quinta-feira, 27 de julho de 2017

HASHTAG GRATIDÃO>>Analu Faria

Já tem um tempinho que a palavra "gratidão" ficou pop. Na internet, usar  #gratidão, então... nem se fala! Eu achava que a maior parte das pessoas que usava a expressão não sabia bem o que estava dizendo. Talvez não saiba mesmo. O fato é que eu mesma não usava a palavra, porque poderia muito bem dizer "obrigada" no lugar de "sou grata" - "gratidão", para mim, era modinha.

O grande problema com as palavras que "pegam" é que seu sentido talvez se esvazie rápido demais. Exatamente como os clichês. Mas também como os clichês, essas palavras da moda podem ter "pegado" justamente porque não há outras que exprimam melhor o que se quer dizer. O clichê é clichê porque é batido, mas ele também é quase sempre uma verdade. Talvez seja o caso com "gratidão". 

Dia desses, encontrei um "exercício de gratidão" enquanto passeava pela internet. "Diabéisso?" - pensei. "Lá vem a modinha". Curiosa como eu sou, acabei fazendo. Era uma espécie de meditação, não requeria esforço nenhum, então ah, sei lá, por que não, né, amigos?

Não vou entrar em detalhes do tal exercício, mas vou dizer que "senti" a gratidão, talvez pela primeira vez na vida: uma noção de que o mundo está cheio, de que a vida é, por si mesma, um sem-fim de possibilidades, de que todos os espaços dentro e fora, entre mim e o mundo, entre as coisas e as pessoas, entre as ideias, no meio das pedras, nos milímetros de terra entre as gramas, nas rodovias desertas, na distância entre as bocas que estão prestes a se beijar, tudo, tudo, está cheio, preenchido, pleno. 

Terminei o exercício entendendo porque às vezes não é possível usar outras palavras, ainda que queiramos. Eu não consigo chamar essa experiência de outra coisa a não ser "exercício de gratidão". Talvez o mais próximo que eu chegue de denominá-lo de algo inteligível seja dizer que foi um "exercício de foco na plenitude da vida"  (horrível). Tampouco consigo usar outra palavra para exprimir o sentimento dessa completude das coisas a não ser "gratidão". Pode ser modinha, pode não ser. Para mim, mudou a cor do dia a dia e isso basta. Vai ter #gratidão, sim. E, se reclamar, vai ter mais.




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quarta-feira, 26 de julho de 2017

DESADORMEÇA >> Carla Dias >>


É fim do mundo.

Muitos já encheram seus varais com roupas que não mais serão usadas, em uma última tentativa de desacreditar esse fim. Outros saíram de casa desprovidos do peso da volta, bêbados de agonia.

Abandonar é coisa do fim do mundo. Enlouquecer é coisa do fim do mundo. Insistir que tudo é mentira, coisa do fim do mundo.

Ele não corre, aos berros, exigindo que Deus conserte essa besteira de fim do mundo. Ele não folheia livros sagrados, estapeia as próprias faces, despe-se das roupas como se estivesse a se despir dos seus demônios. Ele não entra no seu carro para matar aquela vontade ilegal de correr a 200km/h no centro da cidade.

Ele é um ponto pacífico desfilando pelo caos. Um inseto orbitando o impossível sendo digerido pelos seus semelhantes, cada qual com sua histeria. Percebe a cadência dos seus passos? Quem se desapega da pressa durante o fim do mundo?

A menina chora com a violência do desamparo. Perdeu-se dos seus, bem se vê. É criança à beira do precipício, gritando pela mãe, pelo pai, pelo vizinho, por qualquer um que a reconheça. A urgência em ser reconhecida faz seu choro ecoar em amargura intrépida. Ela se debate, como se sapateasse, durante uma crise de birra de criança mimada.

Fim do mundo até nos faz sentir falta de birra de criança mimada. E de bobagens que, em outras circunstâncias, nos tirariam do prumo. Caso fosse possível sobreviver a esse fim do mundo, seria necessário revermos nossa capacidade de deixar para lá. De relevar e tocar em frente.

Ele desfila pelo fim do mundo, os braços gingando ao lado do corpo, os cabelos dançantes. Essa figura se destaca pela sua total incapacidade de perceber o fim. Aquela tranquilidade, os outros adorariam senti-la agora, porque durante o fim do mundo os barulhos são assombrosos, as vozes guturais, o silêncio não é apenas quebrado, mas é o primeiro a deixar de existir. Alguns declaram seus pecados aos estranhos que foram educados a ignorar, enquanto os abraçam em abraço que irá durar até o fim deles.

Durante o fim do mundo, as diferenças se perdem.

Ele pega a menina no colo, diz algo em seus ouvidos e ela se acalma. O mundo acabando e ele acalmando um espírito oriundo do abandono forjado pelo fim de tudo, de todos, do mundo. A menina enrosca braços no pescoço dele, deita a cabeça em seu ombro. Acalma-se ou aceita que para o fim do mundo não há jeito, trato, negociata, promessa que o revogue. Até os milagres não superam tal desfecho.

Não há moral da história. Fim do mundo não pede por conclusão, já que é a própria, e não sobrará pessoa que seja para debater seu significado. Mas que fica a certeza de que melhor é acabar em abraço, não há como contestar.

Como narrador desse sonho, posso dizer que mesmo o fim tem seus percalços. Basta um indivíduo que teime em não acreditar nele, que faça de tudo para não precisar encará-lo. Não provocar o fim é o que nos mantêm aptos aos começos e recomeços.

Como quem sonha esse sonho aflitivo, esse caos de fim do mundo é resumido em apenas uma palavra: saudade. A saudade que a menina, a sonhadora oficial desse fim do mundo, sente de seu irmão, aquele que é seu pai, seu provedor, seu fugitivo de fins do mundo.

Ele continua sua caminhada rumo a lugar nenhum. A menina começa a cantar uma canção qualquer sobre abelhas e ursos. O mundo chegando ao fim com trilha sonora pueril.

Ironia é coisa do fim do mundo...

Até que o despertador faça a sua parte.

Imagem © Vito Campanella

carladias.com



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terça-feira, 25 de julho de 2017

O MUNDO PELOS OLHOS DAS CRIANÇAS >> Clara Braga

Outro dia assisti à um vídeo que foi muito compartilhado nas redes sociais. Alguns pais de família eram entrevistados e deveriam responder com quem eles gostariam de jantar caso pudesses escolher qualquer pessoa no mundo. 

