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Mostrando postagens de Julho, 2017

NA PADARIA >> Sergio Geia

Ubatuba Esquina da Hans Staden com a dr. Esteves da Silva Integrále
Degustando meio papaia, doce e gelado, as conversas animadas de mais um domingo de sol vão chegando aos pedaços e sendo processadas dentro de mim. Sei que você pensa: “que bisbilhoteiro!”, mas não sou. Elas simplesmente chegam, e eu as recebo de bom grado. Pra lhe ser mais exato, poucas delas chegam completas, me permitindo identificar o encadeamento e o sentido. Da maioria mesmo, o que me chega são retalhos de conversas, nem por isso desinteressantes. Uma mulher: “Ele não para!” Um homem: “Quem não para?” A mulher: “Você!” Ela completa: “Ele chegou de viagem e subiu dezessete andares pela escada. Eu falo pra ele sossegar, mas não adianta. Já falei que nessa idade é preciso ter cuidado. Ele é hiperativo”. Minha vontade é dar uma espiada, encarar o casal, mas resisto. O homem: “Aquele muro, ao lado da Dutra, é você quem está fazendo?” Outro homem entra na conversa: “O muro? Sim! Eu falei pro cara pensar na ideia de umas lojinha…

O APRENDIZ - 1a parte >> Zoraya Cesar

A idade era indefinível; o sexo, também. Se olhos humanos conseguissem vê-lo, porém, diriam tratar-se de um adolescente. Um adolescente de beleza etérea e compridos cabelos vermelhos.
Corria, o aspecto sisudo e compenetrado incondizente com alguém tão jovem. Parecia um efebo ateniense recém-saído do ginásio. Usava túnica branca e, nos pés descalços, viam-se pequenas asas, inertes e ainda inúteis. Não levava qualquer espécie de arma; apenas, colado à cintura, algo que parecia uma bola de gude transparente, por onde se viam fumaças e nuvens em constante movimento; a esfera vibrava e tremia de vez em quando, reverberando no corpo astral do jovem. Nesses momentos, ele passava sua fina mão sobre ela, acalmando-a.
AEsfera. A Esfera do Longínquo Dia, que deveria ser entregue diretamente nas mãos do Guardião das Magias Azuis. 
Não era, decerto, sua primeira missão. Mas era, sem dúvida, a mais importante até então. Uma missão crucial para uma das Grandes Batalhas do Universo Estendido sobre a Ter…

HASHTAG GRATIDÃO>>Analu Faria

Já tem um tempinho que a palavra "gratidão" ficou pop. Na internet, usar  #gratidão, então... nem se fala! Eu achava que a maior parte das pessoas que usava a expressão não sabia bem o que estava dizendo. Talvez não saiba mesmo. O fato é que eu mesma não usava a palavra, porque poderia muito bem dizer "obrigada" no lugar de "sou grata" - "gratidão", para mim, era modinha.
O grande problema com as palavras que "pegam" é que seu sentido talvez se esvazie rápido demais. Exatamente como os clichês. Mas também como os clichês, essas palavras da moda podem ter "pegado" justamente porque não há outras que exprimam melhor o que se quer dizer. O clichê é clichê porque é batido, mas ele também é quase sempre uma verdade. Talvez seja o caso com "gratidão". 
Dia desses, encontrei um "exercício de gratidão" enquanto passeava pela internet. "Diabéisso?" - pensei. "Lá vem a modinha". Curiosa como eu …

DESADORMEÇA >> Carla Dias >>

É fim do mundo.

Muitos já encheram seus varais com roupas que não mais serão usadas, em uma última tentativa de desacreditar esse fim. Outros saíram de casa desprovidos do peso da volta, bêbados de agonia.

Abandonar é coisa do fim do mundo. Enlouquecer é coisa do fim do mundo. Insistir que tudo é mentira, coisa do fim do mundo.

Ele não corre, aos berros, exigindo que Deus conserte essa besteira de fim do mundo. Ele não folheia livros sagrados, estapeia as próprias faces, despe-se das roupas como se estivesse a se despir dos seus demônios. Ele não entra no seu carro para matar aquela vontade ilegal de correr a 200km/h no centro da cidade.

