segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

OS FILHOS DA ROSA >> Albir José Inácio da Silva

Não foi inspiração natalina porque ela já fala disso há algum tempo. Claro que havia opções: novos títulos acadêmicos, viagens, cursos de idioma, trabalho voluntário e outras coisas que sempre planejou. Coisas que ficaram em segundo plano porque ela resolveu “adquirir” dois meninos, de dez e onze anos, num Abrigo da Baixada Fluminense.

Em mensagem recente, Rosa me disse para não ficar estupefato, que depois me acostumaria com a ideia. Na verdade a minha estupefação não é real. É pura encenação. Confundi de propósito o dia em que as crianças sairiam do Abrigo, para as festas de fim de ano em sua casa, com o onze de setembro. Quis simular uma surpresa que não sentia, nem sentem aqueles que a conhecem. Mas não quero falar de Rosa, que ela não gosta. Quero falar dos meninos.

Eles não sabem ler. Uma avaliação, que ela já providenciou na Secretaria de Educação do Rio, mostra que eles cursarão a primeira série. Rosa não é inocente nessa matéria, tem formação em educação, que valoriza tanto, e sabe que vai ter trabalho com os bambinos. Seus filhos já cresceram, estudaram, saíram de casa e não dão mais dor de cabeça como crianças. Pelo menos não mais como crianças. Não que como adultos deem dor de cabeça, mas é que continuam filhos. Mas não quero falar da vida dela, que ela não gosta.

Dos adotandos não sei muita coisa. Talvez nem ela. Talvez nem eles. Mas as histórias deles todos conhecemos mesmo sem conhecê-los. São histórias sempre muito parecidas, com variações que nunca são para melhor. Não têm família, por isso estão num abrigo, por isso serão adotados. Ela sabe em que está se metendo porque também é psicóloga e trabalha com abrigos, crianças e adolescentes abandonados e em conflito com a lei. Não é uma dondoquinha que visita um Abrigo, e se encanta com os olhos lindos de uma criança, como quem escolhe um bichinho de estimação. Rosa sabe o que vai fazer. Mas eu não posso falar de Rosa, que ela não quer.

Os amigos talvez se preocupem porque dois pré-adolescentes, saídos de um abrigo, são muito eficientes para espantar namorados. Mas acho que eventuais espantados não seriam sequer admitidos à candidatura. A questão seria com aqueles que passarem pelo teste dos meninos. Periga se transformarem de fãs em devotos, o que também os deixa imprestáveis para fins de namoro. Mas Rosa não ia gostar que ficássemos aqui elucubrando sobre tais coisas.

Rosa passa serenidade, tem riso fácil e a veemência política de uma adolescente cara-pintada. Carrega bebês e empunha bandeiras com a mesma determinação. Agora quer repetir a maternidade e ninguém, se quisesse, conseguiria dissuadi-la. Tenho uma teoria, que reconheço não muito científica: tanto amor não cabe no metro e meio de Rosa, e transborda sob a forma de adoção.

Ainda bem que vocês não a conhecem, e fica mantido o sigilo. De qualquer forma, ela vai dizer que não é nada demais; que é só uma adoção; que muita gente adota crianças; que é uma coisa simples. E tem razão. Mas esta também é uma crônica simples, sobre coisas simples e pessoas comuns. Como a Rosa.

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7 comentários:

Debora Bottcher disse...

Abençoada seja Rosa, com seu amor e coragem!
Beijo.

vanessa cony disse...

Albir,és um privilegiado!!Deve ser bom ter uma amiga como a Rosa.
Belo texto.Bela história.
Tomara que tenha um curso feliz.Beijo pra vc e pra Rosa!

Marisa Nascimento disse...

Oi, Albir! Estou atrasada com os comentários desta semana, mas não poderia deixar passar este em branco, porque seu texto mexeu muito comigo, como sempre, diga-se...
Mesmo que a Rosa não goste que se fale dela, mande o meu desconhecido abraço a admiraçao a ela, por gentileza. Essa "doce ação" sempre fica sussurrando no meu ouvido que deveria ser uma atitude de todos nós, mas poucos têm coragem suficiente.
Bjs.

Carla Dias disse...

Pessoas comuns com suas metas simples fazem tanto sem pedir nada em troca. Mudam a vida de outros, acolhem, permitem-se o doar-se.
Fique tranquilo... Não contarei para Rosa que você falou sobre o belo feito dela.

Rosália disse...

Albir, você é mesmo admirável. É muito bom saber que você existe. Adorei sua crônica.

albir disse...

Debora,
um beijo pra você.

Vanessa,
vai ter um curso feliz, mesmo com as dificuldades que a felicidade pode ter. Beijo.

Marisa,
ela vai receber seu abraço. Beijos.

Carla Dias,
um beijo e feliz ano novo.

albir disse...

Rosália,
admirável é a Rosa. Você precisa conhecê-la. Beijo.