quarta-feira, 30 de agosto de 2017

PERTENCIMENTO >> Carla Dias >>


Aqui não é lugar para ele. Ele não pertence ao aqui. Mesmo que apresentem uma lista de sedutores motivos, na tentativa de provar que aqui combina com ele, e vice e versa, ah, se pudessem sentir o quão sofrível é para ele estar aqui, desistiriam desse desejo de convencimento.

Aqui pode ser bom e saudável para muitos. Para ele, é prisão. E traz esse silêncio que ele não consegue calar, ainda que já tenha se aventurado a tentar quebrá-lo aos berros. Você já tentou abandonar um aqui onde foi colocado? Tentou redesenhar o cenário? Reescrever a trama?

Aos poucos - tão lentamente que o tempo passa lerdo, mas é como se ele passasse desesperadamente -, ele vem construindo a coragem necessária para despir-se do aqui. Tem sua própria lista, na qual anotou tudo o que fará nesse dia de catarse providencial. Depois que se livrar dessa prisão – ela que tem design de vida promissora –, ele não voltará mais ao aqui. Porque aqui tem feito a tantos felizes, mas a ele, nem a chance de tentar essa tal de felicidade tem sido oferecida.

Contudo, não é tão fácil se desvencilhar dessa história. O aqui não pertence a uma geografia. Não há como resolver a partida somente com um novo logradouro, a emissão de um visto, mudança de continente. Não tem a ver com idioma, cenário financeiro, o quanto de mar há entre a pessoa e o aqui.

A complexidade se esbalda no aqui ao qual ele foi conectado.

Ele se ressente de si a cada dia. Para ele, abandonar esse lugar é realizar um feito, no qual moram tantos desejos, cultivados ao longo de anos orbitando o aqui, sentindo-se desprovido de identidade, enquanto os que o têm acompanhado o aplaudem.

Por quê? Qual o mérito de ser sem ter sido? Revolucionar desinteresses?

Há quem escolheria se beneficiar de uma biografia feito a dele. Quem se voluntaria a viver algumas de suas histórias. Quem aproveitaria melhor o aqui onde ele nem cabe, mas foi competentemente anexado.

Não que ele tenha se tornado uma pessoa vazia, incapaz de se envolver com o oferecido, de cativar afetos, de vivê-los. O aqui não tem a ver com a honestidade de seus sentimentos, mas com a inexpressiva atuação de seus libertários desejos.

Quando sair do aqui, ele deixará muito para trás. Deixará muitos. Para ele, sempre tão bem-comportado no seu aqui, não é decisão fácil, de se tomar na rebeldia das emoções. Seria tão mais simples se assim fosse. Ele vem planejando isso, desde há muitas escolhas. Foi desafixando o olhar do óbvio que se percebeu encaixado, não pertencente.

O aqui de cada um, o tal lugar onde nos permitimos ser. Há quem leve uma vida nessa busca, sem nunca alcançar destino. Há quem a esqueça em minutos, depois de percebê-la, tamanho incômodo chega com tal percepção. Há quem, feito ele, gaste todo seu tempo arquitetando uma saída que não fira aos que aprendeu a amar. Ainda que, intimamente, ele saiba que alguém sempre sairá ferido de uma empreitada desse naipe.

Mudar desarranja o hábito, e, nesse momento, desarranjos o encantam.

Cansou-se de protelar. Desejou pertencer, mas não a esse aqui no qual foi encaixado por conveniência. No qual aprendeu a existir segurando o grito.

Gritou.

Imagem: A friend of order © René Magritte

carladias.com

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terça-feira, 29 de agosto de 2017

PLANEJANDO O QUE NÃO SE PODE PLANEJAR >> Clara Braga

Na vida, é normal planejarmos determinadas coisas. Uma viagem, por exemplo, normalmente é planejada de acordo com os dias que temos de férias, já o destino é definido pelo nosso poder aquisitivo. Mas já repararam que quando viajamos ninguém pergunta: a viagem foi planejada?

Também podemos planejar um jantar romântico: escolhemos uma data especial, um restaurante que tenha comida que agrade o casal, podemos até fazer uma surpresa comprando flores ou algo do tipo. Mas acho quase impossível você estar no meio do jantar e ser interrompido pelo seu parceiro: esse jantar foi planejado?

Tem também aqueles trabalhos que exigem bastante planejamento, como o meu. Não posso entrar em sala de aula sem saber o que devo ensinar, planejo a matéria que vou passar de acordo com o tempo que tenho com cada turma. Tenho ainda que planejar os dias para preencher diário, elaborar provas, corrigir trabalhos e outras tarefas que a vida de professor exige e tudo antes de cada bimestre acabar. Mas nunca um aluno me perguntou se aquela aula foi planejada.

E não é preciso ir longe, planejamento faz parte do nosso dia a dia. Temos que nos organizar para saber que horas vamos sair de casa para não pegar aquele engarrafamento, quanto tempo vamos ficar fora para saber se temos que levar marmita, observar se o carro tem gasolina suficiente para chegar no nosso destino, enfim, planejamentos rotineiros. Mas duvido que algum frentista já tenha te perguntado se aquela passada no posto foi planejada!

Enfim, com gravidez deveria ser a mesma coisa. Você fala que está grávida e pronto, quem ficou feliz comemora, quem ficou triste reclama e vida que segue. Mas não, as pessoas tem mania de perguntar se a gravidez foi planejada.

Se planejar as outras tarefas já é difícil por termos sempre que lidar com o tal do imprevisto, imagine uma gestação! Entendo que algumas variáveis são bem controláveis, mas não, planejar um filho não é simples e não consigo imaginar exatamente como se faz isso.

Sei que muito dirão que não, filho se planeja sim e ponto final. Não vou entrar nesse mérito, mas uma coisa é preciso esclarecer com urgência: não planejado não é igual a indesejado, muito pelo contrário, curiosamente passo mais tempo planejando coisas que não gostaria de fazer do que coisas que gostaria!


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sábado, 26 de agosto de 2017

#AGROTÓXICOS >> Sergio Geia

 