Confesso que passaram milhões de pessoas na minha cabeça. Com quem eu gostaria de bater um papo? Poxa, são tantas pessoas! Adoraria conhecer a Joss Stone, conversar com os Hanson, perguntar para a Adriana Falcão de onde ela tira tanta inspiração para escrever seus livros, dividir um belo prato com ícones da música brasileira, me divertir com as histórias de Ariano Suassuna, afinal, se pode qualquer pessoa também pode aqueles que já se foram. Enfim, essa mini lista não é nada, tem um monte de gente que eu adoraria conhecer: grandes pintores como Frida e Picasso, cineastas como Woody Allen devem ser divertidos, Tim Burton deve ter um papo para lá de curioso, já consigo começar a imaginar a personalidade dessas pessoas que me passam pela cabeça.

Conforme ia assistindo ao vídeo e pensando em várias pessoas com quem eu jantaria, chega a hora dos entrevistados serem os filhos. Eles deveriam responder a mesma pergunta, quem eles levariam para jantar caso pudessem escolher qualquer pessoa no mundo? A resposta foi simples e unanime: meus pais ou então minha família!

O vídeo é um soco no estômago, bem emocionante. Mesmo sabendo o resultado já assisti ao vídeo várias vezes e em todas termino me questionando a mesma coisa: em que momento de nossas vidas nós perdemos esse olhar inocente das crianças que tanto admiramos e que depois passamos o resto da vida tentando recuperar? 


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segunda-feira, 24 de julho de 2017

CORAGEM! EU ESTOU AQUI - final >> Albir José Inácio da Silva

(Continuação de 10/07/17 – Zé do Porco não reclamava da miséria na roça, até porque não conhecia outra vida. Mas como não era ele quem decidia nada, acompanhou a namorada e o amigo Magrelo numa aventura pelo Rio de Janeiro. Pensou que as coisas iam bem pela quantidade de trabalho, mas enganou-se.)

 - As coisas tão ruins, Zé. Dinheiro só dá pra pagar, sobra nada. O porco em pé tá muito caro e, na hora de vender, não querem pagar muito. Os frigoríficos vendem mais barato e com documentos, certificados.

Zé largou o prato, perdeu a fome - coisa que raramente o abandonava.

- Pensei que ia bem, com tanto trabalho! – gemeu.

- Hoje mesmo tive que vender o cordão com Nossa Senhora que a minha mãe me deixou.

- Não Magrelo! Tu não pode fazer isso. Aquilo é lembrança de mãe!

- Que se há de fazer, Zé? Já foi.

Zé do Porco continuou trabalhando no mesmo ritmo, apesar da tristeza. O trabalho espantava os pensamentos. Não ligava se voltassem pra roça. Pra ele aquilo não era ruim. Mas tinha pena dos outros, que não gostavam de lá.

O que Zé do Porco não sabia era que a tristeza não parava por aí. Dessa vez foi Nalva que trouxe mais.

- Zé, eu vou-me embora. Não tô gostando mais de tu nem dessa casa. Também não vou voltar praquele fim de mundo não. Arrumei serviço de doméstica e vou ficar pelo Rio mesmo. Já peguei minhas coisas, viu? Adeus, Zé!

Zé nem falou nada. Queria dizer, “mas Nalva a gente tá junto há tanto tempo, o que que eu te fiz?” Mas não conseguiu.

Matou-se no trabalho mais um tempo, até que Magrelo falou:
- Dá mais não, Zé. Tamo pagando pra trabalhar. Hoje liquidei umas contas e vou entregar a casa. Vou voltar pra roça mais não. Não tenho paciência praquela vida. Arranjei trabalho no mercado e posso dormir lá no armazém. Infelizmente não dá pra tu não. Tem que saber ler e escrever. Tu dá lembrança a todos por lá e diz que quando der eu vou visitar. Tá aqui o que sobrou de dinheiro, fica com mais. Vou ficar com esses trocados aqui pra me virar até o pagamento. Dê cá um abraço, Zé. Nós vamos continuar irmãos.

Magrelo saiu sem ver as lágrimas do Zé amarrando a trouxa. Nem ferramentas levou de volta. No ônibus ainda suspirava comprido, olhando a estrada.

Lá nos cafundós do Jequitinhonha, Zé do Porco definhava. Foi Seu Aristides que aconselhou:

- Mulé, depois que desgosta da gente, a gente não corre atrás não. Mas amigo é diferente, Zé. Tu tá sem jeito aqui sem ninguém. Vai ver como está se virando Magrelo por lá. Quem sabe tu arranja trabalho também? Nunca vi morrer de fome quem quisesse trabalhar. Aqui tu vai morrer de desgosto.

Partiu Zé naquela noite mesma.

Chegou ao Rio com o sol. Perguntou ao antigo senhorio se sabia do seu amigo Magrelo.

- Em frente à Matriz, no açougue.

Então arranjou trabalho em açougue? Não há de ser cortando carne, que não sabe!

A primeira coisa que Zé do Porco viu foi Nalva, estendendo camisa de homem no terraço do sobrado, de cabelo louro. Conheceu só pela voz, porque ela cantava uma modinha que ele escutou muitas vezes antes.

Dali a pouco, um empregado levantou com estrondo uma das três portas de aço. Outro caixeiro colocou na calçada o cavalete com a promoção do dia, mas Zé não sabia ler.

Lá no fundo, atrás da registradora, Magrelo gritava ordens e xingamentos aos empregados. Os ouvidos do Zé escutavam, mas a cabeça já não entendia nada.

Não havia gente na rua nem cliente no açougue àquela hora. Os empregados foram para os fundos. Já atrás do balcão, Zé escolheu a faca de lâmina fina que reconheceu como sua preferida. Reconheceu também o cordão com a Nossa Senhora no peito do Magrelo de camisa aberta. “Ué, não tinha vendido?”

Magrelo levou um susto quando a faca entrou abaixo do esterno. Arregalou os olhos.

- Zé!

Foi um  trabalho limpo, de quem sabe fazer. Uma leve torção de punho. Tudo por dentro. Nada de sangue pela boca nem esguicho na faca.

- Vai doer nada não, Magrelo. Eu sei fazer isso.  – disse Zé com uma ponta de orgulho profissional. – Coragem! Eu estou aqui – acrescentou.

Segurou com a mão livre o ombro de Magrelo e encostou sua testa na dele durante alguns espasmos. Até que o amigo se acalmou e fechou os olhos.


