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Mostrando postagens de Novembro, 2019

GRAÇAS AO PERIGO >> Cristiana Moura

Fomos colegas na faculdade de Artes Visuais. Nesta época não éramos próximos. Hoje em dia, o rapaz já homem feito, me parece um mago das linhasque, em seu gesto, ganham graça, força e forma – sua arte.

Parei-me mais tempo diante um dos seus desenhos. A imagem me absorve e me transporta. Ao centro do quadro a imagem de um redemoinho. Sendo tragada por ele uma caixa. Nesta caixa uma abertura, na qual uma mão se segura, possivelmente tentando não ser levada pelo redemoinho. Nas linhas de Diego os redemoinhos do meu próprio caminhar.
Foi bem depois que fiquei sabendo dos seus pedaços de vida. Quando era menino, morria de medo d’água. Fosse mar, fosse lagoa, fosse rio ou mangue. Era menino ainda franzino, ainda miúdo quando seu pai que era pescador o levou para um passeio. Não era qualquer passeio. O caminhar seguro de mãos dadas pelas rua dava lugar ao balanço nauseante da canoa no mangue. Entrou em pânico. Corpo quase congelado. Todas as lágrimas, daquelas que são feitas de medo, ele pôs …

O QUE CHICO BUARQUE TEM A VER COM ESSA HISTÓRIA >>Zoraya Cesar

Sempre sonhara com o dia em que Chico Buarque e ela se encontrariam, se apaixonariam e ficariam juntos para sempre, trocando beijos e juras de amor, sem se desgrudarem um minuto sequer. Ela se via dizendo para a atual namorada dele (quem quer que fosse à época) desculpe, amiga, mas perdeu, eu sou o verdadeiro amor do Chico.
Quando soube que ele se apresentaria na cidade, tratou de se preparar. Deixou de sair com as amigas, de comprar chocolates, de fazer qualquer coisa que implicasse despesas, tudo para juntar dinheiro que sobrasse para o ingresso (uma fortuna!), roupa, sapatos e perfume novos, cabeleireiro, manicure, imagine se ela ia encontrar o seu amor como quem vai a um show na praia, jamais! Também comprou calcinha e sutiã sensuais, vai que tem um incêndio, ou acontece um acidente, e ela aparece com roupa de baixo velha? Melhor morrer. Até porque ela não queria simplesmente ver o espetáculo. Ela queria falar com o Chico. Entrar no camarim, pedir autógrafo, tirar foto, tocar nele,…

REJEITADA >>> Nádia Coldebella

A casa descorada de madeira era bem velha, seca e podre. Não tinha nenhuma cerca que a separasse da rua. Não tinha nem grama - essa havia sido queimada sem dó nem piedade pelo sol do verão infernal. A terra bruta e vermelha parecia sangue seco enterrando um pouco do cascalho cor de telha do que uma vez havia sido um caminho.

O carro estava parado na frente, meio dentro do terreno, meio fora dele. O inconfundível Dodge azul metálico náutico! Maldito carro! Seu primeiro filho havia sido feito no banco de trás, quando ela era ainda moça nova, bonita e cheia de sonhos. Por causa do Doge ela foi ficando. Toda vez que brigavam e ela ia embora, sempre a pé, ele a seguia, devagarinho, sempre de carro, pedindo perdão e gritando juras de amor. E ela se derretia, entrava no carro e faziam um filho no banco de trás.

Agora ela tinha cinco filhos do mesmo homem. Mesmo assim, ele a havia deixado. Foi a vez dela de ir atrás, a pé.  Ela continuava andando a pé sob o sol, trabalhando aqui e ali para …

ATREVIDOS >> Carla Dias >>

Ele já entendeu que a vida é breve. 
Espera, então, que na sua brevidade, ela também seja intensa. Na sua brevidade, ela faça sentido. Na sua brevidade, despeje-se a justiça de retrair violência e se desembarace o embaraço contido no olhar que se surpreende com a paisagem.
Esse tal viu muitos planejarem eternidades. Amanhã: construir. Depois de amanhã: consertar essa edificação de desejos mal desejados. Porque ele acredita que, se há algo que o ser humano sabe fazer com maestria é desejar indesejados. É desejar definido, sem espaço para a dilatação desses desejos. Desejar de acordo com o desejo do outro.
Contudo, ele é um racional por escolha e dedicação.
Ontem, foi breve a manifestação a ele dirigida. Breve e única. Não uma conversa, que era o que esperava, mas uma palavra. O que uma pessoa faz com uma palavra, quando está mergulhada na urgência por diálogos? Nem houve tempo de retrucar, de devolver a inconveniência da palavra proferida, porque a continuidade dela se desdobrou em pa…