Estava numa livraria procurando coisas interessantes. Já tinha encontrado uma, moça interessantíssima, morena, pernas longas, grossas, lábios carnudos, cabelos compridos, grandona, uma deusa que, sentada no sofá, folheava um livro. Percebi que, vez ou outra, ela se dirigia a um homem chamando-o de “meu bem”, e juntos trocavam ideias sobre questões relacionadas a agricultura, lavoura, alimentos, agrotóxicos etc.
Eu estava de pé, absorto, ao lado da estante, procurando um livro pra comprar. Aliás, eu e Chiara temos esse hábito: estando em Ubatuba, sempre passamos numa livraria ou sebo pra comprar alguma coisa pra ler. Eu já tinha terminado o livro do Rubem Fonseca que trouxera, e queria um novo. Depois de muito olhar, separei outro de contos do Fonseca, “Calibre 22” (o que eu queria mesmo era “Feliz Ano Novo”, mas não tinha), e “Lavoura Arcaica”, esse clássico do Raduan Nassar, aquele mesmo que disse coisas inamistosas num evento do Ministério da Cultura que desgostou profundamente o então Ministro da Cultura, Roberto Freire. Peguei os dois e me sentei próximo à morenaça.
“Calibre 22” traz 29 contos, curtos, superficiais, que retratam assuntos afetos à obra do autor, como violência, morte, sexo, homofobia, desigualdade social. Dei uma googlada e achei uma crítica duríssima do Sérgio Rodrigues sobre o livro. Do Raduan, li o primeiro capítulo, e me senti realmente adentrando num monumento da nossa literatura contemporânea. Falei pra Chiara sobre Raduan, ela não o conhecia; disse que “Lavoura Arcaica” é uma das nossas obras-primas.
Enquanto folheava os dois livros e me decidia se levava os dois ou apenas “Lavoura Arcaica”, eis que a morena se levantou, dirigindo-se ao seu bem:
“Meu bem, acho que eu não vou dar meu dinheiro pra esse cara, não!”
O comentário atravessou a minha leitura; afinal, quem seria “esse cara”? Fiquei curioso. Esperei que ela se afastasse e peguei da mesinha um livro verde que ela tinha deixado e que antes folheava: “Agradeça aos agrotóxicos por estar vivo”, de Nicholas Vital.
Deu pra perceber que ela era bem natureba. Na certa, sua alimentação era supersaudável, produtos orgânicos, dieta à base de alimentos naturais, muita saladinha e frutas. Óbvio que não iria comprar um livro que a mandava agradecer aos agrotóxicos pela sua vida. Dei uma folheada, e o deixei na mesinha. Fui até o caixa, paguei, e trouxe Raduan e Rubem pra casa.
Depois de alguns dias, me vi pensando no tal livro sobre agrotóxicos. Qualquer pessoa, por mais ingênua ou ignorante que seja, é capaz de formular o raciocínio de que um alimento produzido sem agrotóxicos só pode ser mais saudável para a saúde humana do que um produzido com esses tipos de defensivos, não? Por mais saudável entenda-se que possua quantidade de nutrientes maior que os alimentos convencionais; que proporcione ao corpo uma funcionalidade adequada; que previna doenças etc. Como pode haver um cara defendendo exatamente o contrário? Instigado por essa curiosidade, resolvi pesquisar.
Nicholas Vital tem passagens em diversas revistas como Exame e IstoÉ Dinheiro. Venceu o prêmio Abril de Jornalismo na categoria Economia em 2012 e ficou entre os finalistas na mesma categoria em 2011. E, como ele mesmo diz, não é médico toxicologista nem engenheiro agrônomo e, também, como pode parecer num primeiro momento, não é contra os produtos orgânicos.
E como não sendo médico toxicologista nem engenheiro agrônomo, pode falar com tanta propriedade a respeito desse assunto?
Seu livro é um contraponto ao discurso dos adeptos da linha orgânica, que ele entende como nicho, uma vez que representa apenas 1% do mercado mundial de alimentos. Não há alimentação orgânica pra alimentar 7 bilhões de pessoas no mundo, ele diz. E continua: não há comprovação científica de que o alimento convencional traga algum prejuízo à saúde humana; tanto o alimento convencional como o alimento orgânico podem fazer mal se forem mal manejados; se bem manejados, nenhum deles faz mal; não há comprovação científica de que o alimento orgânico é mais saudável e saboroso do que o alimento convencional (aliás, os estudos realizados por instituições sérias, inclusive nos Estados Unidos, demonstram que esse argumento é mentiroso).
Sua teoria é embasada em mais de 50 estudos científicos, pesquisas, conversas com especialistas. Segundo Nicholas, somente vendendo esse tipo de sofisma, digamos, a indústria dos orgânicos conseguiria convencer alguém a comprar uma alface, ou um tomate, ou batatas, pagando 3 vezes mais.
Talvez esses sejam os pilares de sua tese. No livro, o assunto é esmiuçado e certamente vai render calorosos debates. Os adeptos da alimentação orgânica já estão mostrando as armas: que nojo esse livro sobre agrotóxicos; que a indústria pegou pesado; que as mortes são ao longo do tempo; que a pesquisa é superficial etc.
Como eu estava em Ubatuba, curtindo coisas mais interessantes que mergulhar nesse debate natureba, preferi Raduan, e sua “Lavoura Arcaica”.  

P.S.: Seria desonesto de minha parte não informar a você que dias depois, não resisti a uma passadinha na Nobel, da rua Guarani. De forma que, encabeçando a pilha de livros que tenho aqui pra ler, destaca-se um reluzente e polêmico livro verde. Lembrei-me da morenaça. 

Ilustração: www.fecesc.org.br


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sexta-feira, 25 de agosto de 2017

O AMOR ENCARQUILHADO >> Zoraya Cesar

O entardecer róseo-avermelhado prenunciava uma noite estrelada e morna. Uma noite feliz. 

A casa situava-se perto de um penhasco e, do terraço, podia-se ver e ouvir o mar espancando as pedras, como se quisesse tirá-las do caminho. Portas fechadas e cortinas pesadas separavam e isolavam o terraço do barulho e da música altos vindos do salão. Uma mulher elegante, vestida de preto, brincava com a bengala de madeira de lei e castão de prata que trazia às mãos. Apreciava a paisagem, sozinha, cansada da bagunça. “Como um bando de velhos”, pensava, “podia ser tão barulhento e inconveniente?”.

Rebecca nem sabia o que fazia ali. Que lhe interessava encontrar sua turma da faculdade e respectivas famílias e descendências? Alguns bons amigos já tinham morrido; outros, não puderam ir; e ela detestava a maioria dos que compareceram. Pessoas que conhecera há quase 50 anos, e que agora lhe eram indiferentes. Só fora mesmo por muita insistência de Úrmtia, uma grande amiga, é certo, mas uma cretina. Que estava, nesse momento, lá dentro, bêbada de gim e dando em cima de um antigo affair

A porta abriu e alguém entrou, interrompendo os devaneios de Rebecca. Que maldisse o intruso, e, torcendo para que ele não demorasse muito, escondeu-se no fundo do terraço, atrás de uma pequena sebe. 

homem, encurvado e careca, dava um passo seguido cuidadosamente pelo outro, vagarosamente, como se em dúvida de onde deveria pisar. Chegou à beira da mureta, que batia um pouco abaixo de seus quadris, um tanto trêmulo, como se o esforço de chegar até ali tivesse sido demasiado para ele. Fumava, e o odor doce e levemente apimentado de um Dunhill chegou às narinas de Rebecca, despertando-lhe memórias que ela já cria mortas.

Silenciosa como a neve caindo, Rebecca olhou para o homem, sem ser pressentida. O nariz adunco, a marca do cigarro, o jeito de segurá-lo... Mesmo após tantos anos, mesmo com várias camadas de rugas e flacidez pelo rosto, em qualquer época, em qualquer encarnação, ela o reconheceria.

Era mesmo ele! 

Roberto! Seu grande amor, ali, naquela festa, como? Só o Destino podia explicar a coincidência. Mas o Destino, como sabemos, é um senhor discreto, pouco afeito a dar satisfações, e nada explicou. 

Ela fechou os olhos e lembrou, com uma vividez absurda, de todo o amor que sentira por aquele homem. Seu corpo reagiu em consonância: seu útero estéril latejou até doer, e mesmo sua buceta, desusada e desidratada há mais tempo do que ela ousaria admitir, umedeceu-se. Sua buceta, sua vagina, sua pepeca, sua ‘porta do prazer’, como ‘ele’ a chamava, umedeceu-se! Rebecca sentiu o líquido escorrer em sua calcinha. 

Não tinha mais idade para aquilo. Seus joelhos mal se aguentavam, o coração veio-lhe à boca. E a maldita umidade a escorrer-lhe pelas pernas. Agora, até o bico dos peitos flácidos e caídos estavam duros. 

Um amor lindo. Um tesão quase incontrolável, companheirismo, planos, risadas, cumplicidade. Eram um casal! Ela trabalhou para sustentá-los até que ele terminasse a faculdade. Quando arranjasse um emprego, seria a vez dele pagar as contas. Para Rebecca, ele sempre vinha em primeiro lugar. 

O filme continuou rodando em sua mente, o corpo acompanhando as emoções despertas. Como à época, o coração caiu a seus pés, em finas lâminas cortantes; sentiu a ânsia de vômito e o mesmo gosto de fel na boca que a acompanharia durante vários anos. Viu-se esparramada no chão da sala, em choque, uma boneca de pano desmantelada, sem controle sobre pensamentos ou músculos, um pássaro abatido em pleno voo.

Veio-lhe, nesse momento, depois do tesão, do amor e da decepção, o último dos sentimentos. Ódio.  

Ódio por aquele sacripanta filhodaputa traidor. Investira juventude, dinheiro, suor, sonhos, lealdade, apenas para ser trocada pela cretina da Cecília, podre de rica. Roberto preferiu garantir dinheiro fácil e estabilidade. Pelo resto da vida que passasse com Cecília, bem entendido. E ele passou. Rebecca soube que ele nunca precisou trabalhar, mas à custa de humilhações constantes, vigiado 24 horas por dia por uma vaca ciumenta, escandalosa, possessiva e doentia, que controlava a mesada dele com mão de ferro. 

De que adiantou tudo aquilo, hein? De que adiantou me abandonar, seu idiota? Eu também fiquei bem de vida. Depois, claro, de passar anos com síndrome do pânico, anorexia, insônia; de ficar quase à míngua, penando para me livrar dos credores, vendendo o almoço para comprar o jantar, estudando e trabalhando para pagar sozinha as dívidas que contraímos juntos, o aluguel e a faculdade... a faculdade que você, seu merda, ficou de pagar para mim. 

Sua jugular latejava. O ódio circulava em suas veias.  Foi até ele. 

- Roberto?

