje com essa palavra bagunçando meu raciocínio.

Eu desnamoraria uma série de coisinhas, se fosse possível, mas não me refiro a arrependimento. Desnamorar requer apenas deixar de desejar certas coisas... ou pessoas. Ao menos é como penso o sentido dessa palavra que caiu no meu dia.

Com toda certeza, eu desnamoraria a complexidade que anda de viés na minha rotina. Adoraria um pouco de leveza nos afazeres cotidianos, sem que, antes de responder sim ou não, minha cabeça não descambasse às reflexões mais profundas. Que fosse mais agradável a compreensão de que, às vezes, não há como ser imparcial, agradável, submisso ao desejo de estar bem com quem amamos e respeitamos. Às vezes é preciso desnamorar as certezas.

Mais um ano chegando ao fim. Há algum tempo deixei de fazer listas de desejos por conta da v…

PARA QUEM NUNCA VAI PASSAR >> Clara Braga

É impossível lembrar de todas as pessoas que passaram por nós nessa vida. Estamos constantemente esbarrando em pessoas novas, em novas situações e é normal não lembrar de todo mundo. Lembramos bem vagamente de muitos, com detalhes de alguns e perfeitamente de quase ninguém. E o contrário também é válido, muitos lembram de nós vagamente, alguns com detalhes e poucos lembram de nós como realmente somos.

Isso não significa que as pessoas que não lembramos ou que não lembram de nós não foram importantes, significa apenas que as pessoas seguem caminhos diferentes e acabam se afastando, e como todos estão cansados de saber, não é qualquer tipo de relacionamento que aguenta uma certa distância, mesmo ela não sendo física.

O bom é lembrar que para compensar essas pessoas que passaram existem as pessoas que nunca vão passar. Essas são as que estarão do nosso lado sempre que precisarmos, nos apoiando tanto em momentos maravilhosos quanto em momentos de dificuldade. Realmente é mais difícil enco…

OS FILHOS DA ROSA >> Albir José Inácio da Silva

Não foi inspiração natalina porque ela já fala disso há algum tempo. Claro que havia opções: novos títulos acadêmicos, viagens, cursos de idioma, trabalho voluntário e outras coisas que sempre planejou. Coisas que ficaram em segundo plano porque ela resolveu “adquirir” dois meninos, de dez e onze anos, num Abrigo da Baixada Fluminense.

Em mensagem recente, Rosa me disse para não ficar estupefato, que depois me acostumaria com a ideia. Na verdade a minha estupefação não é real. É pura encenação. Confundi de propósito o dia em que as crianças sairiam do Abrigo, para as festas de fim de ano em sua casa, com o onze de setembro. Quis simular uma surpresa que não sentia, nem sentem aqueles que a conhecem. Mas não quero falar de Rosa, que ela não gosta. Quero falar dos meninos.

Eles não sabem ler. Uma avaliação, que ela já providenciou na Secretaria de Educação do Rio, mostra que eles cursarão a primeira série. Rosa não é inocente nessa matéria, tem formação em educação, que valoriza tanto, e …

EX-DESCONHECIDOS >> Eduardo Loureiro Jr.

A amizade é feito uma esquina de clube de esquina: não parece haver nada especial naquele simples encontro de duas ruas, mas dali surgem palavras, sorrisos, abraços e canções que ficarão guardados na lembrança, preservados no tempo.

Há vários tipos de amigos. Os amigos-irmãos, que bem poderiam ter nascido filhos de nossa própria mãe, com os quais crescemos, brincamos, brigamos, nos reconciliamos, seguimos. Os amigos-colegas, que dividem conosco o tempo de certas atividades de estudo, trabalho ou lazer. Os amigos-cometas, que somem de nossas vidas mas reaparecem de tempos em tempos, sempre com o mesmo brilho, e tamanho é o encanto e a afinidade que parece que estiveram sempre por perto. Os amigos-ocultos, mas não aqueles de festa de Natal, e sim aqueles outros que, principalmente na infância e na adolescência, nos auxiliam sem que nós, em nosso egocentrismo juvenil, percebamos ou reconheçamos imediatamente. Existem muitos tipos de amigos, todos queridíssimos e indispensáveis, mas hoje …

NOITE LUZ [Debora Bottcher]

Na noite mais iluminada do ano, normalmente, as famílias se reúnem, trocam presentes, abraços, fartam-se em guloseimas e alegrias.