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sexta-feira, 21 de julho de 2017

A CRIANÇA FERIDA E A CRIANÇA ILESA >> Paulo Meireles Barguil

Uma estimada leitora me enviou, na semana passada, sucinta postagem sobre a criança ferida, tendo em vista que, há mais de uma década, conversamos muito sobre isso.

Embora o texto fosse bastante interessante e pertinente, pois esclarecia o quanto as nossas experiências frustradas na infância deixam marcas profundas no nosso crescimento emocional, atônito, percebi o quanto eu, durante anos, acreditei, desenvolvi e divulguei um olhar baseado apenas na falta.
 
Sim, essa perspectiva é parcial, assaz tendenciosa, uma vez que enfatiza e valoriza o que não foi satisfatório ou agradável.
 
E os momentos saudáveis?
 
Se estamos biologicamente vivos é porque recebemos o mínimo de afeto para prosseguirmos na nossa jornada.

Não tenho a pretensão de refutar, nem de analisar o impacto das feridas do passado nas escolhas que fazemos, as quais, por vezes, perpetuam o sofrimento, a despeito do nosso discurso de vítima, que soa vigoroso e convincente, mas que revela, de modo categórico, para um ouvinte sensível, o quanto estamos desconectados da criança ilesa.
 
Sim, ela também está intacta!
 
Antes que alguém me alerte que a ausência da consciência desse vínculo é fruto das mazelas pretéritas, eu ouso contestar e declarar que ele não é vivenciado também porque não temos nos dedicado a entender e a celebrá-la da mesma forma como fazemos com a outra.

Uma estratégia  ardilosa da criança ferida é se fantasiar de criança ilesa, na tentativa de que todos, inclusive ela, acreditem que a primeira não existe, apenas a segunda.
 
Ciente sou de que muitas pessoas tentam esconder, de si e dos outros, as suas chagas, de modo especial por não terem recebido, na quantidade e na qualidade por si desejadas, o afeto, o cuidado dos seus responsáveis.
 
Então, vagueiam em florestas urbanas, repletas de zumbis e outras entidades, com a esperança de aplacar seu sofrimento emocional, mediante aplausos, flashes, sorrisos efêmeros, likes e drogas similares ou ainda mais nefastas, pois que degradam corpo e alma.

Como diferenciar uma da outra?

Ah, é bem fácil...

Enquanto uma reclama e fala mal dos outros, a outra agradece e exala amorosidade.

Enquanto uma julga e exclui, a outra compreende e acolhe.

Enquanto uma guarda mágoas e planeja vingança, a outra distribui perdão e emana compaixão.

Enquanto uma vive com fome e acumula, a outra está saciada e partilha.

Enquanto uma está no passado e no futuro, a outra está no presente e na eternidade.

Esclareço que essas realidades não são estanques, definitivas, pois, conforme a Física Quântica explicou no século passado, ondas e matéria são possibilidades da energia.

A criança ferida é a criança ilesa.

Cada um de nós pode vibrar em um padrão ou em outro...

Se você hoje, adulto, não consegue identificar, dar atenção e priorizar a sua criança ilesa, com quem convive ininterruptamente, será que é sensato esperar que outra pessoa, com sua criança ferida, o faça por você?
  
A vida convida você, diariamente, a reconhecer que ambas existem, bem como a assumir a responsabilidade para que elas se (re)encontrem e possa acontecer uma fusão psíquica de imensurável potencial amoroso.

Percebo, com muita alegria, que, cada vez mais, as crianças ilesas estão brilhando.


[Grato sou a Aídda Pustilnik e Cipriano Carlos Luckesi, que, há mais de duas décadas, desenvolvem a deslumbrante vivência Curando a Criança Ferida dentro de nós, a quem dedico essa crônica]


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quarta-feira, 19 de julho de 2017

QUEM SOU É UM MISTÉRIO QUE NÃO SEI RESOLVER >> Carla Dias >>


Quem nunca viu essa cena em algum filme, em uma contemplação forjada pela casualidade, até mesmo como protagonista da mesma? Porque encarar a si no espelho é rotina. Banhar o rosto, faxinar os dentes, alinhar os cabelos. Perceber o que incomoda e o que apraz.

Hoje, porém, minha rotina parece funcionária do improviso. Percebo-me de um jeito outro. Não me importo com as tarefas usuais de quem se olha no espelho às seis da manhã, enquanto se prepara para o trabalho. Não tento fazer de conta que não percebi os incômodos tatuados em meu rosto pelas marcas de feição, tampouco a opacidade que tomou os meus olhos. Meus dentes desaparecidos em uma boca que se nega a se arreganhar em sorriso. Meus cabelos, seus desgrenhados absolutos, não faço ideia de como o alinho se comportará diante de sua revolta.

O problema é que sinto saudade imensa de mim. Os amigos dizem que é saudade infundada, que não há como sentir falta de quem se é. Eu entendo a gentileza deles, mas ando mais curioso a respeito da aridez de seus verdadeiros pensamentos. Eu sei que eles se cansaram dessa minha espiral de silêncios, suspiros de duração absurda, desejo de fechar os olhos e dormir para acordar daqui a uma década. Todos esses itens que compõe a lista do que atalha a alegria alheia.

Nada mais justo do que me retirar, o que nem foi assim tão difícil. Para quem sente saudade de si, com tal violência, ausentar-se do outro é apenas questão de baixar o olhar e seguir em frente. Assume-se assim a culpa pelo ocorrido, deixando os abandonados com a sensação de que tentaram tudo, mas foi impossível salvar ser tão dedicado ao erro. Já que culpá-los nunca foi meu desejo, deixá-los infelizes pela convivência unilateral, também não, recolho-me.

A saudade que sinto nem é de uma história que já vivi, para a qual rumino o desejo impossível por outro desfecho. Não é sobre o que faria se tivesse escolhido aquilo, em vez daquilo outro. Não é saudade do que fiz, mas de mim. Não é saudade de quem fui, mas de mim.

Saudade dessa pessoa que sou e ainda não conheci.

