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Mostrando postagens com o rótulo Sergio Geia

ESCRAVO DA PAIXÃO >> Sergio Geia

Sorriso de criança feliz que me enfeitiça quando comento coisas tipo você já imaginou o sujeito dormindo em casa e ser morto por uma vaca que cai sobre sua cabeça? E você ri mais ainda quando digo que é verdade, que está em todos os jornais. Mas depois você para um instante, de repente fica séria, talvez refletindo sobre a estúpida morte acidental, me olha fundo, parece querer dizer algo, eu fico imaginando coisas, mil coisas, no fundo, eu imploro que diga, diga algo, eu quero ouvir, mas você não diz. Lentamente, silente, sem desviar os olhos, você se aproxima, me beija, ou se deixa beijar; sorri, se arrepia toda, eu sinto, com um leve mordimento em sua orelha, depois me beija, e aí sim, agora, você me beija, como se fosse o último beijo de sua vida, um beijo de línguas fundidas, de união de desejos, um beijo de coroação, pode ser de coração, vai, por que não?, de vida, de paixão, eu sinto o sabor de nicotina no seu beijo, sinto, agora em mim, os pelos eriçados, uma vontade desespera…

A MINHA HISTÓRIA POR DETRÁS DA COLONOSCOPIA >> Sergio Geia

Aprenda uma coisa, se é que você ainda não aprendeu: tudo tem uma história. Se você faz isso ou aquilo, ou deixa de fazer, saiba que faz, ou não faz, porque há uma história que explica ou justifica o fazer ou o não fazer. 
A minha começou assim. 
Primeiro, tio Ademar, e uma pequena dor nas costas. Certa vez o encontrei no pátio da Prefeitura e ele reclamava de uma dor, agora, no ombro. Perguntei se ele já tinha ido ver o que era, ao que respondeu que sim. E a saga continuou. Muitas dores, desconfortos, médicos e exames. Um dia descobriu um câncer, que nascera no intestino e que andara até os ossos. Dizem que a dor de câncer nos ossos é a pior do mundo. Meu pai, aposentado, foi seu fiel escudeiro, e o acompanhou em médicos, laboratórios, clínicas. Mas a doença, como um ácido agressivo, foi comendo aos poucos o meu tio. No final, nem morfina conseguia dar cabo da dor. Lembro que no Natal de um ano ele disse confiante: “Vou passar o carnaval em Ubatuba”. Essa frase nunca me saiu da cabe…

O TARADO DO SUPERMERCADO E A MATEMÁTICA >> Sergio Geia

Responda: existe iguaria mais deliciosa que pizza pra juntar a galera, beber e jogar conversa fora? Eu não conheço. Se houver, me fale, please. A informalidade da pizza combina com os encontros informais; os sabores das pizzas combinam com os sabores das histórias que lembramos juntos. 
Gadioli de sempre, lotado, calor. Dessa vez veio todo mundo: Mara, Cláudio, Téo, Silvana, Serrate, Eliana, Marcos, Adélia, Jurandir, Cristiane, Chiara e Francine, essa, uma nova amiga. Foram histórias e mais histórias. A mim coube contar aos dinossauros histórias não muito agradáveis para aquele que contava. Já imaginou ser confundido com um tarado? Mas a distância do tempo nos permite hoje, dar risada daquilo que causou um sofrimento lá trás. 
Na época, eu trabalhava na Prefeitura de Taubaté. Vez em quando viajávamos para São Paulo, destino Secretaria da Fazenda, para tratar de assuntos burocráticos que agora não vêm ao caso, mesmo porque, isso é uma crônica, que deve ser leve como um pedaço de algod…

UBATUBA, ENFIM >> Sergio Geia

Anote: requisito indispensável para um bom ano é começá-lo tomando banho de mar. Mais do que iodos e salinidades, o mar é divino, e compartilha com você toda a força, a energia, o poder dessa coisa mágica, sobrenatural, onipotente, que nem conhecemos direito, mas que podemos chamar aqui de natureza. Assim pregava o pai de Clarice Lispector, lembra? De Recife a Olinda, de bus, bora tomar banho de mar, purificar a mente-corpo-espírito, livrar-se das urucubacas, restaurar as energias, alcançar a plenitude de todo o seu ser. E espere duas horas para tomar banho de água doce, okay?
Em Ubatuba você encontra esse mar na forma mais sublime e sofisticada que possa existir. Sofisticação de que falo aqui não é ostentação, grana, penduricalho. É delicadeza, canção do Armandinho, refresco para os olhos, corpo, mente, espírito. São praias maravilhosas, as mais bonitas do Brasil. Discorda? Então você nunca esteve em Ubatuba. Copacabana é a nossa princesinha. Torres tem praias especiais. Joaquina é …

FÉRIAS >> Sergio Geia

O cronista está de férias.
Data venia (como dizem os advogados), ele pede a sua compreensão diante da falta de crônica.
Seu retorno está agendado para 19/01/2019.
Com novidades.
O Crônica volta em janeiro com cara nova e novos cronistas.
Aguardem!
Lindo 2019 para você!

