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Mostrando postagens de Agosto, 2017

PERTENCIMENTO >> Carla Dias >>

Aqui não é lugar para ele. Ele não pertence ao aqui. Mesmo que apresentem uma lista de sedutores motivos, na tentativa de provar que aqui combina com ele, e vice e versa, ah, se pudessem sentir o quão sofrível é para ele estar aqui, desistiriam desse desejo de convencimento.

Aqui pode ser bom e saudável para muitos. Para ele, é prisão. E traz esse silêncio que ele não consegue calar, ainda que já tenha se aventurado a tentar quebrá-lo aos berros. Você já tentou abandonar um aqui onde foi colocado? Tentou redesenhar o cenário? Reescrever a trama?

Aos poucos - tão lentamente que o tempo passa lerdo, mas é como se ele passasse desesperadamente -, ele vem construindo a coragem necessária para despir-se do aqui. Tem sua própria lista, na qual anotou tudo o que fará nesse dia de catarse providencial. Depois que se livrar dessa prisão – ela que tem design de vida promissora –, ele não voltará mais ao aqui. Porque aqui tem feito a tantos felizes, mas a ele, nem a chance de tentar essa tal de…

PLANEJANDO O QUE NÃO SE PODE PLANEJAR >> Clara Braga

Na vida, é normal planejarmos determinadas coisas. Uma viagem, por exemplo, normalmente é planejada de acordo com os dias que temos de férias, já o destino é definido pelo nosso poder aquisitivo. Mas já repararam que quando viajamos ninguém pergunta: a viagem foi planejada?
Também podemos planejar um jantar romântico: escolhemos uma data especial, um restaurante que tenha comida que agrade o casal, podemos até fazer uma surpresa comprando flores ou algo do tipo. Mas acho quase impossível você estar no meio do jantar e ser interrompido pelo seu parceiro: esse jantar foi planejado?
Tem também aqueles trabalhos que exigem bastante planejamento, como o meu. Não posso entrar em sala de aula sem saber o que devo ensinar, planejo a matéria que vou passar de acordo com o tempo que tenho com cada turma. Tenho ainda que planejar os dias para preencher diário, elaborar provas, corrigir trabalhos e outras tarefas que a vida de professor exige e tudo antes de cada bimestre acabar. Mas nunca um al…

#AGROTÓXICOS >> Sergio Geia

Estava numa livraria procurando coisas interessantes. Já tinha encontrado uma, moça interessantíssima, morena, pernas longas, grossas, lábios carnudos, cabelos compridos, grandona, uma deusa que, sentada no sofá, folheava um livro. Percebi que, vez ou outra, ela se dirigia a um homem chamando-o de “meu bem”, e juntos trocavam ideias sobre questões relacionadas a agricultura, lavoura, alimentos, agrotóxicos etc. Eu estava de pé, absorto, ao lado da estante, procurando um livro pra comprar. Aliás, eu e Chiara temos esse hábito: estando em Ubatuba, sempre passamos numa livraria ou sebo pra comprar alguma coisa pra ler. Eu já tinha terminado o livro do Rubem Fonseca que trouxera, e queria um novo. Depois de muito olhar, separei outro de contos do Fonseca, “Calibre 22” (o que eu queria mesmo era “Feliz Ano Novo”, mas não tinha), e “Lavoura Arcaica”, esse clássico do Raduan Nassar, aquele mesmo que disse coisas inamistosas num evento do Ministério da Cultura que desgostou profundamente o ent…

O AMOR ENCARQUILHADO >> Zoraya Cesar

O entardecer róseo-avermelhado prenunciava uma noite estrelada e morna. Uma noite feliz. 
A casa situava-se perto de um penhasco e, do terraço, podia-se ver e ouvir o mar espancando as pedras, como se quisesse tirá-las do caminho. Portas fechadas e cortinas pesadas separavam e isolavam o terraço do barulho e da música altos vindos do salão. Uma mulher elegante, vestida de preto, brincava com a bengala de madeira de lei e castão de prata que trazia às mãos. Apreciava a paisagem, sozinha, cansada da bagunça. “Como um bando de velhos”, pensava, “podia ser tão barulhento e inconveniente?”.
Rebecca nem sabia o que fazia ali. Que lhe interessava encontrar sua turma da faculdade e respectivas famílias e descendências? Alguns bons amigos já tinham morrido; outros, não puderam ir; e ela detestava a maioria dos que compareceram. Pessoas que conhecera há quase 50 anos, e que agora lhe eram indiferentes. Só fora mesmo por muita insistência de Úrmtia, uma grande amiga, é certo, mas uma cretina. Que …