Imagem: Landscape from a Dream © Paul Nash

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sábado, 15 de julho de 2017

UM SENTIMENTO >> Sergio Geia



A primeira vez aconteceu quando fui levar meu filho pra prestar vestibular no Mackenzie. A faculdade fervia de gente. Os jovens conversavam, fumavam, se beijavam, até que deu o horário e o pátio ficou vazio. Fui então andar. O Mackenzie é bastante arborizado, com bancos para as pessoas sentarem, numa espécie de praça privada bem bucólica numa escola em pleno centrão de São Paulo. Tem o Starbucks, uma praça de alimentação com o Bob’s, o Pão de Queijo, o Rei do Mate, um bom espaço pro aluno estudar, biblioteca, o Itaú. Foi quando o esperava terminar a prova, a faculdade enchendo de novo, os jovens chegando, saindo, alguns de terno, outros tatuados e com cigarros entre os dedos, que o pensamento bateu: “Puxa, no meu tempo não tinha isso. Ou, se tinha (e tinha), eu que não fui atrás. Me contentei com a vidinha controlada e estreita de sempre”.
Outro dia descobri o Oasis. Primeiro, uma amiga me emprestou uns CDs, alguns do grupo britânico. Já conhecia a Wonderwall, que tocava num programa de esportes da televisão. Num domingo de chuva, em casa, fiz o almoço tomando uísque e assistindo a um show deles, em Manchester. Eles tocaram Stand by me e as guitarras de Stand by me me acertaram num lugar que me levou a nocaute; fiquei vidrado. Depois rolaram Live Forever, Don’t look back in anger, Go let it out, Supersonic, não exatamente nessa ordem. Descobri que eles já estiveram no Brasil, em São Paulo, Rio, Curitiba, Porto Alegre; em 2001, tocaram no Rock in Rio. Descobri entrevistas dos irmãos Liam Gallagher (vocalista) e Noel Gallagher (compositor da banda e guitarrista) com o Zeca Camargo para o Fantástico; uma em 1998, outra em 2009. Descobri que a cada show que assistia, mais eu gostava; era uma musicalidade que me dizia coisas, que me tocava fundo. E finalmente descobri que os irmãos Gallagher brigaram e que o Oasis não existe mais. Aí o pensamento bateu de novo: “O que eu tava fazendo no final da década de 90 e início do 2000? Onde eu estava com a cabeça? Como não descobri o Oasis a tempo de curtir um show em Sampa? Como descobri esse som somente agora, quase oito anos depois do fim da banda? Eu estou é muito atrasado.”
Comecei com House Of Cards essa coisa de séries; confesso que nunca curti muito uma série, nem conto ou crônica; nem poesia. Sempre preferi os longas, e, nas livrarias, Roth, Coetzee, McEwan, Tezza, Hatoum, romances, romances, romances. Mas ouvia o pessoal falar, comentar, que insisti e acabei me jogando de cabeça em Breakin bad. A história do professor de química, sujeito comum, inexpressivo, com sentimento de inferioridade, mas gênio, condenado à morte por um câncer no pulmão, e que passa a produzir metanfetaminas, se tornando um dos maiores produtores da droga dos Estados Unidos. Depois descobri que a série é de 2008, que passou no Brasil até em tevê aberta, e eu, nada. Tá, eu sempre dei de ombros para as séries, e, convenhamos, ela só começou a passar no Brasil em junho de 2010 pelo canal pago AXN.
Tudo bem, mas e o que o Mackenzie, o Oasis e as séries têm em comum? Eu. Na verdade, não necessariamente eu, mas um sentimento que brota de vez em quando e que me diz que eu tenho um problema, digamos, de natureza temporal, e de que estou virando meu nariz sempre no tempo errado e pro lugar errado. E uma sensação de que isso é péssimo. E uma sensação de que a vida tá passando e que ela é muito rica pra ser desperdiçada assim. E uma sensação estranha que me remete a um carro que vive andando em marcha à ré. E uma sensação de que sou incapaz de encontrar a sintonia fina do hoje.
Decerto agora, agorinha mesmo, uma cena está rolando (na verdade, milhões de cenas estão rolando em todos os lugares), que seria fantástico conhecer, mas eu tô aqui fazendo um tour pela memória, acarinhando a incúria que o Mackenzie me desperta, vibrando com o Oasis, assistindo séries de 1995. O que tá rolando agora eu vou descobrir quem sabe daqui a uns vinte anos. Quem sabe...


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sexta-feira, 14 de julho de 2017

O AMOR ENTRE O JASMIM E O MAR >> Zoraya Cesar

Ela entrou, elegante, charmosa. Não era jovem. Chegara àquela idade em que as mulheres tornam-se invisíveis aos homens comuns, interessados apenas em pernas, carnes e coxas. Ela, porém, não era mulher para homens comuns. 

Era para ser apreciada ao som de música clássica nas noites de frio, íntimas, quando as vozes ficam baixas e os toques são suaves; ao som do jazz de New Orleans nos dias de verão, alegres, quando as vozes tilintam ao borbulhar do champagne. Uma mulher de classe. Uma mulher para a vida inteira.

Pequena, rechonchuda, lisos cabelos castanhos cortados estilo Chanel. O vestido cinza chumbo, o casaco de lã azul, os escarpins e bolsa pretos, o andar, os maneirismos, tudo nela era pura elegância. Uma bonequinha, não de luxo, mas de outono. No rosto gentil, a maquiagem realçava a beleza, sem tentar esconder os traços do tempo, deixando que as rugas se expressassem livremente. Uma mulher sem artifícios. 

Ela entrou, pois, no restaurante; este, uma raridade não encontrada em qualquer lista de estabelecimentos, sequer no Google. Um clube seleto, criado por um grupo de amigos e aberto apenas para os sócios e seus convidados. Um lugar para encontros secretos, de amor ou de negócios, ou, simplesmente, para fugir do mundo, descansar, apreciar a vista e a boa comida em silêncio. 

A iluminação era natural, vinda das largas janelas pelas quais se via o mar, o céu e o infinito. O salão, amplo, decorado como um convés de alto luxo; havia doze mesas, espalhadas de forma a que não se ouvisse a conversa entre os clientes de uma mesa para outra. Podia-se circular sem receio de esbarrar em outrem. Serviço de linho e prata, copos de cristal e, ao fundo, a voz suave de Sam Cooke. 

De repente, as faces da mulher se rosearam, fazendo-a parecer uma menina. Com as rugas, o ligeiro sobrepeso, as vicissitudes da vida – ainda assim, uma menina. Uma menina feliz. 

Ao fundo do salão, um homem se levantara. Tinha, pelo menos, dez anos a mais que a mulher. Os cabelos brancos, cortados rentes à escovinha, encimavam um rosto severo e sofrido, no qual se viam as marcas típicas de quem trabalhou durante anos ao ar livre. Alto, espadaúdo, forte, um homem no inverno da vida, mas ainda em plena forma. Sua postura ereta e seu porte não deixavam dúvidas de que fora militar. Tudo nele transmitia poder e segurança. Um forte, dir-se-ia, de quem o tempo e o destino não tiveram muita clemência. 

