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Mostrando postagens de Fevereiro, 2010

DEPOIS É QUE É >> Eduardo Loureiro Jr.

"O bom macarrão não precisa ser ruim para quem lava a panela."
(Albir José da Silva)


O que me chamou a atenção pela primeira vez foi um simples — e até saboroso — macarrão.

Eu estava passando um final de semana com uns dez colegas de escola numa casa de praia. Tinha 17 anos e não sabia cozinhar um ovo. Propuseram que eu lavasse panelas e pratos. Achei justo. Eu só não esperava que o fundo da panela de macarrão viesse com uma crosta queimada de aproximadamente um dedo de espessura. Nos longos minutos daquela minha lavagem, eu decidi que aprenderia a cozinhar e que deixaria trabalhosos fundos de panela para os outros lavarem. Mas, passada a raiva, desisti da vingança e apenas coloquei em minha cabeça que sempre comeria, cozinharia ou faria qualquer outra coisa  pensando no trabalho que aquilo daria não apenas durante, mas também depois.

Foi numa salinha do Theatro José de Alencar que aprendi que havia um nome para aquilo: pós-produção. Foi dez anos depois do episódio do macarr…

A PREGUIÇA DO BAMBU [Sandra Paes]

Domingo no parque. Tarde azul com vento frio nos envolve ao sair do carro. Eu, com os pés molhados dentro do tênis, depois de cair no lago de peixinhos. Simples assim. Piso na pedra da borda que balança e me joga dentro d’água. Mas como sou tipo gato, caio de pé. Até quando minhas “sete vidas” vão durar? Penso em silêncio diante das gargalhadas pela cena inesperada e, fatalmente, cômica.

Mas agora é outro momento. Rever os jardins japoneses, respirar ar puro, lembrar como é estar vivo de fato. Sim, porque os últimos acontecimentos no ano passado, por vezes, me tiraram o senso. Essa coisa boa que é simplesmente sentir, respirar e dar graças por poder fazê-lo e contemplar tudo à nossa volta.

No jardim japonês — um belo parque num bairro fundado por japoneses no século 17, aqui na Florida —, volto à casa. Lá tenho aquele gostinho de brincar outra vez como criança, imaginaçao solta a cada parada e a cada visão de árvore que parece especialmente plantada ali apenas pra realçar meu apetite d…

L'AMORE NO >> Leonardo Marona

"orgulho do papai"

o suicídio foi marcado no primeiro dia
a fogo, ferro e, vá lá, algumas rosas,
estas que, nós bem sabíamos, jamais
agüentariam o mau tempo do adeus,
mas mesmo assim nós lambíamos
estas rosas de plástico como filhas,
e no fim chegou o dia, ficamos eu
e a corda e o penhasco e a árvore,
você se foi, fugimos ao combinado
e de ti, desculpe amor, roubei a foto
que guardarei na carteira, e daqui
a vinte anos, quando perguntarem,
responderei: essa aqui é a minha filha.


"fim de partida"

agora, prometo, calarei minhas chaves,
deixarei escorrer, dolorido, todo visco.
me arrancaram os corrimões infalíveis
e a memória antecipa-se aos acordos.

nada mais de gritos de veludo, os tiros
de festim tornaram-se balas de ponta
metálica, como o gosto no fundo do sexo
que não fornece mais ao cúmulo armas
necessárias para perpetuar com cismas
o que cansamos de matar com nomes.

agora você já vai bem longe, sumiram
os precipícios em cuja beira dormíamos
calmos, o vento parado anuncia cortes,
não mais,…

A ENTREVISTA >> Kika Coutinho

Juro que achei que fosse fácil. Com essa coisa de crise, recessão, quem é que não ia querer ser babá? Ainda mais assim, de uma bebezinha tão linda quanto a minha, oras.

Pois bem. Armei-me com alguns telefones e iniciei a minha peregrinação:

— Alô? Oi Socorro, tudo bem?, meu nome é Ana, estou procurando uma babá.

— Ah, pois não, estou mesmo procurando emprego.

— Vamos marcar uma entrevista? Moro aqui, do lado da praça.

— Claro...

A moça chegou. Simpática, jeito bom, esperta. Quando entramos no terreno de salário, tomo um susto. “Quanto?”, pergunto. Ela confirma... Opa... Como é que eu posso dizer a ela que também quero esse emprego?

