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Mostrando postagens de Abril, 2008

>> QUASARES >> Carla Dias

Eu me assombro não só comigo mesma ao retaliar mágoas e tentar calar avarias. Assombro-me com as refutações escaldantes que se propagam nesse eternamente de rótulos e sustos.

Sinto muito, meu caro, mas em mim moram vírgulas deslocadas, assimetrias inconvenientes; a minha voz cala e consente, mas nem sempre onde você deseja. É sempre num pouco antes... Num depois de agora.

Não visto as máscaras da sua preferência, mas se permitir posso me fantasiar de quem sou e, de repente, quem sou lhe bastará justamente pelas temidas diferenças que você evita reconhecer.

Talvez eu seja quase o que você espera, e no quase os quasares se distraem, e nos atazanam pela distância que nos separa, apesar de colidirmos freqüentemente.

Eu me descabelo mesmo, meu caro, se me vejo na vitrine das mesmices. Se em você busco conforto, quiçá um naco de confronto que dê em fazer as pazes, saiba também que me intriga constatar que você não me sabe com profundidade como o sei.

Prestar atenção dói? Desvendar é proibido? En…

MANUAL DA PROPRIETÁRIA >> Eduardo Loureiro Jr.

Essa semana uma conhecida (que eu tomava por beata) falou que tinha uma lista de homens casados, todos sempre disponíveis: bastava estender a mão e pegar. Veio-me a imagem dela percorrendo corredores de um supermercado com homens expostos nas gôndolas, e ela os pegando com a mão e colocando no carrinho. Eu me lamentei, dizendo que nós, homens, estávamos virando objeto de consumo, e tudo que ela me respondeu, sem nem tremer, foi: "Fica triste não. Fomos e somos objetos de consumo bem antes de vocês."

Ocorreu-me então, dado o inevitável fenômeno, providenciar ao menos um pequeno guia para nossas compradoras, um manual da proprietária. Espero que seja útil e que possa minorar possíveis danos ao produto e melhorar o aproveitamento por parte do cliente.

*

INTRODUÇÃO
O homem que você acaba de escolher é um produto dos padrões de qualidade da Natureza do Brasil. Obtenha o máximo aproveitamento do seu homem. Para tanto, basta consultar e seguir criteriosamente as instruções deste ma…

CONTRADIÇÕES DO AMOR [Debora Bottcher]

Ele já não era tão jovem quanto se podia supor, nem tão velho quanto parecia. Tinha o olhar vago, distante, que tentava entrever além do alcance qualquer coisa que ninguém compreendia. Dificilmente sorria: mantinha os lábios cerrados, falava pouco e, quando o fazia, a voz soava mais como um murmúrio, sussurro dolorido quebrando a harmonia.

Vivia ali há muito tempo... Fumava cachimbo e podia ser visto todas as tardes amparado na janela, admirando o crepúsculo, o vazio imenso ao seu encalço.

Eventualmente contava histórias aos mais jovens e ela, por inúmeras vezes, viu-se sentada nas escadas do prédio onde moravam, absorta em suas palavras tristes que raramente vestiam-se de alguma satisfação. Momentânea: instantes em que a brevidade deixava divisar um minúsculo brilho.

Ele se movia pelos vales da dor e da saudade com suave maestria. Conhecedor das sensações que abatem nossas almas de forma definitiva, aquele era um território pelo qual ele passeava sem dificuldades.

Era um homem só e isso …

AQUILO >> Leonardo Marona

agora, depois de um tempo sem escrever nada, sinto falta do que antes não era, uma cama quem sabe desfeita, um carinho perdido numa estrofe simples, talvez pelo frio que percorre a espinha por dentro dos mais nobres clichês, aquele medo elástico, o amor como parábola que sai pela saída de emergência, é como se agora, depois de um tempo sem escrever nada, as andorinhas começassem a, finalmente, cair degoladas manchando meu lençol branco, um dia claro, como tais solos de guitarra quando Lou Reed está particularmente inspirado e entorpecido, e não é propriamente o amor, não a carne reflexiva de tantos espaços sem preenchimento, não são as tentativas no escuro, os chutes na parede pelo amor não concebido, as saudades que só falam para dentro, aquela pessoa cuja alma é teu escudo e tua lança, coisas assim, sem muito sentido mas fortes, talvez apenas uma lua cor-de-rosa, o sol nascente dos novos amantes, Nick Drake e um pouco de fé na vida, um cheiro de chá de avó por trás da porta, por deb…

QUEM ME OLHA SÓ >> Carla Dias >>

Todos nós temos uma série de canções para combinar com uma série de grandes acontecimentos, até com pequenos gestos, lembranças. Às vezes, nem são necessários os acontecimentos, e a canção se torna uma companheira de viagem, uma jornada de delírio dos bons, daqueles que nos levam aonde jamais iríamos a sós... Mas somente acompanhados por uma boa canção.