Ele é um ponto pacífico desfilando pelo caos. Um inseto orbitando o impossível sendo digerido pelos seus semelhantes, cada qual com sua histeria. Percebe a cadência dos seus passos? Quem se desapega da pressa durante o fim do mundo?

A menina chora com a violência do desamparo. Perdeu-se dos seus, bem se vê. É criança à beira do precipício, gritando p…

O MUNDO PELOS OLHOS DAS CRIANÇAS >> Clara Braga

Outro dia assisti à um vídeo que foi muito compartilhado nas redes sociais. Alguns pais de família eram entrevistados e deveriam responder com quem eles gostariam de jantar caso pudesses escolher qualquer pessoa no mundo. 
Confesso que passaram milhões de pessoas na minha cabeça. Com quem eu gostaria de bater um papo? Poxa, são tantas pessoas! Adoraria conhecer a Joss Stone, conversar com os Hanson, perguntar para a Adriana Falcão de onde ela tira tanta inspiração para escrever seus livros, dividir um belo prato com ícones da música brasileira, me divertir com as histórias de Ariano Suassuna, afinal, se pode qualquer pessoa também pode aqueles que já se foram. Enfim, essa mini lista não é nada, tem um monte de gente que eu adoraria conhecer: grandes pintores como Frida e Picasso, cineastas como Woody Allen devem ser divertidos, Tim Burton deve ter um papo para lá de curioso, já consigo começar a imaginar a personalidade dessas pessoas que me passam pela cabeça.
Conforme ia assistindo…

CORAGEM! EU ESTOU AQUI - final >> Albir José Inácio da Silva

(Continuação de 10/07/17 – Zé do Porco não reclamava da miséria na roça, até porque não conhecia outra vida. Mas como não era ele quem decidia nada, acompanhou a namorada e o amigo Magrelo numa aventura pelo Rio de Janeiro. Pensou que as coisas iam bem pela quantidade de trabalho, mas enganou-se.)
 - As coisas tão ruins, Zé. Dinheiro só dá pra pagar, sobra nada. O porco em pé tá muito caro e, na hora de vender, não querem pagar muito. Os frigoríficos vendem mais barato e com documentos, certificados.
Zé largou o prato, perdeu a fome - coisa que raramente o abandonava.
- Pensei que ia bem, com tanto trabalho! – gemeu.
- Hoje mesmo tive que vender o cordão com Nossa Senhora que a minha mãe me deixou.
- Não Magrelo! Tu não pode fazer isso. Aquilo é lembrança de mãe!
- Que se há de fazer, Zé? Já foi.
Zé do Porco continuou trabalhando no mesmo ritmo, apesar da tristeza. O trabalho espantava os pensamentos. Não ligava se voltassem pra roça. Pra ele aquilo não era ruim. Mas tinha pena dos o…

A CRIANÇA FERIDA E A CRIANÇA ILESA >> Paulo Meireles Barguil

Uma estimada leitora me enviou, na semana passada, sucinta postagem sobre a criança ferida, tendo em vista que, há mais de uma década, conversamos muito sobre isso.
Embora o texto fosse bastante interessante e pertinente, pois esclarecia o quanto as nossas experiências frustradas na infância deixam marcas profundas no nosso crescimento emocional, atônito, percebi o quanto eu, durante anos, acreditei, desenvolvi e divulguei um olhar baseado apenas na falta. Sim, essa perspectiva é parcial, assaz tendenciosa, uma vez que enfatiza e valoriza o que não foi satisfatório ou agradável. E os momentos saudáveis? Se estamos biologicamente vivos é porque recebemos o mínimo de afeto para prosseguirmos na nossa jornada.
Não tenho a pretensão de refutar, nem de analisar o impacto das feridas do passado nas escolhas que fazemos, as quais, por vezes, perpetuam o sofrimento, a despeito do nosso discurso de vítima, que soa vigoroso e convincente, mas que revela, de modo categórico, para um ouvinte sen…

QUEM SOU É UM MISTÉRIO QUE NÃO SEI RESOLVER >> Carla Dias >>

Quem nunca viu essa cena em algum filme, em uma contemplação forjada pela casualidade, até mesmo como protagonista da mesma? Porque encarar a si no espelho é rotina. Banhar o rosto, faxinar os dentes, alinhar os cabelos. Perceber o que incomoda e o que apraz.