— Se você achar uma vaga, pode perguntar se tem duas?

— Como? — ela não entendeu. Nem era tão esperta assim, consolo-me, enquanto a acompanho até o elevador.

A cena se repete algumas vezes, até que mudo a minha abordagem no telefone:

— Alô? Você quer ser babá?

— Quero sim.

— Quer ganhar quanto?

Bom, quando a resposta era satisfatória, eu passava para entrev…

JURAMENTO >> Carla Dias >>

Juro pela fragilidade da minha própria humanidade que tentarei não sucumbir às juras decoradas dos pequenos livros de memórias alheias aprisionadas às frases feitas. E que vou cavar buracos nas paredes, até que a luz engravide de presença o vazio dos quartos, requentando deslumbres devotados ao anseio pela recriação.

E recriar amiúde desalentos para que não falte matéria-prima aos poetas e aos autopiedosos.

Juro que sucumbirei aos sorrisos a cada recorrente espasmo de desalegria, transformando a prostração - oriunda do avassalador desconserto de quem nada sabe sobre si que dirá sobre o outro – no primeiro passo da dança tão aguardada. Mas que fique registrado que as desalegrias enfeitam o chapéu da intensidade, assim como a sua antagônica companheira:

A alegria de enxergar de olhos fechados as margens do corpo, as bordas do espaço, a mansidão da respiração. O vazio instalado em meio às multidões.

Juro não deixar de dar de comer e de beber aos sonhos, e os cuidarei ainda que tenha de niná-…

EU GOSTO E PRONTO
>> Felipe Peixoto Braga Netto

Eu gosto de sol, gosto de árvore, eu gosto de cerveja. Não, não há nenhuma relação óbvia entre os três, eu só queria dizer que gosto de cerveja, mas estava com vergonha de dizer assim, dizer só isso, sem outros gostares juntos.


Sempre gostei. Não gosto de outra bebida. Detesto uísque. Não tomo pinga. Tudo bem, a única infidelidade é um vinhozinho. Mas só para acompanhar uma massa ou, às vezes, num jantar romântico. Gosto mesmo é de cerveja.


Na Europa, no verão, toma-se sorvete. Aqui se toma cerveja. Está certo? Não sei. Mas por que não fazer os dois? Toma-se uma cerveja e depois um honesto sorvete. Vivemos no mundo do pluralismo, gente, é preciso aprender a não discriminar. (Ah, falando nisso, também gosto muito de sorvete, tem um perto lá de casa que é ótimo, um dia vamos lá).


É uma bebida que agrega. Talvez pelo fato do álcool da cerveja ser menos agressivo que o das outras bebidas. Quem bebe uísque, vodca, é muito mais solitário que quem bebe cerveja. Não sei, mas acho que as outra…

DOS MAIS VELHOS [Monica Bonfim]

Eu sou do tempo em que a gente crescia ouvindo que devíamos respeitar os mais velhos. Eu chamava até as primas de minha mãe de ”tia” e “senhora”. Os “mais velhos” sempre tinham razão, por motivos aparentemente insondáveis. Os mais velhos tudo sabiam e sua quilometragem na vida dava, automaticamente, um sentido de certeza absoluta aos seus comandos e vaticínios.

Mas eu também fui ensinada a pensar e questionar, então, num determinado momento, acho que minha cabeça de criança atribuiu uma sabedoria implícita — embora inexplicável — às atitudes dos mais velhos, até porque me diziam que quando eu crescesse (no início) ou ficasse mais velha (depois que minha estatura começou a aumentar muito rápido) eu iria entender.

Assim, acabei por atribuir, muitas e muitas vezes, quase uma visão profética às atitudes dos mais velhos que, naquele momento da minha vida, não faziam o menor sentido lógico ou, de fato, demonstravam apenas mesquinhez, orgulho, vaidade e ciúme. Não me parecia possível que aqu…

EPIFANIA NOTURNA ANTES DO INCÊNDIO >> Leonardo Marona

para você, Lispector, que nasceu com a cura Ao virar a página 84 do livro, sentiu calor e sono, era bolor e como que um entorpecimento de anestesia. Um sentir exagerado, os lábios inchados. Como um medo mortificante de finalmente entender sem precisar ponderar. Reparou que sangrava. Que diferenças têm o sangue e a vida? Era sua vida que escorria. Era o teto do quarto, claro de idéias, idéias selvagens, indomáveis, azuis e alaranjadas, e ela precisava escolher uma delas para flertar com ela até adormecer. Apanhou o caderno onde anotava suas paixões secretas, suas táticas miseráveis de aborrecimento. Anotou no papel:

