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Mostrando postagens de Outubro, 2011

COISAS DE QUE DESISTI >> Kika Coutinho

Está decretado, desisti de fazer a unha toda semana. Com duas crianças pequenas, algumas vaidades tornam-se luxos impossíveis de serem mantidos. Adeus, unhas lindas. Se conseguir mantê-las quinzenalmente, estará de bom tamanho. Também desisti de ser diretora de empresa, sócia ou qualquer coisa assim. Desisti. Desisti de pular de pára-quedas. Também desisti de asa delta e similares.

Desisti de experimentar um porre. Não ia ser mal, mas desisti. Desisti de filas de baladas. Gente, eu fiz isso? Fiquei em filas gigantes, paguei caro, pra entrar em lugares escuros cheirando a cigarros? E ninguém me deu uma paulada na cabeça, pra me mostrar que eu tava louca? Bando de covardes, esses meus amigos. Viram cada coisa e não me tiraram do surto...

Desisti de shows lotados, de pousadas mixurucas e de mochila nas costas. Desculpe, soa um pouco arrogante, mas desisti de hotéis péssimos. Que eu fique no conforto da minha casa, mas banheiro compartilhado em camping, gente, não dá mais, passou, datou,…

DIÁRIO DO NASCIMENTO >> Whisner Fraga

O parto estava marcado para seis de setembro. Ativistas e parentes condenaram, mas ninguém tinha uma opinião muito fundamentada a respeito do assunto e, além do mais, Helena ainda não havia se virado, para que pudesse escapar do útero, mundo afora. Depois, não sejamos hipócritas, a comodidade de uma cesariana nos tentava de uma maneira praticamente irresistível. Como eu sei que essas coisas quem decide é a mulher, assumi meu papel de bom ouvinte. Quando requisitado, repetia o mantra: você está certa, você tem meu apoio, é melhor assim etc.. Deu tão certo que a gravidez não atravessou muitas turbulências.

No dia cinco de setembro, bebi algumas latinhas de cerveja, pois estava razoavelmente ansioso e precisava relaxar. É eu sei, usar o álcool para relaxar, tsc, tsc, tsc. Eu uso, fazer o quê? Mas a minha ansiedade, eu acho que era retroativa, acumulada. As pessoas tinham dado tanto palpite a respeito de tudo, que eu me sentia um pouco zonzo. No carro, uma toalha tinha um lugar fixo no b…

A LIBERDADE DA VELHICE [Debora Bottcher]

As pessoas mais velhas atestam que envelhecer é bastante complicado. Eu acho que é mesmo, mas também penso que se não há muitas vantagens, as que se tem podem ser infinitamente boas.

Primeiro, é preciso considerar que a outra opção a envelhecer é morrer jovem. Isso, por si só, já é um enorme argumento - eu acho que o meu pai, por exemplo, preferia estar enfrentando os embates de seus 65 anos a ter morrido aos 51. Minha percepção...

Depois, envelhecer te dá uma certa autonomia - não digo financeira, que essa é uma das complicações da idade, já que tudo fica mais caro (remédios, planos de saúde, dietas), e as pessoas, com poucas exceções e por razões diferentes, têm seus recursos diminuídos.

Mas a autonomia de que falo é aquela de não ter mais que se explicar. Na juventude, exceto os impulsos desmedidos e eventuais e as loucuras por paixões desatinadas, tudo é ponderado em cima do custo-benefício. As decisões que tomamos têm base no que queremos (ou achamos que) para o futuro. E sempre…

