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Mostrando postagens de Setembro, 2018

PERSPECTIVA >> Paulo Meireles Barguil

"Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
Quem é ela? Quem é ela?
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle" (Adriana Calcanhoto, Esquadros)

Diante da vida, abro ou fecho os olhos?

O que eu quero ver?

O que eu não desejo enxergar?

Qual é a qualidade da minha visão: hipnótica ou contemplativa?

O que preciso fazer para perceber melhor: aproximar-me ou distanciar-me?

Até quando evitarei fitar a minha cegueira?


[Fortaleza de Santa Cruz da Barra – Niterói]

[Foto de minha autoria. 16 de maio de 2010]

SIMPLICIDADE >> Carla Dias >>

Ontem assisti a um daqueles filmes que tanto aprecio. Um filme sobre personagens, com certa leveza e a melancolia que cabe na biografia de qualquer um ao enfrentar dilemas, inseguranças, frustrações e até mesmo alegrias.

Esse filme me levou a pensar na simplicidade com mais simplicidade. É que, em algum momento, até ela, a simplicidade, torna-se complexa. É feito o tempo, algo que é nosso e do qual sentimos falta, o tempo todo. Ele nos faz redundantes no dizer, mas não na questão. Falta-nos tempo para sentir o tempo, porque estamos sempre na correria, lidando com mil coisas e tantas urgências. Não importa que boa parte disso vá nos levar a lugar nenhum, nem mesmo que a nossa energia desfaleça nessa jornada de buscas, continuamos a preencher o tempo com a falta que ele nos faz.

O filme me fez lembrar da simplicidade de ser. Por exemplo, relembrei quando peguei no colo, pela primeira vez, cada um dos meus sobrinhos. Do abraço da minha mãe, no dia em que mudei de casa. A primeira vez qu…

FACEBOOK RAIZ >> Clara Braga

Escrever em porta de banheiro é algo que sempre existiu. Lembro bem do banheiro da escola, você ia lá fazer um xixi e ficava lendo as assinaturas das pessoas que, por algum motivo, levavam canetas ou liquidpaper no bolso quando precisavam utilizar o sanitário. Era uma chuva de *Marina_Linda*, =]Paulinha, Aninha-gata e Carolinda ;). Quando rolava briga uma ia lá para apagar o nome da outra. As mais ousadas riscavam o nome e escreviam algum xingamento, mas no geral era só apagar mesmo.
Às vezes, quando a porta ficava muito suja, a diretora tentava identificar as donas dos apelidos e ameaçava colocar para limpar, mas a desculpa era sempre a mesma: não fui eu que escrevi, alguém que foi lá e escreveu meu nome para me prejudicar. E assim os banheiros ficavam cada vez mais repletos de assinaturas.
Em tempos de Twitter imaginei que as portas haviam ficado esquecidas, mas em experiência recente descobri que elas apenas foram reinventadas. A porta do banheiro é o novo mural do Facebook e as r…

A PRIMAVERA >> Sergio Geia

Hoje pensei em escrever sobre ela. Lembra aquela música do Beto Guedes: “Quando entrar setembro, e a boa nova andar nos campos”? Ela me é tão inspiradora, ainda que setembro já esteja quase no fim. Desci para tomar café na Tábua de Frios, e aproveitei para olhar árvores (sabia que o Brasil é o país mais arbóreo do mundo? Ouvi isso outro dia no rádio), da Professor Moreira à Santa Teresinha; queria encontrar alguma coisa, um toque primaveril a me inspirar. Fiquei olhando pessoas para encontrar uma alegria diferente, quem sabe um brilho nos olhos, até a mulher que se esqueceu de pagar a água no caixa eu perscrutei, ou a senhorinha de cabelos de algodão com seu cão que encontrei na calçada. Depois, já em casa, escovei os dentes, e fui à sacada em busca de sinais, uma flor se abrindo, orquídeas, por exemplo. Dizem que aparecem folhas novas na acerola, ou na laranjinha do mato, mas não há acerolas e laranjinhas do mato por aqui. Brotos, talvez. A despedida do inverno, a secura triste indo e…

O BAR DO FIM DO MUNDO >> Zoraya Cesar

A ESPELUNCA - O bar ficava escondido no meio de um matagal, e seu acesso era difícil, invisível a quem passasse na estrada. Distava muitos quilômetros da cidade mais próxima e não era um local bem afamado. Sexo, jogatina, bebida, algumas drogas, negócios escusos, diziam, eram tolerados, desde que não houvesse baderna – o dono do bar, que nunca fora visto por vivalma, mas que era temido exatamente por isso, se é que me entendem – não gostava que estragassem a mobília de plástico, o balcão de madeira carcomido, suas caixas de som Yamaha CIS. Em caso de contendas ou desavenças, a turma do deixa-disso e a turma do que-se-dane davam um jeito. Diziam também que, de vez em quando, gente desaparecia por lá, gente sem importância, que ninguém se preocupava muito em procurar. Boatos, claro, o mundo anda cheio de fake news. E isso só aumentava a aura mítica do bar. 
Essa fama – e também a comida razoável, a bebida barata e o som dançante - atraía não só o pessoal do submundo, mas também gente co…

