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DR. MÁRCIO E SUA AVENTURA NAS MONTANHAS - 1a parte >> Zoraya Cesar

A mochila pesava mais que a consciência de um demônio arrependido. Logo no primeiro quilômetro Dr. Márcio sentiu como se um japonês sádico enfiasse compridas agulhas em suas costas, tricotando, furiosamente, uma tapeçaria de dores.

O professor fora categórico, “coloquem o mais leve embaixo e o mais pesado em cima, para não sobrecarregar a coluna lombar”. Mas Dr. Márcio acabou colocando alguns itens na última hora e... o resultado se fazia sentir.

Enquanto ele bufava, trincando os dentes para não gemer, uma velhinha, enrugadinha, mais parecia uma uva-passa branca mastigada, subia na frente dele, lépida e fagueira, cantante e dançante. Dizia a lenda que ela passava dos 90, fazia montanhismo desde antes nascer e que já enterrara quatro maridos. Perguntou se ele queria ajuda. Dr. Márcio quis, isso sim, mandá-la para o inferno, mas não teve forças.

O professor também fora categórico no quesito calçados. “Usem tênis já amaciados, nos quais seus pés fiquem confortáveis.” Dr. Márcio achou, no entanto, que merecia começar sua vida de aventureiro com sapatos novos. Comprou dessas botinas hi-tech, próprias para trilheiros profissionais. Não tinha como dar errado, pensou. Tinha. Deu.

Três horas, várias subidas, descidas e contornos depois, seus pés começaram a fazer coro com as costas. Dr. Márcio receou que alguém ouvisse seu corpo gritando de dor. Teve vontade de sentar e chorar. Para piorar, a velhinha, maliciosamente, perguntou-lhe se os sapatos estavam confortáveis. Como a diaba percebera? Fosse cuidar da própria vida. Peste!

Os guias pretendiam chegar ao cume antes do anoitecer. Um deles, no entanto, ficou para trás, acompanhando Dr. Márcio, que só chegou depois de o sol se deitar e roncar. A velhinha, tendo montado sua barraca, resolvera descer para ‘dar uma força’ ao colega. (Dr. Márcio desejou que um vento qualquer a soprasse para bem longe. Metida. Não podia ser uma velha como as outras e ficar em casa vendo novela?)

No acampamento, os melhores lugares já estavam ocupados. Só restava a Dr. Márcio um pedaço de terreno irregular e cheio de pedregulhos.  O faquir mais exigente do mundo teria ficado extremamente satisfeito.

Estava faminto. E faminto continuou.

O professor avisara “quem não está acostumado com comida de acampamento leva sanduíches e frutas”. Nosso amigo rechaçou a sugestão. Faria tal qual um montanhista de respeito. Levou, apenas, comida liofilizada.

Depois de pronta, parecia uma sopa de vermes gorduchos, uma macarronada feita de dedos de cadáveres de afogados, que exalava, ao seu olfato sensível, um cheiro nauseabundo. Perdeu o apetite - mas, infelizmente, não a fome, nem a vontade de vomitar. A velhinha comia com gosto, chupando os dentes, estalando a língua, como se aquela goroba fosse a ambrosia servida no Monte Olimpo, numa demonstração cabal de que ela não era desse mundo, mas do Hades, concluiu Dr. Márcio.

Alguém lhe ofereceu um sanduíche de atum. Ele odiava atum, mas mordiscou o pão, em atenção à gentileza, e para não ser mal visto pelos colegas (que, a bem da verdade, já o estavam olhando meio de banda).

Felizmente, antes de ser obrigado a comer o sanduíche, os guias mandaram todos para suas tendas. O dia seguinte seria puxado, iriam descer não pela trilha, mas pela montanha, usando bouldrier, cordas, rappel, o equipamento de praxe.

Sob sua tenda, Dr. Márcio congelava; não há roupa que baste contra o frio de 4°C que se esgueira pelas frestas. Sobre seu colchonete, Dr. Márcio não dormia, incomodado com os pedregulhos e as ondulações do terreno. Seus pés e costas latejavam, num ritmo funk alto e intermitente. A chuva fininha caiu por um breve instante, rápida como um último suspiro, mas deixou um rastro de umidade no chão. Dr. Márcio sentia-se miserável.
Sozinho, com fome e frio em sua tenda,
Dr. Márcio se perguntava como fora
cair naquela roubada.

Maldita hora que teve aquela ideia estapafúrdia. Sem nada melhor para fazer, lembrou de como tudo começou.