Fora a correria peculiar, tumultos em shoppings e supermercados, é a época da renovação: antecipando o futuro, faz-se planos e aumenta a ansiedade sobre os sonhos. Nossos desejos se acentuam — e também as determinações. Com olhos espiando através da janela do tempo, o otimismo abre asas e a crença em coisas boas se instala pelas brechas: há que se ter esperanças!

É também um período em que, mesmo sem querer, a gente repensa acontecimentos e atitudes e, eventualmente, o perdão se faz entre os que estão estremecidos. Há uma aura no ar que convida à harmonia: prevalece o bom senso e tenta-se manter a paz.

Nem sempre é possível. Todos nós já assistimos a natais em que as pessoas, por um lapso exagerado de bebida ou mau humor, derramam sua amargura entre os demais: desenterram 'ossos' e os despejam na mesa. Está quebrado todo o cenário de boas intenções…

UMA CARTELA PARA O DIABO
>> Leonardo Marona

01:30 h

Entrei no ônibus 172 bem na boca da Voluntários da Pátria, muito perturbado. Tinha acabado de assistir à Dama de Xangai pela primeira vez, tinha revisto cenas, mas não conseguia entender por que Elsa, ou Roselinda, induziu Mike a tomar aquelas pílulas todas no tribunal. Foram seus olhos? Queria que fugisse para depois liquidá-lo? Queria que ele mesmo se matasse sozinho? Ele estava desesperado de amor e engoliu? E que diabo de tribunal era aquele? Eu estava dividido entre este tipo de pensamento e três ratazanas, que namoravam dentro de uma construção abandonada, em frente à parada, quando subi.

Logo na roleta, a trocadora, uma morena de cabelos crespos num chumaço a frente da tiara violeta, e com muita pele em volta dos olhos remelentos, dormia placidamente. Atrás de mim vinha um senhor muito magro, com as calças rasgadas no fundilho, segurando as calças com uma das mãos e, com a outra, tentando equilibrar uma enorme caixa de isopor, que invariavelmente era arremessada na minh…

O SILÊNCIO >> Fernanda Pinho

Nem o corpo da Gisele, nem a conta bancária do Eike, nem um amor de cinema. O que desejo a mim e a vocês é que em 2011 tenhamos mais chances de ouvir o silêncio.
Não quero ouvir jornalistas solenes anunciando tragédias naturais. Nem jornalistas infames anunciando o último divórcio do mundo artístico. Não quero ouvir lamentos sobre o que já não se pode mais mudar. Nem reclamações vazias de atitudes sobre o que ainda pode ser mudado. Não quero ouvir fofoca sobre meus conhecidos. Nem conversa de elevador dos meus desconhecidos. Não quero ouvir a opinião de quem não sabe o que diz. Nem de quem acha que sabe demais o que diz. Não quero que me chamem de linda se não estiver disposto a fazer isso por, no mínimo, dez anos. Nem que me chamem de louca quando cansarem de dizer "linda". Não quero ouvir atendente de telemarketing tentando me convencer a adquirir o maior benefício do cartão. Nem ouvir aquela musiquinha insuportável quando eu ligar para o SAC do cartão. Não quero ouvir des…