A primeira vez que ouvi essa canção, confesso que senti um arrepio. Primeiro, por causa da chamada dos metais que há na música. Depois, pela letra, interpretada a contento por uma voz que soube embelezar a melodia.

Já reguei quase todas as plantas
Já chorei sobre todo o jardim
Elas gostam da chuva que molha
Elas pensam que o sol é ruim

Roberto Frejat e Arnaldo Antunes traduziram, através de Quem Me Olha Só, algo que já sabemos, mas nem sempre engolimos: às vezes, gostar não é o suficiente, e se transborda, afoga a possibilidade de ser correspondido. Por mais belo que seja o amor que sentimos, ele pode não ter vez se for somente nosso.

Quando …

PARA A CIDADE AMADA >> Eduardo Loureiro Jr.

Eu levo Graça e Ceiça,
Lara, Lorenas, Karina.
Levo Iluska, levo Sheila.
Nelas, levo Teresina.Levo Ivana e Suely.
Francisca, Oziane, Lila.
Glórias, Valéria, Bonfim...
Nelas, levo Teresina.Levo Marinalva, Hostiza,
Desterro e Teresinha.
Socorro, Marlinda, Ozita.
Nelas, levo Teresina.Levo Dona Rosa e Lourdes.
Lúcia, Gisele e Zenilda.
Levo Joanas e Bete.
Nelas, levo Teresina.Levo Teresa, a Ana,
Levo Teresa, a Cristina.
Larissa, Sônia, Renatas.
Nelas, levo Teresina.Levo Luciana e Mônica,
Aracele e Regina.
Ruth, Patrícias e Hadassa.
Nelas, levo Teresina.Levo Beatriz, Rebeca,
Fabrícia, Taline e Virgínia.
Elizabeth e Érica.
Nelas, levo Teresina.Levo Antônia e Andréa.
Neli, Shirlene e Jovina.
Levo Conceição, Albenes.
Nelas, levo Teresina.Levo Pollyana e Carlas.
Rachel, Onádia e Marisa.
Helena, Lia e Poti.
Nelas, levo Teresina.Eu levo Vilma e Frayla.
Lucélia, Cleide, Honorina.
Levo Lídia e Roberta.
Nelas, levo Teresina.Levo Jandira e Marlene.
Levo Rachael e Marina.
Ana Célia e Tatiana.
Nelas, levo Teresina.Levo Joelcy e Nati.
Le…

QUANDO DESCANSARÁ ISABELLA? [Maria Rita Lemos]

Fiquei sabendo, como quase todo mundo ficou, da morte de Isabella, a criança que foi jogada do sexto andar de um prédio em São Paulo. Ou não foi jogada, foi “desovada”? Ninguém sabe, e quem sabe não diz. São apenas suposições. O que se sabe é que havia sangue em vários lugares, e que Isabella apresentava marcas típicas de quem foi machucada, antes de ser jogada ou “desovada”.

Fiquei pensando em como alguém pode pegar uma criança de apenas 5 anos, maltratar, asfixiar e depois atirar pela janela do apartamento. Nem sendo psicóloga, que tem por mister estudar o comportamento humano, nem assim fica fácil entender essa
crueldade. O que dói muito é saber quanta gente está ganhando dinheiro e/ou prestígio com essa tragédia, desde a mídia em geral até as mães das amiguinhas de Isabella, que nunca pensaram que estariam na TV, dando entrevista... a professora, os vizinhos, o porteiro do prédio, de repente todo mundo tem algo para dizer sobre a menina, tanta gente sabe alguma coisa, ou não sabe …

DIVAGAÇÕES [Debora Bottcher]

Muito tarde e ela não conseguia dormir. Na penumbra do quarto, divisada pela luz distante da rua, ela observava através das sombras uma estranha saudade, sorrateira, caminhando silenciosa sobre o tapete macio... Azul, vermelho, branco, de todas as cores... De uma só cor, porém, o vulto que atravessava seu pensamento, sua alma fria.

Não havia fantasmas ao redor, nenhum som - exceto os reflexos de seus medos nas paredes claras e o barulho inquietante de um coração que desejava parar de bater.

Madrugada... Avançava rumo ao raiar do dia, ignorando seu desespero, a inquietação: amanhecia como ontem e sempre... Passado e futuro um só tempo, o presente estancado na memória.

