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Mostrando postagens de Fevereiro, 2022

FÉRIAS >> ALFONSINA SALOMÃO

 Alfonsina Salomão está de férias

SUA QUASE MORTE NUMA TARDE DE DEZEMBRO >> Sergio Geia

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  Foi no banco, três da tarde, calor de Saara. Já na frente do caixa eletrônico, quando colocou as mãos no bolso traseiro da bermuda de sarja, ele sentiu. Quer dizer, não sentiu. Opa, e um vento congelante vindo ele não sabe de onde, pois estava um calor de Saara, tomou-lhe a espinha.  O bolso de trás, sempre estufado, desta vez estava murcho, e inaugurava uma nova cena, estranha, inadequada. A sensação de que tudo corria bem, de que todas as coisas estavam em seus devidos lugares, o controle que temos sobre as coisas, ou pensamos que temos, ele mesmo, esse controle fake, em segundos, esvaiu-se.  Nossa, amigo, me desculpe, nem o notei, e a mente começa a vagar, fico com a cara no celular, isso que dá, perdão, e o esbarrão tolo de minutos antes começa a ganhar força. O coração batendo disparado, TUM, TUM, TUM, TUM, TUM, ele conseguia escutar e sentir os saltos, TUM, TUM, TUM, TUM, TUM, assim mesmo, quando você sente uma tragédia acontecendo. O rosto, molhado pelo calor, antes uma umidad

SÓ MAIS UM(A) >> Paulo Meireles Barguil

A depender do conteúdo, do tom e de quem a verbaliza, esta frase provoca distintas emoções no destinatário. Ela pode expressar um pedido, uma concessão, um convite... Quem ouve, para dar a resposta, costuma considerar não somente o contexto, mas inúmeras variáveis, de modo especial as suas lembranças relacionadas a esta expressão e do histórico de quem a proferiu. Quando é algo que também se deseja, há grande probabilidade de que aconteça, sem maiores empecilhos, conforme enunciado. Porém, se houver conflito de interesse, é quase certo que começará uma negociação, cujo meio e final são incertos. E, de suspiro em suspiro, seguimos...

SOL SOMBRIO - O AJOELHADO - PARTE II >>> Nádia Coldebella

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O quarto parecia um cárcere com um pé direito muito alto. Escavado nas pedras, direto na montanha, tornou-se acinzentado com o passar dos anos. Para chegar nele, era preciso cruzar um pátio exterior, coberto de árvores e arbustos variados. Já ao pé da montanha, era preciso contornar alguns hibiscos que cresciam junto a um denso capim. Ali, seria encontrada uma escada íngreme e escorregadia cavada na rocha e oculta aos olhos do mundo, e era preciso descer por ela até chegar a uma porta pesada, feita de madeira úmida e ferro enferrujado. Dentro do quarto havia uma cama de palha, uma velha mesa e um baú. Também havia uma janela alta, quase na altura do teto, escavada na pedra, coberta por uma cortina amarelo-sujo e cheia de buracos feitos pelo tempo. Por ela passavam tênues raios de sol que incidiam sobre uma criatura cuja condição humana era quase irreconhecível, tal o estado de sujeira e desleixo em que ela se encontrava. Barba e cabelos misturavam-se. V estia farrapos e era tão cinza c

PERDE-SE NELAS >> Carla Dias

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Não as teme há tempos. Não se acostumou a elas, porque não veio ao mundo para servir ao autoflagelo. No entanto, compreende que não há como evitá-las. Há dias em que elas o fazem engasgar. Há outros em que ele consegue passar sem pensar nelas. São os melhores. Quando ele quase consegue sentir o gosto do contentamento na boca, no olhar, na pele. Chega a pensar o futuro com certo desembaraço. Ele tenta. Esforçar-se para não se render completamente ao comando delas é exercício diário. Contudo, sabe do próprio atrevimento. Há dias em que se cobra por tamanho descaramento, porque ambicionar com tal afinco o que ambiciona é quase ignorá-las por completo. Acontece que é incapaz de evitar esse tempo breve de devaneio. Nem se trata de felicidade imaculada, inalterável. É apenas um assombro provocado por ela. Um arrepio na nuca. Uma taquicardia de menos de um minuto de duração. Um alento provisório.   É um desafio cotidiano conviver com elas. Não está em seus planos se retirar. Gostam de permane