Hoje, porém, minha rotina parece funcionária do improviso. Percebo-me de um jeito outro. Não me importo com as tarefas usuais de quem se olha no espelho às seis da manhã, enquanto se prepara para o trabalho. Não tento fazer de conta que não percebi os incômodos tatuados em meu rosto pelas marcas de feição, tampouco a opacidade que tomou os meus olhos. Meus dentes desaparecidos em uma boca que se nega a se arreganhar em sorriso. Meus cabelos, seus desgrenhados absolutos, não faço ideia de como o alinho se comportará diante de sua revolta.

O problema é que sinto saudade imensa de mim. Os amigos dizem que é saudade infundada, que não há como sentir falta de quem se é. Eu entendo a gentileza deles, mas ando mais curioso a respeito d…

UM SENTIMENTO >> Sergio Geia

A primeira vez aconteceu quando fui levar meu filho pra prestar vestibular no Mackenzie. A faculdade fervia de gente. Os jovens conversavam, fumavam, se beijavam, até que deu o horário e o pátio ficou vazio. Fui então andar. O Mackenzie é bastante arborizado, com bancos para as pessoas sentarem, numa espécie de praça privada bem bucólica numa escola em pleno centrão de São Paulo. Tem o Starbucks, uma praça de alimentação com o Bob’s, o Pão de Queijo, o Rei do Mate, um bom espaço pro aluno estudar, biblioteca, o Itaú. Foi quando o esperava terminar a prova, a faculdade enchendo de novo, os jovens chegando, saindo, alguns de terno, outros tatuados e com cigarros entre os dedos, que o pensamento bateu: “Puxa, no meu tempo não tinha isso. Ou, se tinha (e tinha), eu que não fui atrás. Me contentei com a vidinha controlada e estreita de sempre”. Outro dia descobri o Oasis. Primeiro, uma amiga me emprestou uns CDs, alguns do grupo britânico. Já conhecia a Wonderwall, que tocava num programa d…

O AMOR ENTRE O JASMIM E O MAR >> Zoraya Cesar

Ela entrou, elegante, charmosa. Não era jovem. Chegara àquela idade em que as mulheres tornam-se invisíveis aos homens comuns, interessados apenas em pernas, carnes e coxas. Ela, porém, não era mulher para homens comuns. 
Era para ser apreciada ao som de música clássica nas noites de frio, íntimas, quando as vozes ficam baixas e os toques são suaves; ao som do jazz de New Orleans nos dias de verão, alegres, quando as vozes tilintam ao borbulhar do champagne. Uma mulher de classe. Uma mulher para a vida inteira.
Pequena, rechonchuda, lisos cabelos castanhos cortados estilo Chanel. O vestido cinza chumbo, o casaco de lã azul, os escarpins e bolsa pretos, o andar, os maneirismos, tudo nela era pura elegância. Uma bonequinha, não de luxo, mas de outono. No rosto gentil, a maquiagem realçava a beleza, sem tentar esconder os traços do tempo, deixando que as rugas se expressassem livremente. Uma mulher sem artifícios. 
Ela entrou, pois, no restaurante; este, uma raridade não encontrada em qualq…

DOCE, DOCE... >> Analu Faria

Eu sou dessas que olha um Querer com a impaciência de quem olha um gato preguiçoso. Eu sou daquelas que só nota que o  Querer se fez carne depois que Ele já anda e fala. Funciona assim: aciono um Querer e O desejo na mesa para ontem. Ele cozinha ali na alma (na cabeça?), às vezes uma vida inteira. Quando vejo,  já está servido.

Foi desse jeito com um louco vício em açúcar, que eu tenho desde que me chamaram pelo nome (e eu respondi). De uma hora para outra, o vício tomou seu rumo, como eu Queria (mas não quando eu Quis).
O vício em doces pode ser até que volte, apesar de um sumiço passageiro já ser impressionante. De qualquer forma, o Querer-gato me assusta. Cozinha tão devagar que às vezes o considero desandado. Aparece pronto quando menos se espera.

