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Mostrando postagens de Junho, 2015

DE CORAÇÃO PARA CONTINENTE
>> Albir José Inácio da Silva

De um lado o Forte de Copacabana, do outro Niterói e as montanhas, e no meio, invisível, a África. África, segundo os mapas, porque eu, o que vejo é uma reta ligando as duas pontas. Abaixo dela o azul verde do mar, acima o azul claro do céu na manhã de inverno.
Tenho a sensação de que da África alguém, como eu, olha pra cá. Por que não olharia? O sol é o mesmo, o mar é o mesmo e as histórias se cruzam. Além disso, a linha tropical e pontilhada de Capricórnio nos liga. Será que alguém sentado na areia não tem os olhos apertados pelo sol na direção do Rio de Janeiro? Ah, tem!
Cisma o irmão africano, e atrás dele o enorme continente negro, berço da humanidade, tão aviltado pelos humanos portadores da pólvora, que homens livres fizeram atravessar o mar em correntes para a morte no mar ou a morte em vida.
Será que o sangue do irmão pulsa fraterno pelo Brasil que ele também não vê? Pode ser que se convença de que nós aqui neste século XXI não somos mais que seus irmãos para o bem e para o …

O PADRE E O CARTEIRO >> Sergio Geia

Escolho uma mesa que fica encostada na parede, a última na verdade, lugar que me dá uma boa visão do lugar. Peço pra mocinha o de sempre: pão com manteiga na chapa; café expresso com leite, pequeno; um suco de laranja coado e com gelo.
É mais uma manhã comum do meu dia. Já tinha corrido na Santa Teresinha, agora tomo café, depois uma ducha, para enfim trabalhar. Mas sinto que minha curiosidade de cronista está aguçada e, enquanto espero o café, me ponho de butuca atento ao ambiente, às pessoas, tudo, à cata de matéria-prima.
Normalmente, amigo, faço isso naturalmente, como respirar. Quando dou por mim, estou lá, um abelhudo concentrado no sujeito lendo jornal, nas meninas conversando, no casal tomando café, até num papo de doença entabulado com alegria por dois velhinhos. Há muito material pulsante esperando pra virar crônica. A vida é a minha matéria-prima.
Mas hoje sinto que estou com os sentidos mais aguçados do que o normal. Infelizmente, porém, vendo o tempo passar, já tomando suco,…

O PREÇO DO RÓTULO >> Paulo Meireles Barguil

Quantas descobertas em pouco mais de 500 anos...

De centro do Universo, a Terra, diante de infinitos espaços-tempos, buracos negros ou coloridos, com ou sem minhocas, foi reduzida à mera coadjuvante!

Esse conhecimento, contudo, só é partilhado e compreendido por poucos humanos.

Emocionalmente, quase todos ainda estamos, com muito otimismo, no primeiro milênio da Era Cristã.

Os rótulos e as máscaras, que usamos para tentar não nos perdermos na floresta encantada, nos afastam desse raro entendimento.

O Homem, para celebrar a vida, necessita perceber as mudanças, que estão sempre acontecendo e que escapam ao rótulo, editado no passado...

As máscaras empobrecem o nosso viver. Como jogá-las fora? Como não colocá-las no outro, sob a forma de rótulo?

Nos comunicamos para decifrar os mistérios ou tentar enquadrá-los (e a nós mesmos)?

Diferentes linguagens criamos durante essa aventura:

Mímica

Som

Pintura

Palavra

Texto

Fotografia

Código de barras

Resposta rápida (quick response)

...

É engr…

TÁ COM PREGUIÇA? VAI CORRER >> Mariana Scherma

Uma coisa sempre me diverte: pessoas explicando por que não fazem atividade física. Não tenho tempo. Não tenho dinheiro. Tenho um problema no joelho (que foi diagnosticado pela própria pessoa – que nunca estudou medicina). Dá preguiça. Ando estressado. Tá frio. Tá calor. Hoje não. Amanhã também não. Eu suo muito. Fui semana passada já. Não tenho roupa. Não gosto de academia. Quantidade meio sem fim! Com a recente pesquisa do Ministério do Esporte, várias dessas desculpas invadiram os jornais na semana e, caramba, como eu me diverti.