SOBRE FOGOS DE ARTIFÍCIO E O FUTURO >> Clara Braga

Outro dia, conversava com umas amigas sobre nossas escolhas profissionais. Mais precisamente, sobre como nossa família reagiu ao anuncio das nossas escolhas. Quando eu disse que seria artista plástica, ninguém se opôs diretamente, mas também não soltaram fogos de artifício! Não julgo, eles estavam preocupados com as possibilidades reais de trabalho para artistas aqui no Brasil, uma preocupação 100% plausível. A questão é que todas nós, que escolhemos profissões que não fazem as pessoas soltarem fogos de artifícios, acabamos combinando com nós mesmas que quando chegar a vez dos nossos filhos escolherem, vamos aceitar numa boa, afinal, o importante é ele estar feliz. Mas depois fiquei pensando, será que isso é possível? Acabei achando muito doido prometer uma coisa dessas! Vocês já pensaram no quanto as profissões e carreiras estão mudando? Não saberia nem dizer quanto dinheiro um youtuber de sucesso ganha, mas com certeza é infinitamente mais do que eu, mas acho que se meu filho disser

E AGORA? >> Albir José Inácio da Silva

                                         DEPUTADO   Desabou! Enquanto a briga era com os parentes ou com os adversários no plenário, eu administrava bem. Mas viramos excrescência aos olhos do mundo. O barco está afundando, e tenho medo de afundar com ele.   Não estou sozinho, somos alguns homens de bem nesta encruzilhada. Já não durmo, não como direito, adoeço a olhos vistos. Não sou isso que andam dizendo. Posso ter me enganado, mas não sou o único nem o último.   Verdade que no passado apoiei a ditadura porque era consenso que os comedores de criancinhas ameaçavam o mundo.   Mas divergi quando começaram as cassações, as torturas e os assassinatos. Nunca tive inclinações fascistas, apoiei a redemocratização e votei a nova carta.   Um parlamentar tem de sentir a temperatura das ruas. O povo não estava feliz. O tal do bolsaesmola, além de humilhar o cidadão, que ficava preguiçoso, inflacionava o mercado de trabalho. Já não se achava uma secretária para os serviços domést

NATUREZA >> Sandra Modesto

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Esparramava-se de vez em quando. Nascia em galhos. Verdes. Em folhas que curavam dores, em infusão, acalmavam peles, viravam chás. Curavam feridas e fechavam lágrimas das mães.  Quando secos, retorciam quebrados e olhavam cheios de medos o fogo que matava-os.  Carregava- se de frutas. Frutos das famílias com quintais. Sem veneno, com afeto.   Esparramava-se de vez em quando. Os braços acarinhando o filho, fortalecendo a filha. Nesse esparramar, virava jardim suspenso. Pernas pelas paredes, muros em fotografias de cidade em cidade.  De tanto espichar píncaros da natureza, refestelava a língua para brotar por várias estações. Espia pela janela um par de roupas em farrapos, lembra-se da vizinha transformadora de peças velhas fazendo sorrir as moças, que a partir daquela hora, sentiam-se bonitas, calmas como ramalhetes.  No meio do dia, peço ajuda ao sol. E o ritmo de um farfalhar me faz árvore à busca da delicadeza perdida. Porque desaprendo, ignoro pedras rolantes, toco a lentidão e sint

DAS TREVAS NASCI. PARA AS TREVAS VOLTAREI. - um conto de horror e morte >> Zoraya Cesar

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Eu era um garotinho na alma, no corpo, nos risos. Cuidar da terra, dos porcos e galinhas, passar calor, frio, sede, cansaço, e matar escorpiões, muito trabalho e pouco dinheiro eram nossa realidade. Mas eu era feliz.  --------------------- Eles vieram com a noite, seus gritos apavorantes enchendo o ar, o fedor de corpos suados, roupas sebentas e álcool barato atravessando as paredes. Sem uma palavra, meu pai me deu seu revólver, munição, um alforje com provisões e um beijo na testa. Pegou a espingarda e se preparou para lutar até o fim. Minha mãe, também sem uma palavra, correu a me dar todo o dinheiro que tínhamos, me abençoou e me trancou no armário com fundo falso da sala, que tinha uma saída secreta para bem além do quintal, uma rota de fuga que meu pai construíra quando os ventos começaram a soprar contra nós. Virou-me as costas sem olhar para trás.   Uma voz gentil, mas soturna e imperiosa, sussurrou em meu ouvido “ fica ”. Fiquei, e o que vi definiu o meu destino. Ali morri pela

