sexta-feira, 28 de setembro de 2018

PERSPECTIVA >> Paulo Meireles Barguil


"Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
Quem é ela? Quem é ela?
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle"
(Adriana Calcanhoto, Esquadros)


Diante da vida, abro ou fecho os olhos?

O que eu quero ver?

O que eu não desejo enxergar?

Qual é a qualidade da minha visão: hipnótica ou contemplativa?

O que preciso fazer para perceber melhor: aproximar-me ou distanciar-me?

Até quando evitarei fitar a minha cegueira?


[Fortaleza de Santa Cruz da Barra – Niterói]

[Foto de minha autoria. 16 de maio de 2010] 


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quarta-feira, 26 de setembro de 2018

SIMPLICIDADE >> Carla Dias >>


Ontem assisti a um daqueles filmes que tanto aprecio. Um filme sobre personagens, com certa leveza e a melancolia que cabe na biografia de qualquer um ao enfrentar dilemas, inseguranças, frustrações e até mesmo alegrias.

Esse filme me levou a pensar na simplicidade com mais simplicidade. É que, em algum momento, até ela, a simplicidade, torna-se complexa. É feito o tempo, algo que é nosso e do qual sentimos falta, o tempo todo. Ele nos faz redundantes no dizer, mas não na questão. Falta-nos tempo para sentir o tempo, porque estamos sempre na correria, lidando com mil coisas e tantas urgências. Não importa que boa parte disso vá nos levar a lugar nenhum, nem mesmo que a nossa energia desfaleça nessa jornada de buscas, continuamos a preencher o tempo com a falta que ele nos faz.

O filme me fez lembrar da simplicidade de ser. Por exemplo, relembrei quando peguei no colo, pela primeira vez, cada um dos meus sobrinhos. Do abraço da minha mãe, no dia em que mudei de casa. A primeira vez que escutei aquela canção. Lembrei-me das gargalhadas das minhas primas e irmãs, durante uma conversa regada a café. E dos amigos... do que admiro em cada um deles, aquele aspecto que me faz ser grata por tê-los em tão grato sentimento, porque amizade é laço de construção; é compreensão e muitas, mas muitas discussões.

Então, que me deu uma saudade imensa da simplicidade. Pensei sobre há quanto tempo não coloco os pés na água de um rio, não vejo o pôr do sol, não tomo banho de chuva ou vou ao cinema. A lista foi crescendo e me peguei comentando comigo mesma: não é tão simples assim.

Porque não é tão simples assim.

Isso não quer dizer que a simplicidade esteja fora do catálogo da minha vida. Alguns hábitos me remetem a ela. Chego mesmo a considerá-los privilégios, de tão raros que são, porque demandam tempo e uma mente disponível para essa viagem. O observar – pessoas e paisagens. Escutar – músicas e vozes. Ler – livros dos amigos e dos que despertam minha curiosidade. Aprender – idiomas e biografias.

A cada dia, deslumbro-me mais ainda com o desalinhado. A estabilidade no caos, a intranquilidade no definido, a proximidade na distância. A cada dia, a vida me ensina um pouco mais sobre a simplicidade que há nesse emaranhado de complicações que abraçamos, diariamente. Na verdade, as viagens que fazemos pela biografia dos nossos afetos, ela é uma busca pela simplicidade do sentimento que temos por eles, apesar de tudo que se opõe a tal afeição.

Não panfleto que sou a simplicidade em vida, porque seria uma boa de uma mentira. Porém, nunca negarei meu apreço por ela, nem mesmo que acredito que ela seja uma daquelas pausas de nós mesmos, elas tão necessárias.

Eu sou assim... um bom filme me faz pensar na vida, leva-me ao questionamento. Gosto de ser assim, porque inflexibilidade só faz enrijecer o espírito, e eu prefiro o meu livre.

Imagem: Neighborhood of a Bare Mountain © Ryu Kyung-chai

carladias.com



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terça-feira, 25 de setembro de 2018

FACEBOOK RAIZ >> Clara Braga

Escrever em porta de banheiro é algo que sempre existiu. Lembro bem do banheiro da escola, você ia lá fazer um xixi e ficava lendo as assinaturas das pessoas que, por algum motivo, levavam canetas ou liquidpaper no bolso quando precisavam utilizar o sanitário. Era uma chuva de *Marina_Linda*, =]Paulinha, Aninha-gata e Carolinda ;). Quando rolava briga uma ia lá para apagar o nome da outra. As mais ousadas riscavam o nome e escreviam algum xingamento, mas no geral era só apagar mesmo.

Às vezes, quando a porta ficava muito suja, a diretora tentava identificar as donas dos apelidos e ameaçava colocar para limpar, mas a desculpa era sempre a mesma: não fui eu que escrevi, alguém que foi lá e escreveu meu nome para me prejudicar. E assim os banheiros ficavam cada vez mais repletos de assinaturas.