O AMOR QUE EU NÃO SOUBE OUVIR>>Analu Faria

De todos os quase-amores que tive, S. talvez tenha sido o mais ardiloso. Não ele, a pessoa, o homem S., mas o afeto que a vida me oferecia através dele. Naqueles dias, carinho e atenção pareciam uma peça estranha num quebra-cabeças que eu não sabia montar: S estava mais distante do atavismo que me viciara do que eu de sua doçura.
Eu pouco falava e ele pouco ouvia. A audição reduzida - a parte dele -  e uma voz afetada por uma infecção horrível  - a parte minha -   pareciam a receita irônica para um relacionamento fadado ao nada. Para minha vergonha, a serenidade de S. - talvez fruto dos seis anos de fonoterapia, dos seis anos aprendendo a falar por meio da vibração dos ossos -  era absoluta e, para ele, pouco importava que nunca visse a cor da minha fala.

S. lia meus lábios perfeitamente e eu não nunca soube decifrar os seus. Também não pude entender o que me pareceu gentileza em abundância, algo fora do lugar para uma mulher tão acostumada com o pouco que a convinha.

Ele se fazia en…

INSÔNIA >> Carla Dias >>

Vai dormir, menina! Já passou da hora. Tem mais nada aí, não.

Ainda assim, eu gastava um bom tempo encarando as barras coloridas estampadas na tela da televisão. O volume eu zerava, que aquele era um som que não cabia na noite de uma casa cheia de pessoas prontas para cair no sono.

Eu as observava com certo pesar. Era sinal de que a tevê demoraria a devolver a programação. Então, eu encarava aquelas barras e jurava para mim: quando eu crescer e tiver um emprego, vou comprar um videocassete e não serei mais prisioneira da vontade das barras coloridas e daquele som invariável.

Naquela época, eu não tinha ideia de como a tecnologia inventaria mil formas de se passar uma noite de insônia. Tampouco imaginei uma programação na tevê sem a indigesta interrupção das barras coloridas e sua trilha sonora chatinha, chatinha. Porém, antes de descobrir, eu encontrei os livros.

Livros são meus companheiros de insônia. O videocassete também foi, e durante um bom tempo. Livro eu trago comigo para a c…

AVE, DIVINO! >> Albir José Inácio da Silva

Escultura  do artista dinamarquês Jens Galshiot. Uma justiça obesa e mórbida que o povo carrega.



“Não há hierarquia nem subordinação entre advogados, magistrados e membros do Ministério Público”, diz a lei. Mas o que importa para os deuses a lei dos homens?
Sua Divindade considerou heresia a roupa com que a advogada ousou comparecer à sua augusta presença e ameaçou abandonar o local para punir os mortais com sua ausência.
Sem ver a imagem, julguei tratar-se de alguma microssaia que subia de encontro ao decote que, por sua vez, descia ameaçadoramente, mostrando o umbigo, e pudesse aguilhoar a libido e atrapalhar a concentração do pudico julgador. Mas não. A inadequação foi corrigida pela infratora apenas cobrindo seus indecorosos braços.
Que tipo de perturbação o decoro pode sofrer com a visão de braços? Sim, porque o vestido ia até os pés e só mostrava os braços. Talvez a mesma que sofria o jovem Inácio no conto de Machado de Assis.
O Tribunal, órgão colegiado a que pertence o divino j…