E eis que, ao vê-la, ele, também, rejuvenesce, o coração cheio das esperanças de quem tem a vida toda pela frente, confiante de que sempre terá as mãos da mulher amada entre as suas. Disciplinado por toda uma vida, só Deus sabia o quanto lhe custou não correr até a mulher e apertá-la em seus braços, nunca mais deixá-la ir. Aguardou, silencioso e firme, que sua dama chegasse, flutuando, à mesa. 

Mergulharam nos olhos um do outro por tempos infindáveis, apreciando o momento único, o perfume, as covinhas no rosto, os olhos azuis-céu da manhã, a delicadeza dela; o cheiro de sol e mar, as sobrancelhas hirsutas e graves, a força dele. 

Ele beijou-lhe a mão, longa e apaixonadamente, puxou a cadeira para que ela sentasse. O maître trouxe os pedidos antes mesmo de ser chamado, sabendo bem as preferências de cada um.

Durante todo o almoço conversaram em voz baixa, olhando-se, sorrindo, e, de vez em quando, entrelaçando as mãos suave, suave, suavemente, como temerosos que, a um gesto mais brusco, o outro se desvanecesse, como uma ilusão. Não havia dos arroubos típicos dos apaixonados, só contentamento intenso, profundo, gratos por estarem, mais uma vez, juntos. 

Ao terminarem, ele acenou sutilmente para o maître, que, logo depois, veio à mesa, avisar que o carro da senhora havia chegado.

Um gentleman até a última célula, até o final dos tempos, ele a acompanhou e, mesmo não precisando, olhou para o motorista como se dissesse:“Essa pessoa é muito preciosa para mim. Cuide que ela chegue em segurança, ou é comigo que você vai se haver”. E tenham certeza que o motorista sabia disso. 

Antes de ela entrar, o homem segurou-lhe ambas as mãos, os olhos cheios de mar e solidão. Ela se soltou, mais gentilmente que uma fada, e passou os dedos no rosto dele, puxando as lágrimas para si, como se dissesse não fique assim, meu Amado, as coisas são como são e nós temos a fortuna de, após todos esses longos anos, ainda nos vermos, tocarmo-nos, sentirmo-nos. Eu te amarei até o final dos dias, dos tempos, da eternidade. Não perca as esperanças. 

Quando ele perdeu o carro de vista, voltou para o restaurante. Ficaria a tarde ali, a pensar na sorte madrasta que o impedira de se unir à mulher de sua vida, no sofrimento dela quando obrigada a se separar dele, nos rumos estranhos que suas existências tomaram. Ficaria a tarde ali, a sonhar acordado com a possibilidade de, antes de morrer, passar um dia, um dia apenas, seu último dia sobre a Terra e o Mar, que fosse, ao lado de sua Amada da Vida Inteira, sem segredos, livres das amarras sociais, livres das responsabilidades familiares, livres.

Sentou-se de frente para o mar, seu outro amor. O maître pigarreou baixo, para chamar-lhe a atenção. Entregou-lhe um envelope, pequeno e perfumado a jasmim – o perfume dela! -, sussurrando, a senhora deixou isso sobre a mesa, creio que para o senhor. E afastou-se.

As mãos grandes e nodosas do homem abriram o envelope com a delicadeza de quem manuseia um bibelô de porcelana chinesa. Dentro, havia um bilhete, onde ele leu, com um sorriso escondido no fundo da alma:

- Um dia, em breve...


Sam Cooke
You're always on my mind







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quinta-feira, 13 de julho de 2017

DOCE, DOCE... >> Analu Faria

Eu sou dessas que olha um Querer com a impaciência de quem olha um gato preguiçoso. Eu sou daquelas que só nota que o  Querer se fez carne depois que Ele já anda e fala. Funciona assim: aciono um Querer e O desejo na mesa para ontem. Ele cozinha ali na alma (na cabeça?), às vezes uma vida inteira. Quando vejo,  já está servido.

Foi desse jeito com um louco vício em açúcar, que eu tenho desde que me chamaram pelo nome (e eu respondi). De uma hora para outra, o vício tomou seu rumo, como eu Queria (mas não quando eu Quis).

O vício em doces pode ser até que volte, apesar de um sumiço passageiro já ser impressionante. De qualquer forma, o Querer-gato me assusta. Cozinha tão devagar que às vezes o considero desandado. Aparece pronto quando menos se espera.

É claro que isso aconteceu com coisas mais sérias da vida, principalmente depois que fiz o Caminho de Santiago, mas o que parecia impossível mesmo é eu deixar de ser a louca do doce.



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quarta-feira, 12 de julho de 2017

MELANCOLIA >> Carla Dias >>


É que eu não entendo direito. Tento, mas o essencial me escapa. Talvez eu seja – ou esteja – muito distraída para compreender o linguajar que tenta enredar o outro, a fim de minimizar suas tragédias, humilhar suas buscas, distorcer seus direitos. Talvez seja mesmo do signo, e eu desembeste a dizer bobagens. E não quero ser mais uma a dizer bobagens que ofendam, em vez de trazer para a discussão algo que valha a pena ser compartilhado. Não quero verbalizar a ignorância. Não quero propagá-la.

Posso falar sobre delícias. Mas não o farei usando personagens que adoro inventar, porque, hoje, nenhum deles veio me visitar. Estou eu mesma, então que as delícias têm de ser minhas.

Café. A maior delícia de todas. Começar a escrever um livro assim, colado naquele último que adorei escrever. Folhear catálogo de lojas de material de construção e afins. Essas lojas são para mim o que as de roupas e sapatos são para alguns.

Tem o que engasga, também. Feito aquelas mensagens pedindo para assinar petições, que trazem todo tipo de problema que você até tenta, mas não tem o poder de resolver. A impotência me estressa, enverga mesmo. Coloca-me de cara com a vontade de chorar feito criança. Queria poder dizer aos que me mandam tais petições que sinto muito por eles terem de passa por isso. Sinto por seus filhos não resistirem a um sistema que se debruça somente em estatísticas; que lida com a urgência como se ela pudesse prolongar seus prazos e adiar seus desejos.

Sinto mesmo.

Uma pena que eu não entenda direito. Isso não significa que não esteja escutando, observando, tentando mesmo compreender esse imbróglio. Clareza me remete ao justo. Será que é uma percepção equivocada a minha?