Fazendo bodas de chumbo com a vida, mais que o peso dos anos sentia o desespero dos afogados, que veem sua vida chegar ao fim sem terem experimentado uma dose a mais daquele destilado de fundo de quintal, ou sofrido por um amor bandido, nem, sequer – humilhação das humilhações – ter tocado a campainha do vizinho e sair correndo. Resolveu que era hora de chutar o pau da barraca, viver aventuras, ser igual ao cunhado, irmão de sua esposa.

cunhado! Folgazão, bon vivant, nunca tivera emprego fixo. Casar? Nem pensar. Bebia, jogava, frequentava todo tipo de lugar e era bem-vindo em todos eles. Mochilou por meio mundo até quase os 50 anos. Dormira com mais mulheres que as estrelas do mar. Mesmo agora, mais velho, os cabelos grisalhos e as rugas não empanavam seu savoir vivre. Ainda surfava e praticava esportes ao ar livre. Um contador de causos inigualável e um sedutor de primeira grandeza. Era safo. Era engraçado. Era charmoso. Era o cunhado.

Dr. Márcio se mordia de inveja, esse pecado feio e reprovável. Um pecado capital, e não à toa, pois a pessoa perde mesmo a cabeça, o equilíbrio, o senso, enfim.

Por duas vezes  tentara colorir sua vida com uma aventura digna do nome, que pudesse se igualar às do cunhado. Por duas vezes malograra vexatoriamente. Mas, Dr. Márcio, como bom advogado, era persistente. Não ia desistir assim tão fácil, e perder a oportunidade de aproveitar o lado selvagem da vida. Born to be wiiiiillldd...

O dia seguinte seria melhor. Até porque, pensava, pior, impossível.

Continua dia 15 de novembro

Outras aventuras do Dr. Márcio:


Outra malfadada aventura do Dr. Márcio

Born to be wild. Steppenwolf - https://www.youtube.com/watch?v=egMWlD3fLJ8

Comida liofilizada: alimento desidratado, natural, congelado abaixo de -30°C  submetido a alto vácuo. Fontehttp://www.trekkingrs.com/comida-liofilizada-o-que-e-isso/

Comentários

Marcio disse…
Das duas, uma: ou o Dr. Márcio vai fazer a dança do acasalamento com a velhinha - e decepcioná-la, claro! - ou vai matá-la até o final do texto, para saciar o animus necandi da Zoraya.
Érica disse…
Comentários só depois da segunda parte. Humpf!
branco disse…
Texto com a leveza de uma pluma e muito bem humorado, mas alguma coisa me diz que born to be wild não está nos créditos por acaso. no aguardo para um comentário (que tenho certeza será positivo).
sergio geia disse…
Esse Dr. Márcio, hein? Zô, boas risadas eu dei. E o seu início foi arrebatador: "Logo no primeiro quilômetro Dr. Márcio sentiu como se um japonês sádico enfiasse compridas agulhas em suas costas, tricotando, furiosamente, uma tapeçaria de dores." Adorei. Beijos mil!
Clarisse Pacheco disse…
Adorei o "tricotando uma tapeçaria de dores" kkkkk. Dr. Márcio só não se lembrou da máxima: "não há nada tão ruim que não possa piorar" huahuahua
Albir disse…
Minha solidariedade ao Dr. Márcio. Essas velhinhas provenientes do Hades parecem se multiplicar pululando à nossa volta. E, o que é pior, o homicídio continua definido como crime.
Zoraya Cesar disse…
Marcio - prometo, correndo o risco do spoiler, que naõ haverá dança do acasalamento - Dr. Márcio não é páreo para a velhinha; nem mortes, pq ela é mais esperta que ele kkkkk

Érica - não seja rabugenta, Mulher!

branco - My Lord, como conversamos, sinto dizer, mas não leve fé no Dr. Márcio. Ele é um trapalhão bem intencionado. Born to be wild consta na trilha sonoro pq é o desejo íntimo dele, não expressão de sua personalidade hehehe

Sérgio - puxa, agora vc me deixou feliz. Fazer as pessoas rirem qdo conto algo mais leve é um de meus sonhos!

Clarisse - pois é, seria bom ele ter essa máxima em mente. Se bem que, no caso dele, não sei se adiantaria kkk

Albir - vc se solidariza com Dr. Márcio e eu me solidarizo com vc. Amei sua observação. Essas que ficam nas filas, então... argh.

A todos, muito obrigada pela leitura e carinho. E pelas observações gentis (e engraçadas...)
Carla Dias disse…
Vou acender uma vela pro anjo da guarda do Dr. Márcio...