O peso dos dias tem sido, não, não há didatismo aqui, não aqui, o didatismo é apenas uma forma de reconhecer a verdade quando se precisa – para forjar um cume, ou um crime – de um vasto continente de cismas tectônicas. Falemos então o que não é verdade, o que não é nada senão uma potência fugidia e desequilibrada. Escrevamos um texto leve hoje, eu junto àqueles por quem fui d…

A MADRUGADA >> Kika Coutinho

Quando eu era jovem — ups, mais jovem — frequentei algumas baladas na noite de São Paulo e achava que aquilo era muito emocionante.

Casei-me e, tendo minha filha, pensei: “Acabaram-se as noitadas, as emoções da madrugada ficaram no passado”. Ah, que tolice. Eu não sabia que as emoções das madrugadas estavam apenas começando.

Ter um bebê é como ir — obrigatoriamente — a uma rave, toda noite.

Imagine que você pode não estar afim de festa, pode estar com preguiça, cansado, sonolento, mas é obrigado a ir à balada. Pior, a balada vem até você. Toda noite uma rave, é assim que me sinto com a minha pequena notívaga.

Ao invés de rímel, pijama. Ao invés de salto alto, pantufas. O ritual noturno repete-se, com algumas diferenças da balada. Não pago nada para entrar nessa festa, ou melhor, não pago diretamente, mas, mensalmente, essa rave custa-me uma pequena fortuna.

Também não recebo a festa sozinha, não; meu marido compartilha comigo das noites intermináveis desse clube e, juntos, descobrimo…

UMA CARTA >> Carla Dias >>

Meu amigo,

Tarde quente nessa cidade que cata cinzas dessa quarta-feira. Fantasias no guarda-roupa da alma, colhendo pó de anteontem, um relicário de mazelas e belezas. E eu espiando as coisas de ser aqui desse canto, as extremidades da aurora sambando as canções de amor e dor de Alice Cooper. O rock batucado nos tamborins sedutores de sentidos, depois descansando no corpo das alfaias.

E então, o silêncio faz falta.

A noite que se despediu teve de mim a companhia dos olhos arregalados. Aproveitaram o carnaval para arrumarem as calçadas, entupirem o estoque, pilharem comilança. Então, o supermercado em frente recebeu caminhões barulhentos nas madrugadas silentes de feriado prolongado, caprichando em seu samba enredo na noite de ontem. E eles gritaram até: os caminhões e os moços entregadores. Enquanto isso, meu sono se perdeu de vez de mim, exausto com a festança das noites anteriores: caminhões, gritaria e falta de respeito para com aqueles que usam as noites para dormir.

Poderia colocar …

FANTASIA >> Albir José da Silva

Tudo planejado há uma semana. A cabeça trabalhou rápido quando ouviu que poderia ajudar na obra e receber o dinheiro na sexta-feira: uma roupa nova - que nem precisava ser nova – da feirinha da igreja, uma sandália branca, um chapéu de palhinha e um cordão dourado que viu na feira por oito reais. E um dinheirinho no bolso até quarta-feira pra cerveja, o angu à baiana e um churrasquinho, se alguma mulher valesse a presença.

Acordou cedo, sentindo a agitação do carnaval, mas ficou triste ao lembrar do bolso quase vazio, apenas uns trocados que sobraram do almoço da semana. Trabalhou duro, mesmo com a perna doente, e agora o dono do trabalho desapareceu.

Desceu até o Largo do Estácio e, de passagem, perguntou ao Pernambuco pelo patrão desaparecido. O outro gritou com ele que também era empregado e não sabia de nada. Quitério teve certeza de que o Paraíba embolsara seu dinheiro.

Passou no boteco. Antes o português gostava dele. Nos bons tempos pegava fiado e pagava direitinho. Depois que f…

MINHA FOLIA >> Eduardo Loureiro Jr.

Parece que é Carnaval. Não estou de todo certo, mas ouvi falar. Em algum lugar, longe da minha vista e de meus ouvidos, deve haver foliões mais ou menos embriagados. Alguns, a essa hora da manhã, devem estar curando a ressaca com mais bebida. Em Aracati, estão todos na praia de Majorlândia. Em Olinda, subindo ou descendo ladeira atrás de um bloco de nome estranho.