DOIS LADOS DE UMA PORTA >> Zoraya Cesar

Parte I – o lado de fora
Ele chegou decidido a contar toda a verdade. Passara o dia inteiro preparando um discurso comovente, que gostava muito, muitíssimo dela, mas estava insatisfeito; não sentia mais desejo, apenas amizade. E que, depois de oito anos de casamento, poderiam se separar como amigos, civilizadamente.
Reconhecia que andara distante, mas a culpa era dela, que não suportava os amigos dele, que não o acompanhava no vôlei de praia, que teve um ataque histérico quando ele não reparou nas novas mechas louras do cabelo. Mechas! Quem reparava em mechas!? E o aborrecia com essa mania de querer viajar (mas, como? E deixar a amante sozinha? Que insistência irritante!), que teimava em tentar “discutir a relação” em vez de deixá-lo ler o jornal em paz...
Enquanto aguardava o elevador, foi se sentindo mais e mais tranqüilo. Afinal, o que podia fazer? Era homem, e a namorada lhe proporcionava prazeres dos quais sentia falta. A emoção do encontro às escondidas, a cumplicidade dos am…

INVEJA DE MIM >> Fernanda Pinho

"Esse primeiro palpitar da seiva, essa revelação da consciência a si própria, nunca mais me esqueceu, nem achei que lhe fosse comparável qualquer outra sensação da mesma espécie. Naturalmente por ser minha. Naturalmente por ser a primeira". [Dom Casmurro]
No primeiro dia de aula de alguma série do primário, notei que o Diego não estava mais na minha sala. E o pior: ele sequer continuava no colégio. Desolação total. Qual seria minha motivação para as aulas de Educação Física? Para quem eu iria me produzir? Quem eu iria ficar encarando quando estivéssemos em círculo para a aula de religião? O nome de quem eu escreveria no meu caderno? O do Diego, é claro. Se era para resolver a questão, resolvi de forma prática. Quando a professora fez a chamada e eu notei que havia um novo Diego na sala, decidi. "Tudo bem, vou gostar desse aí agora". Porque no fim, o que me interessa não eram os Diegos (nem os Brunos, Pedros e Tiagos), mas a sensação que eles despertavam.

Hoje em di…

VEM CÁ, LUIZA... >> Carla Dias >>

São recorrentes os comentários de amigas, primas e irmãs sobre como elas se assombram com os seus filhos. É um assombro que não assombra, assombra e que não mete medo de medo, medo, mas medo de quem não tem a menor ideia de aonde o que o assombra levará o seu pimpolho.

Anteontem, uma amiga me contou sobre a decisão de sua filha em começar a escrever um livro. Ciente de que as mães tendem a puxar a sardinha para as crias das suas crias, e de que ela estava toda encantada com isso, minha amiga perguntou se eu leria o que a filha começou a escrever e diria o que achava. Na minha cabeça, a minha amiga estava tão feliz com a iniciativa da filha que queria ter certeza de que não estava exagerando.

Minha amiga disse que me encaminharia a mensagem de e-mail na qual a filha mandou o arquivo com suas primeiras 4 páginas + o título do próximo capítulo, porque eu precisava começar a leitura a partir desta mensagem. Ao recebê-la, percebi por quê.

Eu sei que ando abusando do uso da palavra “fofo”, pri…

FORA DE ÓRBITA >> Clara Braga

Outro dia me peguei pensando em uma dessas besteiras que a gente pensa só para descansar a mente. Não é nada que vá acrescentar na minha vida e talvez não acrescente também na de ninguém que está lendo essa crônica, mas acredito que a mente precisa dessas paradas para pensar em nada e dar conta de todo o resto.

Estava me questionando o seguinte: será que eu posso dizer que os nomes têm idade?

Pois é, estranho assim! Mas em algum ponto fez muito sentido para mim, afinal alguém conhece algum recém-nascido chamado Nilson? Wanderléia? Aníbal? E alguém já ouviu falar de alguma idosa chamada Alice? Carolina? É claro que existe, eu sei que, se procurar, eu vou achar, mas me parece tão incomum.

É claro, também, que eu sei que todo Nilson que é idoso um dia foi criança e todo bebê chamado Alice sabe que um dia será idosa, mas eu não consigo me imaginar bem velhinha tendo uma amiga Carolina e também não lembro de nenhum colega de escola chamado Aníbal.