É claro que isso aconteceu com coisas mais sérias da vida, principalmente depois que fiz o Caminho de Santiago, mas o que parecia impossível mesmo é eu deixar de ser a louca do doce.

MELANCOLIA >> Carla Dias >>

É que eu não entendo direito. Tento, mas o essencial me escapa. Talvez eu seja – ou esteja – muito distraída para compreender o linguajar que tenta enredar o outro, a fim de minimizar suas tragédias, humilhar suas buscas, distorcer seus direitos. Talvez seja mesmo do signo, e eu desembeste a dizer bobagens. E não quero ser mais uma a dizer bobagens que ofendam, em vez de trazer para a discussão algo que valha a pena ser compartilhado. Não quero verbalizar a ignorância. Não quero propagá-la.

Posso falar sobre delícias. Mas não o farei usando personagens que adoro inventar, porque, hoje, nenhum deles veio me visitar. Estou eu mesma, então que as delícias têm de ser minhas.

Café. A maior delícia de todas. Começar a escrever um livro assim, colado naquele último que adorei escrever. Folhear catálogo de lojas de material de construção e afins. Essas lojas são para mim o que as de roupas e sapatos são para alguns.

Tem o que engasga, também. Feito aquelas mensagens pedindo para assinar peti…

PARA SEMPRE >> Clara Braga

Todo mundo, em algum momento da vida, já teve que lidar com o tal do para sempre.
Confesso que, no geral, acho que as pessoas lidam até muito bem com essa conversa de eternidade.
Quem nunca fez uma jura de amor eterno até que conheceu outra pessoa e percebeu que amor eterno é muito mais do que aquilo que se tinha antes?
Ou então jurou que o melhor lugar do mundo para se passar o resto da vida era aquele em que se estava, porém, decidiu olhar para o lado e descobriu que naquele outro lugar poderia ser muito mais feliz.
Tem também as pessoas que dividiram aquele colar de amigas para sempre com a amiga da escola e hoje em dia não fazem ideia do que aconteceu com a outra metade.
E as promessas de que aquele vício ficou para trás para sempre até o fim de semana? Ah, mas fim de semana não conta vai, afinal, ninguém é de ferro.
A verdade é que lidar com o para sempre é relativamente mais fácil do que se parece porque desde cedo aprendemos com nossa querida Cássia Eller que para sempre é uma…

CORAGEM! EU ESTOU AQUI >> Albir José Inácio da Silva

Cresceram juntos, mais que irmãos. Nunca pararam pra combinar coisa alguma, mas a sobrevivência impunha a sociedade. Fazia cada um o que sabia no negócio de porcos. Zé do Porco matava porco e Magrelo fazia contas e negócios.
Zé do Porco matava porco desde que se lembra. Como seu pai e, talvez, seu avô, mas não tem certeza. Memória, aliás, ele não tem muita, de nada. Nada dessas coisas de lembrar, pensar,  resolver. Sabia ir vivendo, forte como um touro. Gostava de trabalhar, de comer e de Nalva.
Nalva namorava Zé do Porco há muito tempo, meio desesperançada porque ele era Zé do Porco.
Magrelo era magrelo mesmo. Seco e ágil, não gostava de trabalho duro, mas era manhoso na barganha e nas contas. Fazia, segundo ele mesmo, milagre nas contas.
A questão é que não tinham porco pra matar. Alugavam o trabalho do Zé quando alguém precisava. Mas quem tinha porco matava seu próprio porco. Ficavam na dependência de algum idoso ou viúva que precisasse.
Foi Nalva que teve a ideia, Magrelo gostou,…

QUANDO O DEPOIS É AGORA >> Paulo Meireles Barguil

 "Todos os dias quando acordo
Não tenho mais o tempo que passou
Mas tenho muito tempo
Temos todo o tempo do mundo" (Renato Russo, Tempo perdido)
Uns falam: "Não deixe para amanhã o que você pode fazer hoje!".

Outros provocam: "Não faça amanhã o que você pode deixar para depois de amanhã!".

Qual sábio conselho adotar?