Em tempos de Twitter imaginei que as portas haviam ficado esquecidas, mas em experiência recente descobri que elas apenas foram reinventadas. A porta do banheiro é o novo mural do Facebook e as regras de uso são basicamente as mesmas, levando em consideração apenas pequenas adaptações para suprir a falta de tecnologia do banheiro.

Pelo que observei, funciona mais ou menos assim: você entra no box e olha para a porta fechada a sua frente, naquele espaço vazio da porta imagine que tem a pergunta: no que você está pensando? Então, certifique-se de que levou um canetão e coloque para fora sua angústia, já que no banheiro não precisamos fingir estarmos sempre felizes.

Na ocasião que eu acompanhei no banheiro de uma universidade recentemente, a pessoa que usou fez um protesto, pediu que as mulheres fizessem xixi sentadas para não molhar o vaso. Uma pessoa que usou o mesmo box depois não gostou nada da colocação da primeira pessoa, deixando claro que os haters não são exclusividade do mundo virtual. Ela puxou uma seta, símbolo que no mundo do banheiro significa que ela está respondendo diretamente para aquela pessoa, ou seja, é a função do @ nos grupos do whatapp, e disse: não sento pelo mesmo motivo que não enfio a boca em bebedouros públicos, deixa de ser nojenta!

A primeira pessoa com certeza era frequente no banheiro, pois viu a resposta e não deixou barato, mesmo não tendo mais espaço na porta ela puxou uma nova seta para uma parte lateral e respondeu: sua burra, boca é diferente de bunda, tem mucosa!

Não sei se a outra pessoa respondeu depois pois não passei mais pelo banheiro, mas confesso ter ficado curiosa já que observei que as pessoas estavam se manifestando e tomando partido em uma briga que nunca saberemos quem são os envolvidos, já que no banheiro não dá para criar perfil. Para colocarem seus comentários as pessoas também puxaram setas e escreveram coisas como: apoiado! E para suprir a falta de emojis do mundo do banheiro usamos as onomatopeias, como fez uma pessoa que deve ter sentido falta das mãos batendo palmas e então escreveu clap, clap, clap.

Não imagino essa prática virando moda, as pessoas estão tão imediatistas que deve ser difícil segurar a emoção de esperar a hora que a pessoa vai ao banheiro, vê a resposta e escreve uma outra resposta. Esse processo deve levar alguns dias e até lá corre o risco das pessoas nem lembrarem mais pelo que estão brigando. De qualquer forma, sempre que preciso usar um banheiro público procuro mais desses diálogos para ver se eu consigo entender um pouco mais desse universo que eu decidi chamar de Facebook Raiz.





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sábado, 22 de setembro de 2018

A PRIMAVERA >> Sergio Geia



Hoje pensei em escrever sobre ela. Lembra aquela música do Beto Guedes: “Quando entrar setembro, e a boa nova andar nos campos”? Ela me é tão inspiradora, ainda que setembro já esteja quase no fim.
Desci para tomar café na Tábua de Frios, e aproveitei para olhar árvores (sabia que o Brasil é o país mais arbóreo do mundo? Ouvi isso outro dia no rádio), da Professor Moreira à Santa Teresinha; queria encontrar alguma coisa, um toque primaveril a me inspirar. Fiquei olhando pessoas para encontrar uma alegria diferente, quem sabe um brilho nos olhos, até a mulher que se esqueceu de pagar a água no caixa eu perscrutei, ou a senhorinha de cabelos de algodão com seu cão que encontrei na calçada.
Depois, já em casa, escovei os dentes, e fui à sacada em busca de sinais, uma flor se abrindo, orquídeas, por exemplo. Dizem que aparecem folhas novas na acerola, ou na laranjinha do mato, mas não há acerolas e laranjinhas do mato por aqui. Brotos, talvez. A despedida do inverno, a secura triste indo embora, o cinza da manhã dando lugar ao azul recém-inaugurado.
Mas como eu queria.
Encharcar de poesia e colorido este Crônica do Dia de hoje, afinal, primavera é primavera, tempo de renovação (dizem), de luz e calor, de cor e perfume. Examinei a Mantiqueira que se insinua para mim, tentei uma luz diferente. Agucei ouvidos em busca de cantos novos, um bem-te-vi, quem sabe. Fotografei ipês na JK.
Nem luz, sol, cor, como falam por aí. Nem alegria, paixão, tesão, renovação eu encontrei, a mesmice de sempre (aliás, o centro da cidade hoje estava um horror de tanta gente; depois dizem que brasileiro não tem dinheiro). Nem amor, calor, humor, nem um certo desespero em flor, como na canção.
Talvez sejam os meus olhos despreparados, o coração cerrado. Talvez precise de uma Ananda Apple a me ensinar.
Dizem que a tal chega ainda hoje.
Por ora, pelo menos aqui, sem sinais.

P.S.: Ok, ok. Para espantar o mau humor, que tal essa lindeza do Zé Miguel Wisnik?