PUXE UMA CADEIRA >> Carla Dias >>

Faça-me companhia, é o que peço. Sou pedinte humilde, meu caro, que não se importa com etiqueta ou rótulos, tampouco com dissabores. Abro a boca e aguardo ser alimentada pela sua história, querendo mais é que o mundo acabe em páginas em branco para eu recomeçá-lo dos alicerces da minha imaginação, numa dança de palavras que se encontram em coreografia inusitada.
Sirva-se de mim, do pecado aos bons costumes, paredes, assoalho, no jardim da nobre casa apelidada redenção. E entre um gole e um toque, peço que estreite laços, que ando faminta por aconchego, e novidades... Assopre-as em meus ouvidos. Invente-as se for preciso, que hoje não me importo. Hoje não.
Disseram-me que, se um dia me sentisse só, bastaria o sentir para que viessem todos: sonhos descabidos e irrealizáveis, afetos martirizados pelas mágoas, amizades interditadas pelo tempo e o espaço impostos, sempre prontos a angariar passado.
Acontece que hoje escolho a sua companhia, celebrando um remate amansado. Então, peço que fi…

MÃE, POSSO NÃO FALAR COM O PAPAI NOEL?
>> Clara Braga

Então é Natal! Todo mundo montando as árvores, iluminando as casas, quadras e bairros, enfim... enfeitando a cidade. E os shoppings não ficam de fora, todos estão superenfeitados e claro, cada um com seu Papai Noel entregando balinhas para as crianças que vão lá sentar no seu colo.

A fila para sentar no colo do Papai Noel normalmente é grande, as crianças com a lista de brinquedos que vão pedir e as mães com as máquinas fotográficas devidamente preparadas para capturar o momento. Mas e quem não quer sentar no colo do Papai Noel? Sim, por mais estranho que possa parecer, existem crianças que têm medo ou simplesmente não gostam da idéia. E vamos ser realistas, não é difícil encontrar crianças assim.

Andando no shopping outro dia, passei por uma menino que se escondia atrás da mãe, literalmente agarrado na perna dela, enquanto a mãe insistia para que ele fosse até o Papai Noel. Logo me identifiquei com essa criança, pois eu era assim, morria de medo de pessoas fantasiadas de qualquer coi…

O MICO DO ANO-NOVO >> Kika Coutinho

Todo ano, a mesma coisa. Lá pra outubro começam as ofertas: “Passe o réveillon pulando as sete ondas! Cinco dias por R$4.958,00!”. Ou: “Imperdível, curta seu ano novo na Europa!” Eu paro de ler antes de chegar nos números. Chega a ser ridículo. O hotel que fica vazio o ano todo, se oferecendo via sites de compras coletivas que saltam a todo instante na net, no réveillon, não aceita menos do que um pacote por dez dias. Se conseguir fechar cinco dias, deu sorte. Muita sorte. Claro, isso se não contarmos a muvuca da praia. Pular sete ondas, sim, e pular também sete rosas brancas, um barco com mandinga, doze latinhas de cerveja. “Viraram uma caçamba de lixo aqui?”, pergunta um, tentando escapar de pisar em um caco de vidro, da garrafa de champagne que o vizinho, tão simpático, largou no chão logo após desejar muita saúde e sucesso. Sei, sei... "Segura as crianças, cuidado, tem gente estourando rojão aqui, que irresponsabilidade”, murmura outro, que derrama vinho no vestido branco da …

A ÁRVORE DA VIDA >> Eduardo Loureiro Jr.

A vida é feito uma árvore de Natal.

Embaixo estão os presentes, os embrulhos de presente, a sequência dos dias, nossos 365 presentes anuais. Cada um com peso, tamanho, formato e cor próprios. Todos presentes, todos dias, mas cada um a seu jeito, pedindo um desembrulhar diferente, oferecendo uma surpresa diversa, servindo para um propósito distinto. Cada um de nós tem o seu presente, misturado com o presente do outro, os presentes dos outros. Cada um recebe segundo seu merecimento, disfarçado de generosidade alheia. Cada um dá o que está podendo, ou querendo. Essa é a base da árvore. Poderíamos mesmo dizer que se trata de suas raízes expostas: os presentes, o presente, nosso dia-a-dia.