BOAS FESTAS >> Sergio Geia

Ainda em novembro a gente olha e o vê chegando, mas ainda um pouco distante, sabe?, como a montanha escondida no nevoeiro; você a imagina perto, mas anda, anda e ela não chega, é apenas uma caricatura no horizonte. Mas também você sabe, ou tem a sensação que, embora distante, ele está mais perto, muito mais que ontem, e sabe também que o tempo voa na velocidade de uma nave alienígena, bem Independence Day, que o fim de semana voa, principalmente por ser apenas dois dias, ou dois dias e meio ― vamos contar a noite de sexta , e a semana seguinte também voa, e a próxima, e assim o tempo vai passando, como a água do rio que desce montanha abaixo, vai corroendo caminhos, deixando marcas, esbranquiçando fios, vincando a pele, e a juventude, a melhor fase da vida ― e não me venha com essa de dizer que a velhice é a melhor idade, ok? Conversa pra boi dormir; como não sou boi, não caio nessa ―, a juventude vai se tornando um ponto equidistante no horizonte, que ficou para trás, mas bem para t…

UM CONTO SOBRE PLANOS FRUSTRADOS >> Sergio Geia

Ele sonhava assim: ... Não. Sonhava não. Mais planejava do que sonhava. Pode parecer bobagem, mas não é, e há sim uma grande diferença. O sonho tem feições obscuras. Não. Nada disso. Quanta bobagem. Não é isso o que eu quero dizer, que sonhos têm feições obscuras, esse tom que você pensou, exatamente porque eles não têm. Tipo as estantes de livros da minha casa. Sim, os sonhos são das cores de minhas duas estantes que tenho aqui sobre a televisão, cheias de livros coloridos. Sonhos são leves, coloridos, balão voando no céu. Melhor assim, nada de “feições obscuras”. Ai meu anjo, perdoe-me; acho que estou um pouco confuso hoje. Talvez esteja precisando de um gole de uísque. Vamos reformular. Sonhos têm uma feição, digamos, Everest, algo difícil de alcançar, era isso o que eu queria dizer. Sim, muitos alcançam, quantos alpinistas não chegam lá, mas quantos não ficam pelo caminho? Sonhos são desejos a perseguir, lugar que se quer alcançar, e que exige de você. Sonhos iluminam a vida, e nã…

HÁ TRINTA DIAS ME BATEU UMA COISA DOWN >> Sergio Geia

Assim do nada, como surgem dores e resfriados (doenças também), há trinta dias me bateu uma coisa down. Senti algo ruim no peito, um vazio, que virou desânimo e, típico movimento reverso, vontade de mergulhar numa piscina de nada, e eu fiquei assim. Como a vida não pode parar em razão de nossos vazios e desânimos, segui em frente. Calhou de no meio dessa coisa estranha, sai de casa um dia pra andar e buscar inspiração a fim de escrever algo sobre a primavera que batia à porta.
 É claro que o resultado foi zero de inspiração. Não achei coisa alguma que me remetesse à primavera. Talvez, minha vibe sendo outra, achasse.
Decidido assim mesmo a escrever sobre a primavera, como um teimoso convicto, cheguei em casa, sentei na frente do computador e escrevi. Obviamente, uma crônica baixo-astral, reflexo do baixo-astral de seu criador, que foi publicada neste espaço em 22 de setembro de 2018.
O pior dessa coisa estranha é que o universo baixo-astral do escritor criou um texto baixo-astral. Em…

UM ANJO VISITA GABRIEL >> Sergio Geia

Ele cumpria uma missão confiada pelo Departamento de Missões do Céu. Naquele dia, entrou em diversas casas, a maioria, casas modestas, de humildes moradores. Testemunhou a fé inabalável de muitos, impôs suas mãos carinhosas em homens, mulheres, crianças, até que no fim da jornada, aos quarenta e cinco minutos do segundo tempo, quando já se preparava para pegar carona numa nuvem veloz que passava, se deparou com Gabriel, um senhor bastante idoso que morava sozinho. O homem bebericava uma taça de vinho, esparramado sobre uma aconchegante poltrona em sua sala; na televisão, The Human Stain, filme baseado no livro A Marca Humana, de Philip Roth.