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sexta-feira, 21 de setembro de 2018

O BAR DO FIM DO MUNDO >> Zoraya Cesar

A ESPELUNCA - O bar ficava escondido no meio de um matagal, e seu acesso era difícil, invisível a quem passasse na estrada. Distava muitos quilômetros da cidade mais próxima e não era um local bem afamado. Sexo, jogatina, bebida, algumas drogas, negócios escusos, diziam, eram tolerados, desde que não houvesse baderna – o dono do bar, que nunca fora visto por vivalma, mas que era temido exatamente por isso, se é que me entendem – não gostava que estragassem a mobília de plástico, o balcão de madeira carcomido, suas caixas de som Yamaha CIS. Em caso de contendas ou desavenças, a turma do deixa-disso e a turma do que-se-dane davam um jeito. Diziam também que, de vez em quando, gente desaparecia por lá, gente sem importância, que ninguém se preocupava muito em procurar. Boatos, claro, o mundo anda cheio de fake news. E isso só aumentava a aura mítica do bar. 

Essa fama – e também a comida razoável, a bebida barata e o som dançante - atraía não só o pessoal do submundo, mas também gente comum, simples, até - caminhoneiros, comerciárias, motoristas, um ou outro roceiro mais abastado. E também pessoas de extratos sociais mais elevados. Tinha de tudo. Todos querendo um pouco de diversão, um pouco de sexo, um pouco de perigo. (Quem não dá valor à própria vida gosta de arriscá-la.) Qualquer um era bem-vindo, desde que por sua conta e risco, como deixava claro o aviso acima da porta: 

Cuida da tua vida que aqui ninguém vai cuidar.
O que acontece aqui fica por aqui. 

O ANASTÁCIO* - Rinaldo entrou, confiante, as botas lustrosas, a fivela do cinto brilhando, camisa justa o suficiente para mostrar quão musculoso era, calça apertada o bastante para delinear a bunda redonda (que ele cria ser igual à do Mel Gibson). Passara quase um ano procurando por aquele bar, até que, do nada, um motorista de caminhão lhe dera a dica. 

Ansioso por provar aos amigos que era um cara descolado e destemido, Rinaldo foi, sem pensar duas vezes, sem avisar ninguém (vai que não o deixassem entrar, ou não encontrasse o lugar, ou tudo não passasse de embromação. Seria humilhação demais, melhor contar depois). 

Procurava, os olhos ávidos, o pau faminto, por uma mulher disposta a passar alguns momentos com ele. Uma conversa de cerca-lourenço, uma bebida, uma dança, uns chamegos e depois um vamos-ver no final da noite. Se ela fosse bandida, procurada pela polícia, melhor - teria uma história ainda mais excitante para contar. A uma mulher comum ele tinha acesso na vida diária. Queria algo diferente, emocionante. Desfilou o corpo pra lá e pra cá, naqueles passos de pavão em época de acasalamento. Sentou-se, finalmente, bebendo uma cerveja, impressionando com o ambiente, feliz consigo mesmo: sentia-se um verdadeiro outsider

Passou os olhos por seus colegas de bar. Os que não estavam dançando espalhavam-se pelas mesas, jogando, conversando, fumando, e, alguns, namorando. Gente normal, pensou. Um ou outro tinha cara de procurado vivo - ou, de preferência, morto -, mas eram exceções.

A noite aprofundou-se, densa e irascível, às duas da manhã, soprando ventos gelados, ameaçando temporal. Quem estava fora, entrou. O bar ficou mais cheio, naturalmente; o ar, mais abafado; o burburinho, quase ensurdecedor. O forró foi trocado por uma espécie de sertanejo ensino-médio, tocado em altos decibéis. Rinaldo estava cansado. Eles devem tomar estimulante na veia, para estarem tão animados até agora. Cansado e decepcionado. Não se divertira, não vira “nada de mais”, de pitoresco ou perigoso que justificasse a fama do lugar e, pior, não conseguira ficar com ninguém. Tomara cinco cervejas, estava meio tonto. Preparava-se para ir embora, quando uma mulher sentou-se à sua frente. 

ENCONTROS E DESPEDIDAS - Não era, exatamente, bonita, nem, olhando mais de perto, muito jovem. Nada em sua aparência era destinado a seduzir: os traços eram irregulares; os cabelos, curtos; vestia-se com sobriedade, toda de preto, sem decotes ou pernas de fora. Era muito magra e muito pálida. Mas emitia um sex-appeal inexplicável e irresistível. 