RUBEM ALVES E O MARCA-TEXTO>>Analu Faria

Tive o privilégio de assistir a uma palestra do Rubem Alves, há muitos, muitos anos. Na palestra, o autor contou uma história da qual não me esqueço: a de quando um estudante disse a ele - Rubem Alves - que os professores  dele - estudante - usavam os textos do escritor em sala de aula. Empolgado, Rubem Alves pergunta: "Ah, é? Como vocês trabalham o texto?" e a resposta broxante : "Grifamos os dígrafos e encontros consonantais."
Tempos depois eu me tornei professora de inglês e lidei com muitos dígrafos e encontros consonantais. Eu achei que ia ser muito interessante, mas, sabe, quando você dá aula, às vezes não dá para dar muita bola para o lirismo. Quadro branco, lição para corrigir, e, como eu não sou uma falante nativa, ainda havia mil regras e sons que eu tinha de prestar atenção para não errar. Meu primeiro emprego vinha com uma grande caneta marca-texto e um monte de coisas para grifar.
Um pouco depois de começar a dar aulas, fui morar sozinha. Achei que se…

SEGREDOS >> Paulo Meireles Barguil

"Que mistério pode haver na lágrima de uma mulher
Quando abre os seus segredos?
Que momentos de aflição há  no tremor da sua mão
Onde esconde os seus medos?" (Guilherme Arantes, Lágrima de uma mulher)
Quem não os tem?
Eles se dividem em duas categorias.

Na primeira, estão aqueles que somente você sabe, os quais não partilhamos porque, muitas vezes, se originaram de situações que, de alguma forma, lamentamos os frutos e, por isso, nos envergonhamos. Há, também, aqueles que foram gestados na nossa imaginação, quando interpretou os acontecimentos de um modo desfavorável para nós e, assim, nos encolhemos e tentamos nos esconder...  De vez em quando, por uma conjunção de fatores, decidimos mudar alguns sigilos para a segunda categoria e partilhamos com alguém que acreditamos ser merecedor de nossa confiança. Essa personagem costuma ser conhecida, mas, às vezes, a dor, a angústia é tão grande que desabafamos com quem nunca vimos e veremos de novo. Quando o conjunto de sabedores …

PROJETOS INANIMADOS >> Carla Dias >>

Era sonho na infância. Tornou-se plano na adolescência. Adquiriu caráter de projeto na fase adulta. Cresceu com ela, mas diferente. Há sonho que a gente mantém até o fim, mesmo quando não acredita mais nele.

Ela acha que tem a ver com uma teimosia que não sabe controlar. Há quem diga que é coisa de pessoa doida.

Doida ou nem tão doida assim, era sonho na infância, e ela nunca sonhou sonho na infância com jeito de criança que sonha sonho na infância. Naquele tempo, ela já sonhava desmedido, não do jeito que sonha criança que quer mais é se esparramar numa nuvem de algodão doce.

Mais tarde, no adiante, descobriu que muitas crianças não sonhavam com se esparramar numa nuvem de algodão doce. Algumas delas sonhavam urgências ditadas pela fome, pelo frio e pela solidão oriunda das suas indeléveis misérias.

Quando se tornou plano, a adolescência a levou a embarcar em conhecimento. Sabia de tudo, um tudo frágil, capenga mesmo. Um tudo que servia somente ao imediatismo de quem necessitava se …

DE REPENTE 30 >> Clara Braga

Sempre gostei de listas, fiz listas minha vida toda! É claro que com o tempo os tópicos vão mudando, a lista dos filmes que eu iria assistir no fim de semana foi substituída pelas tarefas que não foram cumpridas na semana e ficaram para o fim de semana, a lista de livros que quero ler passou a ser a lista de livros que eu preciso ler e a de coisas para comprar com a mesada passou a ser a do que deixar de comprar para economizar. 
Mas se engana quem pensa que todas as listas foram alteradas, ainda tenho, por exemplo, minha lista de shows que quero assistir e locais que quero conhecer, e até 24horas atrás eu tinha minha lista de coisas para fazer antes de completar 30 anos.
Não sei ao certo porque encuquei com os 30, mas tem anos que tenho a lista das coisas para fazer antes dos 30. Desconfio que seja por causa da quantidade de vezes que assisti De Repente 30 na sessão da tarde.
Especulações a parte, praticamente 24horas depois de completar os 30, fiz um balanço e percebi que essa list…

