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Mostrando postagens de Abril, 2009

O melhor da Disney >> Kika Coutinho

Eu tinha cerca de 10 anos quando uma das minhas melhores amigas, filha dos meus padrinhos, anunciou que ia pra Disney. Foi uma alegria. Ela completou dizendo que a mãe dela, minha madrinha, queria levar-me junto. Houve um movimento em casa, uma falação. Minha madrinha ligava, meus pais tentavam, mas tinha uma coisa de visto, uma coisa de quarto, uma coisa de dinheiro que, no final, não deu certo a minha ida. Ela iria, minha grande amiga iria, e estava feliz por isso.

Embora eu a visse radiante, eu sabia que ela queria que eu fosse também e, talvez por isso, eu não me sentia triste. Meus desejos, na época, eram pequenos e simplórios. Neles, não havia Disney, nem avião. Todo espaço do meu desejo era preenchido por revistinhas da turma da Mônica e umas horas brincando do térreo. Estava bom assim -- como a infância é auto-gratificante, não?

Aconteceu que ela foi, despediu-se de mim e, muito rapidamente, voltou. Chegaram em casa todos, ela e os pais -- meus padrinhos -- poucos dias após tere…

STAND - OS MOÇOS DA MÚSICA >> Carla Dias

O mais interessante sobre a internet é poder usá-la como uma eficiente ferramenta para encontrar o melhor daquilo que apreciamos. Se você tem a mente aberta, pode até mesmo expandir o universo das ideias e alimentar a própria alma apenas fazendo uma busca sobre um assunto específico sobre o qual gostaria de saber um pouco mais. Você também pode fazer o que quase todos vêm fazendo: ‘googar’ suas curiosidades.

Não há lugar mais democrático. Claro que nós também precisamos aplicar bem a nossa capacidade de julgar, pois a internet abriga o melhor e também o pior.

Conheci alguns grandes músicos e escritores, através da internet. Muitos deles se tornaram bons amigos, e desde então, a linguagem artística deles tem feito parte da minha vida.

Às vezes eu os encontro… E às vezes eles me encontram.

Uma das bandas mais bacanas que conheci nos últimos tempos– obrigada internet! – foi a irlandesa Stand, formada por Carl Dowling (bateria/percussão), Alan Doyle (voz/guitarra), Neil Eurelle (voz/baixo) e …

CAMPANHA ELEITORAL -- Paula Pimenta

Queridos leitores e colegas do Crônica do Dia, peço a vocês licença para repetir minha crônica de duas semanas atrás (atualizei apenas alguns detalhes). O caso é que agora eu estou na final do concurso de composição (tema da crônica passada) e ela está mais atual do que nunca! Obrigada pela compreensão!

Quando eu tinha uns nove anos, adorava escutar "A Turma do Balão Mágico" e outros conjuntos infantis (naquela época se chamava “conjunto” o que hoje em dia a gente chama de banda) dos anos 80. Mas um dia, na casa da minha avó, eu estava brincando no quarto do meu tio e vi um disco (naquela época se chamava “disco” o que hoje em dia a gente chama de CD) e adorei a capa. Uma moça de vermelho sentada na escada e três caras em pé, com cara de “soldadinhos de chumbo”, atrás. Apaixonei-me pelo disco de tal forma que meu tio resolveu me dar, mesmo sem ser disco de criança. Decorei todas as músicas, e quando uma delas começou a tocar nas rádios, eu cantava junto feliz da vida aquele r…

ATCHÓINC >> Maria Rachel Oliveira

A epidemia começou quando a primeira pessoa espirrou e, ao mesmo tempo, curiosamente, se deu conta que não reagia como queria às coisas; mas sim como achava que deveria – o que faz uma grandessíssima diferença. A OMS (Organização Mundial de Saúde) ainda não diagnosticou se o agente causador da epidemia é uma mutação genética do vírus Procrastinum Crônico Culpus – originado da igreja católica, ou se há a possibilidade de uma combinação inédita de dois vírus em um só; a saber: História de Autoboicote e Preguiça Mesmo. Fato é que Q. T., a provável primeira pessoa contaminada, tinha, nos minutos subseqüentes ao primeiro Atchim, gostado muito da videoaula de alongamento que tinha assistido – e feito – via Youtube e prometera a si mesma – realmente – estabelecer uma rotina. Transmitido por uma forma ainda desconhecida pela OMS, tudo indica que a infectada subseqüente tenha sido I.B., a professora de Power Stretching que vestia um collant rosa shocking, cujo vídeo foi publicado no Youtube à …

O CONHECIMENTO DO AMOR
>> Eduardo Loureiro Jr.