PALADAR >> Paulo Meireles Barguil

— Nossa, que suco azedo! — foi o que disse, em voz alta, a recém ingressa bolsista de graduação numa reunião do grupo de pesquisa que coordeno. Não, não era um trote de boas vindas. Era, apenas, o suco feito por mim, o qual, há alguns anos, é motivo de gracejo dos estudantes. Os ingredientes mudam, mas a quantidade de açúcar é diminuta, considerando o que eles estão acostumados a ingerir. É sempre assim: nós degustamos o mundo a partir das nossas experiências, tenham sido elas agradáveis ou não... Muitos desconhecem isso. Há outros que, apesar de algumas incursões terapêuticas, preferem desdenhar desse princípio atestado pela Neurociência. É claro que a mera concordância com esse axioma não é garantia de transformação, mas funciona como um visto para ingressar no mundo interno. Sem ele, vagamos desolados pelo Universo... Paladar —  derivado de palato, o céu da boca — conforme o Houaiss, significa "Função sensorial que permite a percepção dos sabores pela língua e sua transmissão…

DEVAGAR COM A DOR >> Carla Dias >>

A lembrança interrompe a trilha sonora interna do momento. Porém, a música tema sendo tocada – ininterruptamente e há horas – no jukebox da minha cachola é conversa para outro dia.

Nesse momento, tudo silencia, porque há lembrança que só se manifesta se todos os sons se calarem em sua homenagem. E esse filme toma minha memória, assim, mudo, porque o suspense é necessário.

Mas o que fazer com uma lembrança que não vem inteira? Cadê o som que sei que ela tinha? Havia diálogos ali, não apenas movimentos. Havia verdades nela, que sinto que eu apreciava escutar: ritmo e emoção. Que pena que não as decorei para declamar mais tarde, feito poema raptado de autor desconhecido.

Resta-me, então, feito ser humano escolado em versões, criar um diálogo novo para uma velha lembrança. Sabemos quantas mudanças as lembranças sofrem com o passar do tempo. Algumas delas se tornam outras. A verdade se perde, dando lugar às interpretações que se guiam pelo humor do seu interlocutor, de acordo com o que el…

A MELHOR IDADE É A MINHA >> Clara Braga

Quando eu era bem novinha lembro de ter conversas sobre idade com minhas amigas. Falávamos que não víamos a hora de fazer 10 anos para quando alguém nos perguntasse quantos anos tínhamos a gente poder mostrar as duas mãos cheias. Criança é assim mesmo, com sonhos palpáveis, uma maravilha.
Não fui a primeira das minhas amigas a fazer 10 anos e mostrar as duas mãos cheias. Quando eu mostrei as duas mãos aquilo já nem tinha mais muita graça para muitas delas e, então, logo perdeu a graça para mim também.
Depois da emoção dos 10 anos descobrimos que bom mesmo era ter 15 anos, a idade da debutante. Afinal, com 15 anos todo mundo fazia a maior festa e ainda conhecia a Disney.
Fiz 15 anos sem dar a menor importância para essa história de festa, para a sorte dos meus pais. E quanto à Disney, acho que tenho mais vontade de ir hoje em dia do que quando tinha os 15 anos. Então, acabamos percebendo que bom mesmo deve ser fazer 18.
Aos 18 podemos trocar as matinês pelas baladas, tirar carteira, f…

PEITINHO DE PITOMBA >> Sergio Geia

Fui reunindo pérolas pelo caminho. Pitomba. Fruta. Pequena. Um tantinho maior que uma bolinha de gude. De cor laranja quando madura, incomum aqui. Eu pelo menos nunca vi. Mais fácil de encontrar em cidades do Norte, Nordeste. Dizem que em Pernambuco tem de monte. Lembra muito a lichia, sem a mesma suculência. Você quebra uma fina casca que a reveste (pode ser com os dentes), põe na boca o caroço amarronzado, coberto por uma gosma transparente, a polpa, e chupa. Adocicada e levemente ácida, também serve de alimento para diversas espécies de aves. Sua árvore é muito utilizada na recuperação de áreas degradadas. Ambular. Verbo intransitivo que significa andar sem destino, à volta, vaguear, passear, girar, deambular, perambular. Confesso que não o conhecia, e o achei lindo. Povaréu. Plebe, poviléu, povo, multidão, turba, grande número de pessoas, povão. Bugigangas. Bugiaria, quinquilharia, insignificâncias. E preciosidades metafóricas como “o pregão abre o dia”, “o povaréu sonâmbulo ambulando…