Ele se virou, sobressaltado, um velho aparkinsoniado, tão mais velho que ela, e extremamente bem vestido. Tanto sofrimento, tantos anos perdidos por causa de um merdalhão que nem mais homem era, amargou-se ela. Pelos hirsutos e grisalhos ponteavam aqui e ali, na pele flácida e amarelada. A boca, murcha, em nada lembrava os lábios carnudos e gulosos do homem que um dia a beijara apaixonadamente, com sabores de eu te amo. Manchas senis recobriam rosto e mãos. Olhos despestanados baços, abrigados sob uma inchada ptose palpebral olharam para Rebecca. 

E reconheceram-na imediatamente. Os amantes sempre se reconhecem, mesmo passados os anos,
O entardecer não se desmentiu.
Para Rebecca, aquela fora uma noite feliz. 
mesmo com as pesadas mudanças impostas pelo tempo. Os amantes se reconhecem.

Ele deu um passo claudicante para trás, chegando perto da mureta baixa demais. 

- Durante muito tempo esperei por esse momento, Roberto.

O homem balbuciou algo meio indistinto, mas que ela compreendeu perfeitamente: ‘que momento?’

- Esse – disse ela – O de te dizer adeus.

E, com a bengala, empurrou-o mureta abaixo, em direção às pedras que beijavam o mar. 



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quinta-feira, 24 de agosto de 2017

O AMOR QUE EU NÃO SOUBE OUVIR>>Analu Faria

De todos os quase-amores que tive, S. talvez tenha sido o mais ardiloso. Não ele, a pessoa, o homem S., mas o afeto que a vida me oferecia através dele. Naqueles dias, carinho e atenção pareciam uma peça estranha num quebra-cabeças que eu não sabia montar: S estava mais distante do atavismo que me viciara do que eu de sua doçura.

Eu pouco falava e ele pouco ouvia. A audição reduzida - a parte dele -  e uma voz afetada por uma infecção horrível  - a parte minha -   pareciam a receita irônica para um relacionamento fadado ao nada. Para minha vergonha, a serenidade de S. - talvez fruto dos seis anos de fonoterapia, dos seis anos aprendendo a falar por meio da vibração dos ossos -  era absoluta e, para ele, pouco importava que nunca visse a cor da minha fala.

S. lia meus lábios perfeitamente e eu não nunca soube decifrar os seus. Também não pude entender o que me pareceu gentileza em abundância, algo fora do lugar para uma mulher tão acostumada com o pouco que a convinha.

Ele se fazia entender muito bem, mas eu, talvez atraída por aquele perfil bem desenhado pela barba por fazer, acabei alongando aquele quase-amor por mais tempo do que eu podia traduzir. Mesmo não sendo numerosos os dias que passamos juntos, talvez eles fossem suficientes para compor uma sinfonia silenciosa de afetos, se eu ao menos soubesse captar as filigranas do inaudível. Mas àquela altura da minha história, eu tinha os ouvidos embotados pelos meus próprios gritos. E acabei fazendo de S. o amor que eu não soube ouvir.




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quarta-feira, 23 de agosto de 2017

INSÔNIA >> Carla Dias >>


Vai dormir, menina! Já passou da hora. Tem mais nada aí, não.

Ainda assim, eu gastava um bom tempo encarando as barras coloridas estampadas na tela da televisão. O volume eu zerava, que aquele era um som que não cabia na noite de uma casa cheia de pessoas prontas para cair no sono.

Eu as observava com certo pesar. Era sinal de que a tevê demoraria a devolver a programação. Então, eu encarava aquelas barras e jurava para mim: quando eu crescer e tiver um emprego, vou comprar um videocassete e não serei mais prisioneira da vontade das barras coloridas e daquele som invariável.

Naquela época, eu não tinha ideia de como a tecnologia inventaria mil formas de se passar uma noite de insônia. Tampouco imaginei uma programação na tevê sem a indigesta interrupção das barras coloridas e sua trilha sonora chatinha, chatinha. Porém, antes de descobrir, eu encontrei os livros.

Livros são meus companheiros de insônia. O videocassete também foi, e durante um bom tempo. Livro eu trago comigo para a cama. Tevê no quarto eu dispensei. Computador, também.

Durante a insônia dessa noite, decidi conferir uma pastinha de documentos. Organizar, sabe? É que o guarda-roupa eu já tinha organizado na insônia passada.

Naquela pastinha, descobri muito sobre do que me esqueci.

Nasci no ano em que gostaria de ter passado a adolescência. E não importa a fragilidade desse meu sonho. Ele me acolhe e isso é mais do que muita realidade já fez por mim.

O documento do hospital diz que cheguei aqui por parto normal em 16 de novembro de 1970, às 3:30. Talvez por isso a noite me seja mais cara do que o dia. Fui aspirada e passei duas noites no quarto 20 do hospital. O número 20 não me diz nada. O número 2, diz. O número 7, idem.

Em 1989, eu me desapeguei do medo de desejar mais do que me era oferecido. Em 1994, experimentei a primeira significativa catarse. Em 2016, veio a catarse parte 2. No momento, aguardo a providencial e, por favor, interessante catarse parte 3. Quem sabe venha com uma boa noite de sono de brinde.

A certidão de nascimento de um dos meus irmãos me faz lembrar, com um pouco mais de clareza, daqueles que meu olhar nunca alcançou e a morte levou. Para mim, a consequência da morte atinge sempre a quem fica. A morte é um assunto da vida, ela que, com seus desfechos inusitados, desocupa espaços dentro da gente que passamos muito tempo tentando preencher.

O tempo brinca de pique-esconde com a gente. Quando o encontramos, entendemos que ele foi mais rápido do que os nossos planos e aconteceu.

Passei a distrair a insônia escutando música. Obviamente, evito cantarolar, no meu nada modesto desafinar. Sempre uso fone de ouvidos, porque os vizinhos precisam dormir, que amanhã eles têm de trabalhar. Quer dizer, hoje.

Já é hoje, novamente.

Primeiro registro na carteira foi em 1987. Não reconheço essa pessoa sobre a qual esse documento trata, mas agradeço a ela por ter me trazido até aqui, quase inteira.

Um quase faz diferença.

Antes que alguém sugira, não tomo remédio, porque tenho medo de não acordar e perder a hora da vida. Também tenho medo de lagartixa e de pessoas que acreditam que valem mais do que as outras. Medos não me faltam, mas isso eu sei que não falta a ninguém.

Passaporte: emissão em 1997. Expirou em 2002. Na ausência de carimbos, percebo-me inexperiente no exercício de colocar os pés em terras estrangeiras. Também me perco, por alguns segundos, na sensação de que é bom saber que há o que ser descoberto, geográfica, emocional ou imaginariamente. Parecem temas distantes, mas não são.

Tudo conectado, não é isso? Todos.

Assim, mantenho, na pastinha de documentos, um passaporte-fetiche.

Fim da organização. Eu poderia continuar a escrever, porque acabei de me lembrar daquele filme, daquele livro, daquela pessoa, daquela dúvida, daquela inquietação. Melhor mesmo seria dormir, mas a insônia, minha amiga íntima, que adora minha companhia, decidiu que, hoje, a noite será de balada. E então, vem essa música de som mais ou menos de mp3 no play do celular. Essa música...

Que fique claro: sempre haverá uma música.

Na impossibilidade de escorregar para debaixo das cobertas e aproveitar uma noite de sono tranquilo, de frio apropriado para, rendo-me à única coisa que uma insone feito eu pode fazer às 2:45 da madrugada, sabendo que o sono não virá:

Dançar na sala como se hoje já não fosse amanhã.





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segunda-feira, 21 de agosto de 2017

AVE, DIVINO! >> Albir José Inácio da Silva

Escultura  do artista dinamarquês Jens Galshiot.
Uma justiça obesa e mórbida que o povo carrega.




“Não há hierarquia nem subordinação entre advogados, magistrados e membros do Ministério Público”, diz a lei. Mas o que importa para os deuses a lei dos homens?

Sua Divindade considerou heresia a roupa com que a advogada ousou comparecer à sua augusta presença e ameaçou abandonar o local para punir os mortais com sua ausência.

Sem ver a imagem, julguei tratar-se de alguma microssaia que subia de encontro ao decote que, por sua vez, descia ameaçadoramente, mostrando o umbigo, e pudesse aguilhoar a libido e atrapalhar a concentração do pudico julgador. Mas não. A inadequação foi corrigida pela infratora apenas cobrindo seus indecorosos braços.