Amar é querer conhecer e dar-se a conhecer. Por isso durante a paixão, que pode ser o início do amor, os enamorados fazem-se tantas perguntas e recontam a própria vida como se estivessem ditando sua biografia para um ghost writer. Se os primeiros momentos do amor são tão encantadores, é justamente porque as duas pessoas são um mundo novo, vasto e inexplorado uma para a outra.

E assim poderia continuar por toda a eternidade se... a gente não matasse o amor.

O amor começa a morrer quando perdemos a vontade de conhecer ou paramos de nos revelar. Normalmente acontece quando achamos que já conhecemos o outro suficientemente e, daquele ponto em diante, já podemos emitir um bom julgamento sobre ele, já podemos mesmo dizer o que ele pode mudar para ser melhor. Substituímos o mundo novo, vasto e inexplorado por um mundo exaurido, pequeno e envelhecido. Até mesmo as perguntas que fazemos não têm mais o próposito de conhecer, mas de verificar se o outro continua sendo do jeito que a gente pensa ou…

UP [Cristiane Maria Magalhães]

Quando Davi nasceu, minha irmã levou Lívia para conhecê-lo ainda na maternidade. A mãe do Davi trouxe-o até o vidro que separava a sala de espera da parte interna do hospital e ali os primos se conheceram. Lívia, na sabedoria dos seus dois anos, deve ter acreditado que se tratava de uma de suas bonecas: queria carregá-lo e cantar para ele. Na hora de ir embora, ela não se conformava em deixar o pequeno no hospital: “Minha Davi, pega a minha Davi e a tia Lulu, mamãe”, ela gritava fazendo um escândalo. Hospital é lugar de injeções e muitas outras torturas, ela deve ter pensado, pois já havia experimentado muitas delas. Como deixar ali a tia Lulu e o seu bebezinho? Desejo não satisfeito, Lívia teve que se contentar em voltar para casa sem a “sua Davi”.

Crescemos e saímos vida afora sem entender muitas coisas. Vamos seguindo no piloto automático que alguém – nunca se sabe exatamente quem – programou. Sigo sem entender como homens e mulheres, dezenas deles, se enfiam numa academia e carrega…

DISCOTECA >> Leonardo Marona

Os pés dizem tudo que o coração esconde. Passo na rua olhando para baixo e todos pensam que estou triste, ou que acabei de matar alguém. Gosto de imaginar que as pessoas possam ter essa impressão, de exalar um odor assassino, por mais que as pessoas dificilmente venham a ter qualquer impressão honesta. Afinal, uma impressão honesta custa caro – e só com hora marcada. O que ocorre é que pelos pés imagino um mundo melhor, mais bem definido. Uma unha encravada, um coração partido. Um dedão esfolado, tempo demais à beira do abismo. Duas unhas descascadas, um amor descuidado. Unhas bem pintadas e polidas, traição ao marido. Unhas lisas, bem feitas, mas sem tinta, tentativa de rever os pecados. Pés de dedos finos e esbranquiçados, com canelas mortas de pele quebradiça, cocaína em frente a um aquário com um peixe morto de fome. Calcanhares... Bom, nesse caso o apaixonado sou eu. A barriga da perna me faz pensar em filhos, aquelas criaturinhas formidáveis que estragamos porque pensamos se estam…

O SPRINT FINAL >> Kika Coutinho >>

Todo corredor já viveu a experiência. Quem não é corredor viveu também, mas, talvez, desconheça o nome. Explico: se você decidir correr uma maratona, meia maratona ou 5kms, quando chegar no final, você sentirá que está esgotado. De alguma forma, enquanto seu corpo e suas pernas imploram pra parar, você saberá que falta 1, apenas 1km. É nessa hora, é justamente quando você acha que pode passar mal, morrer e ser atropelado pelos outros corredores, que você enxerga - talvez ainda um pouco longe - a linha de chegada. Aí, contrariando todos os órgãos do seu corpo, ao invés de parar, você faz o inesperado e corre mais. Acelera os seus passos movido por uma energia até então desconhecida, encanta seus pés e sobre eles atinge o seu recorde de velocidade.

Eu nunca entendi bem essa força. Nunca acreditei nela, mesmo sabendo-a real. Eu sempre duvido que ela me seja presenteada, mas, contrariando todas as expectativas, ao ver a linha de chegada, normalmente uma faixa amarela no alto, essa força in…

ELE NÃO ESTÁ... >> Carla Dias >>

A gente faz isso o tempo todo... Acredita piamente que pode ser, por que não?