natureza 2000 >>> branco

é bonito quando as nuvens se quebram  e seus pedaços caem sobre nós em forma de chuva
é bonito quando na manhã ainda sonolenta saudamos alegremente a chegada do sol
e nos campos as folhas cobertas pelo orvalho têm seu modo todo especial de dizer bom dia
e as flores em seu ciclo perfeito bebem avidamente os raios de sol para que a sua sede de criação seja plenamente saciada
no crepúsculo a brisa suave que acaricia nossas almas é como um aviso de que a lua vai chegar e iluminar os campos e namorados se deitarão sob ela e dirão palavras gentis e apaixonadas
agora estou caminhando pelas ruas as lâmpadas dos postes clareiam precariamente meu caminho repentinamente percebo que minha sombra indiferente aos meus movimentos tira o chapeu e se inclina e desajeitadamente faz uma reverência à vida








espaço amigo
comprem os livros
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DESCALÇO NO MERCADO >> Fred Fogaça

Quando abri a porta do carro e pisei não chão, senti as pedras. Empenhado em trocar a estante da sala por algo menor e discreto, sai em busca de madeiras em triangulo. Eu tinha a medida correta, uma cor, e toda uma lista mental de ferramentas e material de apoio. Saí pra busca, resolvendo, como um dia produtivo deve ser. Levo o carro pra um reparo, do lado já compro as madeiras em duplas n’um pacote, prontas pra uma estante, e pela volta eu paro pra umas mãos francesas e parafusos. Mais tarde, já quase pronto e eu descobro que devo ter errado as madeiras: fixei na parede, na parte de baixo, uma taboa com furo. Esses furos servem pra possíveis fios da prateleira de baixo ir para de cima. Agora os fios vinham do chão e paravam no meio do caminho.  Sai de casa pelas beiras do poente com a intenção de ter uma serra copa. Nunca mais teria problemas com furos que não chegam no lugar certo. Quando cheguei no mercado logo depois, já estava sem chinelo. Que também não estava no carro, nem na loja de f…

VENHA VER O FOLHA VADIA >> Sergio Geia

Lembro como se fosse hoje. 2014, abril, tarde quente. Nervos à flor da pele, coração batendo em descompasso, um mar de ansiedade escorrendo pelos poros e uma dúvida a martelar: alguém vai aparecer? Ou vou ficar à mingua com meu Confidências, abanando-me com ele num deserto de shopping center
Nada. Vocês foram maravilhosos. De Pindamonhangaba, Caçapava, Ubatuba, São José dos Campos, Taubatexas. Formaram fila que saía da livraria e tomava o corredor do shopping. Abraços, beijos, carinhos, desejos de sucesso, e levaram para casa o Confidências, mesmo a preço salgado. Fizeram mais. Comentaram, compartilharam as postagens de divulgação, convidaram amigos, lotaram a Nobel do Via Vale, naquele 10 de abril tão especial para mim. 
E agora, pouco mais de cinco anos, a história se repete. 
folha vadia, assim mesmo, com letra minúscula, bem vadia, bem subversiva, bem ao estilo branco de ser, está uma delícia. Abusando da vaidade, digo que a edição está lindíssima. A capa é da Camila Giudice, qu…

MURIÇOCA >> Paulo Meireles Barguil

A saúde é fruto de uma equação, ainda desconhecida, com algumas variáveis, dentre as quais ressalto o ambiente, os relacionamentos, a alimentação, as atividades físicas e a dormida. Há, também, a genética, que nos afasta ou nos empurra para alguma mazela.

Para tornar mais desafiante esse mistério, consolidam-se os estudos, dentre os quais destaco a Constelação Familiar, proposta por Bert Hellinger, que revelam a influência dos ascendentes na forma como vivemos. Por mais que brademos pela liberdade, somos profundamente vinculados a quem nos antecedeu, a qual só é razoavelmente possível, de fato, para quem ousa mergulhar em águas turvas, ciente de que, após esse banho, nunca mais será o mais mesmo. Olhando para aquela invisível expressão de bem estar, sempre acreditei que uma boa noite de sono é o que mais facilmente conseguiria.
Ultimamente, nem isso!