Não estranhe o conhecimento desse nosso anjo sobre cinema. Exceto por essas viagens, pouco tem a fazer. Ele fica lá em cima se divertindo com produções criadas pelo homem, cinema, livros, música, às vezes até pede licença ao Superior dos Anjos para descer e se embrenhar em teatros pelo mundo. Ele não perde um espetáculo da Broadway, do Teatro Ofi…

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …

SALVE, SALVADOR >> Sergio Geia

Descemos no Aeroporto Luís Eduardo Magalhães, região metropolitana de Salvador, pouco depois do almoço, e tão logo coloquei os pés na capital baiana, uma voz começou a me cantarolar coisas no ouvido. A insistência foi tamanha que mesmo antes de pegarmos as malas eu já cantava: “Ah, que bom, você chegou, bem-vindo a Salvador, coração do Brasil...” Mesmo no carro da amiga da minha namorada que veio nos buscar, enquanto as duas conversavam altos papos sobre a vida, eu me via, vez ou outra, balbuciando baixinho palavras, coisas do tipo: “Ah, que bom, você chegou, bem-vindo a Salvador...” Como um chiclete que gruda na sola do sapato e não sai, eu estava bem musical, bem axé, diga-se. Talvez só tenha parado de cantar e me silenciado quando deitamos nossas coisas e nossos corpos na praia de Vilas, e aí, quem cantou foi o mar, num espocar de ondas macio e sonolento. Acordamos com uma boa batida de limão, camarões, acarajé, que lindas baianas vendiam no mesmo lugar em que alugavam cadeiras. Per…

A PRIMAVERA >> Sergio Geia

Hoje pensei em escrever sobre ela. Lembra aquela música do Beto Guedes: “Quando entrar setembro, e a boa nova andar nos campos”? Ela me é tão inspiradora, ainda que setembro já esteja quase no fim. Desci para tomar café na Tábua de Frios, e aproveitei para olhar árvores (sabia que o Brasil é o país mais arbóreo do mundo? Ouvi isso outro dia no rádio), da Professor Moreira à Santa Teresinha; queria encontrar alguma coisa, um toque primaveril a me inspirar. Fiquei olhando pessoas para encontrar uma alegria diferente, quem sabe um brilho nos olhos, até a mulher que se esqueceu de pagar a água no caixa eu perscrutei, ou a senhorinha de cabelos de algodão com seu cão que encontrei na calçada. Depois, já em casa, escovei os dentes, e fui à sacada em busca de sinais, uma flor se abrindo, orquídeas, por exemplo. Dizem que aparecem folhas novas na acerola, ou na laranjinha do mato, mas não há acerolas e laranjinhas do mato por aqui. Brotos, talvez. A despedida do inverno, a secura triste indo e…

COTIDIANO FELIZ >> Sergio Geia

Estou aqui para ajudá-lo. Eu compreendo, sei que gostaria que eu viesse outras vezes, que pode pagar, mas, infelizmente, você sabe, tenho outros amigos que assim como você necessitam de mim. Você compreende? Eu sei, tinha certeza que compreenderia. Prometo que logo este problema estará resolvido; nossa equipe já está desenvolvendo um novo sistema que me permitirá estar em mais de um lugar ao mesmo tempo. Vamos então? Antes de tudo, abra um vinho. Tinto, de preferência. Comece a degustá-lo com calma, sem pressa. De vez em quando olhe lá fora, veja a rua, as pessoas caminhando, algumas indo para o trabalho, um casal de jovens se beijando. Não, em absoluto! Não se recrimine por buscar na memória aquele beijo roubado na esquina. Isso, acaricie o pensamento, sorria, assim, veja como uma boa lembrança faz bem. Você quer me contar? Tudo bem, conte, adoraria saber. Entendo, sua primeira namorada, você não sabia como dar o primeiro beijo. Não sabia se falava alguma coisa, como fazer a aproximaç…

DE SAMPA >> Sergio Geia

De Sampa, trago algumas histórias. Num dos dias fui ao Masp. Terça-feira a entrada é gratuita. Na oficina que fazia no B_arco, Renan me disse que a fila estava horrorosa e que não quis encarar. Na quarta eu fui, e mesmo sendo pago, a fila não era das menores. Encarei. Enquanto estava nela, aguardando para comprar ingressos, apareceu uma mulher toda vestida de branco se oferecendo para medir a minha pressão. Num primeiro momento, pensei que fosse alguém da Prefeitura, ou de alguma universidade, essas campanhas que têm por aí. Ao se preparar para medir, com uma técnica apurada de fazer duas coisas ao mesmo tempo, absurdas e incompatíveis entre si, mostrou-me um boleto no valor de R$ 7.837,00 ou algo perto disso, dizendo que era o valor que a filha tinha de pagar na faculdade de medicina, pedindo uma contribuição, que podia ser de R$ 37,00, ou R$ 837,00, ou o valor todo. Decerto imaginou que eu fosse algum figurão abastado, pobre de mim. Eu disse que contribuiria com R$ 7,00 e olhe lá. Pe…