Há quem siga o primeiro para o lazer e o segundo para o trabalho.

Quem prefira o contrário: adia o prazer e antecipa o labor.

E quem, com gosto eclético, que ora escolhe o primeiro, ora escorrega para o segundo...

Diante da vida tão sutil e efêmera, a Humanidade criou várias formas de medi-la.

Relógios diversos — solar, de água, de areia, mecânico, digital... — e calendários variados — Chinês, Judaico, Maia, Juliano, Islâmico, Gregoriano...
Mas a dúvida persiste: antecipar ou procrastinar?

Para resolver esse dilema, acho que, por ora, vou esconder — jogar fora seria muita estripulia! — o ponteiro das horas...
 Em breve, vou surrupiar, tam…

UM DIA E MEIO >> Carla Dias >>

Nasceu há uns bons pares de décadas. Porém, somente há pouco sentiu o tempo a lhe desfalecer a pele, feito um abate. Como se ele tivesse fechado os olhos jovem e ao abri-los, fez-se outro, mais cansado. Tão mais existido.

Nunca foi obstinadamente vaidoso, mas sempre apreciou a jovialidade de seus desejos. Eles que se deitaram com ele ontem, atiçadíssimos. Nem todos acordaram com ele hoje. Foi um funeral dramático, durante o café da manhã, enquanto a rotina acontecia sem dar a menor atenção à ausência de seus audaciosos bel-prazeres.

Viveu muitas histórias. Algumas ele decidiu guardar para si, apesar de ser conhecido por compartilhar suas pessoalidades sem qualquer cerimônia. Apreciava como os espectadores reagiam às suas loucuras íntimas, independente do tema. Mas veja bem, ele nasceu ontem, ainda que a certidão de nascimento insista que foi há bons pares de décadas.

Sente que o tempo o enganou. Passa as mãos trêmulas pela cabeça nua, como que explorando o improvável, observando o qu…

ACHARAM QUE EU CASEI >> Clara Braga

Essa semana me diverti lendo comentários de uma foto no facebook! A foto? Eu e meu namorado abraçados, vestidos formalmente para sermos padrinhos de casamento do meu irmão. O problema? Meu namorado adora inventar palavras estranhas e decidiu colocar na legenda da foto a seguinte palavra: casamentchucos. O que essa palavra significa? Pra mim e para poucas pessoas significa que estávamos indo a um casamento, mas para várias outras significou que nós tínhamos casado!
Foi impressionante, nunca uma foto minha tinha tido tantas curtidas. E os comentários? Muita gente parabenizando, algumas pessoas que eu nem conheço direito, e chegaram até a cobrar o chá de panela! Como casou e não fez chá?
Imagino a decepção quando descobrirem que não foi nada disso, mas posso imaginar o motivo das pessoas terem chagado a essa conclusão: de fato estamos morando juntos, mas isso não significa que casamos.
Somos companheiros em todos os momentos, nos apoiamos e ajudamos. Quando passo por qualquer situação, …

FILOSOFIA DE BOTEQUIM >> Sergio Geia

Tem uma frase do Fernando Pessoa que me toca muito. Dizem que, perguntado sobre o que deveria ser escrito na sua lápide depois que partisse, o poeta português respondeu: “Fui o que não sou”. Desde que li esse aforismo, ele ficou gravado nas entranhas ecoantes do meu cérebro, e reverbera todo dia como um sino, pra me levar a atitudes que talvez eu nunca tomasse na vida. A última coisa que quero é ser quem eu não sou. Na verdade, quero ser eu, e, em minha lápide, quero cunhado o alegre comentário: “Esse aí foi quem verdadeiramente era. O Geia... Viveu...”. Saber quem somos, talvez, filosoficamente falando, seja o maior problema de todos. O contrário é mais fácil. Tenho experiências suficientes pra dizer que em muitos momentos da vida, fui quem eu não era. Fui quem eu não era parte 1. Estava no lançamento de um livro quando cumprimentei uma conhecida que mora aqui perto de casa, que sempre vejo na rua, que sei quem é, mãe de quem, parente de fulana, amiga de sicrana, trabalha com beltrana. …