Acho que no final das contas não é que nom…

ACABA NÃO, RIO >> Eduardo Loureiro Jr.

Eu sei que deveria escrever uma crônica sobre o lançamento do livro Acaba não, Mundo no Rio de Janeiro, ontem.

Eu sei que deveria começar pelo relato da emocionante aterrissagem no Santos Dumont, depois recontar como gosto do ar e das paisagens desta cidade, e desintroverter a alegria de rever Karina, Kildare, Luís e Nina.

Eu sei que deveria falar do Pão de Açúcar saboreado na companhia de Alba e Carol.

Eu sei que deveria revelar a minha ansiedade em chegar à Lapa, ao número 126 da Mem de Sá.

Eu sei que deveria escrever "A" crônica da minha vida para dar conta — apropriadamente — deste terceiro lançamento.

Eu sei que deveria compor uma crônica inteira, inteirinha, só falando do grande acontecimento que foi ter enfim conhecido pessoalmente Leila, autora do primeiro, primeiríssimo texto do Crônica do Dia, em 1º de julho de 1998.

Eu sei que deveria transformar em palavras os muitos abraços que dei no gentilíssimo Albir e colocar reticências para expressar os muitos abraços que …

A DEDICATÓRIA >> Maurício Cintrão

Para mim, é o momento mais difícil, sempre. Você até pode achar engraçado, mas não é. Estar ali sentado (ou em pé) e cravar algumas palavras agradecidas ao leitor é mais difícil do que escrever o que está no livro. Compreenda, posso ter levado dias para escrever o que foi publicado. A dedicatória não. É instantânea, curta e grossa. Tem que ser resolvida ali.

Vou contar um segredo: eu já errei meu próprio autógrafo. Isso não é mentira. Fui assinar meu clássico “Cintrão” e a mão enroscou no meio. Não saiu nada parecido com meu nome. Não sei se alivia, mas já errei a assinatura no cheque. Assim, não se trata de uma resistência ao marketing pessoal, é leseira mesmo. Imagine, então, escrever palavras coerentes, grafadas corretamente e com um mínimo de humor e/ou lirismo...

E o problema é ainda mais sério em se tratando de um lançamento, quando as pessoas tendem a acreditar que você vai lembrar delas. Há conhecidos que reaparecem depois de anos e olham para você como se as tivesse encontrado …

PNEUMONIA >> Leonardo Marona

1. primeiras conclusões tudo bem, hoje não será tão bravio nem com tanta veemência,
hoje direi que tenho medo e meu lirismo nada mais é que puro pavor
de reconhecer-me inábil até os ossos, de não me reconhecer de fato
alguém constituído de um centro nerval onde quer que esteja e devo
admitir com simplicidade que talvez eu reconheça em pânico
que não sei se algum dia chegarei a alcançar esse tal centro nerval
onde supostamente eu deveria estar em corpo e alma e todo ar
sendo apenas eu mesmo como um eu especial e um eu comum,
já que todas as pessoas com quem eu falo, por mais problemas
que tenham elas possuem isso que talvez seja uma identidade
e eu talvez não aceite ter uma identidade porque tenha medo
de envelhecer dentro dessa identidade, talvez por isso, agora,
aos prantos deverei confessar acima de tudo a mim mesmo:
sou incompleto, sem pedaço, e não carente do que não conheço
e que poderia me inspirar a vida ainda que em forma de ilusão,
e penso que talvez esse medo venha mesmo do fato
de que eu nã…