Se eu não tivesse outro motivo para desgostar do Carnaval, bastaria uma foto antiga de um menino gordo vestido de pirata: chapéu, tapa-olho, cara de poucos amigos, colete, banhas e calça. Ainda existe gente que tem saudades da infância...

Aqui em Brasília, se alguém quiser, suponho que seja possível "brincar" o Carnaval. Você tem que ir atrás, não é como em outros lugares em que a "brincadeira" vem até você — lembrando sua outra denominação: entrudo. Podem falar o que quiser de Brasília, mas aqui, mesmo nesses dias, se liga o rádio e se ouve música, Música.

Sei que estou bancando o chato, que melhor seria…

DOS TIJOLOS [Monica Bonfim]

Alguém me contava, outro dia, um final de um filme — se não me engano dirigido pelo Mel Gibson — onde alguns índios numa praia não viam a aproximação das caravelas; o único que enxergava os navios era o pajé.

E lembro que em “Ilusões”, Bach faz seus personagens discutirem sobre isso: “Vivemos mesmo no mesmo mundo uns dos outros? É relevante para nós o que apavora os outros? Chegamos a enxergar a barata que deixa a outra apavorada? Vemos a loja que não está mais lá?”

Outro dia passei por uma construção que minha memória não registrou seu adiantamento: esse prédio já estava aí deste jeito anteontem quando eu passei? Tenho a teoria (não creio que seja original) que nossas dificuldades são muros que nos impedem de enxergar o óbvio; uma coisa assim, tipo antolhos de cavalos... Só nos deixam enxergar uma parte da realidade. Ou talvez essa dificuldade de enxergar algumas coisas seja uma forma de nossa mente se defender da quantidade de informações que podemos processar sem o reboot do sono:…

DA JANELA DO TREM, COM LENÇO NA MÃO >> Leonardo Marona

Um ano não conclui nada: a ficha cai num segundo. Estamos no ano de 2010, e o que falam para mim de mais importante é: “Acabou a época da loucura, agora começa o milênio” – acho isso patético, porque meu desespero continua antigo. Forneço “esticas” na mesa do bar: é claro que eu sei de menos. Mas quero voltar ao assunto, ao rock que ainda vive, independente de mim, ele está à beira-mar. Estamos todos ali, nos dando adeus para sempre.

Amo aquilo de que padeço: eis a grave questão: acredito ainda no heroísmo inseguro. Obviamente já falaram sobre isso melhor do que eu, mas será que todos esses gênios, ao colocarem o corpo junto ao corpo furtivo, à droga inesperada no auge da boca, na gengiva mais tênue, no fluxo fixo do sangue, entrando nos banheiros minúsculos para fazer filhos fisicamente desejáveis, mas não desejáveis porque acabou o comunismo real, será que estaríamos, neste ponto específico, realmente tão longe dos nossos desejos, tão longe quanto, diríamos assim, dos nossos próprio…

MÃES >> Kika Coutinho

De todas as lições que aprendemos quando somos mães, talvez a mais importante delas não tenha relação com o seu próprio filho.

Quando eu voltei da maternidade, assim que cheguei em casa, muito assustada e cansada, chorei. Foi o meu marido quem consolou-me com todo seu amor e carinho.

Aos poucos, ele voltou a trabalhar enquanto eu tentava — muito sofregamente — voltar a viver. Logo no início, mandei um e-mail para uma amiga, já mãe. “Socorro” era o título. Ela não demorou a me ligar e a me acalmar. As amigas que não eram mães ligavam para as que já eram, e eu comecei a receber telefonemas de pessoas estranhas, que eu não conhecia.

A cunhada de uma amiga, mãe de uma pequena menina, apresentou-se para, em seguida, dizer: “Eu sei o que você está sentindo, mas logo vai passar...”.

Numa lista de internet, mulheres que eu nunca vi me escreviam oferecendo-se para vir em casa, explicando com detalhes como massagear o seio para o leite descer, como segurar a bebê para a cólica passar, quais os …

TOP NINE >> Carla Dias >>

Admiro muito o John Cusack, não só pelo seu talento em atuar, mas também pela escolha dos seus projetos e pelo seu trabalho como produtor, que inclui o ótimo Nossa Vida Sem Grace (Grace is Gone/2007), no qual também participa como ator.