Porque não.

Qual moça não caiu na armadilha do “ele está a fim de mim”, apesar de tudo ir contra e estar claro que ele não está? Qual pessoa não se armou de insistente pensamento positivo em busca da comprovação do que não era?

“Ele não está tão a fim de você” (He's Just Not That Into You/2009) é um filme adaptado do livro de Greg Behrendt e Liz Tuccillo, consultor e redatora-chefe da série Sexy and the city. Eu havia escutado um buchicho sobre o filme, mas não fazia idéia de que estava em cartaz. Fui ao cinema com duas amigas e uma delas comentou sobre ele, então embarquei... O que foi ótimo!

Tirando o bate-papo na sala – gente, por favor, se quiser bater papo não vá ao cinema! – o filme foi uma grata surpresa. Gosto muito da combinação romance e comédia, mas o filme tem de ser convincente e este está no ponto.

“Ele não está...” fala sobre o universo romântico e os tropeços que levamos até compreendermos que…

AS LÍNGUAS DO AMOR
>> Eduardo Loureiro Jr.

A quem devemos amar? A quem se parece conosco? A quem se nos opõe ou complementa? Ou a quem nos transforma e desafia?

Eu, por muito tempo, amo e convivi, com uma mulher que era como eu: silenciosa. Alguém para quem eu poderia dizer, sem qualquer, exagero: “minha solidão se sente acompanhada”. A pessoa perfeita para estar acompanhado sem necessidade de deixar de estar só. E de vez em quando me pergunto por que não foi para sempre.

Mesmo sabendo que talvez jamais obtenha a resposta – ao nível do coração – para esta pergunta, também de vez em quando me vem um esclarecimento súbito, um relâmpago brechando a noite...

O italiano é um idioma que guarda muita similaridade com o português. E me fez lembrar da minha relação com a mulher que se parecia comigo. Porque o italiano e o português são muito símiles no silencio da compreensão. Mas, na hora de falar, as diferenças se fazem notar. É uma relação desconcertante porque é praticamente perfeita em seu silêncio, mas é escorregadia em sua comunica…

LIMITES.COM [Maria Rita Lemos]

Uma das queixas mais freqüentes dos pais e educadores, quando se refere à utilização do computador pelos filhos (crianças e adolescentes), diz respeito à dificuldade em colocar limites. Principalmente quando se trata de utilização da Internet, a geração jovem parece flutuar, mais que navegar, nas ondas mágicas que a leva aos mistérios do mundo cibernético, e tudo o mais fica esquecido: horários, outras atividades, obrigatórias ou não, convivência familiar; até mesmo cuidados higiênicos e alimentação parecem ser relegados a segundo plano.

Há uma atração quase inexplicável que toma conta de nossos adolescentes (e de muitos adultos também, sejamos francos) quando eles descobrem a magia das salas de bate-papo, dos blogs, do orkut e de outros canais de relacionamento. Nesse ambiente discreto e aconchegante, sem sequer precisar trocar de roupa nem depender de horário, pode-se continuar as conversas que começaram na escola e a saída interrompeu; pode-se conhecer gente de todas as partes do m…

VOVÔ CONFÚCIO >> Leonardo Marona

Sempre que termino um poema sinto uma incontrolável vontade de respirar o ar de Cubatão. De repente me vejo munido de armadura e espada, estou com uma daquelas sandálias de mil laços dos antigos gladiadores romanos. Ultimamente, tenho escrito poemas apenas para poder respirar o ar perfeito de Cubatão. O poema virou um refúgio para puxar fundo o ar e soltar um longo suspiro. Tentei isso na rua, não deu certo. A rua é apenas poluída demais para se puxar fundo o ar e, no fundo, não há mais ar e a disputa com os ônibus e caminhões com motoristas de muitos dentes chega a ser digna de um mito grego. O poema acaba sendo o oxigênio negro que um puxa para poder assobiar para dentro de si no meio do trânsito infernal e das pontes quebradiças, dos empregos de expedientes incertos e nas cabines de amor. Depois do poema eu serei um pai a dar banho no meu filho. Quero olhar para trás e dizer: “meu deus, como você fazia bobagem, meu amigo, uma atrás da outra”, com o sorriso dos que descansam, mas nã…

REMAR E BOIAR >> Ana Coutinho

Não fui eu que inventei a expressão. Achei no site dela, em algum momento em que ela falava sobre o desgaste de um trabalho duro, e a alegria de um dia a mercê do vento.