MAL ACOSTUMADOS >> Fernanda Pinho

Um menino de dois anos, que nunca havia cortado os cabelos, caiu em prantos ao se desfazer de suas madeixas. Chorão como o pai, que também não conteve as lágrimas ao passar a tesoura pela primeira vez, em 1965. Uma historinha corriqueira, que poderia ter acontecido na minha casa (se aqui tivesse um menino de dois anos) ou em qualquer outra casa do mundo (onde tem meninos de dois anos). Todos os dias alguém corta o cabelo. Todos os dias alguém chora de insatisfação por causa de um corte de cabelo. Todos os dias tem um bobo pra dizer: "Ah, chorão que nem o pai". E foi exatamente a banalidade do fato que me incomodou. Por que diabos uma notícia danada de besta como essa saiu lá da Austrália, atravessou o planeta, teve repercussão mundial e veio saltitando como um canguru até parar na capa do maior portal de notícias do Brasil? Passei quatro anos numa faculdade de jornalismo estudando linha editorial, critérios de noticiabilidade e o escambau, e agora me vêm com essa? O profes…

ALICE >> Carla Dias >>

Quando estava na escola, eu tinha uma professora de Educação Artística que se chamava Alice, e ela fazia milagres. Ela era tão diferente das pessoas que eu conhecia que, às vezes, o meu olhar e os meus ouvidos se perdiam nela. Para mim, ela sabia fazer mágica, também, porque em uma escola desfalcada de material para se lecionar, ela aparecia sempre com alguma novidade que nos deixava pra lá de felizes.
Além de aprender que arco-íris era coisa séria para alimentar a alma, a professora Alice tentou também nos ensinar um pouquinho de música. Foi difícil, porque não tínhamos equipamentos apropriados, então não conseguíamos passar dos poucos tambores e das flautas de brinquedo.
Houve um baile na escola, com direito ao tradicional correio-elegante, que ela tentou aprimorar, já que o Dia das Bruxas estava logo ali, e ela queria que aprendêssemos como esse dia nasceu. No meio do pátio, ela montou um tipo de tenda, e sem se importar com o fato de, há muito tempo, já a chamarem de bruxa, por ca…

MELANCOLIA >> Clara Braga

Eu adoro assistir filmes. Pode ser em casa no DVD mesmo, mas melhor ainda é se for no cinema. Tão bom ir ao cinema, comer pipoca (não tem pipoca igual à pipoca de cinema), ir com a galera, ir com o namorado, tanto faz. Só não gosto de ir sozinha, preciso de alguém com quem comentar o filme, mesmo quando já estou assistindo pela segunda vez. Afinal, filme é assim, sempre que a gente assiste mais de uma vez tem grandes chances de descobrir coisas novas.

Aqui em Brasília está tendo uma mostra de filmes que não entraram no circuito comercial. O primeiro filme exibido foi o tal do Melancolia, do Lars Von Trier. Todo mundo estava falando tanto desse filme que acabei ficando curiosa. Só tinha visto outros dois filmes do diretor, um que não gostei muito e nem lembro direito da história, e outro que eu adorei. Essa era a hora do desempate. E o melhor de tudo, a mostra é de graça. Convenhamos, ir ao cinema está cada vez mais caro.

Levei comigo logo três pessoas que era pra ter bastante gente co…

PRESENÇA ILUSTRE >> Kika Coutinho

Sei que os leitores desse site já ouviram bastante a respeito do lançamento do livro Acaba não, mundo.

Alguns cronistas já descreveram lindamente o evento e eu estava resistindo à tentação. Mas, depois de largar o papel em branco rumo a outros fins, lembrei que não falaram do mais importante, do mais marcante, do mais iluminado: os bichinhos da luz. Sim, eles estavam lá. Não nos recepcionaram, os danados, trataram de se atrasar. Claro, pra fazer aquele suspense, demoraram um pouco a chegar. No entanto, quando chegaram vieram em peso. Toda a família, vizinhos, amigos, olha, tô pra dizer que eles convidaram-se uns aos outros mais até do que a gente. Devem ter posto na rede social dos bichinhos da luz, o facebook deles foi muito eficiente.