Ela começou a conversar, a voz melíflua e cantante, mesmo por cima da algazarra. Rinaldo encantou-se. Nunca uma mulher fizera tantas perguntas sobre sua vida, nem tecera comentários tão elogiosos à sua aparência, nem demonstrara tão evidentemente que estava a fim dele. Seu cansaço desaparecera. Dançaram, riram, beijaram-se. “Vamos beber alguma coisa antes de sair”, sussurrou ela em seu ouvido. Rinaldo, obediente como uma ovelha resignada, concordou. Beberam mais duas cervejas – ela acariciando o pau de Rinaldo por debaixo da mesa; ele, em estado de graça. Em estado etílico. Em estado de sono irreprimível. Em estado semi-inconsciente.
A sedução só funciona
quando o ego da vítima
é grande. Ou frágil.


Debruçado na mesa, a boca aberta, dormia o sono dos drogados. Ao discreto sinal de cabeça da mulher, dois homens apareceram (um deles, o caminhoneiro que ensinara a Rinaldo como chegar ali) e carregaram o corpo inerte para fora. Ninguém reparou, e, se tivesse reparado, não teria estranhado – era normal bêbados serem levados pelos amigos; e, também, ali cada um cuidava da sua vida. Essa era a regra. 

Jogaram o corpo numa van e partiram. A mulher acendeu um cigarro. Esse aí vai ser bom. Saudável. Forte. Devem aproveitar todos os órgãos. Mais uns cinco desses e posso me aposentar. Apagou o cigarro, raivosa, com o pé. Preciso largar desse vício desgraçado. E voltou para o bar. Estava com fome. 


*anastácio – gíria para designar otário
http://www.paginalegal.com/2008/02/04/girias-do-submundo-do-crime/

foto: pinterest 





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quinta-feira, 20 de setembro de 2018

RUBEM ALVES E O MARCA-TEXTO>>Analu Faria

Tive o privilégio de assistir a uma palestra do Rubem Alves, há muitos, muitos anos. Na palestra, o autor contou uma história da qual não me esqueço: a de quando um estudante disse a ele - Rubem Alves - que os professores  dele - estudante - usavam os textos do escritor em sala de aula. Empolgado, Rubem Alves pergunta: "Ah, é? Como vocês trabalham o texto?" e a resposta broxante : "Grifamos os dígrafos e encontros consonantais."

Tempos depois eu me tornei professora de inglês e lidei com muitos dígrafos e encontros consonantais. Eu achei que ia ser muito interessante, mas, sabe, quando você dá aula, às vezes não dá para dar muita bola para o lirismo. Quadro branco, lição para corrigir, e, como eu não sou uma falante nativa, ainda havia mil regras e sons que eu tinha de prestar atenção para não errar. Meu primeiro emprego vinha com uma grande caneta marca-texto e um monte de coisas para grifar.

Um pouco depois de começar a dar aulas, fui morar sozinha. Achei que seria uma coisa muito poética, aventureira, vanguardista, especialmente no começo dos anos 00 numa cidade do interior de Minas, onde as mulheres só saíam de casa quando se casavam. Houve uma certa poesia sim, mas o que eu mais tinha comigo eram dígrafos e encontros consonantais. Se o cheiro do café é lírico, esquentar a água, passar o café, lavar a louça eram a porcaria dos digrafos e encontros consonantais. Não que eu não passasse o café quando morava com minha mãe, mas é que quando você tem 23 anos e se aventura a fazer algo que ninguém mais faz, é fácil achar que as coisas chatas do cotidiano se transformarão magicamente em poemas do Manoel de Barros.

À medida que a vida prossegue,  dá para perceber que a gente não vai conseguir fugir dos dígrafos e encontros consonantais. Aliás, é o que mais vai ter. Vai ter também colocação de hífen, voz passiva - sintética e analítica - vai ter vírgula, crase, adjunto adnominal, vai ter oração subordinada substantiva objetiva direta. E indireta também. Vai ter uma gramática toda no café e na aventura, como sempre teve, como sempre vai ter. Como tem nos textos do Rubem Alves e até nos poemas do Manoel de Barros. Mas se a gente olhar de longe... ah, se a gente olhar de longe... meio que esquece o que é um dígrafo, meio que não lembra mais o que é um encontro consonantal.


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sexta-feira, 14 de setembro de 2018

SEGREDOS >> Paulo Meireles Barguil

 
 
"Que mistério pode haver
na lágrima de uma mulher
Quando abre os seus segredos?
Que momentos de aflição há
 no tremor da sua mão
Onde esconde os seus medos?"
(Guilherme Arantes, Lágrima de uma mulher)

Quem não os tem?

Eles se dividem em duas categorias.

Na primeira, estão aqueles que somente você sabe, os quais não partilhamos porque, muitas vezes, se originaram de situações que, de alguma forma, lamentamos os frutos e, por isso, nos envergonhamos.
 
Há, também, aqueles que foram gestados na nossa imaginação, quando interpretou os acontecimentos de um modo desfavorável para nós e, assim, nos encolhemos e tentamos nos esconder... 
 
De vez em quando, por uma conjunção de fatores, decidimos mudar alguns sigilos para a segunda categoria e partilhamos com alguém que acreditamos ser merecedor de nossa confiança.
 