Depois temos a árvore propriamente dita. Um tronco que quase não se vê, o rumo da nossa vida, aparentemente oculto entre tantos galhos, bifurcações, afazeres, folhas, papéis, agendas, compromissos, distrações. O tronco da vida é duro, é firme, sustenta nossa própria existência. Mas para que suportemos a …

PINOS SOLTOS NUMA MÁQUINA DE MOER SENTIMENTO >> Leonardo Marona

Não tenho como falar de mim mesmo, como escritor, o que me é bastante difícil fazer, sem falar da minha geração como um todo, da maneira mais generalizada possível. Acredito que o principal problema da minha geração é que perdemos o sentido de viver para o novo. E o novo perdeu o sentido da sua existência: se tornou uma batida inorgânica num compasso pobre. Nascemos numa época em que tudo já foi feito, tudo já foi absorvido devida e indevidamente por oportunistas e gênios. O que mais vejo por aí são idéias muito velhas maquiadas de novas. Os jovens desaprenderam a gritar, o grito hoje, quando sai, sai torto, rouco, um pigarro. E existem três tipos de jovens: os resignados, que eu prefiro chamar de calmamente desesperados, na maioria suicidas em potencial; os artistas, que preferem muito mais falar sobre sua intensidade e suas rupturas flácidas do que fazer alguma coisa de fato para o mundo (são os maiores umbigos do mundo. Vivem por aí nas rodas de café com seus cachecóis e seus livro…

PAIXÃO CRÔNICA >> Fernanda Pinho

Suspeito de que eu estava flutuando, e não andando, quando deixei o auditório da Cemig, em Belo Horizonte, na noite da última quinta. E só fui trazida de volta à consciência (ou ao chão) porque, do outro lado da rua, um flanelinha não se conteve e gritou: “Tá feliz, hein, moça”. E aí eu me dei conta de que, além de provavelmente estar flutuando, eu estava também rindo de canto a canto. Confesso, fiquei tentada a guardar o riso para que não me achassem uma boba pela rua afora. Mas não deu. Eu estava feliz demais para conseguir disfarçar ou para preocupar com o que os outros iriam achar. Continuei flutuando, rindo e falando até. Repetindo para eu mesma as únicas frases que trocamos. “Gosto do seu nome, é o nome da minha filha”. “Eu também gosto do seu, é o nome do meu pai”. Fiquei orgulhosa por ter conseguido responder mesmo estando com o coração na boca. E mais orgulhosa ainda por ele, com fama de ser tão econômico em suas falas, ter dispensado uma frase a mim.
Pensei em sair ligando p…

RISÍVEL >> Carla Dias >>

Parece-me que a alma escapou do corpo e foi dar uma volta, permitindo que sua carcaça permaneça estacada no chão, representando tudo aquilo que a alma nunca quis se tornar. Apego-me à lonjura do corpo e do espírito, como se fossem dois universos distintos, cada qual caminhando em seu ritmo. Cada qual um olhar.
A mulher se diz indignada com o despreparo dos funcionários para atendê-la, afinal, o chá da tarde é importante de um jeito que subalterno algum deveria rasurá-lo. Benze-se, então, como se Deus estivesse envolvido na sua rixa particular, como se o chá fosse o antídoto para sua vida infeliz.
Aquecer-se com o chá da tarde é o que a faz esquecer que despreparada é ela, mas para a liberdade. Por isso vive à sombra de um homem que chama marido e que mal a encara, procurando sempre algo ou alguém melhor que o distraia daquela mulher que, sabe-se lá o motivo, faz parte da sua vida.
Enquanto sorri um sorriso desbotado, ele lança um olhar indignado à mulher do chá da tarde, a quem tem por m…

AVAIANA DE PAU >> Clara Braga

Sei que algumas pessoas acham que aniversário é como qualquer outro dia do ano, mas eu não sou assim. Sempre gostei de aniversário e fiz questão de comemorar com meus amigos, tanto o meu quanto o deles, mas nem sempre a gente consegue estar presente.