Eu sou dessas com zero preguiça pra esporte. Amo mexer o corpo por alguns motivos: é o único corpo que eu tenho, motivo suficiente pra ser bem cuidado. Depois da atividade física, fico mais feliz, cientificamente comprovado. Meu cérebro funciona melhor, fica mais oxigenado, sei lá... Qualquer roupa veste melhor. Quando bate a vontade, repito a sobremesa (ou a refeição principal) sem culpa. Por tudo isso, não entra na minha cabeça qualquer desculpa contra o…

AS PESSOAS E A SUA PESSOA >> Carla Dias >>

Ele chega com seu olhar adequado, procurando pelo que lhe cabe, o que há de ser palatável à sua compreensão adotada por puro conforto. Avista pessoas lidando com a felicidade dos ébrios e das invencionices, determinados a desfilar pelas colunas sociais da percepção de seus contatos comerciais.

Ele se demora na contemplação distante, como a fazer contagem regressiva para o final do comercial e a volta ao reality show preferido. Respira fundo e tica itens, mentalmente: melhor roupa, ok, sapatos lustrados, ok, melhor perfume, ok, barba bem feita, ok, cartão de crédito com limite nas nuvens, ok. Tudo e todos parecem estar onde deveriam.

Inclusive ele.

Caminha até os amigos recém-conquistados, assim como o cargo de diretor geral de prestigiosa multinacional. Os adjetivos, adquiridos com o posto, ainda lhe soam estranhamente. Porém, não é difícil se acostumar a eles, tampouco à mudança de salário ou ao aroma de um Henri Jayer Richebourg Grand Cru. Lembra-se, então – enquanto beija as faces…

ESTOU INDO PARA A FACULDADE DE ARTES
>> Clara Braga

Esses dias estava lembrando daqueles memes, famosos no Facebook, que mostram imagens indicando o pensamento dos pais, dos amigos e da namorada/namorado quando o cara diz que está na faculdade tal em contraste com a imagem real. Alguns eram divertidíssimos, me parecia que quanto mais "de humanas" o curso era, piores eram os pensamentos, principalmente os dos pais e da namorada/namorado.
Nunca soube exatamente o que meus pais pensavam quando eu falava que estava indo para a faculdade de Artes. Talvez eles pensassem que eu estava de mudança, por causa da quantidade de coisa que eu levava, fora isso eu nem imagino. Meus amigos eram divididos, alguns achavam que eu ficava vendo gente pelada o dia todo, o que não estava totalmente errado, já que desenho 1 e 2 era com modelo vivo e nu. Mas na época em que eu fazia faculdade de Artes e Letras ao mesmo tempo, saía da aula de gravura e ia direto para a aula de gramática. Com certeza, o pessoal de Letrasachava que eu era drogada, cheg…

DO PERDÃO >> Whisner Fraga

Naquela época, o Brasil vivia uma crise e minha família também. Com o divórcio, minha mãe, uma dona-de-casa esperta e temerosa, tentava sobreviver. Da separação ficara com uma casa razoavelmente grande, que alugava. Tinha uma pequena renda, oriunda dessa locação e da pensão de um salário mínimo ao mês. Como morava apenas com meu irmão, não precisava de um imóvel tão grande, de modo que ambos locavam um apartamento de dois quartos.

Minha mãe é uma pessoa muito correta, de forma que prefere sacrificar o que for possível e o que não for para não ficar devendo a ninguém. A família que habitava a casa dela não era rica, mas os parentes sim. Era um irmão o responsável por todas as despesas deles. A coisa ia razoavelmente bem, a não ser pelos constantes atrasos no pagamento. Os milionários não eram pontuais na liquidação de suas dívidas.

