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Mostrando postagens de Novembro, 2019

a grande árvore >>> branco

ato final
se algum dia - em uma de sua viagens - você passar por esta - ainda - pequena cidade pare por alguns instantes - desça do carro -  e dê uma olhada para a velha e grande árvore que existe na única praça desta -ainda - pequena cidade
existe uma certeza não estarei sentado à sua sombra existem duas certezas ela guarda segredos que não serão conhecidos e você saberá disso - se puder perceber - a diferença entre gemidos e farfalhar de folhas
uma pedra alojada entre suas grossas raízes
nela eu costumava me sentar para olhar o movimento me esconder da chuva pesada me proteger do sol - em tardes quentes de verão -  e quando com nada para fazer simplesmente me deixava ficar tantas coisas vividas a mulher do raro sorriso sentada no meio-fio vendo seu filho pródigo ir embora -sem sorriso - lágrimas nos olhos e o tempo passa tão vagarosamente  que não percebemos seus sinais tantas coisas imaginadas e não vividas a casa azul deu lugar à um prédio as casas vermelha branca verde e a lilás …

RETRATAÇÃO >> Fred Fogaça

Confesso que me esqueci da crônica pra hoje.
Dentre uma viagem pro lançamento do amigo Whisner, trânsitos e trânsitos e trânsitos e parece que eu já não me lembro de mais nada da rotina.
Até que é bom, mas essas coisas são tardias no vir.
Também frequentemente me esqueço de que os estímulos demoram a virar crônicas, pelo menos pra mim.
Acho que não posso mais confiar minhas lembranças em percursos como esse.
Tirei esses minutos do metrô errei a direção pra fazer essa retratação despropositada.
Sinceramente, nem todo texto foi de metrô, precisei de informações e acabei sabendo de toda uma rede de praticidade e trocas. Gosto dessas histórias comuns.
Meu celular, com sua bateria vacilante, também me deixou esperando um fim pra honesta retratação.
Interrompido apenas por um malabarista, uma banda, algumas tendas, uma bandeira e um café. No último impedimento eu pude dar uma solução rápida.
Parêntese: ainda me choca plenos dois mil anos de tecnologias e a gente encontra dificuldade pra um…

ENTRE FLUTUAÇÕES E A ESCURIDÃO >> Sergio Geia

INQUIETE-SE >> Paulo Meireles Barguil

 Aquiete-se foi o instigante convite da Carla Dias na crônica dessa semana. Sim, eu estou, cada vez mais, tentando me acalmar, pois esse é um dos frutos da maturidade, o que não significa que eles sejam saborosos e/ou saudáveis. O meu grande desafio é descobrir o que preciso agitar para que eu possa, enfim, me apaziguar. As poeiras-mágoas continuam me poluindo, a despeito das inúmeras tentativas de limpar minha alma. Sinto-me sobressaltado num mundo repleto de maldade, falsidade e cretinice. Como posso me tranquilizar se quem eu confiava me abandonou? Como posso amainar se quem riu para mim apunhalou as minhas costas quando me virei? Como posso serenar se quem eu acreditava ser meu amigo não me escutou? Retraído e perturbado, indago: "Em quem posso confiar?". Como posso me pacificar se a vida na Terra é, diariamente, esquartejada  por seres sanguinários? Como não me indignar? Sigo, então, inquieto, por vezes sozinho, "sob a batuta do movimento", conforme o sábio c…

ECLOSÃO >> Whisner Fraga

a menina embala o pingo verde.

uma suculenta não se infiltra pela terra.

não maquina raizes, não quer o chão.

(texto também é fruto, é galho, é tronco, é gênese)

também é pedra.

vistoriamos as plantas.

um sopro arrebenta a semente.

cotilédone, repito. cotilédone.

a menina gargalha a incompreensão.

logo serão árvores. cinco, dez, quinze anos.

a menina tem pressa. quer jabuticabas. quer lichias.

amoras.

que o tempo aprenda o tempo.

a menina suspira o infortúnio nas mãos.

uma semente devora o fim.

a menina suspira e desce para brincar.


AQUIETE-SE >> Carla Dias >>

Aquiete-se.
Habite-se por um instante, de forma que o tempo não lhe cause pânico por causa das rugas, das rusgas, dos apartamentos não quitados, dos títulos não recebidos, dos projetos inacabados: afetos & afins. Que não tema as ideias que verbalizou no quando a incapacidade alheia de compreender diferenças se fez disponível. Nada como encarar defensores apaixonados pela complexidade do que nem nasceu para ser labirinto, e que desfilam seus penduricalhos de assuntos trazidos à baila, nos quais jamais seremos capazes de nos aprofundar, não eu, tampouco você, porque são rasos e apreciamos a profundidade que seduz o interesse.
Aprofundar é necessidade para nós. Sei disso, ainda que você disfarce, apenas para se enturmar ao ritmo dos desinteressados, a fim de observá-los mais de perto, porque a distância que eles mantém do que pulsa o espanta.