Um dia desses foi aniversário da minha prima, não podia perder, já não tinha ido no ano anterior, mas parece que aquela história de "tudo que eu quiser o cara lá de cima vai me dar" não funcionou muito bem comigo. O compromisso que eu tinha antes atrasou bastante, já sai correndo. No caminho o pneu furou. Trocado o pneu, problemas para calibrar. Resolvido o problema, finalmente cheguei em casa, mas como nem tudo são rosas, percebi que tinha perdido a chave de casa, e assim foi minha noite. Depois de muito tempo consigo entrar em casa, mas já estava tão cansada que resolvi entender todos esses acontecimentos como um sai para não sair mais.

Quando fui me explicar para minha prima, falei a frase que eu não aconselho ninguém a utili…

TALENTO NOS DEDOS
>> Albir José Inácio da Silva

O leitor deve estar pensando em pianista, flautista, violonista ou qualquer outro artista que use as mãos para encantar a humanidade. Mas não é bem isso.

Em certo momento da minha vida, da minha adolescência pra ser mais preciso, eu aprendi datilografia. Não sei até quando se vai saber, mas hoje ainda se sabe o que é isso. O teclado da máquina de escrever está contido no do computador, bastando expurgar deste dezenas de teclas que naquela época não teriam nenhum significado. Saber datilografia dava um status que não pode ser comparado ao conhecimento de informática de agora. Digitar todo mundo sabe. O computador está nas casas, nos quartos das crianças, nas salas de aula, nas mesas de bar e no colo das pessoas em ônibus, trens e aviões.

Datilografar significava ser especial. E mesmo os que sabiam datilografia não eram todos iguais. Media-se o datilógrafo por toques — toques por minuto. Eram respeitados os que conseguiam cento e oitenta, duzentos, duzentos e vinte toques por minuto.…

PEPETA PEPETA >> Eduardo Loureiro Jr.

Estou desaprendendo a escrever. E não tem nada a ver com falta de inspiração. Continuo respirando bem — inspirando e expirando, inspirando e expirando — sem a ajuda de aparelhos.

O aprendizado da escrita foi um aprendizado de comunicação: uma desfeita para com a minha timidez. Mas agora as coisas que faço fazendo sentido para os outros não são feitas fazendo sentido para mim.

Hoje eu prefiro as palavras assim:

tanta coisa pra dizer e só me vem
pepeta pepeta
tanta coisa pra dizer e só me vem
pepeta pepeta
o que eu tenho pra dizer é o céu
és o céu na terra e a terra é o céu 
pra quem gosta de aventura 
a vida dura é feito mel 
tanto fala até que muda 
a vida à moda do céu
é preciso ser criança pra dizer
pepeta pepeta 
cada um pode sentir que quer dizer
pepeta pepeta


Não, não se trata da linguagem incompreensível dos excessivamente intelectualizados. É um desaprender da escrita que já é quase desaprender da fala. Música tendendo ao murmúrio. Dizer coisa sem coisa.

Qualquer temporada dessas, desap…

SOBRE PÉS BONITOS E JOANETES
[Ana Gonzalez]

Os pés nem sempre são peças que referenciem a beleza, mas todos somos por eles conduzidos na vida. Além dessa nobre função, eles fazem muitas histórias particulares. Em especial, pés bonitos sempre foram motivo de atenção por parte de homens e de mulheres, embora por motivos diferentes.

Os meus desde que começaram a apresentar joanetes, receberam cuidado especial.

E esta história começa muito cedo em minha vida, quando na adolescência vi um osso lateral começar a crescer no meu pé direito, algo que meu pai tinha. Simples joanete, nada grave, mas tive que começar a escolher melhor os sapatos. Lá estava a paternidade marcada a olho nu, muito aquém dos cromossomos e DNA.