Que tipo de perturbação o decoro pode sofrer com a visão de braços? Sim, porque o vestido ia até os pés e só mostrava os braços. Talvez a mesma que sofria o jovem Inácio no conto de Machado de Assis.

O Tribunal, órgão colegiado a que pertence o divino julgador, simplesmente lamenta. Lamenta o quê? Não disse. Não me surpreendo se lamentar a roupa da advogada.

A OAB protesta. Protesto meio débil, de entidade que às vezes luta bravamente pela justiça e pelo estado de direito, mas outras vezes apoia golpes na democracia e se cala pela manutenção do status quo.

O fato é que a advogada, “indispensável à administração da justiça”, fica humilhada, e com ela todos os brasileiros.

Fato isolado - como gostam de repetir os porta-vozes da polícia ante os casos que se multiplicam.

Mas quem não lembra de outro fato isolado em que uma agente de trânsito foi presa e condenada a pagar indenização porque multou um juiz?

Ou do lavrador impedido de participar de audiência porque usava chinelos, sob a alegação do magistrado de que atentava contra a dignidade do judiciário? Onde reside a dignidade do judiciário? No sapato do jurisdicionado?

É com roupas que se preocupa o Olimpo! Comum a perda de audiências e entrevistas por incautos que comparecem de bermuda, camiseta ou chinelo. Aguardam por mais um ano uma nova intimação e, então, já convencidos de sua inadequação, conseguem emprestada a roupa para, finalmente, verem resolvidas suas questões.

Os assuntos que trazem os plebeus à justiça são irrelevantes: a prisão do filho, os alimentos, o enterro da mãe, o despejo, a ameaça, o tratamento a que se nega o Estado ou o plano de saúde. Tudo isso é bobagem diante da importância da roupa correta para estar em presença da divindade.

Enquanto se preocupam com roupas, não precisam pensar nos salários acima do teto constitucional, que correspondem, por dia, a mais do que o trabalhador ganha por mês.

Nem se lembram dos auxílios-divindade:

- auxílio-moradia, mesmo que o magistrado tenha dezenas de imóveis, que equivale a cinco vezes o que ganha o trabalhador para morar, comer, vestir e cuidar da família, enquanto o governo desmonta programas de casa popular;

- auxílio-creche que abrange do berçário à pós-graduação do Jesusinho - sim, porque só o filho de Deus pra merecer tanto privilégio, enquanto verbas pra educação, cultura e pesquisa científica são desviadas pelo governo para compra de parlamentares;

- aposentadoria como punição máxima, enquanto trabalhadores são punidos com a morte antes da aposentadoria;

- academia de ginástica no fórum para magistrados e familiares. Além de outras benesses que fariam inveja à corte de Luiz XIV, e para as quais não temos tempo nem espaço.

Tudo isso pago pelos trízimos do contribuinte (27,5%), mais taxas e custas processuais.

O Brasil tem duas castas de intocáveis. Os de cima, divindades que não podem ser alcançadas pela lei e pelos mortais. E os de baixo, que não merecem a proteção da lei e são evitados, por medo de contaminação física e social.

No meio, uma classe média que se curva subserviente, com olhos súplices, venerando as divindades e esperando merecer-lhes as sobras, enquanto pisa nauseada nos intocáveis de baixo com medo de que se aproximem.

E para evitar revoltas, uma classe sacerdotal trabalha incansavelmente, abençoando privilégios e chicotadas, e exaltando a meritocracia divina.

O que faz um deus não é a autoproclamação, e sim o reconhecimento, a veneração e o temor dos fiéis.

Simone de Beauvoir já dizia: “O opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos”.

Verdade que esses novos deuses são protegidos pelos Lordes e pelo braço armado do Estado, mas não lhes falta apoio, idolatria e genuflexão entre os servos e servidores.





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sexta-feira, 18 de agosto de 2017

PALADAR >> Paulo Meireles Barguil

— Nossa, que suco azedo! — foi o que disse, em voz alta, a recém ingressa bolsista de graduação numa reunião do grupo de pesquisa que coordeno.
 
Não, não era um trote de boas vindas.
 
Era, apenas, o suco feito por mim, o qual, há alguns anos, é motivo de gracejo dos estudantes.
 
Os ingredientes mudam, mas a quantidade de açúcar é diminuta, considerando o que eles estão acostumados a ingerir.
 
É sempre assim: nós degustamos o mundo a partir das nossas experiências, tenham sido elas agradáveis ou não...
 
Muitos desconhecem isso.
 
Há outros que, apesar de algumas incursões terapêuticas, preferem desdenhar desse princípio atestado pela Neurociência.
 
É claro que a mera concordância com esse axioma não é garantia de transformação, mas funciona como um visto para ingressar no mundo interno.
 
Sem ele, vagamos desolados pelo Universo...
 
Paladar —  derivado de palato, o céu da boca — conforme o Houaiss, significa "Função sensorial que permite a percepção dos sabores pela língua e sua transmissão, através do nervo gustativo ao cérebro, onde são recebidos e analisados".
 
Em sentido figurado, é a "Capacidade de apreciar as qualidades e os defeitos das produções artísticas".
 
"Pois a boca fala do que está cheio o coração" (Mt 12, 34b). 
 
Estamos, portanto, sempre comparando o que estamos vivendo com o nosso passado e com o que desejamos para o nosso futuro.
 
A degustação, a leitura, o cheiro, o tato, a audição do mundo externo é fruto dos nossos registros e da nossa disposição para modificá-los.
 
Algumas vezes, as pessoas, por variados motivos — medo, apego, apatia... — preferem manter acontecimentos, sentimentos negativos, apesar de eles serem identificados.
 
É tão triste quando alguém decide carregar o veneno interno e morrer a cada dia...
 
Não estou dizendo que é fácil se livrar dele, mas sem fazer essa opção é impossível!
 
Sábia foi a graduanda que, no final da merenda, me pediu para levar o suco para casa e colocar mais açúcar.
 
Já pensou se ela tivesse falado: "— Só vou beber para não estragar..."?


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quarta-feira, 16 de agosto de 2017

DEVAGAR COM A DOR >> Carla Dias >>



A lembrança interrompe a trilha sonora interna do momento. Porém, a música tema sendo tocada – ininterruptamente e há horas – no jukebox da minha cachola é conversa para outro dia.

Nesse momento, tudo silencia, porque há lembrança que só se manifesta se todos os sons se calarem em sua homenagem. E esse filme toma minha memória, assim, mudo, porque o suspense é necessário.

Mas o que fazer com uma lembrança que não vem inteira? Cadê o som que sei que ela tinha? Havia diálogos ali, não apenas movimentos. Havia verdades nela, que sinto que eu apreciava escutar: ritmo e emoção. Que pena que não as decorei para declamar mais tarde, feito poema raptado de autor desconhecido.

Resta-me, então, feito ser humano escolado em versões, criar um diálogo novo para uma velha lembrança. Sabemos quantas mudanças as lembranças sofrem com o passar do tempo. Algumas delas se tornam outras. A verdade se perde, dando lugar às interpretações que se guiam pelo humor do seu interlocutor, de acordo com o que ele sente naquele momento.

Naquela lembrança eu estava feliz. À frente, o mar. Era tanta vista, que meu olhar vagueava sem pressa. Pés descalços na areia, uma das raras sintonias entre mim e o sol. Aquela música que tocava no jukebox da minha cachola, antes de tudo se calar, ela até que combinaria bem com o cenário.

Sou eu há mais de duas décadas, com muitas histórias para viver, mudanças para sofrer. E aquela beleza toda...

Praia, para mim, tem de ser para assistir pôr do sol. Eu tenho medo de mar, de água a perder de vista, viva. Tenho medo que enfrento botando os pés no mar, morrendo de amores pela água. É um encantamento misturado a um contínuo arrepio que indica cuidado.

É lembrança de quando fui tocar no litoral norte de São Paulo. Eu tinha comprado a bateria que desejava tanto. Foi estreia e encantamento. E ainda tinha aquela vista.

Aos desavisados, meu sonho de consumo é uma vista na qual eu possa me perder. Apenas um lugar de onde o olhar possa partir, para transitar sem esbarrar na janela do vizinho. E aquilo, era tanto céu e mar que eu juro que perdi o fôlego.

Inventei umas histórias para meus companheiros de vista dizerem. Dominei a lembrança como se a tivesse criado. Não importavam mais os diálogos, mas só até aquele momento. Nele nunca consegui mexer. Dele me esqueço para ruminá-lo na crueza da sua verdade, quando a lembrança volta ao original.