Das beiras e do raso vivem aqueles que não se importam de ir com a maré. Nada contra os tais, tampouco contra a maré. Só dispensamos o desespe…

PRESENTES DO TEMPO >> Clara Braga

Tive tempo!
Tinha tempo que não tinha tempo.
E como acontece quando não estamos acostumados a ter algo, não soube exatamente o que fazer.
Estou acostumada a estar do lado contrário do tempo, como se fôssemos praticamente rivais. Disputamos uma corrida que não tenho como vencer. Que ousadia a minha querer controlar algo que só o tempo controla: o tempo.
Mas o tempo, pelo visto, andou cansado e decidiu me presentear com aquela sensação gostosa de que ele se dilatou. Aliás, sensação gostosa quando de fato podemos usufruir desse momento da forma que desejamos, e não estamos presos em uma sala de espera.
Busquei rapidamente por algo que gostaria de fazer sem a pressão da necessidade, embora hoje já tenha a alegria de unir o necessário ao prazeroso. Olhei a estante de livros, quantos livros poderia começar a ler agora mesmo, sem explicar nada para ninguém. Mas como não sabia exatamente quanto tempo o tempo estava me disponibilizando, fiquei na dúvida se seria bom começar algo que eu não te…

O MARTELO DO BEM - Sexta parte >> Albir José Inácio da Silva

(Continuação de 21/10/2019)
A conversa ia animada, enquanto as compras eram separadas e embrulhadas, com direito a cafezinho e sorrisos.Até que chegou uma freguesa com uma adolescente de uniforme. Antes de cumprimentar, a mulher perguntou:
- Foi vocês que atropelaram o Sabugo?
- Foi um acidente. Pode acontecer com qualquer um – defendeu-se Margô.
- Nós adoramos bichos. Temos até um gato – completou Déti, com um sorriso.
- Um gato preto, né? – perguntou a menina.
- Sim, Tição é a criatura mais preta e mais doce que nós conhecemos – respondeu a inocente Margô.
Quando saíram do Armazém uma Kombi com alto-falante conclamava os cidadãos de bem para uma reunião urgente na Igreja Nova Cruzada. Na praça, já montavam a decoração da festa. Não estavam interessadas na reunião da Irmã Penha, mas Déti ficou muito entusiasmada com a festa.
Margô se sentia culpada por não partilhar aquela animação. Sempre ela puxando pra baixo. Às vezes ficava feliz, mas um gesto, uma piada ou um olhar atravessado …

EU MATEI MEUS PAIS >> Sandra Modesto

Vinte e dois de outubro de dois mil e dezenove. 
Dezesseis horas e vinte e dois minutos. 
Uma terça- feira de uma tarde indecisa entre o céu e o inferno. 
Faltam dez dias pra eu matar meus pais. 
Elegia aos meus... 
Na minha cidade interiorana, o propago anuncia em alto e bom som pelas ruas: 
“Nota de falecimento e convite para o sepultamento”. 
As pessoas de ouvidos atentos sempre que o carro passa. Numa voz eloquente o moço fala- “a família de (Quem morreu), e lasca o convite à população”. 
Tem gente que já fica louca e celebra: “Nossa! Que tristeza!”. 
Tem gente que não está nem aí, tem gente que chora, tem gente que escreve. 
Eu escuto a ladainha do moço do propago desde menina. Hoje velha eu já pedi: 
- Por favor, sem propago, sem lamúrias, sem velório duradouro. 
Mas estarei inerte façam o que quiserem. 
Dia vinte e oito de junho de 1997 as zero hora, meu pai morreu. Aos 57 anos. 
Velado na sala da nossa casa. Oito meses depois, minha mãe esticada no mesmo lugar. 
Desde então eu…

APOSTANDO CORRIDA COM A VIDA?* >> Cristiana Moura

Eram tantos os sonhos. Eram tantos os desejos. Ela, aos 16 anos incompletos, já não tinha certeza se os anseios eram mesmo dela ou se do mundo, da escola, dos pais, de um tem-que-ser pré-definido enquanto seus desejos mais íntimos ficavam camuflados em sua literatura preferida para a qual sequer tinha tempo a dedicar. 
Mayara é dessas pessoas cheias de ideias, uma após a outra e todas ao mesmo tempo. É, ao mesmo tempo, inventiva e disciplinada. Estudava, saía com os amigos, estudava, assistia às aulas, estudava… Faltava-lhe o tempo para criar, inventar. 
Certa feita, a menina confidenciou-me em palavras proferidas uma emendada à outra tamanha a aceleração de sua fala que parecia falta-lhe o ar, que quer fazer a faculdade em outro estado, por isto andava tão estressada, ansiosa, esquecendo até mesmo de comer. Um amigo, dos mais bem quistos, disse-lhe: “você é capaz!” Aí que ela ficou ainda mais nervosa e até mesmo com raiva. O que se pretendia incentivo em voz de um garoto soou-lhe co…

DR. MÁRCIO E SUA AVENTURA NAS MONTANHAS - 1a parte >> Zoraya Cesar

A mochila pesava mais que a consciência de um demônio arrependido. Logo no primeiro quilômetro Dr. Márcio sentiu como se um japonês sádico enfiasse compridas agulhas em suas costas, tricotando, furiosamente, uma tapeçaria de dores.
O professor fora categórico, “coloquem o mais leve embaixo e o mais pesado em cima, para não sobrecarregar a coluna lombar”. Mas Dr. Márcio acabou colocando alguns itens na última hora e... o resultado se fazia sentir.
Enquanto ele bufava, trincando os dentes para não gemer, uma velhinha, enrugadinha, mais parecia uma uva-passa branca mastigada, subia na frente dele, lépida e fagueira, cantante e dançante. Dizia a lenda que ela passava dos 90, fazia montanhismo desde antes nascer e que já enterrara quatro maridos. Perguntou se ele queria ajuda. Dr. Márcio quis, isso sim, mandá-la para o inferno, mas não teve forças.
O professor também fora categórico no quesito calçados. “Usem tênis já amaciados, nos quais seus pés fiquem confortáveis.” Dr. Márcio achou, no en…