Talvez tenham pego carona uns com os outros, posso até vê-los passando na casa de cada um: “Vem, vamos, estamos atrasados, corre!”. E correram. Desviaram da chuva e seguiram a luz, como é digno de sua espécie.

Minha filha, pequenina e faceira, foi uma…

CRÔNICA DO LANÇAMENTO >> Whisner Fraga

Conheço bem aquela região de Pinheiros, pois visitava com frequência o Cemitério São Paulo, na Henrique Schaumann. Gostava de passear pelas alamedas, observando a rispidez intransigente das esculturas, os anjos manchados de descaso e abatimento e aqueles tapetes de lodo contaminando o ar com seu cheiro de enxofre e tristeza. Conheço bem aquela região de Pinheiros e podia afirmar que choveria em breve, porque as nuvens se amontoavam numa cumplicidade de águas.

Decidi que seria melhor dar uma parada na feirinha da Benedito Calixto e ver o que o tempo me reservaria. A praça estava lotada àquela hora e era bom trombar com aqueles punks chiques, caçadores de antiguidades. Em frente, foram abertas algumas galerias, o que deixou o ambiente um pouco mais requintado, de modo geral. Logo o chuvisco apertou e tive de me refugiar num desses corredores, para que não me molhasse. Na entrada, vi um porta-joias e achei que se levasse para Ana, ela teria como organizar suas bijuterias. Mas a banca est…

TORTO >> Eduardo Loureiro Jr.

Eu nem ia escrever crônica hoje. Ia deixar o domingo só pra vocês e o Whisner, que retorna ao Crônica do Dia depois de alguns anos. Mas bateu aquela vontadezinha de escrever, de contar, de compartilhar...

Vocês conhecem aquela história que diz mais ou menos assim?

— Mestre, o que faço para atingir a iluminação?
— Você já roubou?
— Que é isso, Mestre?!
— Já matou?
— Mestre?!
— Já amaldiçoou e se vingou?
— Nunca!
— Pois então vá fazer tudo isso o quanto antes.

Lembrei essa história ao receber uma mensagem de minha querida Pepeta, tia-avó e freira, que já deve ter matado, roubado, amaldiçoado e se vingado bastante, porque é a luz em pessoa. Na apresentação que Pepeta enviou para a lista da família, o assunto era um pinheiro torto, objeto de desafio por parte de um sábio de aldeia, que convocou seus alunos para olharem para o pinheiro na posição correta. Após presenciar uma série de contorcionismos de seus aprendizes, o sábio revelou: "A posição correta é vê-lo mesmo como um pinheiro…

ESTAMOS EM GUERRA - E NÃO SABEMOS [Heloisa Reis]

Já vivemos o período da bipolarização entre duas superpotências e desde essa época já acontece a descoberta de que dominar a economia de um país revela-se mais eficiente que ocupá-lo militarmente. Depoimentos e confissões como as de John Perkins — que se diz um arrependido ex-assassino econômico — abrem nossas mentes para atitudes que vêm das teorias de Maquiavel, portanto nem são tão novas...

O que mantém a vida no mundo? As riquezas minerais e vegetais que o homem aprendeu a manipular e transformar auferindo lucros e acumulando valores com poder de troca. Criaram-se as nações ricas, as grandes fortunas, a embriaguez pelo poder e os desmandos que o poder econômico concentrado permite, enquanto milhares de pessoas morrem de fome diariamente em países pobres do terceiro e quarto mundos.

