TINTA FRESCA >> André Ferrer

 

─ Vê se não demora garoto. 

─ Já estou de volta. 

─ Como assim? Tão rápido! 

─ Ora, velho. Eu já desci, fui até a esquina e comprei o seu jornal. Hoje é quarta-feira. O dia mais corrido da semana. 

 ─ Pare com isso garoto. Acha que eu sou trouxa? 

Francisco se aproximou do pai. Abriu e fechou os cadernos do jornal diante do velho, que se jogou para a frente. Inclinado na direção daquele buquê de tipografia barata. 

─ Eu não disse? Fui até o jornaleiro. Aqui está! Sinta. Vamos. Que tal? 

─ Malandrão! Você foi até o quarto, que eu sei. Deu um tempo no corredor e voltou. 

─ Negativo. Sinta de novo. Hein? O que me diz? 

─ Ora, tanto faz. Você não lê as notícias para mim há dois dias. Tanto faz. 

O velho cruzou os braços. Quinze minutos antes, o filho deixara-o no seu local preferido entre a cozinha e a área de serviço. Àquela hora do dia, durante toda a sua vida, sentava-se, diante da janela, para fumar um cigarro e espiar a vizinhança. Quando ainda podia fumar e não usava tantos remédios, ele mesmo arrastava uma cadeira para aquele ponto. Depois, tendo perdido completamente a visão, passou a usar mais de uma dezena de remédios. A cadeira, lá, permanentemente. A janela. O vão da rua. O pressentimento da grande cidade. 

Logo em frente, havia dois prédios antigos. Um deles, uma invasão. Uma decrepitude que o velho fingia enxergar e sobre a qual, todas as manhãs, insistia em expressar a sua comovida e, muitas vezes, violenta indignação. 

─ Gente idosa como eu. Tsc. Tsc. Tsc. Uma vida inteira de trabalho e, agora, isso. Um cortiço. Viver nessas condições desumanas! Tsc. Tsc. Pobre gente brasileira. Mas tem volta! Ah se tem! Filho, era ruim com ele. Pior sem ele. Tentaram derrubar o meu Presidente. Tentaram incriminá-lo. Tentaram, mas ele volta. Ah, se volta! E, por falar nisso, como estará aquela excursão pelo Nordeste? 

O rapaz andava ocupado entre o fogão e as portas do armário. Virou-se. 

─ Hein? ─ disse ele. 

─ O Nordeste. O Presidente. A maior marcha já feita por um líder popular desde Prestes! Filho, é disso que eu estou falando. 

─ Ah! Um sucesso. Aguarde, que eu lerei as notícias fresquinhas enquanto o senhor toma o café. Aguarde. 

─ Ontem, você não leu. 

─ Atrasei-me. 

 ─ Tudo bem. Eu tentei. Eu tentei. Pedi à Lúcia. 

 ─ Oh, meu Deus! 

─ O que foi? 

─ Nada. Quase queimei os dedos. Não foi nada. 

─ Ora, tome mais cuidado garoto. 

─ Ela leu? 

─ Não. Claro que não. 

 ─ Ufa! 

─ O que há com você? 

─ Nada. 

─ Filho, a propósito, eu acho que você contratou uma cuidadora analfabeta. Cheia de conversa mole. Desculpas esfarrapadas. Eu percebo. Sinto na voz dela uma certa... uma certa... natureza ordinária. Mulher ridícula. 

─ Ora, deixe disso pai. A dona Lúcia tem boas referências. 

─ Não consigo. Sinto essas coisas no ar. Tenho certeza de que se trata de uma dessas coxinhas! Uma dessas pessoas completamente despreparadas, que não raciocinam e que, por isso mesmo, colocaram a direita fascista no poder. 

─ Deixe disso. Vamos. O café está pronto.

 ─ Filho, um dia desses, essa incompetente me dá os remédios errados e eu caio duro neste chão. Pode esperar! 

