Pular para o conteúdo principal

DURAÇÃO >> Carla Dias >>


Olhos fechados por um instante que perdura o incontável do tempo, de tão avara que é a duração a ele concedida. Na curta-metragem desse cerrar de pálpebras, em tempo flexível, ele é acometido pela consciência de que não importa o incômodo.


O mundo seguirá no seu ritmo de criação e fim.

Deixa de acreditar na invencionice gerada pelo aconchego que acomoda a realidade dos enfeites, que ele cultivou por uma vida e foi contestada em um tempo que ele nem tem como definir, dada a sua efemeridade.

Não foi um piscar de olhos. Foi mais íntimo e pungente. Foi uma duração que permitiu que ele compreendesse o que sempre lhe pareceu incompreensível, só que em uma fisgada, um naco de um tempo desdobrado que jamais caberá no nosso singelo cronômetro. 

A vida seguirá na sua cadência de criação e fim.

Não há religiosidade nessa ciência. Não há ciência que endosse tal conhecimento. Veio de um reverberar quase compositor de música incidental, em tempo de duração aproximadamente nula, que espalhou nele esse conhecimento que ainda não sabe se aprumará ou enterrará de vez as suas esquálidas esperanças.

O que fazer com o saber que tudo se baseia em criação e fim, quando ele nos chega sem espaço para questionamento? Que no entremeio arrasta destruição e prazer? Que por mais que o ser humano se julgue capaz de conceber milagres diversos, e que, às vezes, ele realmente seja capaz de cometê-los, há aquilo que é o que é.

O é o que é causa pânico em pessoas feito ele, acostumadas a controlar a tudo e a todos. Não importa o resultado, contanto que seja guiado pelo seu conhecimento, suas necessidades e seus desejos, sem chance para surpresas.

Ao seu redor, celebração. Pessoas conversam animadamente, sorriem e se tocam, a cada vez que precisam de um tanto mais de atenção. Pessoas que ele conhece há uma vida de começos diversos, de histórias sortidas, de tragédias e euforias. Agora ele as percebe com proximidade despida de filtros e o medo atiçado que se espalha pela sua percepção.

Suas habilidades, sua generosidade e até mesmo sua capacidade de decidir quem merece ou não a proteção que ele é capaz de oferecer, não garantem o que seja. Não garantem o controle que supre o temor dele de se perder no começo do fim.

O tempo dos olhos cerrados. Um tempo que nem pode contar em um fôlego. É um cisco, uma revelação de duração na qual couberam todas as mudanças que ele nunca planejou concretizar, nem mesmo as perguntas que cogitou de trazer à vida.

Porque o mundo seguirá seu ritmo de criação e fim, sem se importar com os incômodos que o habitam. E a vida seguirá na sua cadência de criação e fim, sem se importar com as buscas que o fazem seguir em frente.

Ele seguirá, mas não mais como quem era há pouco. Foi em um sopro... não, tão menos do que isso. Transformou-se na duração do mundo a lhe sussurrar vida nos ouvidos.

Rende-se à criação e ao fim, e a tudo mais que acontece no durante.

Imagem © Leonora Carrington

carladias.com

Comentários

Zoraya Cesar disse…
"há aquilo que é o que é. Transformou-se na duração do mundo a lhe sussurrar vida nos ouvidos."
Carla, vc não cansa de nos surpreender em plena inconsciência, despertando-nos do torpor. Doloroso e belo. Profundo e delicado. Carla Dias.
Sandra Modesto disse…
Muito profundo. " Transformou-se na duração do mundo". Lindo texto.
Albir disse…
Muito bom ver sua poesia na discussão do "ser", que ultrapassa os milênios da filosofia.