Mas o homem mediano, preocupado com seu dia a dia, sua condução difícil, suas contas a serem pagas todo mês, seu cartão de crédito estourado, não percebe... não sabe ... e não quer saber. As notícias …

HISTORINHA NADA NOBRE >> Zoraya Cesar

Semana passada, Cayetana Fitz-James Stuart, a Duquesa de Alba, casou pela terceira vez, agora com um homem 24 anos mais novo. Considerando os 85 anos da duquesa, seu novo marido não pode ser acusado de playboy; no máximo, playold. Dizem que os filhos dela foram contra a união por conta da idade provecta da dita senhora e por temerem que sua enorme fortuna lhes escapasse por entre os dedos. Se foi amor, sexo, loucura, interesse, conversamos na próxima crônica.
Hoje quero contar uma historinha que esse casamento me fez lembrar. Não esperem contos de fadas. Histórias que envolvem dinheiro, idades e casamentos geralmente não o são. 
Corria, pedalava, nadava. Tinha 80 anos, uma saúde de ferro e um gênio insuportável. Diziam, na família, que a primeira mulher, mãe de seus quatro filhos, havia morrido só para não viver no mesmo mundo que aquela criatura intragável, que conseguia irritar um monge de pedra. Estragar prazeres e autoestimas era sua especialidade, quase um hobby.
Agia assim com …

PEQUENOS GRANDES AMORES
>> Fernanda Pinho

Mariana se parece comigo quando eu era bebê. Bebezão, na verdade. Eu e ela. Um aninho, com tamanho de três. É um bebê no aumentativo. Não apenas pelo olhão e o pernão herdados da prima, mas, principalmente, pelo sorrisão. Nunca vi Mariana chorar. Sequer vi Mariana com a carinha fechada. É sempre um sorriso largo, revelando seus charmosos dentinhos separados. Quando eu pensei que não teria mais primos, veio essa boneca. Porque ela é uma boneca, se veste como boneca (ok, a mãe a veste como boneca) e sempre leva a tiracolo uma bolsinha cor-de-rosa guardando seus tesourinhos: brinquedos e adereços capilares. A carinha branca-transparente do Bernardo revela que ele está sempre prestes a aprontar algo. E está mesmo. Bagunceiro, inquieto, cheio de histórias. Gosta de bichinhos. Principalmente do "peixino". Dos "passarinos", ele tem um pouco de medo. Adora colorir e usar as minhas botas. Já aprendi que não devo ir visitá-lo de botas ou serei obrigada a ficar descalça enqu…

CARA-METADE >> Carla Dias >>

Minha sobrinha me confidenciou que encontrou sua cara-metade, mas depois de respirar fundo várias vezes, dizer que não conseguia falar. Eu perguntei o que a fez pensar nesse menino como sua cara-metade. E mesmo ciente de que as crianças de hoje são muito mais alguma coisa do que no meu tempo de menina de tudo, eu não esperava por aquela resposta.
Eu nunca pensei em alguém como minha cara-metade. Desde que aprendi a reconhecer as coisinhas do amor, penso no outro como um através, capaz de não apenas habitar parte de mim, mas trafegar pela minha existência, visitar profundidades, com a minha bênção, e com a possibilidade de eu fazer o mesmo. Obviamente, isso dá muito trabalho, o que reduz, e muito, minha lista de possíveis cara-metade.
Depois da conversa com a minha sobrinha, encasquetei com esse negócio de cara-metade. Repensei meus amores, os efetivos e os platônicos, e cheguei à conclusão de que os platônicos sempre são os melhores candidatos à cara-metade, porque nos deixam à mercê …

ENZO (SEGUNDA VOLTA)
>> Eduardo Loureiro Jr.

"As melhores coisas não podem ser ditas. As segundas melhores são incompreendidas. As terceiras melhores são aquelas sobre as quais falamos." (Heinrich Zimmer) No começo, era apenas uma notícia:

— Estou grávida.

Uma notícia alegre, desssas que bem poderia dar nos telejornais. Já imaginou se cada mulher que engravidasse, e estivesse feliz por isso, aparecesse na TV? Em vez de entrevistar políticos, especialistas e celebridades, os repórteres dirigiriam seus microfones para mulheres barrigudas. A cada hora, mais de 300 mulheres recebem a notícia de que estão grávida. Teríamos repórteres dando plantão em porta de laboratório.