─ O café está pronto. Escute. Vou começar a ler. Okay? 

─ Por favor! Eu estou doido para saber mais a respeito da grande marcha! 

Na primeira página, o rapaz coloca os olhos na manchete de muitos meses atrás: “STF barra prisão domiciliar ao PRESIDENTE.” 

─ Ah, que cabeça a minha! O rapaz dobra o jornal, serve o café do pai e mistura o seu com bastante leite. 

─ Ora, porque tanta cera? Depois, você diz que está tarde e acaba indo embora. 

─ Vamos lá: “Carnaval da democracia em Salvador”. 

─ Uau! 

─ “O PRESIDENTE foi levado pela multidão, na última terça-feira, do Farol da Barra até... até... até...

─ Hein? 

─ “Ondina. Isso: Ondina. Onde discursou em cima de um trio elétrico.” 

─ O quê? Mas o que foi que o homem disse? Vamos. 

─ “Em 2022, o povo regressará ao poder. Depois de seis meses, com a volta do governo popular, ninguém. Repito: ninguém se lembrará desse governo equivocado eleito em 2018.”
 
─ Com certeza! Com certeza! 

De repente, o rapaz se deu conta de uma coisa. O café com leite turbilhonou dentro da sua garganta. O líquido espirrou pelas suas narinas. O pai ficou assustado. Depois, tomou fôlego enquanto o filho tossia. 

─ Filho, não foi nada. Você se afogou. 

─ Tudo bem. Tudo bem ─ disse o rapaz, ainda com os olhos arregalados na xícara de café do pai, que estava sobre o jornal dobrado. Por causa do hábito, o jornal se tornara um assessório. Nem precisava ser do dia. Bastava que ainda cheirasse a tinta. Ele abria o caderno na perna. Tudo o que precisava fazer era inventar uma boa manchete para que o velho ficasse feliz. 

─ Já está bem? Tome cuidado e não se afogue de novo. 

─ Tome mais café ─ disse o rapaz. ─ Vou completar a sua xícara. 

─ Calma! Você sabe que eu não exagero no café. Dá uma puta vontade de fumar. Você sabe. 

Com muito cuidado, o filho ergueu a xícara e arrastou o jornal. Antes de abastecer a xícara do pai, ele simulou a busca por mais “novidades”. Mudou de página. Soltou um “hum” de dúvida. 

─ Ora, veja isto! 

─ Hein? 

“Preso em março do ano passado, o PRESIDENTE será indiciado mais uma vez.” 

─ Ele... Ele viaja para Porto Alegre ainda nesta manhã. 

─ É mesmo! 

─ “Na sexta-feira, o PRESIDENTE será homenageado pelas lideranças populares do Sul do país.”
 
─ O que foi que eu disse? O que foi que eu disse? ─ fez o pai. Braços levantados. Um dos punhos fechados. ─ Procure filho. Eu sei que já está na sua hora e, em breve, aquela mulher horrível chegará. Eu sei. Mas ainda temos alguns minutinhos. Procure aí. 

─ Tudo bem. Vou procurar.

Comentários

Nadia Coldebella disse…
André, gosto muito dos seus textos.

Esse, por exemplo, tão visceral, tão tapa na cara e, ao mesmo tempo, tão cheio de compaixão e cuidado para não matar uma esperança.

Texto incrível!
branco disse…
Quem souber ler o que não foi escrito(mas sentido), saberá que sua crônica é iguaria fina.
Zoraya Cesar disse…
André, tirando o sumo dessas sua história cheia de nuances, resta, em nossas mãos, a tinta fresca de uma história triste de doer. Parabéns. Me deu uma coisa aqui...
ze disse…
Gostei da sua crônica. Sutilissima.
sergio geia disse…
Concordo com a Zô. História bem triste. E gostei sobremaneira de "buquê de tipografia barata." Muito boa a analogia!
Albir disse…
Parece que pai e filho concordam quanto ao que dá esperança. Mesmo em fragmentos.

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