As muriçocas (pernilongos ou mosquitos para leitores de outras localidades) com seu zumbido irritante, avisando que irão minar o meu co…

CONGESTIONAMENTO >> Whisner Fraga

desce do carro. atrás uns cinquenta carros e à frente uns oitenta.

sente-se como a moça do dauphine, do conto de cortázar.

fisga um cigarro. a brasa ilumina as rugas e o cansaço. não estaria ali se não fosse.

a madrugada chupa a fumaça que o desconforto assopra no mundo.

não quer que um desconhecido se aproxime e declame enganos.

o neon do posto exala a prática do mercado.

uma moça passa e acena da bicicleta.

volta para dentro, liga o tocacd. bob dylan.

where have you been, my blue-eyed son?

alguém buzina e ele se alvoroça.

empunha a chave e, prestes à ignição, descobre que nada mudou.

arranca o celular do bolso e decide que está preocupado, que quer falar.

se não fosse tarde.

um velho aparece ao lado da porta e bate de leve no vidro.

dylan, hã?

o quê?

bob dylan: muito bom.

se não fosse tarde.

DURAÇÃO >> Carla Dias >>

Olhos fechados por um instante que perdura o incontável do tempo, de tão avara que é a duração a ele concedida. Na curta-metragem desse cerrar de pálpebras, em tempo flexível, ele é acometido pela consciência de que não importa o incômodo.

O mundo seguirá no seu ritmo de criação e fim.
Deixa de acreditar na invencionice gerada pelo aconchego que acomoda a realidade dos enfeites, que ele cultivou por uma vida e foi contestada em um tempo que ele nem tem como definir, dada a sua efemeridade.
Não foi um piscar de olhos. Foi mais íntimo e pungente. Foi uma duração que permitiu que ele compreendesse o que sempre lhe pareceu incompreensível, só que em uma fisgada, um naco de um tempo desdobrado que jamais caberá no nosso singelo cronômetro. 
A vida seguirá na sua cadência de criação e fim.
Não há religiosidade nessa ciência. Não há ciência que endosse tal conhecimento. Veio de um reverberar quase compositor de música incidental, em tempo de duração aproximadamente nula, que espalhou nele e…

PARA QUE SERVEM OS SONHOS? >> Clara Braga

Deitei e dormi.
Dormi daquele jeito quase instantâneo, que mal dá tempo de pensar no dia que passou. Porém, uma coisa foi diferente: nesse dia eu sonhei! Não um sonho qualquer, mas um sonho que parecia ser longo e, o melhor, consegui lembrar de boas partes dele quando acordei, o que não é comum para mim.
Ainda mais interessante do que o fato de eu ter lembrado de várias partes de um sonho, é o fato de que algo importante aconteceu durante o sonho: em um certo momento eu sentei e escrevi um texto. Mas também não foi um texto qualquer, foi um daqueles textos que quando a gente termina de escrever surge um espontâneo sorriso no canto da nossa boca, pois a gente sabe que quando conseguimos compartilhar o que há de mais sincero em nós, vamos atingir o que há de mais sincero no leitor.
Fiquei muito feliz, pois eu lembrava de cada vírgula do texto. Com certeza entregaria ao leitor um texto que há muito não consigo entregar. Foi então que cometi o mais grave de todos os erros: confiei que le…

O MARTELO DO BEM - Sétima parte >> Albir José Inácio da Silva

(Continuação de 04/11/2019)
Irmã Penha fechava o caixa de três barraquinhas da Nova Cruzada na Festa da Roça com um sorriso pelo sucesso das vendas, quando ouviu os gritos. Correu para perto do coreto e viu, sentada no banco de pedra e cercada por um grupo de pessoas, uma de suas fiéis.Transtornada, ela gritou de novo quando a religiosa se aproximou:
- Meu filho, Irmã Penha! Ninguém acha! Eu vi a bruxa dando doce pra ele!
“Não! Eu não precisava disso!” – pensou Penha – “Alguém lá das profundezas do inferno ficou incomodado com o sucesso da festa. Estou bem parada com fiéis que não conseguem tomar conta dos próprios filhos!”
Das Dores, a mãe do menino, se descabelava como se estivesse possuída e Penha teve vontade de sacudi-la, mas abraçou-a e disse que achariam seu filho. Depois se afastou alguns passos e por gestos chamou o Sargento Donizeti, que ouvia algumas pessoas sobre o desaparecimento, e os três Josés, que esperavam ordens.
- Como vocês estão vendo, foram proféticas as minhas…