Ainda sobre delícias: cultivar aquele afeto que dará em nada, que você sabe que vive da invencionice, mas que ajudou aí na criação de uns poemas daquele livro nascido há pouco. Melhor manter o afeto respirando.

Na falta de conhecimento para me posicionar; de energia para tentar compreender, finalizo essa crônica destrambelhada com um poema de amor que nunca será.

É o que posso oferecer nesse hoje.



Imagem: Melancholy © Jan Zrzavý

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terça-feira, 11 de julho de 2017

PARA SEMPRE >> Clara Braga

Todo mundo, em algum momento da vida, já teve que lidar com o tal do para sempre.

Confesso que, no geral, acho que as pessoas lidam até muito bem com essa conversa de eternidade.

Quem nunca fez uma jura de amor eterno até que conheceu outra pessoa e percebeu que amor eterno é muito mais do que aquilo que se tinha antes?

Ou então jurou que o melhor lugar do mundo para se passar o resto da vida era aquele em que se estava, porém, decidiu olhar para o lado e descobriu que naquele outro lugar poderia ser muito mais feliz.

Tem também as pessoas que dividiram aquele colar de amigas para sempre com a amiga da escola e hoje em dia não fazem ideia do que aconteceu com a outra metade.

E as promessas de que aquele vício ficou para trás para sempre até o fim de semana? Ah, mas fim de semana não conta vai, afinal, ninguém é de ferro.

A verdade é que lidar com o para sempre é relativamente mais fácil do que se parece porque desde cedo aprendemos com nossa querida Cássia Eller que para sempre é uma coisa que sempre acaba.

Eu também já joguei nesse time do que seja eterno enquanto dure, afinal, abrir mão de algo me parece um ótimo caminho para que novas portas se abram, mas há sete meses toda a minha teoria mudou. Fiz um exame de sangue e descobri que seria mãe. Nunca me senti tão confusa, feliz, triste, assustada, indefesa, com medo e destemida antes em minha vida, e o nome disso sabe qual é? Para sempre! 

De agora em diante serei para sempre mãe desse pequeno. E não é só esse laço que é para sempre, uma criança une pessoas que muitas vezes nem escolheram estar juntas ou dividir algo na vida, mas não é uma opção, elas estão conectadas para sempre, gostem ou não.

Não gosto de discordar de grandes ícones e sei que falando isso não estou discordando só de um ou dois, mas de muitos. Mas agora, só agora, entendo que para sempre é algo tão grandioso que nunca vão conseguir definir, pois algo só é para sempre quando a gente sabe onde começa, mas daí para frente só Deus sabe no que vai dar.


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segunda-feira, 10 de julho de 2017

CORAGEM! EU ESTOU AQUI >> Albir José Inácio da Silva

Cresceram juntos, mais que irmãos. Nunca pararam pra combinar coisa alguma, mas a sobrevivência impunha a sociedade. Fazia cada um o que sabia no negócio de porcos. Zé do Porco matava porco e Magrelo fazia contas e negócios.

Zé do Porco matava porco desde que se lembra. Como seu pai e, talvez, seu avô, mas não tem certeza. Memória, aliás, ele não tem muita, de nada. Nada dessas coisas de lembrar, pensar,  resolver. Sabia ir vivendo, forte como um touro. Gostava de trabalhar, de comer e de Nalva.

Nalva namorava Zé do Porco há muito tempo, meio desesperançada porque ele era Zé do Porco.

Magrelo era magrelo mesmo. Seco e ágil, não gostava de trabalho duro, mas era manhoso na barganha e nas contas. Fazia, segundo ele mesmo, milagre nas contas.

A questão é que não tinham porco pra matar. Alugavam o trabalho do Zé quando alguém precisava. Mas quem tinha porco matava seu próprio porco. Ficavam na dependência de algum idoso ou viúva que precisasse.

Foi Nalva que teve a ideia, Magrelo gostou, e Zé do Porco não queria.

- Não gosto de cidade! E não quero ficar longe de tu, Nalva.

Mas a coisa estava mesmo ruim. Ninguém matava porco, ninguém vendia porco porque ninguém comprava porco. Comprava-se fubá, farinha, feijão, ovo - quando muito. Pra isso que tomaram o governo? – perguntava-se.

Zé acabou concordando quando Nalva falou que ia junto. Reuniram as economias, e Magrelo partiu na frente pra arrumar lugar. Depois foram Zé, Nalva e as trouxas que pegaram ônibus pro Rio de Janeiro. Alugaram uma casa no subúrbio distante, com um quintal pra Zé do Porco trabalhar.

E Zé trabalhou como nunca antes em sua vida de homem que gostava de trabalhar. Raramente o porco era entregue em sua casa. Procurando preços melhores, Magrelo comprava porcos distantes e sem entrega. Ia o Zé buscar porco nas costas.

Também não pôde mais matar porco no quintal. Os bichos guinchavam muito alto na hora final, de madrugada, e os vizinhos ameaçaram denunciar. Agora Zé carregava porco nas costas até uma clareira afastada, matava o porco, e depois trazia de volta em sacos que pesavam muitas arrobas. Às vezes já era noite quando terminava de cortar a carne que seria entregue no dia seguinte.

E a entrega também era ele que fazia. Magrelo era franzino, não aguentava peso e além disso estava sempre envolvido em negociações, compras e vendas. Mas Zé do porco não reclamava. Não faltava trabalho, então tudo estava bom.

Magrelo comprou umas roupas porque precisava tratar com as pessoas, os comerciantes, os fazendeiros, e não podia se apresentar de qualquer jeito. Deu dinheiro pra Nalva também comprar porque “sabe como é mulher, né?”. Zé disse que pra ele não precisava:

- Só uso roupa de trabalho, suja de sangue, qualquer pano velho serve. Gasta dinheiro com isso não.

Zé do Porco pensou que estava tudo bem. Magrelo não prestava contas porque Zé nunca gostou, não entendia, cansava e dizia pra fazer o que precisasse. Por isso ficou surpreso com a conversa de Magrelo.

 - As coisas tão ruins, Zé. Dinheiro só dá pra pagar, sobra nada. O porco em pé tá muito caro e, na hora de vender, não querem pagar muito. Os frigoríficos vendem mais barato e com documentos, certificados.


