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DESCALÇO NO MERCADO >> Fred Fogaça

Quando abri a porta do carro e pisei não chão, senti as pedras.
Empenhado em trocar a estante da sala por algo menor e discreto, sai em busca de madeiras em triangulo. Eu tinha a medida correta, uma cor, e toda uma lista mental de ferramentas e material de apoio.
Saí pra busca, resolvendo, como um dia produtivo deve ser.
Levo o carro pra um reparo, do lado já compro as madeiras em duplas n’um pacote, prontas pra uma estante, e pela volta eu paro pra umas mãos francesas e parafusos.
Mais tarde, já quase pronto e eu descobro que devo ter errado as madeiras: fixei na parede, na parte de baixo, uma taboa com furo.
Esses furos servem pra possíveis fios da prateleira de baixo ir para de cima. Agora os fios vinham do chão e paravam no meio do caminho. 
Sai de casa pelas beiras do poente com a intenção de ter uma serra copa. Nunca mais teria problemas com furos que não chegam no lugar certo.
Quando cheguei no mercado logo depois, já estava sem chinelo.
Que também não estava no carro, nem na loja de ferramentas e, claro, nem no mercado.
Quem mora na praia não deve ser desguarnecido de chinelos. Não se sai de tênis se não for muito séria a ocasião.
Aquele par de chinelos era único, além do mais.
Cheguei em casa com as compras necessárias pro fim da tarde – e um novo par de chinelos – deixei as compras de materiais de reforma pela cozinha e interrompi meus afazeres pra um lanche.
Quando voltei pra sala procurando a outra madeira ainda no pacote, minha surpresa: lá estava o par de chinelos e, vejam só, em cima de um buraco da segunda prateleira.
*publicado originalmente no Jornal do Caruaru em 14/11/2019

Comentários

Zoraya Cesar disse…
Sempre bom saber que há outros atarantados soltos por aí. Delícia de crônica. E que bem disposto vc é! Eu não consigo sair de casa no final da tarde para nada!
Carla Dias disse…
Ah, esses chinelos e esse buracos. Ler sua crônica foi como dar uma volta. ;)