Essa personagem costuma ser conhecida, mas, às vezes, a dor, a angústia é tão grande que desabafamos com quem nunca vimos e veremos de novo.
 
Quando o conjunto de sabedores do ocorrido alcança mais de duas pessoas, o oculto ultrapassa o inexistente limite de segurança e se aproxima perigosamente dos bits noveleiros.

Nem tudo que se oculta é de natureza desagradável, pois podemos esperar uma ocasião propícia para revelar algo que nos enche de júbilo.

Vou contar algo para você... eu tenho vários segredos!

E você?
 
 
[Mangal das Garças – Belém]

[Foto de minha autoria. 31 de março de 2006] 


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quarta-feira, 12 de setembro de 2018

PROJETOS INANIMADOS >> Carla Dias >>


Era sonho na infância. Tornou-se plano na adolescência. Adquiriu caráter de projeto na fase adulta. Cresceu com ela, mas diferente. Há sonho que a gente mantém até o fim, mesmo quando não acredita mais nele.

Ela acha que tem a ver com uma teimosia que não sabe controlar. Há quem diga que é coisa de pessoa doida.

Doida ou nem tão doida assim, era sonho na infância, e ela nunca sonhou sonho na infância com jeito de criança que sonha sonho na infância. Naquele tempo, ela já sonhava desmedido, não do jeito que sonha criança que quer mais é se esparramar numa nuvem de algodão doce.

Mais tarde, no adiante, descobriu que muitas crianças não sonhavam com se esparramar numa nuvem de algodão doce. Algumas delas sonhavam urgências ditadas pela fome, pelo frio e pela solidão oriunda das suas indeléveis misérias.

Quando se tornou plano, a adolescência a levou a embarcar em conhecimento. Sabia de tudo, um tudo frágil, capenga mesmo. Um tudo que servia somente ao imediatismo de quem necessitava se misturar ao mundo. Ela queria abraçá-lo, mas vivia às voltas com as perguntas de sempre:

Cadê os braços?
Cadê o afeto?
Cadê o zelo?
Cadê a importância?

Logo se deu conta de que urgências não respondiam aos questionamentos de cunho existencial, intimamente ligados ao seu plano. Porque o sonho se tornou um plano muito bem arquitetado, alinhado a uns pares de definições qualificadas para atender... ?

Transformou-se em projeto. Coube lindamente em papel timbrado, logomarca idealizada por profissionais, conteúdo redigido por profissionais, com direito à planilha orçamentária confeccionada por profissionais. Todos os envolvidos eram muito competentes e profissionais, como um projeto merece que o sejam.

Mas era sonho, no início de tudo, de quando nos vemos diante do primeiro deles a ser despertado. Como se ele morasse em nós, desde antes de sermos pessoa e esperasse apenas um sinal para se manifestar.

Manifestado, fazemos com ele o que o nosso desejo ordenar. Neste caso, tornou-se plano que se tornou projeto que se tornou inanimado.

Há vida nenhuma nele.


Ela o observa, assim, jazendo sobre a mesa do escritório, devidamente encadernado, espiral, capa preta. Ela o folheia... dezenas de páginas de dedicado esmiuçamento a respeito daquele sonho nascido nela, virado ao avesso ao se tornar plano e requintado ao se tornar projeto. Alguns trechos destacados com marcador, o amarelo fazendo as palavras saltarem aos olhos. Trechos que não lhe despertam interesse.

Assim, sobre a mesa da sala de reuniões, ele é um protagonista. Assim, no coração dela, ele é inanimado. Não há vida ali, onde a vida se fazia em algum antes. Não há viço... há todos os aspectos cuidadosamente analisados, cada passo projetado, todo conforto determinado, o prazer prospectado.

Como se a vida a ensinasse a recuperar fôlego, ela o deixa ali: inanimado, alinhado com o que chamam de evolução de um sonho, mas que, de fato, é a limitação dele, ao menos para ela. Nem todo sonho nasceu para se transformar em projeto de vida. Esse, por exemplo, morreu no meio do caminho, tornou-se outra coisa. Tornar-se outra coisa não é ruim. Aprende-se muito com a transformação. Porém, nem todo sonho existe para dedicação coletiva. É seu, de mais ninguém. É simples, mas tão simples, que parece impossível até sonhá-lo, imagine realizá-lo.

Daí que sonho nem sempre nasce para cair nos braços da realização. Às vezes, não raro, ele nasce apenas para mostrar as prisões que você quer evitar. É assim, feito um lembrete de que pode ser diferente... contanto que haja vida, viço, fôlego.


Imagem: Le rêve © Pierre-Cécile Puvis de Chavannes

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terça-feira, 11 de setembro de 2018

DE REPENTE 30 >> Clara Braga

Sempre gostei de listas, fiz listas minha vida toda! É claro que com o tempo os tópicos vão mudando, a lista dos filmes que eu iria assistir no fim de semana foi substituída pelas tarefas que não foram cumpridas na semana e ficaram para o fim de semana, a lista de livros que quero ler passou a ser a lista de livros que eu preciso ler e a de coisas para comprar com a mesada passou a ser a do que deixar de comprar para economizar. 