O SEGUNDO AMOR >>> Sandra Modesto

Humberto já sabia. Conformou- se. Tinha um rival. Sim. Lucia conheceu o primeiro amor. E não foi Humberto. Aquele amor à primeira cantada. 
Não deu outra. Entre cantos e aplausos o amor durava.

O tempo rodou.
Em outubro de 2017...
Lucia soube uma novidade: Chico Buarque lança o CD CARAVANAS. “Garanta na pré- venda". - Humberto! Preciso desse disco. 
- Pai, acho que se minha mãe não comprar o Chico você vai dormir no sofá.
Lucia ouviu e reforçou:

- Não é assim! Eu quero o CD CARAVANAS. Trinta e quatro reais. Comprei!  Pai e filho riram.

Humberto recordou com Lucia o tempo do namoro. Os vinis do Chico que ele comprou para presenteá- la. Gastava o mísero salário em Chicos. Mas o amor valia.
- Você escrevia nas capas textos apaixonantes. Só porque eu gostava.

Agora eu quero o CD novo. Só isso.
Beijaram- se. E o amor se fez: no sofá, na cama, ouvindo a poesia da cidade que ardia. 
A pré-venda do disco não deu certo. Lucia enviou e-mail pra loja. Nada.
Quinze dias se passaram. Nada.

- …

FOLHA VADIA, EU ESTOU CHEGANDO! >> Cristiana Moura

Neste mês um amigo estará lançando seu livro, o folha vadia. Dia 28 saio da terra da luz diretamente para Taubaté a fim de prestigiar Sergio Geia e conhecer estas crônicas escolhidas a dedo pelo autor. Fui gentilmente convidada a hospedar-me em sua casa. Aceitei.
Ainda ontem conversávamos por watzapp:
— Cris, se precisar de alguma coisa, sei lá, algum tipo de alimento, etc, me fale. Beijos. Bom fim de semana.
Por alguns segundos, passou-me pela cabeça, uma lista de necessidades pessoais , de coisas que penso precisar. Respirei.
— Beijos. Bom fim de semana.
Meu sono foi interrompido na madrugada pela preocupação materna. Peguei o celular, procurei notícias de Gabriel e escrevi para Sergio.
Lista de necessidades da Cris:
Acordar com o sol amanhecendo e aquela boa sensação de gratidão;Levantar super bem disposta como que para malhar;Disciplina na escrita, nas leituras, na atividade física, na meditação e na alimentação;Vinho tinto seco que não engorde, não favoreça a retenção de líquidos…

DR. MÁRCIO E SUA AVENTURA NAS MONTANHAS - 2a parte >> Zoraya Cesar

Dr. Márcio, ao completar bodas de chumbo com a vida, cismou que deveria ser aventureiro e descolado, cidadão do mundo, popular, como seu cunhado. 

Vimos na primeira parte (leia aqui), que Dr. Márcio subiu a montanha e passou  a noite num acampamento. Além de atrasar a caminhada do grupo, não conseguiu comer nem dormir. Para piorar, sentia-se constantemente avexado e humilhado pela presença de uma montanhista nonagenária, lépida, fagueira e muito, mas muito mais ativa que ele (se bem que ela era melhor até que os guias, verdade seja dita. Mas vamos à continuação da história).
INGLÓRIO AMANHECER
Cinco da manhã. Depois da noite insone, úmida, fria e desconfortável, Dr. Márcio cochilou de cansaço. Não durou nem dez minutos. Despertou com os gritos dos guias urgindo a que levantassem acampamento. O tempo dera uma virada inesperada e um vento ululante e mal-humorado empurrava as lonas das barracas, ameaçando levar tudo pelos ares, trazendo nos braços espessas nuvens de chuva.  
Enregelado, o co…