A MULHER, A TRISTEZA E O MENINO >> Cristiana Moura

O dia amanheceu e eu não levantei. Era coisa de tristeza acumulada que, nesta manhã, feito açude em nosso sertão, com a bem aventurança das chuvas, sangrou. As lágrimas molhavam minha face misturando o transbordar de água doce do açude e o sabor do aquoso salgado de um banho de mar. Tristeza quando sangra talvez seja sinal de abundância que nem chuva muita no sertão. 

Nesta manhã não levantei-me. Miguel adentrou meu quarto em passos de leveza rara. Subiu em minha cama como quem a escala. O possível para seu tamanho de menino de quatro anos de idade. Sentou-se ao meu lado e perguntou: 

— Vovó, por que você está chorando? 

— Porque estou triste — respondi. 

 O pequenino acariciou-me a testa e disse: 

— Pode chorar, pode chorar.



imagem disponível em: https://medium.com/@RespeitaAsPreta/a-for%C3%A7a-infind%C3%A1vel-da-mulher-negra-713d4f9a39a6

Comentários

Sandra Modesto disse…
Que lindeza de texto. Muito sensível.
Nadia Coldebella disse…
Que lindo, Cris! O que seria de nós nesse mundo louco se não tivéssemos a sensibilidade de uma criança para nós dar algum consolo?
Zoraya Cesar disse…
O mais lindo de tudo é saber que em algum lugar e, esperançosamente, em vários outros lares, há uma criança sendo incentivada a ter, demonstrar e entender sentimentos.
Cristiana Moura disse…
Obrigada gente bonita!
Albir disse…
Só criança tem essa sensibilidade, né?
Um adulto diria "para com isso, não vale a pena, levanta que melhora!"

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