Mas se engana quem pensa que todas as listas foram alteradas, ainda tenho, por exemplo, minha lista de shows que quero assistir e locais que quero conhecer, e até 24horas atrás eu tinha minha lista de coisas para fazer antes de completar 30 anos.

Não sei ao certo porque encuquei com os 30, mas tem anos que tenho a lista das coisas para fazer antes dos 30. Desconfio que seja por causa da quantidade de vezes que assisti De Repente 30 na sessão da tarde.

Especulações a parte, praticamente 24horas depois de completar os 30, fiz um balanço e percebi que essa lista foi seguida quase a risca, até os tópicos que eu tinha desistido de cumprir, como ter filho antes dos 30, acabei cumprindo. Agora vou começar a lista das coisas para fazer antes dos 40 e tem um tópico da lista anterior que já decidi manter: não deixar a mente envelhecer. 

Pensando nisso, fui me dar umas roupas de presente de aniversário e achei pertinente ir naquela loja que, em tradução livre, chama-se Para Sempre 21. Gostei de várias coisas, separei algumas, experimentei outras tantas e saí de lá apenas com o segundo tópico da minha nova lista: em consideração com a sua sanidade mental, nunca mais compre nessa loja. O nome dela deveria ser: acabamos com sua autoestima em 21 segundos. Peguei números maiores dos que estou acostumada a usar e as peças não passavam nem pela minha perna! Foi uma verdadeira tragédia, cada nova tentativa de vestir uma peça era um tapa na cara que eu levava me mandando acordar e lembrar que os 21 passaram tem 9 anos.

Mas tudo bem, outra meta dos 30 é não me abalar assim tão facilmente, por isso já ativei meu espírito empreendedor e estou pensando em abrir uma loja chamada De Repente 30 na qual só serão vendidas roupas e acessórios inspirados nos anos 80 e que levarão em conta que grande parte das mulheres brasileiras tem um quadril mais largo, será que cola?


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sábado, 8 de setembro de 2018