(2ª e última parte em 24 de julho)


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sexta-feira, 7 de julho de 2017

QUANDO O DEPOIS É AGORA >> Paulo Meireles Barguil


"Todos os dias quando acordo
Não tenho mais o tempo que passou
Mas tenho muito tempo
Temos todo o tempo do mundo"
(Renato Russo, Tempo perdido)

Uns falam: "Não deixe para amanhã  o que você pode fazer hoje!".

Outros provocam: "Não faça amanhã  o que você pode deixar para depois de amanhã!".

Qual sábio conselho adotar?

Há quem siga o primeiro para o lazer e o segundo para o trabalho.

Quem prefira o contrário: adia o prazer e antecipa o labor.

E quem, com gosto eclético, que ora escolhe o primeiro, ora escorrega para o segundo...

Diante da vida tão sutil e efêmera, a Humanidade criou vários formas de medi-la.

Relógios diversos — solar, de água, de areia, mecânico, digital... — e calendários variados  — Chinês, Judaico, Maia, Juliano, Islâmico, Gregoriano...

Mas a dúvida persiste: antecipar ou procrastinar?

Para resolver esse dilema, acho que, por ora, vou esconder — jogar fora seria muita estripulia! — o ponteiro das horas...


Em breve, vou surrupiar, também, o dos minutos...


[Relógio da Torre Bissara — Vicenza — Itália]
 
[Foto de minha autoria. 12 de março de 2013]
 
 
[Relógio da Torre de Mangia — Siena — Itália]
 
[Foto de minha autoria. 16 de março de 2013]


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quarta-feira, 5 de julho de 2017

UM DIA E MEIO >> Carla Dias >>


Nasceu há uns bons pares de décadas. Porém, somente há pouco sentiu o tempo a lhe desfalecer a pele, feito um abate. Como se ele tivesse fechado os olhos jovem e ao abri-los, fez-se outro, mais cansado. Tão mais existido.

Nunca foi obstinadamente vaidoso, mas sempre apreciou a jovialidade de seus desejos. Eles que se deitaram com ele ontem, atiçadíssimos. Nem todos acordaram com ele hoje. Foi um funeral dramático, durante o café da manhã, enquanto a rotina acontecia sem dar a menor atenção à ausência de seus audaciosos bel-prazeres.

Viveu muitas histórias. Algumas ele decidiu guardar para si, apesar de ser conhecido por compartilhar suas pessoalidades sem qualquer cerimônia. Apreciava como os espectadores reagiam às suas loucuras íntimas, independente do tema. Mas veja bem, ele nasceu ontem, ainda que a certidão de nascimento insista que foi há bons pares de décadas.

Sente que o tempo o enganou. Passa as mãos trêmulas pela cabeça nua, como que explorando o improvável, observando o que lhe aconteceu por erro de um Deus que não prestou atenção nele como deveria. Porque ainda há tanto o que realizar. São muitas as histórias para concluir. Não é justo que o tempo, mancomunado com alguma divindade que não tem mais o que fazer, além de garantir que ele passe, o impeça de seguir adiante com suas vontades.

Onde estava quando a vida aconteceu? O que fazia que nem percebeu que nada ficou? Ninguém ficou. O que pensava, enquanto ruminava a certeza de que amanhã resolveria isso, depois de amanhã, aquilo outro? Não que seja um ignorante das ciladas existenciais. Leu livros sobre o tempo que passa sem que as pessoas percebam. Assistiu a filmes e documentários a respeito. Conversou com as vítimas dele. Ainda assim, parecia tão distante tal cilada. Parecia que ela jamais caberia em sua biografia.

Então, o dito popular assumiu seu posto de verdade: a vida passa mais rápido do que imaginamos. Contudo, muitas vezes ela passa rápido justamente porque a imaginamos demais. Pobre de nós que vivemos do prospecto dela, do que será dela no amanhã, dos sonhos nascidos para a mais pura protelação.

Ele não é dado às lamentações, por isso amarga essa necessidade no seu hoje. Lamentar-se é a forma que encontrou de manter sua voz ativa. As pessoas – aquelas às quais o tempo ainda não açoitou para valer –, elas o escutam, mas já não se interessam tanto sobre o que ele tem a dizer. As suas aventuras não atendem mais à curiosidade daqueles que o cercam.

Talvez ele entenda, nesse agora, aquela história que seu pai lhe contou, quando ele ainda era menino. Era sobre a importância de se cercar de pessoas que não somente nos ouçam, mas que ousem nos fazer escutar o que não queremos. São elas que permanecem, quando permitimos. Sim, mais um clichê. Hoje ele sabe o quanto eles são importantes. Eles são verdades tratadas com distância, de tão complexas, difíceis de se encarar, torturantes.

Passou rápido, nem deu tempo para ele se acostumar com a fragilidade das pernas, com a geografia das rugas, com os nomes dos genéricos sobre o criado-mudo, tampouco com a falta de graça em suas piadas ensaiadas. Talvez more aí o problema, não deveria ter ensaiado, mas sim abraçado o improviso. Imagine quantos o teriam odiado e amado e intrigado.

Deseja, enquanto se engasga por conta da tosse insistente, que o tempo não lhe arranque as memórias que ainda acalentam sua existência. Já aceitou Deus, com a aspereza de quem não quer abrir mão do direito de não acreditar. Enveredou-se pelo desespero daquele que, na solidão dos afetos, apega-se aos santos. Nasceu ontem, logo depois de se decretar um devoto, digno de receber o benefício de uma vida depois dessa.

Na ausência de fome, na necessidade de permanecer onde está, ele espera por essa outra vida, na qual desfiará inquietações, respirará intrigas, discursará sobre a necessidade do improviso. Reza o terço que ganhou da enfermeira, quem o ajudou a nascer desse jeito novo. Na terceira Ave-Maria, ele já se perdeu da reza, rendido que está à cadência dos quadris da santa enfermeira que lhe salvou a alma.

Morreu jovem, nascido há apenas um dia e meio. E feliz, porque driblou o tempo e partiu, mas não sem antes cometer um último pecado.

Imagem © Kahlil Gibran

carladias.com

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terça-feira, 4 de julho de 2017

ACHARAM QUE EU CASEI >> Clara Braga

Essa semana me diverti lendo comentários de uma foto no facebook! A foto? Eu e meu namorado abraçados, vestidos formalmente para sermos padrinhos de casamento do meu irmão. O problema? Meu namorado adora inventar palavras estranhas e decidiu colocar na legenda da foto a seguinte palavra: casamentchucos. O que essa palavra significa? Pra mim e para poucas pessoas significa que estávamos indo a um casamento, mas para várias outras significou que nós tínhamos casado!