COTIDIANO FELIZ >> Sergio Geia

Estou aqui para ajudá-lo. Eu compreendo, sei que gostaria que eu viesse outras vezes, que pode pagar, mas, infelizmente, você sabe, tenho outros amigos que assim como você necessitam de mim. Você compreende? Eu sei, tinha certeza que compreenderia. Prometo que logo este problema estará resolvido; nossa equipe já está desenvolvendo um novo sistema que me permitirá estar em mais de um lugar ao mesmo tempo. Vamos então? Antes de tudo, abra um vinho. Tinto, de preferência. Comece a degustá-lo com calma, sem pressa. De vez em quando olhe lá fora, veja a rua, as pessoas caminhando, algumas indo para o trabalho, um casal de jovens se beijando. Não, em absoluto! Não se recrimine por buscar na memória aquele beijo roubado na esquina. Isso, acaricie o pensamento, sorria, assim, veja como uma boa lembrança faz bem. Você quer me contar? Tudo bem, conte, adoraria saber. Entendo, sua primeira namorada, você não sabia como dar o primeiro beijo. Não sabia se falava alguma coisa, como fazer a aproximaç…

CAMAROTE >>Analu Faria

Vamos acabar com o samba Madame não gosta que ninguém sambe Vive dizendo que samba é vexame Pra que discutir com madame? (João Gilberto)
    Na roda de mulheres de pés descalços, ela se destacava. No parque, um sol de rachar, às três da tarde, ela calçava um tênis de cano alto, de couro, preto. Não era de mau gosto, não, muito pelo contrário. Só parecia quente como o inferno. A moça também tinha maquiagem - rímel, delineador, lápis, blush, batom. Chegou tímida, uns olhões esbugalhados de criança curiosa: 
       _ Desculpa, cês tão falando do quê, mesmo?
     Via-se que havia saído da roda de amigos que fazia um piquenique ali perto, um círculo de homens e mulheres que se vestiam à moda das festas de bebida que pisca, esse pessoal que frequenta o camarote. O dia estava tão bonito, era o final da estação chuvosa, talvez fosse mesmo razão pra tanto. "Cadum, cadum*, minha filha", dizia minha avó.

     Falávamos coisas que bruxas falam em público. E a forasteira foi acolhida com ca…

O MEU OLHAR >> Carla Dias >>

Hoje eu compreendi que meu olhar é meu. Posso emprestá-lo, mas assim, como fonte de consulta. Meu olhar é meu. O que enxergo é diferente do que você enxerga e amém a isso. Assim, haverá sempre o que se aprender. Meu olhar, que é meu, somente meu, e que posso emprestar a quem desejar conhecê-lo, também reconhece sincronismos. Acontece do meu desejo, apesar de dessemelhante no olhar, aprumar-se no colo do olhar do outro; no desejo do outro. Meu olhar ainda é meu, mas compreende que, vez ou outra, não consegue reconhecer tons; desapega-se da luz em um fechar pálpebras e nem sempre adormece. Assim, importa-se em nada quando precisa desnublar perspectivas, ampliar horizontes, repensar contornos. Meu olhar tem mania de se meter em diferenças. Deslumbra-se fácil com a excentricidade – identifica nela o que a plenitude lhe nega –, dá de desfocar, só para alcançar a crueza do que é e se enfeita tanto, mas tanto, que se perde na invencionice. Meu olhar se torna mar, sabe escoar dores, esvaziar-…

DIÁLOGOS DE SALA DE AULA >> Clara Braga

Outro dia, ao final da aula, um aluno se aproximou e perguntou se eu acreditava na influência dos signos no nosso dia a dia. Pensei bem e disse: acredito na influência sim, mas não na determinação cega.
O aluno concordou, apesar de ter feito uma cara de quem não entendeu nada, e foi logo dizendo: é, também acredito na influência, até porque tenho muita dificuldade de me identificar com um signo só.
Quando perguntei o signo dele percebi que o aniversário dele estava se aproximando, então perguntei o dia e, para minha surpresa, o dia era 22 de setembro, exatamente o mesmo dia do aniversário do meu filho.
Contei a coincidência para o aluno e ele foi logo dizendo: caramba, virginiano também? Foi aí que eu expliquei para ele uma questão que meu filho vai ter que explicar para todos os amantes de astrologia que passarem pela vida dele. Dia 22 é dia de transição de signo, você pode tanto ser virginiano quanto libriano, tudo depende da hora que nasce, e como meu filho nasceu na parte da noit…