— E então, senhora?
— Estou grávida. Estou grávida!

Se fosse assim, eu voltaria a assistir ao Jornal Nacional.

Depois do começo, é uma imagem. Um borrão, para ser mais preciso. Um pequeno instantâneo, ou um filminho de ultrassonografia.

— Está ali? Tá vendo?

Não, eu não estou vendo, mas tenho que confiar na palavra da grávida, que confiou na palavra do médico…

QUE VENHA O DIA 03 DE NOVEMBRO!
>> Clara Braga

Quem está acompanhando sabe que começaram os lançamentos do primeiro livro do Crônica do Dia. Ainda temos alguns por vir e estamos contando com a presença de todo mundo em suas respectivas cidades.

Esse livro tem sido motivo de muita alegria. Alegria para nós, cronistas, para leitores, para as famílias... enfim, é só alegria!

Bom, na verdade... já que estamos tocando no assunto, eu vou falar logo de uma vez. O lançamento desse livro está trazendo também um problema, e eu vou contar para todo mundo para ver se esse problema deixa de ser só meu e passa a ser de todos os leitores.

Eu sou uma pessoa que sofre de ansiedade crônica e também sofro por antecipação. Desde que fiquei sabendo da data do lançamento aqui em Brasília, já fiquei ansiosa. E não é para menos, afinal esse é o meu primeiro lançamento de livro como autora. Mas tem outra coisa que mexeu ainda mais comigo e que tem sido um sofrimento para mim. Em uma das informações que recebi sobre os lançamentos que já aconteceram, fique…

VALER A PENA >> Eduardo Loureiro Jr.

"É como uma dor no corpo que faz o menino crescer." (Fabiano dos Santos)
Não sei você, caro leitor, mas eu não gostava da expressão "valer a pena" — e talvez ainda nem goste...

Desde que me lembro por gente que tenho baixa tolerância à pena, à dor, ao sofrimento. Se alguém me dizia que determinada coisa valia a pena, já disparava em mim um alarme: "Eduardo, você precisa ver esse filme, vale a pena". Não, eu não preciso ver um filme em que haja uma pena a ser valida. E, quando era eu a indicar alguma coisa para alguém, e a pessoa me perguntava, "vale a pena?", eu respondia: "Não há pena, meu amigo, é um prazer só. Vá conferir!".

Mas não existe sufixo PRAZER, nem GOZO, nem RISO nesta Terra. Aquele que ama não é amaRISO, é amaDOR. Aquele que canta não é cantaGOZO, é cantaDOR. Aquele que pensa não é pensaPRAZER, é pensaDOR. Aterrissou, tem que pesar.

Quando se é jovem, bem jovem, a gente pensa que pode escapar à dor, que pode pegar um desvio…

CRÔNICA UP DATE [Débora Böttcher]

Essa é uma crônica escrita no domingo, 09/10/2011, mas publicada em seu dia usual - o sábado.

Não, não estou a enganar o tempo com uma mágica excepcional; tal ocorrência só é possível por causa da tecnologia virtual, onde se pode ir e voltar nas horas sem prejuízo da cadência natural.

É que ontem, no tempo de fato, eu não poderia escrever sobre uma experiência que ainda não tinha sido vivida. Tentei. Comecei a escrever o texto anunciando o lançamento em São Paulo do livro 'Acaba Não, Mundo' que, como vocês sabem, é a coletânea de crônicas publicadas neste espaço.

Era um evento novo para mim. Diferentemente de muitos dos autores, que já publicaram um ou vários livros, a experiência me era inédita e surpreendente, pois nunca pensei, com seriedade, em lançar um livro ou mesmo fazer parte de um. E eu ia estar lá, de cara com um livro impresso, meu nome entre os de tantos que admiro. Isso só foi possível por conta da imensa generosidade de Eduardo (Loureiro Jr.), que me deu a '…