Apesar de não ser frequentador da roda dos galãs, Hollywood se orgulha dele. Mesmo em blockbusters como Queridinhos da América (America’s Sweethearts/2000) e 2012 (2009), percebe-se que não o moldaram ao gosto do que se espera para os personagens que interpreta. Há originalidade nas atuações de John Cusack.

Assisti, novamente, ao filme estrelado por ele e baseado no livro de Nick Hornby, Alta Fidelidade (High Fidelity/2000). É um filme muito bacana, bom em vários aspectos, como na participação de Jack Black e direção de Stephen Frears. Este filme traz o personagem interpretado por Cusack, Rob Gordon, traçando um paralelo de seus amores e as mazelas da vida adulta, através de listas de hits da música. E decidi fazer como Rob Gordon: selecionei os cinco fi…

HOJE FOI ANTEONTEM >> Eduardo Loureiro Jr.

Às vezes, me sinto desconfortável quando escrevo com antecedência uma crônica que só será publicada alguns dias depois. Gosto da sensação de escrever no final da manhã de domingo e publicar a crônica imediatamente, como quem lança o anzol na água e fica esperando, quieto, aparecerem os peixes dos comentários.

Quando escrevo antes, como hoje, com dois dias de antecedência, sinto-me falso porque vocês vão ler, no domingo, uma emoção requentada, que talvez já não seja mais a minha emoção. Sei que meu motivo é justo — estarei viajando, sem acesso à internet, sem acesso nem mesmo a telefone celular — mas, se isso anula a culpa, não desfaz o sentimento de perda da relação quase imediata com vocês, leitores.

Então fiquei aqui pensando o que eu escreveria se escrevesse só daqui a dois dias. É certo que não terei tempo para isso, estarei com outros colegas escritores planejando mais um ano de atividades da Casa de Autores. E, como sempre digo, reunião se define como um encontro de pessoas par…

TEMPO [Debora Bottcher]

Chegar aos setenta anos e olhar para trás. Saber: finalmente, tudo passou e o que resta tem sabor de espera... A espera sombria da Morte... O silêncio...

Tons de cinza mesclando o azul dos seus olhos, um emaranhado de vida esquecida... Rugas... A pele marcada nunca será como a alma... Lá, as cicatrizes ainda rasgam-se escorrendo amarguras... Muitas saudades...

Um amontoado de anos perdidos, sobrepostos, amassados e jogados ao chão... Imenso cansaço...

Perdas... Tantas, que perderam-se de si; tantas dores que o coração cessou de bater; tantos sonhos dispersos que, muito cedo, se parou de sonhar: todas as emoções foram ancoradas em folhas de papel, um sem número de Diários descansam agora nas caixas do sótão... Segredos... Algum dia serão revelados? Quem terá tamanha curiosidade para desvendar centenas de páginas com letras incompreensíveis de ler? E de entender...

Quem conseguirá descobrir nos ideogramas rabiscados o interior de uma mulher que por todos os seus anos viveu encerrada num…

DEVANEIOS ÀS VÉSPERAS DE UM ENCONTRO >> Leonardo Marona

empato comigo mesmo quando quero vencer a marcha simples do afeto e minha raiva, por mais que sim, não, não cabe, não sou grande o suficiente para morder lábios que não sejam imaginário sangue, e para encarar a própria faringe minha carcaça se apega fácil demais e odeia rádio que se ouve só, e, como Mozart, queria sair por aí perguntando “você gosta de mim?” e poder chorar por uma réplica negativa ou ter uma crise convulsiva se alguém tocasse uma nota de trompete, mas tudo supera a delicadeza e por isso só malucas se aproximam de mim do mim que não é meu, infelizmente, mas gostaria de dizer, ainda assim, para impressionar minha própria fragilidade: “dos trinta filmes que realizei...”, “de fato, dos 15 contos de minha última antologia...”, ou bocas em dúvida por causa de avenidas mudas, tortas, ou espertas demais, ou bichas sérias, o que não me ajuda muito na relação entre o que eu quero e aquilo que eu tenho na minha frente, sem saber no fundo do fato, de fato, que se passa na minha c…

QUANDO EU ERA PEQUENA
>> Kika Coutinho

Quando eu era pequena, gostava de descobrir coisas tolas do mundo.