VOCÊ VAI GOSTAR >> Sergio Geia

Bom, não sei se vai. Talvez sim, talvez não. Talvez você goste apenas do “Você vai gostar”, e não goste de todo o resto. Talvez você já conheça, gostou de primeira, goste, e aí vai desgostar de tudo, porque simplesmente o que escrevo hoje não vai lhe interessar. Ou talvez você desconheça. Então, nesse caso, desconhecendo, talvez você goste, quer dizer, goste de conhecer e acabe gostando de tudo, do “Você vai gostar”, e do que escrevo hoje. Você vai achar que valeu a pena ler o que escrevo hoje simplesmente porque valeu a pena conhecer “Você vai gostar”. Irá me agradecer, quem sabe até irá me oferecer um vinho, ou, talvez, não me agradeça, nem me ofereça um vinho, mas goste, goste de tudo, especialmente do “Você vai gostar”. Foi na Igrejinha do Bom Conselho, no fim de um ano lá atrás, um fim de ano igual a todo fim de ano, comemorações mil, abraços, desejos de um ano melhor, canapés, até cervejinha rolou. Chico Salles, depois de beber umas, tratou de iluminar a noite. Grudou no violão p…

SÃO PAULO, 20 DE JULHO DE 2018 >> Sergio Geia

Sentei-me à mesa para escrever a crônica que havia dias estava pensando. Ela, como sempre, formava-se devagar na minha cabeça, completando-se aos poucos, sem pressa. Eu, como um bom médico das letras, sentindo que ela estava pronta, já me preparava para o parto quando me lembrei do nosso último encontro aqui, no Crônica do Dia. Pensei: “esse parto fica pra depois”, e que seria meu dever agora, falar alguma coisa a respeito da semana que passei aqui em Sampa. Para você que não me leu na última quinzena, eu disse que iria para São Paulo participar de uma oficina de crônicas. Pois é. Fui. E conheci gente talentosíssima e bacana por lá, tipo João Rachid, Renan Procópio, Ana Pimentel, Diego Martinez, Thais Barbeiro Lopes, Clarissa Vilar, e a generosa nova-amiga Ivana Arruda Leite, que nos aturou, conheceu nossos trabalhos, deu seus pitacos, melhorou nossos textos. Tínhamos que escrever três crônicas por dia sobre temas diversos, inventados na hora pela Ivana; depois, ler os trabalhos, e agu…

HISTÓRIAS BONITINHAS >> Sergio Geia

Estava pensando em escrever algo bacana para vocês. Na verdade, estou aqui, sexta-feira 13, sentado à mesa, na mesa onde costumeiramente trabalho, com a tela do computador aberta, com a sacada aberta, com esse céu cinza, esse frio matinal que faz doer o corpo, essa ressaca de Brasil pós-Copa, imaginando algo bacana pra dividir com vocês.

Mas sabe que nada me vem? Ando pensando: estou com uma dificuldade enorme de encontrar assunto. Talvez ande mais exigente (e estou), e hoje, não é qualquer coisa que me faz sentar à frente do computador e escrever. Também não sou do tipo que pega uma tela em branco e começa a escrever, a história flui, em pouco tempo está lá, nascida, vivíssima da silva. Eu sempre preciso de um esboço, uma ideia, saber o que vou contar. Aí sim, eu sento e escrevo.

Semana que vem estarei em Sampa participando de uma oficina de crônicas com a Ivana Arruda Leite. Vou aprimorar minhas habilidades cronísticas, e aproveitar pra passear um pouco, comer bem, dar umas voltas, qu…

DESTINO KM 162 (AO SOM DE MICHAEL BUBLÉ) >> Sergio Geia

Vez em quando tira o pé, encolhe a perna. Especialmente em mergulhos, bom momento, acha, suaviza. Ela vem assim, sem avisos, chega chegando, fica. Não tem noção exata de como a relação dos dois vai terminar, confia que ela vá embora, sempre vai. O que é uma espécie de oásis, cama quente, perfumada, logo se esvai: serpenteando, uma fila imensa, longa, lenta, precisa interromper o interlúdio relax. Depois, como num passe de mágica (bem clichê), ela desaparece — causa-lhe asco a lentidão excessiva, especialmente quando interrompe momento tão bom. Entra num funil, uma espécie de túnel branco, caverna que o embrulha, como se lá no céu, se lá estivesse, mergulhasse na mais branca das nuvens; é fria, chega a doer. Às vezes se esquece de tudo, até dela, como agora, quando o rádio toca “Quando, quando, quando” (ó, querida, me diga quando, quando, quando). Aumenta o volume, desliga-se, ou tenta, inebriado ainda por um insistente perfume de Gelol.
Lembra que se encontram no São João, todos os ano…