Acontece que nunca mais me esqueci da soma dessas duas palavras e, vira e mexe, enquanto estou remando, remando muito, imploro que o vento me ajude e deixe-me boiar por alguns segundos. Explico: remar e boiar. Remar é trabalhar, boiar é descansar. Remar é fazer força, boiar é relaxar. Remar é enfrentar chefe, boiar é brincar com o filho. Remar é fila no supermercado, boiar é o sofá. Remar é o Jornal Nacional, boiar é TV Fama. Remar é pensar, boiar é esvaziar-se...

Há casamentos que são mais remar. Outros, deliciosos, são feitos de boiar. Mas todos os relacionamentos, todos, exigem as duas atividades. Na hora de ceder, brigar, ou simplesmente aturar, somos remadores fortes. Remamos quando respiramos fundo mesmo diante da toalha molhada sobre a cama, remamos quando damos explicações longas para problemas pequenos, remamos…

DESAPRISIONAMENTO >> Carla Dias >>

A moça tem esse olhar desolado, porque perdeu o rumo da casa que nunca teve, onde hoje moram alguns autoproclamados deuses a debocharem da ingenuidade dessa figura de faces rosadas.

Saltimbancos, desertores da benevolência, esses deuses carnavalescos e traquinas se sentam à beira do destino, sacando batatas Chips de saquinhos barulhentos, atazanando a sessão de vivência da moça, que ainda pensa que o barulho todo vem do apartamento ao lado, da falta de disciplina nos estudos do vizinho tentando se tornar violinista.

Como se não bastasse, eles gostam de criar desejos na alma dela, e a maioria de realização inalcançável, como o amor denso, intenso e urgente que se pegou sentindo pelo moço que sequer conhece, ou a vontade inerente de salvar o mundo do problema que não sabe qual é.

Sem conseguir se tornar a amante ou a heroína, desafiada pelo enviesado humor desses deuses solitários que, para curar as próprias feridas, divertem-se à custa da sorte dela, a moça caminha tão lentamente, como ca…

CAMPANHA ELEITORAL -- Paula Pimenta

Quando eu tinha uns nove anos, adorava escutar "A Turma do Balão Mágico" e outros conjuntos infantis (naquela época se chamava “conjunto” o que hoje em dia a gente chama de banda) dos anos 80. Mas um dia, na casa da minha avó, eu estava brincando no quarto do meu tio e vi um disco (naquela época se chamava “disco” o que hoje em dia a gente chama de CD) e adorei a capa. Uma moça de vermelho sentada na escada e três caras em pé, com cara de “soldadinhos de chumbo”, atrás. Apaixonei pelo disco de tal forma que meu tio resolveu me dar, mesmo sem ser disco de criança. Decorei todas as músicas, e quando uma delas começou a tocar nas rádios, eu cantava junto feliz da vida aquele refrão, talvez o mais conhecido do tal conjunto até hoje: “Uuh... eu quero você, como eu quero...”

O "Kid Abelha" ficou bem famoso depois dessa música. Vieram outros vários sucessos e eu continuei fã, como sou até hoje.

Porém, alguns anos depois, a banda sofreu uma modificação. O baixista, por algu…

Diploma não é a resposta. A resposta é a pergunta. >> Maria Rachel Oliveira

E voltou à baila o tema de ser ou não ser o diploma de jornalismo obrigatório para o exercício da profissão. Não fosse este um país onde a lei de oferta e de procura privilegia, em geral, a mão-de-obra mais barata em detrimento da qualidade – fora raras exceções – eu talvez nem me incomodasse tanto com isso. Acontece que, se sequer os jornalistas vem sendo devidamente treinados para exercer a profissão, que dizer daqueles que chegariam desavisados de outras áreas?

Claro, há quem vá argumentar que o jornalismo não é o mesmo de antigamente. Não, não é. As agências de notícias se popularizaram de tal forma que o que grandes veículos buscam, a grosso modo, é alguém que receba o texto de determinada agência – que é a mesma que envia para todos os outros grandes jornais – e o reescreva pra ficar mais com a ‘sua cara’ e não com a da Associated Press ou da BBC. Essa uniformização da informação, a meu ver, é ainda mais gritante no que diz respeito à mídia online. Outro dia mesmo estava refletin…

ALVORADA >> Eduardo Loureiro Jr.