Passava séculos olhando o relógio digital, esperando pelo pequeno instante em que o número do minuto iria mudar, para ver como se dava a mágica. Ficava ali, os olhos abertos, concentrada na frente do relógio e, estranhamente, no raro instante em que eu piscava, pronto, o número mudava e eu perdia o grande acontecimento. Até hoje não sei como se dá a troca de um dígito para o outro, no relógio.

Quando eu era pequena e acordava no escuro, sentia muito medo e aflição, porque pensava que poderia ter ficado cega. Quando eu era pequena e acordava no escuro, tratava de procurar uma luzinha qualquer, uma sombra, uma imagem que me mostrasse que minha visão ainda funcionava e...  não, eu não estava cega. Em compensação, quando eu era pequena e dormia com alguma iluminação, dessas bem fraquinhas que confundem a gente, os móveis e a desorganização do quarto sempre formavam monstros na minha imaginação.

Quando eu era pequena, deita…

A EXPERIÊNCIA >> Carla Dias >>

“Experiência é uma professora brutal,mas você aprende.
Meu Deus, você realmente aprende.”
C. J. Lewis

Na teoria, percebemos que somos pessoas capazes de derrubar quase todos os obstáculos que vivemos na prática. E não que essa capacidade seja apenas uma ilusão, mas é que, na teoria, somos mais ousados e desprendidos. Na prática, sentimos falta das facilidades.
Hoje, batendo na porta dos quarenta anos de idade, posso dizer que tenho dentro de mim um Banco de Teorias, que visito frequentemente para ver se alguma delas está pronta para cair no mundo.
Outro dia, reli um poema antigo que só, que diz muito sobre quem eu era bem antes de quem sou hoje. Diz tanto que me envergonhei de ter deixado aquela pessoa lá trás, guardada no meu banco particular, trazendo para a prática somente o que dela era fácil de carregar. Ao mesmo tempo, as experiências que escolhi para viver me soaram ousadas em muitos aspectos, assim como a maioria das que me escolheram deram de me doer aqui e ali.
O grande barato d…

SAUDADE DO CÉU >> Felipe Peixoto Braga Netto

"A morte não
existe para os mortos."
(Carlos Drummond de Andrade)

Eu acredito no céu. Não falo nesse aí, azulão, em cima de nós, por onde passeiam os aviões. Falo em céu mesmo, céu de criança, aquele para onde vão as pessoas boas quando morrem, ou pelo menos assim mandam dizer às crianças.

Sim, é uma bela ideia. Muito verdadeira, suponho. Digamos que ele realmente exista, lá num lugar secreto, que só saberemos quando não podermos voltar pra contar. Sim, partamos daí. O que será que lá estarão fazendo, agora, meus amigos? Não falo dos amigos conhecidos, amigos do dia-a-dia, até porque, honestamente, não tenho tantos. Já tive, mas... Não, não desviemos o rumo da vela.

Fico vagabundamente pensando: o que estará fazendo, agorinha mesmo, lá no céu, Rubem Braga. Sim, velho Braga, penso em você, com afeto viril de irmão mais novo, que não te conheceu, mas que te quer bem...

E o Paulinho Mendes Campos, teu camarada? Vocês tem se visto por aí? Há belas mulheres no céu, Rubem? E mar? …

O SILÊNCIO >> Albir josé da Silva

Próprio e alheio, quando devido, deve ser um direito sagrado. Em situações de estresse não se deveria exigir ou dar explicações. Ou melhor, as explicações deveriam ser proibidas. Um silêncio consternado pode ser boa alternativa a explicar o inexplicável, defender o indefensável ou justificar o que não se deveria ter feito. Também não tenho conseguido ficar calado sempre que devo. Mas preciso exercitar isso. Não gosto das minhas desculpas. Mesmo quando verdadeiras, fico com a sensação de que o ouvinte está pensando: esse cara acha que eu sou idiota de acreditar numa história dessas?

A Constituição Brasileira de 1988 consagrou o direito ao silêncio. Antes dela, o silêncio podia ser interpretado em prejuízo do silente. Mais um motivo para pensar duas vezes antes de falar. A sabedoria popular sempre ensinou: em boca fechada não entra mosca. Quem fala quando deveria se calar faz péssima propaganda de si mesmo. Tenho ouvido algumas desculpas e explicações que deixam envergonhados os ouvinte…