O APRENDIZ - 2a parte >> Zoraya Cesar

Leia O Aprendiz – 1ª parte - Desde que surgira na Existência e fizera sua escolha pela Luz, Angcf pressentiu que, em algum momento, teria de enfrentar o que mais temia: os Anjos Distorcidos. Só não esperava que fosse tão cedo, ainda jovem Aprendiz.
Totalmente desperto, Angcf trazia à sua consciência as estratégias que aprendera com o Mestre Treinador. A Esfera, em sua cintura, vibrava.
A Esfera do Longínquo Dia. Assim chamada porque fora criada nos primórdios da Existência de Todas as Coisas. Guardava um mundo de pequenos flocos sencientes capazes de absorver qualquer energia, transformando-a em Luz Abrasadora ou Trevas Abissais. Tudo dependia dos encantamentos certos. E poucos, de um lado ou de outro do Equilíbrio, sabiam quais eram. O Guardião das Magias Azuis, a quem Angcf deveria entregá-la,era um deles.
Exposta a emanações violentas por longos períodos, a Esfera implodiria; daí a impossibilidade de levá-la através das regiões de confronto, e, sim, por caminhos outros – perigosos e a…

MULHERZINHA>>Analu Faria

Eu cresci ouvindo histórias de desqualidades de mulher. "Fulana teve só filhas, nenhum menino, porque era fraca" era coisa que minha avó dizia. Provavelmente repetindo o que outros homens e mulheres disseram para ela. Forte (fisicamente mesmo) era a mulher que tinha filhos homens.Também ouvi muito - e ainda ouço - "Trabalhar só com mulher é horrível", "Ai, que saco essas reuniões de mulheres", "Que porcaria é essa de ginecologia natural, empoderamento, essas coisas, hein?" 
Cá estou com uma vontade danada de ir  a uma dessas "reuniões de mulheres". Aliás, têm me aparecido um montão ultimamente. "Bênção mundial do útero", "Roda de conversas sobre ciclos femininos". Tudo o que eu fui ensinada a abominar. Tudo rotulado de "maluquice". Quero muito. 
Não tenho a menor ideia de por que ando curiosa para ir  a esses encontros. Também não vou ficar me perguntando. O negócio é que essa vontade recente me fez pensa…

AOS AMIGOS >> Carla Dias >>

Pode parecer que não, porque damos sempre um jeito de nos conectarmos, porque gostamos da conversa compartilhada entre uma bebida - ao gosto do freguês - e outra, mas houve uma época em que nossas vidas não eram afetadas pela existência do outro.

Lembram de quando?

E somos meio vintage na conexão, apesar de a tecnologia nos manter mais próximos. Adoramos sala de estar; de nos encontrarmos nelas. Das longas conversas que acontecem ali.

Nem sempre a geografia ajuda ou o horário comercial possibilita. Às vezes, a tal da correria nos convoca para longos passeios. Daí que nos perdemos de vista por um período mais longo do que gostaríamos ou permitiríamos, caso tivéssemos o poder de ganhar na loteria e criar aquele lugar sobre o qual tanto falamos, onde seríamos quem desejássemos ser.

A vida segue acontecendo e nós insistimos em alguns sonhos que já acumulam décadas de planejamento e um buquê e meio de desapontamentos. Também apostamos na frescura do novo, porque somos atrevidos a esse pon…