Quando perguntaram se ela cantava, ela respondeu:

-- Não canto, só encanto.

Gosto de acreditar que aquela foi a primeira vez que ela disse aquilo, e que o havia inventado naquele exato momento. Mas seria genial mesmo se ela já tivesse dito ou preparado antes, porque o que há de verdadeiramente genial nessa frase é que ela é verdadeira.

Ela encanta. Como me encantou no primeiro dia em que a vi de perto. Eu a ajudei a levantar-se e, durante dois segundos, olhamo-nos fixamente nos olhos. Nunca fez tanto sentido para mim a expressão "amor à primeira vista", porque era uma vista próxima e simultânea. Um amor à primeira vista correspondido, um evento raro.

Seu nome, em italiano, quer dizer "a primeira luz do dia", o "princípio". E foi assim para mim: a primeira luz do dia após muito tempo de sono e de sonhos.

Eu tenho uma tendência a sonhar muito com mulheres. Sonhar dormindo e, principalmente, sonhar acordado. Olhar uma mulher que nunca vi antes e começar a sonhá-…

BEIJO [Debora Bottcher]

Sempre foi...

Basta mergulhar o coração no vale da ilusão para enxergar um beijo do outro lado da janela. Agarra-se a um floco de neve e o derrete. Depois, dança com os pássaros do gelo, enquanto estes procuram, na essência dos galhos, um lugar para se aninhar e enfrentar a noite. É possível sentir-lhes o prazer enquanto agrupam-se em torno do afago carinhoso da madeira acolhedora - o que certamente os ajudará a suportar o frio que congela qualquer intenção, o menor gesto.

Ela olha para a imagem que se mostra através dos vidros: há um pássaro tão preto como a neve branca, e um pássaro branco mais negro que a escuridão que habita nos ramos congelados das árvores que, também indefesas, a contemplam através do invisível.

Os olhos ariscos das aves fixam-se na mulher que os olha... Brilhantes...

Há beijos de todos os tipos, cada qual com seu desejo secreto, fonte de energia - positiva ou não.

O crepúsculo vem descendo seu manto. Ansiedade... Ela passa as noites brincando de adormecer: acorda m…

HÍMEN COMPLACENTE >> Leonardo Marona

Foram pra cama e o negócio começou devagar. Brás com 58 anos, bolsas de gordura debaixo dos olhos, meia garrafa de uísque no estômago, pêlos demais, brancos e pretos, todos juntos, no peito, saindo pela gola da camisa. Joyce com 23, ainda virgem, nunca tinha visto um pau a não ser em revista – e que tipo de mulher virgem de 23 anos compra revistas com fotos de paus? – é o que Brás poderia pensar. Mas preferiu cair de boca. Ensinar a ela como se faz. Ficaram uns quinze minutos enrolando as línguas perto da garganta. Brás gostava de ler o Lautréamont, o Edgar Poe e o Georges Bataille: uma turma pervertida. Joyce gostava de ir ao shopping com as amigas, pegar sol no posto 9 e assistir a shows do Sandy e Júnior pela tv. E de mensagens. Gostava de mandar malditas mensagens de texto pelo celular, a noite toda, enquanto Brás tentava engrenar no sono.

Mas dessa vez ia ser. Brás montou por cima e começou a varrer as calças de Joyce vagarosamente para baixo. As calças eram as mais justas que já …

O Computador >> Ana Coutinho

Eu devia ter uns 11 anos, não mais do que isso. Era década de 80 e meu cunhado, que acabara de voltar de uma viagem de trabalho à Alemanha, relatava a todos os familiares, na mesa de jantar: “Lá, todo mundo tem um computador. Sabe, um desses, pequenos?”. As pessoas se entreolhavam, incrédulas: “Como assim? Computador, desses que a gente vê nos escritórios, em uma sala longe?”. "Isso" - ele respondia com uma empolgação contagiante – “cada um tem uma daqueles nas suas mesas. Cada um tem um, todo mundo tem um computador, entende?”.

As pessoas ficaram impressionadas enquanto ele continuava, prevendo que, um dia, isso aconteceria no Brasil. Cada um teria o seu próprio computador, as pessoas sentariam em mesas longas e o papel iria acabar. Eu, calada, comendo ovo frito, pensava para que serviria isso. Um troço tão pesado, por que não dividir? Para mim, era a mesma coisa que cada um ter a sua televisão, imagine o transtorno disso... Mesas longas com as televisões enfileiradas, para…

SAUDADE >> Carla Dias >>

Hoje acordei com saudade do mar. O mar que não visito há quase doze anos. Não sei como alguém pode passar tanto tempo sem contemplá-lo, ainda mais quando se tem a atração desmedida pela água como tenho.