Um dos meus companheiros de jornada, uma figura muito lógica e direta, respondeu a uma pergunta que fiz ao universo. Perguntei a ele, ao universo, tomada pelo arrebatamento da visão e dos atrevimentos inspirados pela combinação areia, mar, sol e céu; inspirada pelos desmandos da poesia que abraça reflexões, por que diabo as pessoas eram capazes de cometer tantas tragédias num mundo de tantas belezas. E essa pessoa entrou no meu espaço delirante para responder, de forma certeira e intrometida, que é do ser humano doer e causar dor, e que nem todos param para observar. Eles escolhem neutralizar o perigo, mesmo que ele ainda não esteja ali. Antever a desgraça, prever o desencantamento, ameaçar a dor.

Quando menina, depois de escutar pela primeira vez “devagar com o andor, que o santo é de barro”, passei as procissões seguintes – e foram muitas – a temer pelos seres humanos, que esse negócio de derrubar santo não me parecia boa coisa. Os santos poderiam até se espatifar no chão, mas o preço para o espírito do ser humano que os derrubasse, era sobre ele que eu pensava.

Depois, aprendi que a expressão era mais ampla.

Hoje, na lembrança concluída, pós deslumbramento geográfico, permito-me reformular: devagar com a dor e com o desamparo. Aquele dia, um dos meus raros na praia, não consegui discordar do meu companheiro de jornada. Hoje, muitos tombos depois, tantas mudanças infligidas e amores cultivados, eu posso me dizer mais corajosa. A lembrança vem e vai embora, mas sem me atormentar como antes. Fico com a versão-deslumbramento dela. Fico com a parte em que o ser humano observa aquela beleza como um meio para aliviar os conflitos internos, abrandar os dissabores, inspirar-se para alcançar soluções. É beleza que se aprofunda no que temos de melhor, modificando o pior de nós para algo mais justo. Ela molda nossa vida, feito o barro do qual é feito os santos.

Lembrança passa. Ligo meu jukebox interior e a música continua. Há dias em que a trilha sonora é que nos escolhe e nos manda de volta para casa.

Imagem © Hermann Seeger

carladias.com



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terça-feira, 15 de agosto de 2017

A MELHOR IDADE É A MINHA >> Clara Braga

Quando eu era bem novinha lembro de ter conversas sobre idade com minhas amigas. Falávamos que não víamos a hora de fazer 10 anos para quando alguém nos perguntasse quantos anos tínhamos a gente poder mostrar as duas mãos cheias. Criança é assim mesmo, com sonhos palpáveis, uma maravilha.

Não fui a primeira das minhas amigas a fazer 10 anos e mostrar as duas mãos cheias. Quando eu mostrei as duas mãos aquilo já nem tinha mais muita graça para muitas delas e, então, logo perdeu a graça para mim também.

Depois da emoção dos 10 anos descobrimos que bom mesmo era ter 15 anos, a idade da debutante. Afinal, com 15 anos todo mundo fazia a maior festa e ainda conhecia a Disney.

Fiz 15 anos sem dar a menor importância para essa história de festa, para a sorte dos meus pais. E quanto à Disney, acho que tenho mais vontade de ir hoje em dia do que quando tinha os 15 anos. Então, acabamos percebendo que bom mesmo deve ser fazer 18.

Aos 18 podemos trocar as matinês pelas baladas, tirar carteira, fazer faculdade e, quem sabe, com sorte podemos até ganhar um carro de presente da família!

Realmente os 18 significam uma mudança na vida, mas também achei que foi uma idade super valorizada, afinal, não ganhei carro e só passei na faculdade com 19 anos, mas poder pegar o carro da mãe emprestado no fim de semana para sair com as amigas, realmente não tem preço.

Mas a verdade é que quando você faz 18 te falam para esperar os 21, essa idade sim é boa, parece ser a real maioridade.

Nos 21 te mandam esperar os 30, essa é a idade que a mulher realmente vira mulher. Estou quase chegando nos 30 e agora já me dizem que a idade que a mulher começa a viver de verdade são os 40.

Quer saber? Cansei desse negócio de idade, parece que as pessoas nunca estão felizes, estão sempre esperando chegar a idade que vai ser a melhor, mas até a tal da melhor idade já está ficando cada vez mais distante. E se é que eu tenho idade suficiente para dar a minha opinião sem ouvir alguém dizer que eu ainda tenho muito para viver antes de entender a vida, eu digo: o que vale não é a idade real, mas sim nossa idade mental. Todos temos que, independente da idade, saber a hora de se divertir como criança, chorar como um bebê, se colocar como um adulto, rir como um adolescente e ensinar como um idoso, se não não vale a pena!


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sábado, 12 de agosto de 2017

PEITINHO DE PITOMBA >> Sergio Geia

 

Fui reunindo pérolas pelo caminho.
Pitomba. Fruta. Pequena. Um tantinho maior que uma bolinha de gude. De cor laranja quando madura, incomum aqui. Eu pelo menos nunca vi. Mais fácil de encontrar em cidades do Norte, Nordeste. Dizem que em Pernambuco tem de monte. Lembra muito a lichia, sem a mesma suculência. Você quebra uma fina casca que a reveste (pode ser com os dentes), põe na boca o caroço amarronzado, coberto por uma gosma transparente, a polpa, e chupa. Adocicada e levemente ácida, também serve de alimento para diversas espécies de aves. Sua árvore é muito utilizada na recuperação de áreas degradadas.
Ambular. Verbo intransitivo que significa andar sem destino, à volta, vaguear, passear, girar, deambular, perambular. Confesso que não o conhecia, e o achei lindo.
Povaréu. Plebe, poviléu, povo, multidão, turba, grande número de pessoas, povão.
Bugigangas. Bugiaria, quinquilharia, insignificâncias.
E preciosidades metafóricas como “o pregão abre o dia”, “o povaréu sonâmbulo ambulando que nem muamba nas ondas do mar”, “cidade maravilhosa, és minha, o poente na espinha das tuas montanhas, quase arromba a retina de quem vê”, “de noite, meninas, peitinho de pitomba, vendendo por Copacabana as suas bugigangas”, que até saio cantando.
Caminho esse a que fui levado outro dia — essa fantástica declaração de amor ao Rio — por um texto do Álvaro Costa e Silva, publicado na Folha, que fala da rua da Carioca, cenário para o clipe “Carioca”, do Chico:
Você se lembra do clipe: Chico Buarque está sentado numa mesa de bar antigo —o fictício Polytheama— e a cidade se descortina diante de seus olhos cor de ardósia. Trajando vistosa camisa de gola rulê, Chico suspira, fuma um cigarro, bebe uma taça de vinho, come uma pera, ri às escâncaras, enquanto escreve a letra da canção ‘Carioca’. Canta: ‘Gostosa, quentinha, tapioca/ O pregão abre o dia’. O cenário exterior, filmado através de um espelho falso, é a região entre a rua da Carioca e a praça Tiradentes, trecho da rua Ramalho Ortigão, imediações da igreja de São Francisco de Paula. Ao contrário do que narra a música, o povaréu não é nada sonâmbulo: está em movimento, esperto, agitado. Uma moça sai do carro falando no celular e exibindo belas pernas, um homem carrega um burro-sem-rabo, outro prega a Bíblia para os transeuntes, um tiozinho confere a elegância no reflexo da vitrine. Em preto e branco, o filme tem direção de José Henrique Fonseca, Arthur Fontes e Fábio Soares. Foi rodado em 1998, para o lançamento do disco ‘As Cidades.’”
Mais do que pérolas largadas pelo caminho, o que encontro em “Carioca”, e que me dá prazer, é um combinado de ingredientes, que pelas mãos de um chef talentoso, capaz de produzir dia a dia uma iguaria mais gostosa que a outra, se transforma num prato fabuloso de fina poesia, com recheios e molhos que me enlevam, exaltando as maravilhas de uma cidade maravilhosa.
Não é de hoje que as letras de Chico estão cheias de palavras que parecem escolhidas a dedo (pelo menos é essa a sensação que dá ao toparmos com “Carioca”). Como já disse um de seus músicos, as palavras de suas canções têm o som das notas, e são únicas. Chico consegue equilibrar com perfeição palavras elegantes, incomuns em letras de música popular brasileira como “errantes”, “amiúde”, “sem porvir” e “iniquidade”, presentes em Geni e o Zepelim, com a coloquialidade da velha crônica, como “cair um toró” ou “pintou uma chance legal” ou “dancei com uma dona infeliz, que tem um tufão nos quadris”, presentes em Bye, bye, Brasil, criando uma atmosfera musical sofisticada e única.
Não tenho dúvida de que sua produção é um repertório inigualável de espécies vocabulares muitas vezes ocultas nos becos e meandros do nosso dicionário de língua portuguesa.
Ouvir Chico é sempre uma experiência superior.
Em todos os sentidos.