A HUMANIDADE CONTINUA NA MESMA >> whisner fraga

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existe uma rede de solidariedade artística ou somos todos umbiguistas mesmo e é isso? - no início da pandemia, me lembro de vaquinhas, de grupos de apoio, mas tenho a impressão de que os trâmites não passaram de contabilidade: só o departamento financeiro foi acionado, a recompensa foi boa, mas não alcançamos o equilíbrio. claro, que com um viés humanitário e uma roupagem identitária. foi bonito, mas será que não foi moda? passados dois anos, é óbvio que a humanidade não chegou ao nirvana, a caravana seguiu e os cachorros foram jogados na rua, porque ninguém pensou no preço da ração antes de sair postando fotos com os animais, no instagram. as redes sociais, nessa disputa, lucraram razoavelmente. uma denúncia aqui, uma transgressão ali, uma conivência acolá agitam qualquer bolsa de valores, mas, a médio prazo, os ricos ficam mais ricos. as redes sociais que, via de regra, são usadas para a prática da egolatria: os tempos são velozes, mas a empatia se mantém no ritmo dos caracóis. noves

DESLEMBRAR >> Carla Dias

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Nada de andar por aí. Nem mesmo celebrar pequenas conquistas, apesar de reconhecer a importância de cada uma delas ao observá-las confraternizando no armário do aprazimento. Há quando a necessidade é de remoer o evitado. Pairo nesse céu de seres sublimados e obsoletos, de cordéis arremessados aos famintos de explicações. Qual o significado de amar os odiados e odiar os amantes? Para que serve as itinerantes emoções que consideramos determinantes para afirmar quem somos? E dos engasgados pela solidão do não reconhecimento, aprendemos o quê? Às vezes, desespero de jeito que nem me reconheço e remexo em histórias vividas. Eu me demoro naquelas das quais ainda não consegui me desfazer. Ninguém recomeça, não do zero, como alguns dizem. Não há zero. Depois de nascido, não há zero.  Nem depois da morte há zero para recomeço. Você acredita que sim, mas eu não consigo me imaginar sendo outro alguém antes de quem sou agora. Uma repetição, um looping ao gosto do universo. Peço apenas para que ne

TINTA FRESCA >> André Ferrer

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  ─ Vê se não demora garoto.  ─ Já estou de volta.  ─ Como assim? Tão rápido!  ─ Ora, velho. Eu já desci, fui até a esquina e comprei o seu jornal. Hoje é quarta-feira. O dia mais corrido da semana.   ─ Pare com isso garoto. Acha que eu sou trouxa?  Francisco se aproximou do pai. Abriu e fechou os cadernos do jornal diante do velho, que se jogou para a frente. Inclinado na direção daquele buquê de tipografia barata.  ─ Eu não disse? Fui até o jornaleiro. Aqui está! Sinta. Vamos. Que tal?  ─ Malandrão! Você foi até o quarto, que eu sei. Deu um tempo no corredor e voltou.  ─ Negativo. Sinta de novo. Hein? O que me diz?  ─ Ora, tanto faz. Você não lê as notícias para mim há dois dias. Tanto faz.  O velho cruzou os braços. Quinze minutos antes, o filho deixara-o no seu local preferido entre a cozinha e a área de serviço. Àquela hora do dia, durante toda a sua vida, sentava-se, diante da janela, para fumar um cigarro e espiar a vizinhança. Quando ainda podia fumar e não usava tantos remédio

DE NOVO, O AMOR >> Sergio Geia

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  Eu não notei o rasgão na calçada, olhava em frente, pro espelho de água que virou o asfalto na noite azulada, pra fila de carros, pra menina de cabelo rosa, só ouvi o ploct, como pedra atirada ao lago, ploct, e o meu sapato que resistira tão bem à chuva de meia hora, saiu da pequena fenda encharcado, pingando, puxando água até pelas canelas.  Merda, digo baixo, merda, merda, merda, mas não paro, continuo a andar, vou pensando nela, ainda que úmido, com um dos pés encharcado, com a barra da calça encharcada, não importa.  No Conjunto Nacional, na frente, na frente do Conjunto Nacional, entendeu?, é claro que entendi, eu te espero lá, Conjunto Nacional, tenho uma surpresa pra você, uma surpresa, entendeu?, você vai gostar, mas o que seria essa surpresa?, ela não quis adiantar, não falou, quando eu muito insisti ela disse não, agora não, tenho que desligar, meu chefe chegou, preciso desligar, tchau, amor, depois eu conto, tchau, beijo, e bateu o telefone.  Eu sou ansioso mas não era ans