Minha mãe, acostumada, explicava para o Enio da farmácia, para o Sebastião do mercado e para o Vilela, do varejão. Todos entendiam que a senhora era uma boa…

CANTIL >> Sergio Geia

Deixa eu lhe contar essa: o programa era um churrasco com amigos, com direito a violão, pagode e piscina. Nada mais ordinário nesse mundo de encher o bucho. Forrei a sacolinha de supermercado com as cervejas que encontrei na geladeira, mas o que eu queria mesmo, amigo, era levar minha cachaça que guardo aqui no cofre dos destilados, para poder, nos intervalos entre uma malpassada picanha e outra, dar uma bicada no líquido precioso.
A cachaça que tenho aqui, muito bem armazenada por sinal, num espaço de minha sala que alcunhei de “cofre dos destilados”, é de bálsamo, produzida num alambique esplêndido da cidade de Guararema, e trazida até mim pelas mãos sagradas e embriagadas do Julio, grande amigo cuja sogra mora lá, numa aprazível chácara nos arredores da estradinha que vai dar em Mogi. Pra quem não sabe, Mogi e Guararema são unha e carne; como Taubaté e Tremembé, Santana de Parnaíba e Barueri.
Tenho certeza que meus amigos cachaceiros apreciariam a delicadeza do gesto, e assim, além d…

ESCOLHAS >> Zoraya Cesar

Miranda queria um amor. Um amor suficiente, dizia, que fosse para sempre. Não queria paixões, não queria arroubos, suspirares românticos, melosidades. Queria mão na mão, cumplicidades, silêncios, um amor suficiente para colorir a alma e fazer da vida uma experiência melhor. Um amor para o dia a dia; para a noite também. 
Em junho, mês de Santo Antonio, Miranda pediu-lhe que a ajudasse a encontrar o seu amor suficiente. E, coincidência ou não, assim que saiu da igreja, Miranda encontra o homem que fora o grande amor de sua vida. Coisa de cinema. Eles pararam, olharam-se longamente, aproximando-se em câmara lenta. Primeiro, encostaram as testas, depois o nariz, depois a boca. O beijo foi longo, profundo, e, aos poucos, os braços dele a envolveram como se nunca mais fosse soltá-la, como se os 15 anos de afastamento nunca tivessem existido. Só se largaram quando a necessidade de respirar foi mais forte.
Jonas! O beijo, o cheiro, a maneira de abraçar, de sorrir, nada mudara. Estava um pou…

DESASSOMBRO >> Carla Dias >>

Quanto mais o tempo se coloca entre nós e algumas das nossas histórias, mais essas histórias se parecem com a de outra pessoa. Poderíamos até contá-las como se falássemos sobre algum conhecido, com quem mantemos uma relação de afeto, apesar de estarmos distantes.

Acredito que o mesmo aconteça com os desejos para a vida. Não são apenas planos, projetos ou sonhos, mas desejos aos quais dedicamos muito tempo e trabalho para realizar, e que postergamos essa realização com a sensação de autoria desse ato, quando na verdade se trata de um cancelamento do destino. Não à toa, todos nós acabamos por conhecer – ou nos reconhecermos em – pessoas que não conseguem aceitar que esses desejos já não cabem mais na realidade delas.

Quando aprendemos que o indelével é tão frágil quanto o perfeito, nos tornamos capazes de reconhecer a riqueza da troca que a vida nos oferece. Os desejos podem não ser aqueles de há duas décadas. Eles podem ter sido transformados não somente pelo tempo que passa - proporc…