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sexta-feira, 11 de agosto de 2017

O APRENDIZ - 2a parte >> Zoraya Cesar


Totalmente desperto, Angcf trazia à sua consciência as estratégias que aprendera com o Mestre Treinador. A Esfera, em sua cintura, vibrava.

A Esfera do Longínquo Dia. Assim chamada porque fora criada nos primórdios da Existência de Todas as Coisas. Guardava um mundo de pequenos flocos sencientes capazes de absorver qualquer energia, transformando-a em Luz Abrasadora ou Trevas Abissais. Tudo dependia dos encantamentos certos. E poucos, de um lado ou de outro do Equilíbrio, sabiam quais eram. O Guardião das Magias Azuis, a quem Angcf deveria entregá-la, era um deles.

Exposta a emanações violentas por longos períodos, a Esfera implodiria; daí a impossibilidade de levá-la através das regiões de confronto, e, sim, por caminhos outros – perigosos e até letais.

E por que enviar um Aprendiz nessa Missão? Porque os Antigos estavam imersos em batalhas sangrentas, das quais não podiam se afastar. Porque a aura de um Jovem Aprendiz era pouco densa; portanto, menos perceptível – maior a chance de ele passar despercebido. E porque Angcf se oferecera como voluntário.

O Pântano dos Anjos Distorcidos... cujos vapores mefíticos derrubaram seres mais fortes que o jovem Angcf. Onde seu amigo Ultkt sucumbira.

Os Anjos Distorcidos surgiram no Grande Caos, tementes à Luz. Tendo experimentado o sabor do poder e sentido prazer na destruição, deturparam a razão da Existência, passando para o Outro Lado do Equilíbrio.

Tinham o aspecto de uma grande cabeça ovalada, cheia de olhos purulentos por todos os lados. Tresandavam a carnes putrefatas e espíritos penados. Matavam inocentes e Combatentes da Luz em qualquer dos planos - terrestre, quântico, astral - com prazer e malícia quase insuperáveis; sua crueldade era lendária. Costumavam rasgar e absorver a aura dos prisioneiros, num processo doloroso e infindável. Mesmo depois de passar para O Outro Lado da Existência, a vítima jamais encontraria paz, sabendo que as habilidades de sua aura seriam usadas por seus algozes.

Graças, no entanto, ao Equilíbrio que Tudo Permeia, nesse mundo e nos outros, os Anjos Distorcidos tinham suas limitações: distraíam-se com certa facilidade; e se acovardavam frente aos Guardiões do Primeiro Instante.

A Grande Mãe não abandonava
seus filhos.
A Consciência Cósmica
materializou um campo
de energia a proteger
Angcf
Angcf sentiu que era hora de partir. Ajoelhou-se, em conexão total com a Consciência Cósmica. À sua frente, materializou-se uma rosa azul, símbolo da Grande Mãe, a quem Angcf servia. As pétalas desprenderam-se da flor, dançando ao redor dele, envolvendo-o numa diáfana nuvem azul e dourada. 

Ele estava pronto.

Entrou no Pântano dos Anjos Distorcidos.

O Mestre Treinador fora taxativo: ande suave e calmamente, não corra, e mantenha o medo sob controle, ou eles perceberão sua presença. Nunca olhe para os lados, apenas para frente, a mente inteiramente vazia. Não dê atenção às vozes que lhe pedem socorro, elas não passam de lembranças dos que já foram, e, se você parar, nada poderá salvá-lo. Se for perseguido, arranque um pedaço de seu corpo astral e lance-o para trás. Por fragmentos de segundos os Distorcidos vão lutar entre si para ver quem fica com ele. Essa é a sua chance. Caso não consiga fugir, você sabe o que fazer. Angcf sabia. Envolveria a Esfera em sua aura e entregaria ambas ao Infinito, para que não fossem capturadas.  Ele perderia sua Existência, mas a Esfera sobreviveria em outro plano.

A nuvem de pétalas azuis amenizava o cheiro nauseabundo, assim como impedia que o corpo astral de Angcf fosse queimado pela atmosfera escaldante. O mais difícil era não dar atenção às vozes. Tão difícil que, quase chegando ao final do Pântano, desconcentrou-se, ao escutar o que parecia ser a voz de Ultkt. Rapidamente voltou à quietude mental, sabendo que não era seu amigo quem estava ali.

Mas não rápido o suficiente.

Sua presença fora percebida e, num átimo, Anjos Distorcidos já o estavam quase alcançando, os olhos lançando gosmas corrosivas. Angcf cometera um erro, é certo, mas não falharia. Arrancou um pedaço de seu corpo astral e jogou-o para trás, como fora ensinado. Não tendo como manter-se despercebido, sabia que, ou corria mais que a vida, ou pereceria ali, ignominiosamente.

Anjos Distorcidos voavam atrás dele, seus gritos de guerra aterrorizantes chamando reforços. Angcf nada ouvia. Concentrava-se em correr, preparado para lançar sua aura e a Esfera ao Infinito se fosse necessário. Faltavam poucos passos, estava quase chegando...

Sentiu uma dor excruciante, provocada por um jato de lágrima corrosiva que atravessou seu corpo. Angcf caiu.

Caiu no meio dos Guardiões do Primeiro Instante que o aguardavam na fronteira. Em menor número e acovardados, os Distorcidos fugiram. Os que restaram.

Quase desfalecido, sofrendo dores atrozes, o Jovem Aprendiz só permitiu que cuidassem de seus ferimentos após entregar a Esfera ao Guardião das Magias Azuis.

O pedaço arrancado deixaria uma cicatriz, mas seu corpo astral voltaria a crescer (diziam que um verdadeiro Combatente da Luz tinha mais cicatrizes que corpo - astral ou áurico). A queimadura profunda causada pelo ácido dos olhos dos Anjos Distorcidos doeria por muitas eras, e sua marca jamais desapareceria. Porém, nem tudo eram perdas.

Ao acordar, percebeu que seu cabelo encurtara. E que as asas de seus pés haviam crescido o suficiente para alçar pequenos voos. Subira na hierarquia. Era mais que um Jovem Aprendiz.

Angcf cumprira sua Missão.



imagem: Pinterest


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quinta-feira, 10 de agosto de 2017

MULHERZINHA>>Analu Faria

Eu cresci ouvindo histórias de desqualidades de mulher. "Fulana teve só filhas, nenhum menino, porque era fraca" era coisa que minha avó dizia. Provavelmente repetindo o que outros homens e mulheres disseram para ela. Forte (fisicamente mesmo) era a mulher que tinha filhos homens.Também ouvi muito - e ainda ouço - "Trabalhar só com mulher é horrível", "Ai, que saco essas reuniões de mulheres", "Que porcaria é essa de ginecologia natural, empoderamento, essas coisas, hein?" 

Cá estou com uma vontade danada de ir  a uma dessas "reuniões de mulheres". Aliás, têm me aparecido um montão ultimamente. "Bênção mundial do útero", "Roda de conversas sobre ciclos femininos". Tudo o que eu fui ensinada a abominar. Tudo rotulado de "maluquice". Quero muito. 

Não tenho a menor ideia de por que ando curiosa para ir  a esses encontros. Também não vou ficar me perguntando. O negócio é que essa vontade recente me fez pensar se eu já não tinha essa curiosidade antes e reprimia violentamente, porque as tais reuniões são "coisa de mulherzinha". Fui chamada de "mana" num grupo desses e quase saí correndo, muito mais por reflexo do que por qualquer outra coisa. Desconfio que o desqualificador "-inha" refira-se a essas mulheres que falam muito sobre coisas de mulher - menstruação, o peso dos padrões de beleza, gravidez, ter ou não ter filhos e outras bruxarias.  Acho que a ideia que fiz de "mulherzinha", a vida inteira, tem a ver com as que reconhecem que têm  hormônios, carreira, sentimentos, raiva e compaixão e não se calam sobre isso.

"Não faça a louca e fuja das que são" parece ser algo incutido nas cabeças de nós mulheres, sem que alguém tivesse explicado o que esse "louca"  significava. A mulher que se enerva perto da menstruação é louca? A mulher que protesta contra a negligência emocional dos que a cercam é louca? A mulher que chora compulsivamente durante a gravidez é louca? A mulher que xinga é louca? A mulher que grita de dor é louca?