Fui assim andando com o pé direito cada vez mais torto, até que o esquerdo também desenvolveu a anomalia. Nem isso me tirava do sério, ou seja, eu levava a questão naturalmente, mesmo longe da possibilidade de usar um sapato especial de bico finíssimo ou uma sandália cheia de tirinhas brilhantes.
Não havia a menor …

EU TE ODEIO PORQUE NÃO POSSO VIVER SEM VOCÊ >> Leonardo Marona

Estive recentemente à beira-morte, então decidi ir à beira-mar para me despedir de mim (faço isso semanalmente). Fiquei vendo as mulheres com seus biquínis de crochê cavados e os homens como focas jogando bolas para cima com todos os músculos enrijecidos ao mesmo tempo, sem saber o quanto isso fica ridículo quando não é você quem está fazendo o esforço. Rapidamente me esqueci de morrer, o que tem acontecido também semanalmente desde as últimas férias em Miguel Pereira, eu lá caindo da bicicleta e me fingindo de mendigo com um cordão bloqueando a estrada para ganhar uns trocados extras enquanto enterravam minha mãe e ela tinha apenas um resfriado, segundo me disseram.
Sempre me inclinei a inventar teorias idiotas para explicar assuntos que não conseguia compreender. Isso servia de alívio momentâneo quando a cabeça parecia a ponto de explodir, como agora, por exemplo, quando não consigo infelizmente usar as palavras que queria ter usado lá atrás, ao começar isso daqui. E parece tão tarde…

CADA UM TEM O CHICO QUE MERECE >> Fernanda Pinho

Eu sei que de nada adianta ficar tentando entender o mundo, a vida, o imponderável, mas há dois questionamentos que não me sossegam: por que Maracugina se escreve com G e por que Chico é apelido de Francisco? Para minha primeira dúvida cruel eu até cogito a hipótese de haver algo de numerologia nisso mas, para a segunda, nada me convence. Nem pensem que, por isso, eu tenho antipatia de Chico. Não mesmo! Acho simpático, sonoro e já até cogitei batizar meu filho de Francisco só para poder chamá-lo de Chico. Mas eu não quero ter um filho chamado Francisco, eu quero ter um filho chamado Davi e por que eu não posso chamar o Davi de Chico? Por que Chico, por alguma razão sobrenatural, é apelido de Francisco. E nem me venham falar em derivados. Bené é derivado de Benedito. Tião é derivado de Sebastião. Mas Chico não é derivado de Francisco! Cisco seria um derivado de Francisco – embora eu ache que Cisco Buarque não emplacaria.
A verdade é que minha implicância com o assunto vem de uma certa …

ELA E O MAR >> Carla Dias >>

estarei eu um desalguém,
ou não haverá mais eus sem fartas sombras
e eu é que deliro de mim
- ou não haverá mais reflexão
senão formatada de sombra do que emana
por acolá?!
Zeh Gustavo, do poema Desespaço


Ela é moça direita, e sabe que cobiçar é pecado dos grandes. Porém, não é somente ela que permite o olhar vaguear pelo horizonte. Cobiçar uma jornada lá pra mais adiante é cobiça ‘despecaminada’, como costumava dizer a tia, quando queria cometer pecadinhos com o aval dos deuses.

Gastou um bom tempo observando a lonjura, o mar a sua frente, tão largo que não cabia na janela do olhar. Gastou esse tempo também torcendo a barra da saia, como se trançasse a trilogia das expectativas sobre a mudança. Ao seu redor, pessoas assanhadas com o feriado, clicando suas câmeras fotográficas, ansiosas por chegarem a suas casas e jogarem o horizonte nos seus computadores. E então, assistir ao mar em forma de pixels, inerte, congelado. Depois esquecê-lo num diretório com nome do qual jamais se lembrarão, e qu…