COTIDIANO FELIZ >> Sergio Geia



Estou aqui para ajudá-lo. Eu compreendo, sei que gostaria que eu viesse outras vezes, que pode pagar, mas, infelizmente, você sabe, tenho outros amigos que assim como você necessitam de mim. Você compreende? Eu sei, tinha certeza que compreenderia. Prometo que logo este problema estará resolvido; nossa equipe já está desenvolvendo um novo sistema que me permitirá estar em mais de um lugar ao mesmo tempo. Vamos então?
Antes de tudo, abra um vinho. Tinto, de preferência. Comece a degustá-lo com calma, sem pressa. De vez em quando olhe lá fora, veja a rua, as pessoas caminhando, algumas indo para o trabalho, um casal de jovens se beijando. Não, em absoluto! Não se recrimine por buscar na memória aquele beijo roubado na esquina. Isso, acaricie o pensamento, sorria, assim, veja como uma boa lembrança faz bem.
Você quer me contar? Tudo bem, conte, adoraria saber. Entendo, sua primeira namorada, você não sabia como dar o primeiro beijo. Não sabia se falava alguma coisa, como fazer a aproximação, se lentamente, como nas novelas. Decidiu de supetão? Ainda assim foi bom? Compreendo. Ela gostou. E você também. Que bom. Não sabe por que foi se lembrar disso agora, depois de tantos anos? Talvez os jovens se beijando na esquina, aqueles lá, talvez a cena fez você se lembrar.
Vejo que a pia de sua cozinha ainda contém restos do jantar de ontem, pratos sujos, copos, talheres e até uma panela no fogão. Lave-os. Comece pelos pratos, bem calmamente, como num ritual, depois os copos. Entre eles, os pratos e os copos, beba mais um pouco de vinho, assim, depois volte aos talheres. Quando a pia estiver vazia, vá para a panela; nesse caso, use um desengordurante.
Pia limpa, agora sim, venha para a sala, sente-se confortavelmente em sua poltrona de leituras, pegue o jornal. Vejo que gosta do Estadão. Comece pelo Caderno 2, perceba o que os cronistas ─ esses seres iluminados ─ têm a dizer. Enquanto lê uma crônica ─ veja se está ai o Humberto Werneck, ele é muito bom ─, continue a degustar o vinho. Sinta, sinta que delícia é ler algo bacana bebericando uma taça de vinho. Depois da crônica, sugiro que pule para a agenda cultural, veja as cenas que estão rolando. E lembre-se: sem pressa. Para isso, se necessário, imagine uma formiguinha, uma pobre formiguinha andando no quintal, ou um homem sentado na praça sob a sombra de uma árvore. Veja: o mundo andando loucamente, e eles nem aí com a hora do Brasil. Faça o mesmo. Inspire-se.
Acha que a mesa da sala de jantar está um pouco desarrumada? Isso o incomoda? Tudo bem. Arrume-a então. Primeiro guarde os objetos que ficaram esquecidos; vejo-a um pouco entulhada. Tire o pó com um pano úmido. Por fim, estenda aquela toalha de flores verdes e azuis, ponha o vaso com aquela plantinha que você tanto gosta, regue-a, ela ficará mais verde e mais bonita.
Vi que já acompanhou as notícias do jornal na tevê, já assistiu ao esporte, às  notícias de seu time, que, é bem verdade, não anda lá bem das pernas, hora de almoçar? Pois bem. Esquente a lasanha no micro-ondas. Coma o seu almoço com prazer. Há vinho na garrafa ainda? Beba, não se incomode se ele o está deixando tonto, o seu dia está livre mesmo, não há grandes compromissos à tarde. Depois, terminada a refeição, você pode bebericar um licor para ajudar na digestão, vejo que há muitas garrafas em seu bar.
Agora sim, você pode se deitar. Faça a sua sesta costumeira. Sim, pode ligar a televisão, é bom para atrair o sono. Sim, pode fechar as janelas, escureça o quarto. Pijama? Isso o incomoda? Vestir pijama às duas da tarde para dar um cochilo? Pois não se incomode. Vista-o, vai deixá-lo mais confortável.
Depois que acordar, volte para a pia, ficaram coisas lá. Da mesma forma, lave tudo com tranquilidade e já deixe alguma coisa engatilhada para o jantar. Tire um bife do congelador. Prepare aquela saladinha de cenoura e repolho. Faça um arroz bem soltinho.
Separe uma parte do tempo entre a tarde e a noite para a leitura. Como você já terminou o livro que estava lendo, pegue um Machado de Assis. Sim, um clássico. Retorne a Helena, por exemplo, não é o melhor que você vai encontrar na obra machadiana, mas é muito bom também. Ou, se preferir, Memorial de Ayres, um de meus prediletos. Busque coisas novas lá, você vai encontrar.
Bem, eu vou indo. Como parte do processo, essas coisas você vai fazer sem ouvir a minha voz. De todo modo, se precisar, deixei gravado um roteiro-guia. Amanhã eu volto e você me conta como foi. Se precisar de alguma coisa antes, ligue, estarei à disposição.
Bom descanso, bons sonhos.
(No quarto escuro, ouviu-se um estalar seco, como se alguma coisa tivesse se rompido ou desligado; um silêncio absoluto reinou, só quebrado, de vez em quando, por um hiperbólico ruído vindo da cama).


Ilustração: revoada.net/15-rostos-em-objetos-do-cotidiano/


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quinta-feira, 6 de setembro de 2018

CAMAROTE >>Analu Faria

Vamos acabar com o samba
Madame não gosta que ninguém sambe
Vive dizendo que samba é vexame
Pra que discutir com madame?
(João Gilberto)

       
    Na roda de mulheres de pés descalços, ela se destacava. No parque, um sol de rachar, às três da tarde, ela calçava um tênis de cano alto, de couro, preto. Não era de mau gosto, não, muito pelo contrário. Só parecia quente como o inferno. A moça também tinha maquiagem - rímel, delineador, lápis, blush, batom. Chegou tímida, uns olhões esbugalhados de criança curiosa: 

       _ Desculpa, cês tão falando do quê, mesmo?

     Via-se que havia saído da roda de amigos que fazia um piquenique ali perto, um círculo de homens e mulheres que se vestiam à moda das festas de bebida que pisca, esse pessoal que frequenta o camarote. O dia estava tão bonito, era o final da estação chuvosa, talvez fosse mesmo razão pra tanto. "Cadum, cadum*, minha filha", dizia minha avó.

     Falávamos coisas que bruxas falam em público. E a forasteira foi acolhida com carinho, talvez nem ela esperasse isso. Prestou muita atenção no que dizíamos, não tirou o tênis. A maquiagem derretia no canto do olho esquerdo, mas, aparentemente, ervas, plantas, óleos e luas haviam captado a moça. É assim que a Deusa trabalha.

     A visitante, contudo, não esperou o fim da conversa. Saiu quando falávamos de cervix, fertilidade, escolhas. Eu captei o exato momento em que ela piscou os olhos e balançou discretamente a cabeça, como quem acorda de um sonho. Fechou um pouco a cara, mas disfarçou logo num sorriso de despedida. Obrigada aqui, obrigada ali, quem sabe eu vá, gostei muito, sim, etc. Lembrei de que dia desses uma colega bruxa disse : "Não importa que as visitantes não fiquem. O importante é que elas não são mais as mesmas quando se vão."

      De longe, vi a moça se aproximar dos amigos do camarote. Antes de se sentar, tirou os sapatos.


*Cada um é cada um.  