A mulher que se banha em sua "mulheridade" todo dia parece estar longe do estado de "não-loucura" a que todas devemos nos filiar para podermos passar à História como gente. Quanta delicadeza falsa será preciso destilar até que possamos decidir se - e quando - queremos ser delicadas? Quantos sorrisos comportados precisarão ser dados até que saibamos nos deliciar com nosso riso solto?







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quarta-feira, 9 de agosto de 2017

AOS AMIGOS >> Carla Dias >>


Pode parecer que não, porque damos sempre um jeito de nos conectarmos, porque gostamos da conversa compartilhada entre uma bebida - ao gosto do freguês - e outra, mas houve uma época em que nossas vidas não eram afetadas pela existência do outro.

Lembram de quando?

E somos meio vintage na conexão, apesar de a tecnologia nos manter mais próximos. Adoramos sala de estar; de nos encontrarmos nelas. Das longas conversas que acontecem ali.

Nem sempre a geografia ajuda ou o horário comercial possibilita. Às vezes, a tal da correria nos convoca para longos passeios. Daí que nos perdemos de vista por um período mais longo do que gostaríamos ou permitiríamos, caso tivéssemos o poder de ganhar na loteria e criar aquele lugar sobre o qual tanto falamos, onde seríamos quem desejássemos ser.

A vida segue acontecendo e nós insistimos em alguns sonhos que já acumulam décadas de planejamento e um buquê e meio de desapontamentos. Também apostamos na frescura do novo, porque somos atrevidos a esse ponto. Se há algo que a intimidade nos trouxe foi a capacidade de discordarmos sem que isso nos leve a nos perder de vez um do outro. À essa altura, já conquistamos a aptidão de permanecermos unidos, apesar de.

Enquanto o mundo enlouquece, gerando histórias que fazem nossas cabeças girarem, nossos espíritos envergarem; que nos conduzem em uma jornada em que se tornou impossível não lamentarmos, não sentirmos muito por sermos incapazes de ajudar a evitar isso, a consertar aquilo, a amparar alguns, teremos sempre um ao outro para não deixarmos a peteca cair. Nem sempre será delícia, tampouco agradável. Haverá dias em que os olhares passarão de raspão, diferente das tradicionais trocas. Porém, isso é porque somos humanos. Na hora do caos, da tristeza lancinante. Na hora da conquista pela qual se batalhou, da alegria divina. Na hora em que esquecemos dos entraves e nos abraçamos ao afeto, estaremos aqui um para o outro.

Haverá sempre café, vodca, chá. Haverá sempre salas de estar e espetáculos musicais. Haverá sempre uma história nova para contar. Uma velha história para enfeitar o salão das nossas memórias.

Gosto de pensar que a vida nos manterá conectados, mesmo sabendo que essa conexão depende de um trabalho dedicado e de presença. E apesar de ser a menos presente nos eventos de calendários, escolada em canos em casamento, batizado, festa de aniversário, aqui eu sempre estarei. Mas acho que essa é uma dúvida que não existe, não é mesmo? Porque, caso ela exista, bom, escrevo essa crônica para afirmar que não há dúvida. Apesar do meu jeito estranho de ser, e por ele mesmo, tirei o dia para dizer: estarei sempre aqui.

Aos amigos, meu agradecimento sincero por me permitirem fazer parte de suas biografias. E fiquem tranquilos, porque não, eu não escreverei um livro revelando todas aquelas informações embaraçosas que vocês já me confidenciaram.

Imagem: Artist Party © Peder Severin Kroyer

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terça-feira, 8 de agosto de 2017

SERIA TUDO ISSO UMA PIADA DE MAU GOSTO? >> Clara Braga

Chorei!

Chorei, mas chorei com gosto! Um choro para ninguém colocar defeito, daqueles que vem da alma com tudo que eu tenho direito! 

Se fosse uma cena de filme eu poderia concorrer ao oscar, e teria grandes chances de ganhar. 

Teve rosto inchado, teve aquele leve soluço depois de uma respiração mais profunda, teve a cara vermelha, teve nariz fungando, teve lágrima que rola mesmo você evitando piscar pra ela não sair, teve voz embargada! Pense em qualquer coisa que você ache que tenha relação com o choro e, acredite, teve!

Quem não está acostumado e ainda conhece o significado da palavra compaixão pensa logo que algo muito grave aconteceu! Melhor não perguntar, pode piorar!

Quem já não tem muita compaixão já pensa logo que é TPM, afinal, mulher é assim mesmo, daqui a pouco tá rindo por aí! E se engana quem acha que a maioria dos que pensam assim são homens!

Os mais céticos serão direto e reto: o nome disso é frescura.

E tem ainda os mais sensíveis, que quando olham nem sabem o que aconteceu, mas dá uma vontade de chorar junto!

Aqueles mais preocupados logo compartilham uma palavra de força e consolo, mesmo sem entender muito o que está acontecendo. Coitados, nem têm culpa, nem eu sei direito o que está acontecendo.

Tenta desabafar, procura uma explicação, quem sabe não seria melhor você marcar um médico? Um psiquiatra pode ajudar, conheço um muito bom! Talvez medicina alternativa, não sei, qualquer coisa que te ajude a manter a sanidade mental, nessa fase da sua vida você precisa de tranquilidade.

Passado o susto, quando consegui finalmente sair do meu olho do furacão e pensar mais racionalmente nas coisas, recebi meu verdadeiro diagnóstico: hormônios! Logo eu que sempre achei que essa coisa de hormônios era um pouco exagerada, agora me tornei a vítima perfeita! 

Esses tais hormônios são reais mesmo, acabam com a gente em fração de segundos! Agora, não que eu duvide da capacidade de quem criou o mundo e todas as suas coisas, mas inventar a gestação, dizer que ela tem que ser tranquila e depois espalhar essa quantidade de hormônios no corpo da pessoa ou foi um erro grave ou uma piada de muito mal gosto!


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segunda-feira, 7 de agosto de 2017

E EU QUE TINHA MEDO DO DIABO >> Albir José Inácio da Silva

- O meu nome é Legião – respondeu a Jesus uma matilha de demônios que infestava um pobre gadareno.

Nem sabia que diabos eram capazes de suplicar, mas esses humildemente suplicaram para entrar numa manada de porcos. Além de arrebentar algumas correntes, arrancar a roupa do gadareno e deixá-lo viver no cemitério, esse foi o grande feito daquela súcia de espíritos malignos. Onde fica a arrogância do Príncipe das Trevas?

Poderiam possuir Pilatos, César, o Faraó e outros governantes da época para começar a primeira guerra mundial com dois mil anos de antecedência – o que seria um trabalho digno de uma legião de demônios – mas preferiram induzir ao suicídio um bando de porcos que pastavam alheios à batalha entre o bem e o mal.

Outro exemplo da mediocridade diabólica foi a influência sobre Judas, que depois, arrependido da traição, suicidou-se - a exemplo dos corruptos japoneses que cometem haraquiri - e foi execrado pelo resto da história.

Bem diferente de traidores nacionais que são exaltados e viram tatuagem no lombo de parlamentar.  Aqui esses Judas conseguem cooptar lideranças religiosas que, além de se fazerem representar por bancada temática, os abençoam em nome de Deus, desejando longa e profícua permanência no poder.

Hoje assistimos a exorcismos na televisão, que se resumem a pobres diabos pobres, alcoolizados, com os braços presos às costas pelo poder sobrenatural do exorcista ou por alguma reverência própria dos endemoninhados, voz gutural, dizendo tratar-se de entidade oriunda de outras mitologias. Uma esquizofrenia que não expulsa os próprios demônios, mas ataca com ferocidade os deuses dos outros em meio a aleluias e améns.

Como se vê, continua canastrão o Lúcifer, um menino peralta se comparado com alguns humanos. Teria muito que aprender com os governantes brasileiros.

O diabo sempre distribuiu doenças, principalmente para os mais pobres, que têm péssimos hábitos alimentares, mas nunca pensaria em acabar com a saúde pública em benefício dos planos privados.

Ele sempre foi capaz de fazer um cristão perder o emprego, mas nunca se atreveu a eliminar garantias trabalhistas e previdenciárias conquistadas ainda no século passado.

Atrapalhava menino passar de ano e derrotava alguém no vestibular, mas que diabo pensaria em desmontar universidades públicas, acabar com o Ciência sem Fronteiras e comprar deputados com recursos da iniciação científica?