FELICIDADE X TRABALHO, A ETERNA BATALHA! >> Clara Braga

Outro dia ouvi a conversa de duas alunas minhas. Elas estavam angustiadas por terem que fazer a inscrição para o vestibular e não estarem certas sobre o curso que escolheram. Na hora dei aquele risinho interno, me lembrando de quando passei por essa fase e descobri que até hoje, depois de formada, ainda tenho dúvidas sobre qual curso escolher no vestibular. Preferi não comentar nada, afinal, não seria exatamente uma boa forma de acabar com a angustia delas, acabaria piorando a situação. Continuei ouvindo, quando uma delas disse:
 - Você tem que escolher o curso que te faz feliz, pois depois você vai trabalhar com isso e se você estiver feliz, nunca vai precisar trabalhar de fato.
 - Nossa, profundo isso!
Cheguei a dar aquela respirada de quem se prepara para falar algo, quando ela voltou a dizer:
 - Essa sempre foi a lição que minha mãe me passou, ela sempre fala isso para mim e eu guardei.
Engoli a seco e continuei corrigindo umas tarefas como se nada tivesse acontecido. Nesses ensi…

CADÊ O GATO? >> Albir José Inácio da Silva

Melhor que fosse acusação ou ameaça, dessas gritadas, das quais a gente se defende também com gritos, contra-ataca e deixa desmoralizado o acusador. Mas não era. Nem mesmo uma insinuação. Era só um lamento. Um choramingo.
- Já tem três dias que ele não aparece.
- Alguém matou. Covardia.
- Deve ter sido veneno, tem gente que é ruim.
Ao contrário das acusações e ameaças, das carapuças não se foge nem se responde. Mesmo quando passam ao longe, apenas entreouvidas, parecem atraídas pelas cabeças onde cabem. Aquele “tem gente que é ruim” me disparou uma taquicardia e não consegui evitar um gemido. O adulto mais próximo percebeu e não deu importância.
Mas quem sumiu? Não era um gato preto, misterioso e mal-assombrado, desses que lembram bruxas e demônios.  Era simpático e malhado de cinza e amarelo. Esfregava a cabeça e o dorso nas pernas das pessoas querendo carinho. Brincava com os outros animais, até com os pintinhos, sem ferir ou ameaçar ninguém. Os que não gostavam de gatos diziam …

O CAMINHO >> Sergio Geia

A imagem é a de uma lata de salsicha. Pode ser de ervilha. Milho. Grão de bico. Mas ele não consegue encontrar a ideia de prisão de que tanto falam, de alguém escravo de suas próprias peles; embutido. Foi criando, eles dizem. Achando que era assim ou assado. De repente, estava escondido debaixo de uma fileira de edredons.
Tudo aconteceu de forma rápida e natural, eles prosseguem. Imperceptível também. Nada forçado, empurrado. Mas ele ainda não percebe tão claramente. Tudo está escondido num nevoeiro denso. Se bem que tem o tal do feeling. Ele tem. Na verdade, no fundo, mas bem lá no fundo mesmo, ele sabe. Sempre achou que estava fazendo a coisa certa, que percorria uma estrada segura. O que não podia imaginar era que essa estrada aparentemente segura e charmosa pudesse ser uma armadilha. A pele foi cortada. A natureza, transmudada. A alma, mutilada.
Elas gritam. Até então, viviam lá, tranquilas, pescando bacalhau na Noruega. Tipo sujeira debaixo do tapete. A ficha cai e ele resolve olh…

MADRUGADA DOS ENCANTADOS >> Paulo Meireles Barguil

Foi de madrugada.

No comecinho dela.

Os relatos são contraditórios.

Uns dizem que foi ela.

Outras sussurram que foi ele.

Todos concordam que aconteceu.

Umas declaram que foi repentino. Outros suspeitam que foi planejado. Ninguém sabe ao certo o que de errado aconteceu. Alguém duvida de que o equívoco levou à virtude. Há quem acredite que Deus ajuda quem cedo madruga. Eu suspeito que Deus, também, ajuda quem tarde anoitece. Há quem acredite que quem canta seus males espanta. Eu suspeito que quem silencia seus bens encontra.