Sol em escorpião: água. Ascendente em libra: ar. Lua em câncer: água. Não sei muito sobre astrologia, mas sei que há dias em que eu simplesmente evaporo, sinto-me desprendida de tudo e todos, rondando o espaço sem tempo ou parada definida, doidivanas de plantão.

Então, pesa-me o ser e eu despenco, úmida e catártica, desvairada que só. Uma tempestade desvinculada de qualquer previsão.

E não sei nadar... Quando pequena, moradora próxima de represa, frequentadora das pescarias do meu tio, aconteceu esse dia em que meu pai decidiu que eu e minha irmã deveríamos aprender a nadar. Ele nos segurou, pequenas e acanhadas diante da escuridão moradora da água, cada uma de um lado, e nos mergulhou na represa. Foi assim que aprendi a viver com medo e fascinação pela água dos mergulhos.

Também ando saud…

TEMAS OU NÃO TEMAS >>> Albir José Inácio da Silva

Pensei em escrever sobre mim, falando maravilhas e explicando coisas que não são tão boas. Ou escrever sobre os outros, exaltando as qualidades de quem gosto e aproveitando para execrar os desafetos.

Talvez escrever minhas dores atraísse solidariedade, mas que haveria de interessante no meu choro? Os amigos seriam um bom tema, mas há risco de não lhes fazer justiça, exaltando banalidades e deixando de perceber seus verdadeiros encantos.

Poderia falar do meu carro, coitado, tão maltratado e ainda valente, me aturando sem reclamar. Não tenho cachorro, mas poderia inventar um amiguinho fiel que me ajudasse a preencher a página.

Poderia falar da natureza, que a natureza é unanimidade, se qualquer um não pudesse senti-la melhor do que eu posso dizê-la. Poderia louvar as mulheres com argumentos de conquistador, mas sei que seria ridículo e nada original.

Outra possibilidade seria falar do trabalho, onde meu personagem transita com alguma desenvoltura e chega a convencer os outros, mesmo sem me …

O QUE SE É E O QUE SE ESCREVE
>> Eduardo Loureiro Jr.

Que meus leitores não se decepcionem, -- embora seja unicamente este o motivo desta crônica: decepcioná-los --, mas uma coisa é o que se é; outra, o que se escreve. Ou, dizendo em bom português, não se pode deduzir um autor -- como pessoa -- por aquilo que ele escreve. Ou, sendo ainda mais explícito, meus textos não revelam completamente o Eduardo.

O que escrevo não é, na sua maior parte, o que sou. É um pouco do que sou, claro, mas um tanto do que fui e outro tanto do que serei. Também é o que nunca fui nem nunca serei. Ainda é o que quero ser. Ou mesmo aquilo que não me interessa ser na vida dita real, mas que é divertido ser na vida escrita.

Descobrir o que há de realmente real -- é necessário o pleonasmo -- pode ser uma tarefa estimulante de imaginação, um belo jogo intelectual ou intuitivo, mas não mais que isso. Para os que não me conhecem pessoalmente, há muita liberdade nessa imaginação de como é o Eduardo. Para os que me conhecem, há armadilhas. Quem conviveu comigo um único di…

ESTÁRUA PORTENHA >> Leonardo Marona

As mulheres ali pelas bandas da Avenida de los italianos, a qual eu percorria por uma razão sentimental, andavam de mãos dadas e eu me sentia tão bem, com tanta sorte de poder ver tamanha demonstração de carinho e delicadeza em público, algo que nenhum homem é capaz de fazer, porque as mulheres de Buenos Aires simplesmente se dão as mãos ou os braços e seguem em frente olhando para o chão, como se houvesse algo de irremediável em viver sobre a terra que as impedisse de sorrir, as forçasse a aceitar.

Então cortei pela Avenida Córdoba, quebrei na San Martin, parei para tomar um trago e um ar na praça em que o general libertador aponta para onde meu desejo nunca pôde alcançar, então percebi que tinha bolhas nos pés por ter pensado demais debaixo de sol quente, porque o diabo de Buenos Aires é que o céu é tão azul quanto o azul da bandeira Argentina, mas o sol não é tão bonito quando racha o piche debaixo da sola furada do tênis velho.

Ou talvez fosse apenas o malbec tinto vagabundo de dois…