Satã sempre espalhou aqui e ali uns preconceitos, mas nunca sonhou em ouvir atores pornô para transformar escolas em centros de fundamentalismo, impedindo a livre manifestação do pensamento.

Provocava alguns incêndios, já que gosta de labaredas, mas esteve sempre muito longe de oficializar o desmatamento da Amazônia.

Possuía este ou aquele político para espalhar suas maldades, mas nunca pensou em infestar os três poderes da república de um só golpe.

Um principiante esse Mesfistófeles. Seus grandes feitos nunca passaram de bravatas.

Os de nós que sobreviverem a esse governo vão adquirir uma vantagem sobre os demais humanos. Terão superado o medo ao diabo e a seus truques ridículos, já que enfrentaram inimigos muito mais perigosos.


Belzebu servirá apenas para assustar crianças insones e será chamado de bicho-papão.


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sexta-feira, 4 de agosto de 2017

NÃO PISE FORA DA ÁREA DEMARCADA >> Paulo Meireles Barguil


"O que faz de mim ser o que sou
É gostar de ir por onde ninguém for
Do alto coração mais alto coração"
(Byafra, Sonho de Ícaro)

Costumo ser obediente.
 
Ou melhor, sou sempre!
 
Na maioria das vezes, em respeito aos ditames exteriores, que costumam limitar a alma, mas que prometem vida ao corpo.
 
Raramente, tendo em vista que pouco — ou nada — adianta esse pulsar se aquela é moribunda, ouso, após alguma batalha secreta, ultrapassar as marcações.
 
Pular uma janela quando sair pela porta é proibido.
 
Mudar de emprego para ganhar menos.
 
Compor uma teoria que rompe tradições pedagógicas seculares.
 
Beijar uma recente namorada em lugar por ela proibido.
 
Ah, quão sublime é o medo.
 
Sem ele, não existiria a coragem!
 
Bem como a persistência e a humildade: enquanto uma acelera, a outra freia.

A vida conclama a todos — artistas, cientistas, anônimos, famosos... — a se expandirem.
 
Seja cuidadoso com as marcações — internas e externas — e voe...
 
 
[Foto de minha autoria. 27 de julho de 2017]


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quarta-feira, 2 de agosto de 2017

SE ELA SOUBESSE DIZER ADEUS, EU... >> Carla Dias >>


Pergunta o que para mim é amor. Eu, que não me dou com essas coisas, torço o nariz, aceno negando interesse pelo tema. Essa coisa de amor anda tão esgarçada que é impossível se compreender onde cabe o entendimento. Tem gente que ama e nem sabe que está amando, e a negação do feito gera sensação de vazio impossível de se preencher. Tem gente que destrata e chama o sentimento de amor, de cuidado.

Sorri dos sorrisos que me intrigam. Como pode sorrir desse jeito? Ofende-me com essa leveza, que vem de onde? A vida dessa pessoa é um caos sem fim, uma série de pequenas tragédias apinhadas numa biografia acolhedora de insignificâncias. Nada que ela vive se sobressai, salienta-se positivamente. Eu olho para ela e só enxergo tristeza.

Mesmo nesse sorriso que me intriga, que demonstra uma leveza que, tenho certeza, ela não pode sentir. Pessoa assim não sente leveza, não. Impossível.

Aqui, sentados à beira do que será, observamos os transeuntes apressados. Eles estão sempre apressados, atrasados para algum compromisso, com horário marcado para arrancar dente, retirar encomenda, lidar com filhos. Suas urgências vão do se entender com bilhetes de ônibus, para que eles não os impeçam o passo seguinte, já na catraca, ao esconder bem as carteiras. Vai que lhe roubem o nada que carregam. Vai que alguém ouse furtar deles o direito de volta.

Ela me conta sobre o amor de sua vida, um homem um pouco mais velho e bonito. Ela faz questão de frisar o bonito, porque gostava muito dos olhos dele: aguados, profundamente magoados, alagado por ternuras. Descreve detalhadamente, para minha agonia, os melindres que seu corpo sofria ao estar nos mesmos metros quadrados que ele. Confessa que, da última vez que o viu, seus olhos eram outros: despindo-se da vida, assim, diante dela.

Foi assim que esse retiro se deu início. Ela desamigou do mundo, não quis mais saber de endereço fixo. Esteve em muitas cidades, a pisar descalça em asfalto quente; em terra árida, desnutrida. Banhou-se em tantos rios, que acha graça quando lhe conto sobre o chuveiro a gás que faz minha felicidade lá em casa.

Diz que amou planos, também. Alega ser das amantes luxuriosas, quando se trata deles. Acorda com um, passa o dia com outro, termina a noite nos braços de outro ainda. Não tem pudores para gastar com planos ou certezas. Vive da maleabilidade que o tempo oferece.

Só que ela me conta coisas e eu não consigo entender: como? Enredar-se por essa coisa de amor, com tantos abandonos, sortilégios cometidos e desferidos em seu nome.  Para um prazer, um punhado de desapontamentos.

Para quê?

E ainda há o algo que ela perguntou se poderia compartilhar comigo, porque, de tanto andar por aí, apegou-se a mais ninguém. O amor sobre o qual ela discursa é morto, enterrado, e ainda assim, ela o alimenta. Para mim, ele é um escravizador, tem pacto com abismos, dança sobre o túmulo do contentamento. Não vejo beleza nele, apenas um vampirismo constante, que vai sugando a vida dela, sem que ela se dê conta disso.

Ela se desvencilha da minha lugubridade, não como quem se acovarda diante da resposta que tem a oferecer de contrapartida a uma pergunta. Não de quem se esquiva do indigesto da existência. Ela se desvencilha como dançarina provedora de coreografias improvisadas, elas que são os alicerces de um espetáculo de malabarismo emocional.

Abre a garrafinha térmica, despeja o chá na tampa e me entrega. Então, bebe no gargalo. Ela tem esse rosto do qual meu olhar não consegue se desviar. Como se nele morasse um mapa de mistérios que nunca enxerguei em alguém. Bebo meu chá, quente, docíssimo, deliciosamente não identificável ao meu paladar. É novo, é diferente, é revigorante.

Ou seria ela tudo isso?

Que eu a beberia, sem reservas. Não com essa coisa de amor a nos rondar. Porque ela mesma confessa que a saudade que desfia por seu amor da vida – a quem a morte já fez a corte –  a transformou em uma questionadora de certezas, e essa inquietação lhe seca a garganta, apunhala a esperança.  E onde caberia a esperança nesses desmandos todos? Porque ela, a pessoa que naufraga na ideia de que o amor, bobagem, que ele não move montanhas, porém consegue escalá-las habilmente, bem, ela está aqui, a contar a quem nem do nome tem conhecimento, esse estranho que sou e que já se sente confortável na sua excêntrica companhia, sobre essa saudade impossível de estancar, que ela vem arrastando pela vida, a falhar constantemente na tentativa de desová-la em algum lugar fora de sua alma. Um insucesso que se repete a cada pensamento sobre ele, o amor que não passa, nem mesmo diante de resoluta ausência.

Então, o que penso sobre o amor se torna tão menos dócil, tão mais rancoroso. Esmero-me em desamar o amor, que empoça na alma dela essa melancolia que embeleza a feiura da tristeza que a assola. Ainda que o sorriso dela ilumine seu rosto com essa luz engraçada, que é de lugar nenhum, que nunca vi em holofote, lâmpada, sol.

Ela precisava verbalizar seu amor implacável. Eu estava ali, sentado ao lado, observando o mesmo movimento. Ela sorriu e eu não consegui evitar: sorri de volta. Um sorriso truncado, que meu dia foi daqueles em que dá vontade de fazer as malas e sumir. Achei que pararia ali, nessa conexão breve de banco de praça, de observadores atordoados de fim de tardes e suas pessoas a lidarem com suas pressas. Achei que duraria aquele sorriso. Então, vieram outros, todos peculiares, inéditos para mim. Todos embevecidos por aquele amor que não passa.

Ela sorri e vai embora, como quem vomita suas dores no confessionário e retoma a vida no desalinho que aprecia. Eu fico onde estou, remoendo o amor dela por um fantasma, enquanto eu, juro, eu a beberia, sem reservas. Ainda que quente, docíssima, deliciosamente não identificável ao meu paladar. O novo, o diferente, o revigorante.

Eu a beberia, se não fosse o amor, eu a amaria.

Imagem: The Lovers © Cecil Buller

carladias.com

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