SOBRE O AMOR INTEGRAL E BOICOTES >> Mariana Scherma

A primeira vez que eu vi a propaganda do Dia dos Namorados, de O Boticário, pensei comigo: “que lindo! E que bom que as pessoas estão tornando o amor mais real, sem preconceito!”. Depois, vi com meus pais e chegamos à mesma conclusão. É em casa que a gente aprende que preconceito só atrasa. Amor vai ser sempre amor, não importa se hetero, homo ou qualquer outra denominação. Todo mundo tem direito de gostar de alguém, seja ele branco, negro, amarelo, homem, mulher ou inventado.
Mas aí teve até uma reclamação no site Reclame Aqui de uma mulher insatisfeita por “ver a banalização das famílias no modelo tradicional”. Oi?! Ela diz mudar de canal toda vez que vê uma cena gay e não quer que seus filhos assistam à propaganda. Oi?! De novo. Toda vez que eu me deparo com esse tipo de preconceito, cresce uma revolta tão grande dentro de mim que fica impossível engolir e continuar, tipo engolir sapo, sabe? Dessa vez, não vou engolir e ainda vou dizer umas duas ou três coisinhas a esse tipo de gent…

A MENINA DO PÔSTER >> Carla Dias >>

Nasceu meio torta, esquisita mesmo, como gostavam de dizer as meninas descoladas da rua onde morava, as mesmas da escola que frequentava. Beijar pôster de artista, antes de dormir, e bater papo com eles sobre seus sonhos para quando se tornasse adulta, renderam muitas zombarias, algumas capazes de magoar naquele tom de poesia pós-aquisição de tristeza porreta e completamente indesejada.

As meninas ficaram sabendo do seu segredo, porque, sem querer, o irmão comentou com elas. Ele é popular, adora impressionar as meninas, então embarcou na curiosidade delas sobre a irmã. Foi o que bastou para que elas tivessem assunto para semanas.

Tirando essa zombaria sem fim, a menina acredita que pode falar com quem quiser, ou com o quê. Ela conversa com o zelador e com Soraia, do apartamento 32, que vive no prédio desde muito antes que a menina e adora incenso. O Ludovico, moleque danado do apartamento 34, disse que ela é Hippie Chic. A menina não sabe o que é isso, mas gosta do cheiro dos incenso…

SUBJETIVIDADE >> Sergio Geia

Na insegurança da publicação do meu primeiro livro, algumas coisas me serviram de estímulo e me deram coragem pra seguir em frente. A análise de uma profissional do Rio de Janeiro, por exemplo, contratada para apontar os defeitos. “Você não me contratou para dourar a pílula, né? Para receber elogios?” “De jeito nenhum.” Surpreendentemente, oitenta por cento da resenha foi positiva. Os outros vinte eu tratei de dar duro pra melhorar.
Outra coisa: a crítica literária. Tipo essas duas que tratam do mesmo livro.
1. O livro não é ruim. Ele é simplesmente muito ruim, e o advérbio de intensidade não é utilizado aqui de modo leviano. Ao contrário, a resenha reclama esse tipo de posicionamento logo de cara, a fim de deixar bem clara a posição do resenhista. Malsucedido é um tijolo de pouco mais de quinhentas páginas que não mostra absolutamente nada, ou, mostra superficialmente, digamos, cenas pobres e malnarradas de um cotidiano chinfrim passado numa favela de São Paulo. Honestamente, a primei…

MATILDA >> Zoraya Cesar

Não havia casal mais amoroso, isso era certo. Não obstante o fato de ele ser 38 anos mais novo que os 64 de Matilda.
No início, todos os conhecidos dela – e, porque não dizer, os de Edu também – pensaram tratar-se do velho, mas sempre atual, golpe do baú. E por que assim não creriam? Se não, vejamos: ela, enfermeira aposentada pelo serviço público, sem parentes ou aderentes que pudessem, de alguma forma, herdar seus bens. Que não eram muitos, mas eram sólidos. Um apartamento bem localizado, um carro ano 2000 e uma poupança razoável. Era gordota e flácida, vestia-se com um mau gosto atroz e - não sejamos bondosos ou hipócritas - era feia e mal ajambrada. Parecia um pequeno espantalho. Ele, por sua vez, era bonito, alourado e musculoso - mas pobre e suburbano -, recém-formado em Educação Física, por uma dessas faculdades que o MEC nem sabe que existe; a academia, na qual trabalhava o dia inteiro, era pequena, se o professor não desse a sorte de ser contratado como personal trainer, cor…