Foi impressionante, nunca uma foto minha tinha tido tantas curtidas. E os comentários? Muita gente parabenizando, algumas pessoas que eu nem conheço direito, e chegaram até a cobrar o chá de panela! Como casou e não fez chá?

Imagino a decepção quando descobrirem que não foi nada disso, mas posso imaginar o motivo das pessoas terem chagado a essa conclusão: de fato estamos morando juntos, mas isso não significa que casamos.

Somos companheiros em todos os momentos, nos apoiamos e ajudamos. Quando passo por qualquer situação, seja boa ou ruim, é pra ele que eu ligo para conversar, mas não casamos.

Dormimos juntos todos os dias e quando me levanto para ir ao banheiro ele logo acorda para saber se está tudo bem. E se demoro para pegar no sono de novo ele faz carinho para me embalar. Mas ainda não casamos.

Dividimos o armário da forma mais desigual possível, mas eu acho justo, afinal, eu tenho muito mais coisa, preciso de espaço! Sem contar as prateleiras que podiam ter livros meus, mas eu deixei para a coleção de bonecos dele. E na rotina a gente vai se entendendo. Tira uma coisa daqui, encaixa outra ali, combina o que ele gosta com o que eu gosto e a gente vai se entendendo, mas não casamos.

Ah, claro! Daqui 2 meses nasce nosso filhote que está no forno. E do mesmo jeito que vamos nos ajustando com nossas coisas, vamos nos ajustando pra preparar o mundo pra chegada do nosso pequeno.

Pensando bem, realmente não fomos a um cartório, não assinamos nada, não somos religiosos para irmos a uma igreja e nem contratamos um juiz de paz para ir a lugar nenhum. Mas se parar para pensar, somos muito mais casados do que muita gente que casou só no papel e deixou a rotina de lado.

Acho que no final as pessoas que comentaram a foto é que tinham razão, acabou que eu casei e nem notei. 


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sábado, 1 de julho de 2017

FILOSOFIA DE BOTEQUIM >> Sergio Geia



Tem uma frase do Fernando Pessoa que me toca muito. Dizem que, perguntado sobre o que deveria ser escrito na sua lápide depois que partisse, o poeta português respondeu: “Fui o que não sou”. Desde que li esse aforismo, ele ficou gravado nas entranhas ecoantes do meu cérebro, e reverbera todo dia como um sino, pra me levar a atitudes que talvez eu nunca tomasse na vida.
A última coisa que quero é ser quem eu não sou. Na verdade, quero ser eu, e, em minha lápide, quero cunhado o alegre comentário: “Esse aí foi quem verdadeiramente era. O Geia... Viveu...”. Saber quem somos, talvez, filosoficamente falando, seja o maior problema de todos.
O contrário é mais fácil. Tenho experiências suficientes pra dizer que em muitos momentos da vida, fui quem eu não era.
Fui quem eu não era parte 1.
Estava no lançamento de um livro quando cumprimentei uma conhecida que mora aqui perto de casa, que sempre vejo na rua, que sei quem é, mãe de quem, parente de fulana, amiga de sicrana, trabalha com beltrana. Meu conhecimento sobre ela, contudo, é comezinho e pobre, e para aí. Pois não é que ela veio me cumprimentar toda sorridente, me deu um caloroso abraço, me disse que estava com saudades, que havia tempos não me via, que eu tinha sumido, que onde eu me metera, o que estava fazendo etc., etc., etc. (Não era assédio; não era, eu lhe garanto; era confusão mental mesmo, pura confusão).
Confesso que tenho problemas com situações assim. Em vez de deixar as coisas às claras, dizendo “Querida, você tá me confundindo com alguém, não?”, “Alôô, sou seu vizinho, lembra? Vizinho, moramos perto, nos esbarramos de vez em quando, nos cumprimentamos, lembrou agora?”, eu vou deixando rolar, mesmo sem querer vou dando linha, torcendo pra que chegue alguém, um conhecido, que me tire daquela enrascada. Eu não consigo me livrar sozinho.
Fui quem eu não era parte 2. 
Foi no velório da mãe de um amigo. Dei-lhe um abraço afetuoso, rezei por aquela senhorinha que conheci pouco, mas que quando me via sempre me chamava pelo nome e dizia que se lembrava de mim, depois, me acomodei numa sala anexa e ali fiquei um tempo. De repente, uma moça chega assim do nada e me cumprimenta; eu, educadamente, respondo ao cumprimento. Ela vem:
“Oi, como você está? Há quanto tempo?” – me beija no rosto, me dá um abraço.
“Bem, e você?”, eu respondo.
“E as crianças, como elas estão?”
“Bem também.”
“Devem estar enormes...”
“Sim, João está com 20, a Chiara com 15.”
“Nossa, eu me lembro deles pequenininhos.”
Até aí, tudo bem. A única coisa estranha é que eu não me lembrava dela. Será que a conhecia? Mas de onde? Do trabalho não podia ser. Da igreja, do tempo em que eu frequentava? Será?
Mas a coisa foi se revelando aos poucos.
“Faz tanto tempo que não vou a Ubatuba, você tem ido?”
Opa, pensei, tá começando a ficar estranho.
“A última vez foi em janeiro”, eu disse.
“Então, eu lembro deles, correndo no apartamento, brincando com meus filhos.”
Fodeu, pensei. Tá me confundindo. Eu não tenho apartamento em Ubatuba, meus filhos nunca correram num apartamento, nunca brincaram com os filhos dela, ela nunca deve ter me visto na vida. Será que tá me confundindo com o meu tio?
O problema é que a conversa continuou, eu devia estar escarlate, roxo, vai, e fui tentando levar o papo sem me comprometer (muito), até que ela viu uma amiga (ufa!), me deu outro beijo, e foi.
Alívio.
Que não durou muito. Ela voltou. E desta vez, com o marido. Fodeu de vez, pensei. Na minha cabeça o negócio já se desenrolava como uma cena de teatro: “Olha, bem, quem eu encontrei!” O cara ia olhar pra mim, e um oceano de pontos de interrogação iria aparecer na sua cara. A situação seria muito constrangedora.
Não perdi tempo. Achei um amigo no meio daquela gente toda e fiz dele o meu escudo. Me escondi literalmente atrás dele. Foi constrangedor também, confesso. Mas nem tanto, diante do que estava por acontecer.
Moral da história: seja você! Sempre! 

Ilustração: https://gz.diarioliberdade.org.



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