SERIA TUDO ISSO UMA PIADA DE MAU GOSTO? >> Clara Braga

Chorei!
Chorei, mas chorei com gosto! Um choro para ninguém colocar defeito, daqueles que vem da alma com tudo que eu tenho direito! 
Se fosse uma cena de filme eu poderia concorrer ao oscar, e teria grandes chances de ganhar. 
Teve rosto inchado, teve aquele leve soluço depois de uma respiração mais profunda, teve a cara vermelha, teve nariz fungando, teve lágrima que rola mesmo você evitando piscar pra ela não sair, teve voz embargada! Pense em qualquer coisa que você ache que tenha relação com o choro e, acredite, teve!
Quem não está acostumado e ainda conhece o significado da palavra compaixão pensa logo que algo muito grave aconteceu! Melhor não perguntar, pode piorar!
Quem já não tem muita compaixão já pensa logo que é TPM, afinal, mulher é assim mesmo, daqui a pouco tá rindo por aí! E se engana quem acha que a maioria dos que pensam assim são homens!
Os mais céticos serão direto e reto: o nome disso é frescura.
E tem ainda os mais sensíveis, que quando olham nem sabem o que ac…

E EU QUE TINHA MEDO DO DIABO >> Albir José Inácio da Silva

- O meu nome é Legião – respondeu a Jesus uma matilha de demônios que infestava um pobre gadareno.
Nem sabia que diabos eram capazes de suplicar, mas esses humildemente suplicaram para entrar numa manada de porcos. Além de arrebentar algumas correntes, arrancar a roupa do gadareno e deixá-lo viver no cemitério, esse foi o grande feito daquela súcia de espíritos malignos. Onde fica a arrogância do Príncipe das Trevas?
Poderiam possuir Pilatos, César, o Faraó e outros governantes da época para começar a primeira guerra mundial com dois mil anos de antecedência – o que seria um trabalho digno de uma legião de demônios – mas preferiram induzir ao suicídio um bando de porcos que pastavam alheios à batalha entre o bem e o mal.
Outro exemplo da mediocridade diabólica foi a influência sobre Judas, que depois, arrependido da traição, suicidou-se - a exemplo dos corruptos japoneses que cometem haraquiri - e foi execrado pelo resto da história.
Bem diferente de traidores nacionais que são exalt…

NÃO PISE FORA DA ÁREA DEMARCADA >> Paulo Meireles Barguil

 "O que faz de mim ser o que sou
É gostar de ir por onde ninguém for
Do alto coração mais alto coração"
(Byafra, Sonho de Ícaro)
Costumo ser obediente. Ou melhor, sou sempre! Na maioria das vezes, em respeito aos ditames exteriores, que costumam limitar a alma, mas que prometem vida ao corpo. Raramente, tendo em vista que pouco — ou nada — adianta esse pulsar se aquela é moribunda, ouso, após alguma batalha secreta, ultrapassar as marcações. Pular uma janela quando sair pela porta é proibido. Mudar de emprego para ganhar menos. Compor uma teoria que rompe tradições pedagógicas seculares. Beijar uma recente namorada em lugar por ela proibido. Ah, quão sublime é o medo. Sem ele, não existiria a coragem! Bem como a persistência e a humildade: enquanto uma acelera, a outra freia.

A vida conclama a todos — artistas, cientistas, anônimos, famosos... — a se expandirem. Seja cuidadoso com as marcações — internas e externas — e voe... [Foto de minha autoria. 27 de julho de 2017]

SE ELA SOUBESSE DIZER ADEUS, EU... >> Carla Dias >>

Pergunta o que para mim é amor. Eu, que não me dou com essas coisas, torço o nariz, aceno negando interesse pelo tema. Essa coisa de amor anda tão esgarçada que é impossível se compreender onde cabe o entendimento. Tem gente que ama e nem sabe que está amando, e a negação do feito gera sensação de vazio impossível de se preencher. Tem gente que destrata e chama o sentimento de amor, de cuidado.

Sorri dos sorrisos que me intrigam. Como pode sorrir desse jeito? Ofende-me com essa leveza, que vem de onde? A vida dessa pessoa é um caos sem fim, uma série de pequenas tragédias apinhadas numa biografia acolhedora de insignificâncias. Nada que ela vive se sobressai, salienta-se positivamente. Eu olho para ela e só enxergo tristeza.

Mesmo nesse sorriso que me intriga, que demonstra uma leveza que, tenho certeza, ela não pode sentir. Pessoa assim não sente leveza, não. Impossível.

Aqui, sentados à beira do que será, observamos os transeuntes apressados. Eles estão sempre apressados, atrasados…