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quarta-feira, 5 de setembro de 2018

O MEU OLHAR >> Carla Dias >>


Hoje eu compreendi que meu olhar é meu. Posso emprestá-lo, mas assim, como fonte de consulta. Meu olhar é meu. O que enxergo é diferente do que você enxerga e amém a isso. Assim, haverá sempre o que se aprender. Meu olhar, que é meu, somente meu, e que posso emprestar a quem desejar conhecê-lo, também reconhece sincronismos. Acontece do meu desejo, apesar de dessemelhante no olhar, aprumar-se no colo do olhar do outro; no desejo do outro. Meu olhar ainda é meu, mas compreende que, vez ou outra, não consegue reconhecer tons; desapega-se da luz em um fechar pálpebras e nem sempre adormece. Assim, importa-se em nada quando precisa desnublar perspectivas, ampliar horizontes, repensar contornos. Meu olhar tem mania de se meter em diferenças. Deslumbra-se fácil com a excentricidade – identifica nela o que a plenitude lhe nega –, dá de desfocar, só para alcançar a crueza do que é e se enfeita tanto, mas tanto, que se perde na invencionice. Meu olhar se torna mar, sabe escoar dores, esvaziar-se de ressentimento e destrançar saudade. É que saudade de olhar dói no corpo todo. Dói na alma. Dói durante períodos indeterminados, de acordo com a ausência que é obrigado a observar. Meu olhar também se arrepende quando, em dia menos auspicioso, lança ao mundo um enxergar torto, daqueles de tirar justiça e respeito dos seus espaços. Olhar que adora se perder, mas acontece de se encontrar em outro e até de se perder de novo, mas em recinto menor, onde cabem silêncios que ele ainda não sabe ler. Meu olhar se agonia com silêncios, quando não consegue enxergar ritmo e significado. Ainda assim, permanece atento, que também é de se entreter com imaginados e se emocionar com inconclusivos. Acredita que tudo que alcança está inacabado. Vê beleza nisso, na possibilidade de conclusão. Meu olhar é meu, mas se joga ao mundo, lança-se aos braços do absurdo, quer alcançar o que a ele disseram ser invisível, impossível de ser tocado. Olhar gosta de tocar o improvável. É que meu olhar é ousado. Deu de existir diferente. Deu de existir. Deu de ser meu, desassombrado. Deu de ser de quem quiser hospedá-lo. 

Imagem: L’archeologo solitario © Giorgio de Chirico

carladias.com



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terça-feira, 4 de setembro de 2018

DIÁLOGOS DE SALA DE AULA >> Clara Braga

Outro dia, ao final da aula, um aluno se aproximou e perguntou se eu acreditava na influência dos signos no nosso dia a dia. Pensei bem e disse: acredito na influência sim, mas não na determinação cega.

O aluno concordou, apesar de ter feito uma cara de quem não entendeu nada, e foi logo dizendo: é, também acredito na influência, até porque tenho muita dificuldade de me identificar com um signo só.

Quando perguntei o signo dele percebi que o aniversário dele estava se aproximando, então perguntei o dia e, para minha surpresa, o dia era 22 de setembro, exatamente o mesmo dia do aniversário do meu filho.

Contei a coincidência para o aluno e ele foi logo dizendo: caramba, virginiano também? Foi aí que eu expliquei para ele uma questão que meu filho vai ter que explicar para todos os amantes de astrologia que passarem pela vida dele. Dia 22 é dia de transição de signo, você pode tanto ser virginiano quanto libriano, tudo depende da hora que nasce, e como meu filho nasceu na parte da noite já era libriano.

Meu aluno fez uma cara de espanto e o assunto morreu ali mesmo, sem mais nem menos. Na semana seguinte lá estava o aluno de novo. Sentou no canto dele, fez a atividade que tinha que ser feita e veio até mim para conversar. Sua cara de espanto me dizia que ele devia ter passado aquela manhã toda esperando a oportunidade de falar comigo. Assim que teve uma brecha foi logo falando: professora, você não acredita! Fui olhar essa questão dos dias de transição e descobri que eu também sou libriano, e não virginiano! Muita coisa agora faz mais sentido, minhas características nunca batiam 100% com as do meu signo, estava faltando saber o signo certo.

Ri muito da situação e, claro, não perdi a oportunidade de dar aquela zuada no aluno. Mas confesso que achei muito curioso, ele deve ter estudado a fundo seu novo signo, pois ficou me dando dicas de como lidar com meu filho com base em comportamentos que ele provavelmente virá a ter. E ali no meio de toda essa confusão astrológica fiquei pensando: por causa de uma conversa boba despertei uma curiosidade em um aluno que foi pesquisar sobre um tema de seu interesse e logo me trouxe uma conclusão. O assunto nada tem a ver com o que eu estava lecionando, mas um aprendizado com certeza aconteceu e eu fiquei me perguntando, qual é mesmo o papel de um professor?









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