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UM DIA E MEIO >> Carla Dias >>


Nasceu há uns bons pares de décadas. Porém, somente há pouco sentiu o tempo a lhe desfalecer a pele, feito um abate. Como se ele tivesse fechado os olhos jovem e ao abri-los, fez-se outro, mais cansado. Tão mais existido.

Nunca foi obstinadamente vaidoso, mas sempre apreciou a jovialidade de seus desejos. Eles que se deitaram com ele ontem, atiçadíssimos. Nem todos acordaram com ele hoje. Foi um funeral dramático, durante o café da manhã, enquanto a rotina acontecia sem dar a menor atenção à ausência de seus audaciosos bel-prazeres.

Viveu muitas histórias. Algumas ele decidiu guardar para si, apesar de ser conhecido por compartilhar suas pessoalidades sem qualquer cerimônia. Apreciava como os espectadores reagiam às suas loucuras íntimas, independente do tema. Mas veja bem, ele nasceu ontem, ainda que a certidão de nascimento insista que foi há bons pares de décadas.

Sente que o tempo o enganou. Passa as mãos trêmulas pela cabeça nua, como que explorando o improvável, observando o que lhe aconteceu por erro de um Deus que não prestou atenção nele como deveria. Porque ainda há tanto o que realizar. São muitas as histórias para concluir. Não é justo que o tempo, mancomunado com alguma divindade que não tem mais o que fazer, além de garantir que ele passe, o impeça de seguir adiante com suas vontades.

Onde estava quando a vida aconteceu? O que fazia que nem percebeu que nada ficou? Ninguém ficou. O que pensava, enquanto ruminava a certeza de que amanhã resolveria isso, depois de amanhã, aquilo outro? Não que seja um ignorante das ciladas existenciais. Leu livros sobre o tempo que passa sem que as pessoas percebam. Assistiu a filmes e documentários a respeito. Conversou com as vítimas dele. Ainda assim, parecia tão distante tal cilada. Parecia que ela jamais caberia em sua biografia.

Então, o dito popular assumiu seu posto de verdade: a vida passa mais rápido do que imaginamos. Contudo, muitas vezes ela passa rápido justamente porque a imaginamos demais. Pobre de nós que vivemos do prospecto dela, do que será dela no amanhã, dos sonhos nascidos para a mais pura protelação.

Ele não é dado às lamentações, por isso amarga essa necessidade no seu hoje. Lamentar-se é a forma que encontrou de manter sua voz ativa. As pessoas – aquelas às quais o tempo ainda não açoitou para valer –, elas o escutam, mas já não se interessam tanto sobre o que ele tem a dizer. As suas aventuras não atendem mais à curiosidade daqueles que o cercam.

Talvez ele entenda, nesse agora, aquela história que seu pai lhe contou, quando ele ainda era menino. Era sobre a importância de se cercar de pessoas que não somente nos ouçam, mas que ousem nos fazer escutar o que não queremos. São elas que permanecem, quando permitimos. Sim, mais um clichê. Hoje ele sabe o quanto eles são importantes. Eles são verdades tratadas com distância, de tão complexas, difíceis de se encarar, torturantes.

Passou rápido, nem deu tempo para ele se acostumar com a fragilidade das pernas, com a geografia das rugas, com os nomes dos genéricos sobre o criado-mudo, tampouco com a falta de graça em suas piadas ensaiadas. Talvez more aí o problema, não deveria ter ensaiado, mas sim abraçado o improviso. Imagine quantos o teriam odiado e amado e intrigado.

Deseja, enquanto se engasga por conta da tosse insistente, que o tempo não lhe arranque as memórias que ainda acalentam sua existência. Já aceitou Deus, com a aspereza de quem não quer abrir mão do direito de não acreditar. Enveredou-se pelo desespero daquele que, na solidão dos afetos, apega-se aos santos. Nasceu ontem, logo depois de se decretar um devoto, digno de receber o benefício de uma vida depois dessa.

Na ausência de fome, na necessidade de permanecer onde está, ele espera por essa outra vida, na qual desfiará inquietações, respirará intrigas, discursará sobre a necessidade do improviso. Reza o terço que ganhou da enfermeira, quem o ajudou a nascer desse jeito novo. Na terceira Ave-Maria, ele já se perdeu da reza, rendido que está à cadência dos quadris da santa enfermeira que lhe salvou a alma.

Morreu jovem, nascido há apenas um dia e meio. E feliz, porque driblou o tempo e partiu, mas não sem antes cometer um último pecado.

Imagem © Kahlil Gibran

carladias.com

Comentários

Anônimo disse…
Antes do gran finale pensei que Carla dias me conhecia. Carla dias cada vez mais entendendo a alma humana. A grande e prazerosa leitura
Enio.
Carla Dias disse…
Enio, meu caro, e alma humana não é de se apreciar? Beijo.
sergio geia disse…
Carla, vce é maravilhosa!
Carla Dias disse…
Poxa, Sergio, obrigada! :) :) :)
albir silva disse…
Ninguém sai de mãos vazias
quando lê Carla Dias.
O que pode ser rima e solução.
Carla Dias disse…
Albir... Obrigada. Beijo.
Zoraya Cesar disse…
uauauauaua, CARLA DIAS!!! sua absurda de maravilhosa!
Carla Dias disse…
Zoraya!!!
Obrigada. :)

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