ENQUANTO DESCANSA, CARREGUE PEDRA >> Paulo Meireles Barguil

O título da crônica era para ser FÉRIAS, mas ele poderia lhe induzir que a estou usufruindo e não publiquei. Para evitar este equívoco de interpretação, escolhi um provérbio que retrata bem o frenesi vivido por alguns (muitos?) de nós. Estou me aproximando deste merecido período prologando de descanso, mas meu sonho de viagem foi dilacerado, ainda no começo de dezembro, pela variante ômicron da COVID-19. Nada de usar roupas de frio, passear na natureza, conhecer locais seculares, degustar gostos e aromas inéditos, visitar museus... O meu destino na 1ª quinzena de março continuará sendo o mesmo no qual permaneci nos últimos anos. Será que só me resta tentar manter o computador desligado e não somente o monitor? Que esperanças e alentos podem me nutrir nos próximos dias, semanas, meses...? Os cientistas dizem que os vírus estão sempre em mutação, a qual tem maior probabilidade de acontecer quanto mais são transmitidos. Será que os agentes infecciosos não conseguem tirar férias? Eles tamb

SOL SOMBRIO - OS IRMÃOS - PARTE I >>> Nádia Coldebella

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A rua estava molhada depois da chuva da madrugada. Uma fina névoa se espalhava pela atmosfera, deixando tudo com um aspecto ainda mais úmido e acinzentado. A escuridão acrescentava mais um tom às sombras densas das velhas construções, um amontoado de casas e prédios feitos de cimento e pedra, pichados pela mão de vândalos e enegrecidos pela poluição da cidade.  Algumas poças d'água refletiam a parca luz que ousava sair tímida pela fresta de alguma janela descuidadamente aberta. Se agitaram quando sapatos de couro negro, lustrosos e de bico fino, pisaram displicentes na água, manchando-as com um solado vermelho-sangue.  O homem que os calçava era muito alto e bastante forte. Apesar disso, seus passos eram leves e ele vagava despercebido sob o véu escuro da noite, parecendo não ser afetado porque qualquer réstia de luz. Sua pele, densa e escura como ébano emoldurava olhos enormes, brilhantes e muito negros, protegidos por longos cílios e sobrancelhas espessas. O rosto era quadrado, c

A MORTA >> Carla Dias

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  Está morta. É preciso que vocês entendam: morta. Morta de morte que nem ressurreição aceitaria resolver. Não está dormindo. Beijo de príncipe não a traria de volta. Não está apenas apagada. A medicina não resolveria. Morte morrida, zero batimento cardíaco. Ao redor dela, que está ali, deitada no meio da sala, há uma variedade de lamentos mudos, mas que ecoam gritantes na cachola dos convidados. Os lamentos em nada têm a ver com a morta, mas sim com os próprios lamentadores. É que a morte do outro serve de roupa de gala à preocupação dos vivos, dos que ficam à mercê do ocorrido. E se fosse eu? Alguns choram sem lágrimas, estarrecidos com a ousadia da morta em partir justo em dia de festa. Alguém ganhou algo. Não importa se por merecimento, mas sim o fato de ter ganhado algo  que vale um jantar envolvido por requintes. O evento seria uma comemoração, que não importa qual, não vamos nos ater aos detalhes, tampouco ao quem. Nesse momento, de nada nos valeria conhecimento de nome ou sobre

RÉQUIEM DO EXÍLIO >> Albir José Inácio da Silva

                                                                                                 “’Não permita Deus que eu morra, sem que eu volte para lá’                                                                                                                                      Canção do Exílio - Gonçalves Dias”   A busca pelo Eldorado, ou - baixando o nível de exigência - por algum lugar em que se consiga não morrer de fome e de assassinato, é provavelmente tão antiga quanto a humanidade.   Legiões de famintos se arriscam todos os dias em perigosas travessias para conseguir a sobrevivência dos seus. Muitos ficam pelo caminho, mas isso não arrefece o ânimo porque a alternativa seria morrer   ou assistir a morte dos filhos sem fazer nada.   Em 2011 a família juntou os panos e partiu já com saudades, mas com esperança.   O menino Moïse conhecia algumas coisas sobre o Brasil.   Por trezentos e cinquenta anos o Brasil recebeu seus antepassados, que chegaram acor