A SURPREENDENTE DESCOBERTA >> Carla Dias >>

Disseram-lhe que Deus abençoava, mas ele só se conscientizou quando o gerente de marketing garantiu. Depois do uso, deu errado. Ninguém sabia dizer o motivo, nem mesmo o atendente do SAC, pelo qual foi atendido após 43 ligações e 43 protocolos anotados no verso daquela carta. Ele ficou confuso... Por que ninguém lhe esclareceu sobre os efeitos colaterais?

A mãe disse que era obra do diabo, que tinha dado errado porque ele assistiu àquele filme de título escabroso, noite passada. Benzia-se a mãe, enquanto a irmã alegava – voz arrastada, como se ainda não soubesse o significado das palavras - que a culpa era mesmo daquele político que, desastrada e desastrosamente, afanou a dignidade do cidadão. O pai, que ele pensou ser alheio aos acontecimentos da casa, verbalizou a indignação em ver o filho passando por apuros pelos quais homens de família jamais deveriam passar.

Colocou a carta no bolso, melhor não se afastar dos seus 43 números de protocolo. Saiu de casa ruminando a confusão emoci…

TÁ DIFÍCIL >> Clara Braga

Lá estava eu no carro, no banco do carona, conversando com o motorista tranquilamente quando em questão de segundos tudo muda. O carro da frente, andando um pouco distante, estaciona na parada de ônibus, o motorista abre a porta e se joga na frente do nosso carro. Reação instantânea e espontânea? Um berro que veio do fundo da alma e dizia: DESVIAAAAAAAA!!!!!!!!!!
Nem me lembro a última vez que gritei dessa forma, o susto literalmente me fez passar mal. Nunca tinha passado por nenhuma situação parecida. Já tinha imaginado como reagiria e o que é correto fazer, mas sentir na pele, nos músculos, nos ossos e na alma, isso nunca.
Alguns calmantes depois consegui começar a tentar assimilar a situação. Sim, apesar da lembrança ser um borrão como um sonho, um homem tinha de fato se atirado na frente do carro. Suicídio? Acredito que não, ele balançava as mãos para o alto quase exigindo que a gente parasse, e quando viu que não íamos parar de jeito nenhum, pulou para o lado contrário. Estava f…

O CONDEMÔNIO >> Albir José Inácio da Silva

Um professor de direito civil dizia sempre que condomínio não dá certo porque já começa errado pelo nome. Deveria se chamar condemônio.
Não acredito nisso. Deve haver lugares em que as pessoas vivam em harmonia. Mas a história de hoje com certeza não se passou num desses lugares.

- É a cota de condomínio mais cara do bairro, e um prédio caindo aos pedaços! Só eu vejo isso? Aonde vai o nosso dinheiro? – esbravejou Dona Francisca, engasgando o pobre síndico reeleito, Dr. Cunha.
Ela interrompia a cada cinco minutos. A reunião não andava. Dona Francisca parecia uma velhinha indefesa, mas quando abria a boca não poupava ninguém. Há anos revoltava-se sozinha contra os desmandos no edifício, os outros moradores pareciam anestesiados.
- Eu ainda vou descobrir o que acontece aqui! – dizia, insinuante.  Atenta, ela circulava silenciosamente pelo condomínio, assustando quem eventualmente estivesse em flagrância mesmo de alguma bobagem. Por isso as más línguas a chamavam Dona Fuxica.
 O presiden…