Quis perguntar muita coisa, mas sua voz emudeceu diante da ausência de sons que gritava por quietude. Calar-se...

Muitas vezes se sentiu só, mas nunca como naquela noite. Pairava no ar uma estranha sombra, um vazio que ela pensava não mais lhe pertencer.

Tentou desesperadamente agarrar-se às lembranças de um tempo não muito di…

Sonhos de um Monge >> Leonardo Marona

Este texto será mais bem absorvido se lido ao som do piano de Thelonious Monk – Ou de Deus.

1. Monk’s Dream:

Uma rodada de dados – “Willie ‘The Lion’ Smith é a cabeça do meu pau!” –, ele grita quebrando uma garrafa na cabeça de Joe “Gordo” Postanza, o dono da banca – então ele ergue as calças e se manda pela janela. Um tiro lhe trespassa o colarinho da camisa. Consegue ainda salvar o trompete. Cai em cima de uma montanha de lixo. O lixo se espalha pelo chão. Nosso homem agora deve mais de 50 mangos e por isso não pode morrer. Tosse. Sangra a palma da mão. Um mendigo se acorda, deitado no chão (parecia sonhar): “Meu irmão, por que não dá o fora?”. Nosso homem leva a mão ao chapéu de feltro de duas bandas largas. Impressionante como é fácil substituir as tradicionais palavras de contato. Agora ele grita para o mundo da rua dos esgotos abertos – com o mesmo primeiro movimento põe tudo a perder, toda convenção – na direção de uma sacada. Então essa mulher – aparição perfumada – grita de vol…

REFLEXÕES >> Carla Dias >>

Ao nascermos, mil e tantas possibilidades se aproximam de nós; cortejam nosso futuro. Para uma e outra oferecemos um sorriso, ainda sendo descoberto sorriso, porque não sabemos o que ele é. Apenas o sentimos benevolente, reconfortante, assim como é dolente a sensação de não conseguirmos verbalizar desconfortos.
Vamos aprendendo brincadeiras, enquanto burilamos descobertas mais profundas. Dói o dente, ele cai. Mãe conta sobre a fada dos dentes. Medo! E se ela se apaixonar pelo Bicho-papão? Pai paquera a bola de futebol, diz que ela será para a infância do filho, mas quê? Ela já é lua nos sonhos dele e se o filho chutá-la, ela irá parar no céu e não mais voltará, porque vai se sentir em casa. O pai vai chorar até!
No meio da jornada, o coração aprende o sentido do som dos tambores antes mesmo de percussionistas terem aulas com os mestres. É um tamborilar natural... A taquicardia da pressa pelos apaixonamentos. Os olhares se abraçam, as mãos se atrapalham, a voz falha e diz tanto ao comete…

CANÇÕES, ESTÉTICA E NOSTALGIA >> Albir José Inácio da Silva

Já não ando distinguindo bem o que gosto por gosto mesmo do que gosto por nostalgia. Como me habituei a freqüentar certo tipo de música, as pessoas dizem que não gosto disto ou daquilo. E lembro-me de que realmente não gostava, mas agora não tenho mais certeza. Se me enternece uma canção, já não sei se é por suas qualidades intrínsecas ou porque suas asas me transportam a um terno momento da vida. Mas nem sempre foi assim. As certezas foram me abandonando na medida em que eu procurava por elas.

Comecei gostando da música que ouvia na infância. Sertanejo, Gonzagão, Ângela Maria, Caubi, Emilinha e quem já não me lembro mais.

Passei a ignorá-los quando vieram Roberto Carlos, Wanderley Cardoso, Wanderléa e demais alistados da jovem-guarda.

Não conheci a bossa-nova, que na época era muito erudita pros meus ouvidos.

Num dado momento, umas aulinhas de inglês no ginasial, a repressão desencadeada contra a cultura nacional e a conseqüente abertura das rádios às nações “amigas” me fizeram adorar q…

DESCANSANDO EM MOVIMENTO >> Eduardo Loureiro Jr.

Um barulho repentino em meu ouvido esquerdo. Olho para o lado e vejo uma bicicleta e dois corpos caídos ao lado da avenida: uma máquina, um homem e uma criança. Eu, um homem sentado em frente a uma máquina e assustado feito uma criança: barulho e imagem. As coisas paradas têm uma dramaticidade que dá medo.

O pai se levanta, a bicicleta ainda caída, e ajuda a menina:

— Isso acontece, filha.

Levanta agora a bicicleta — de correia fora da catraca — e continua:

— Foi só um pouco de areia na pista molhada.

O pai ajeita na catraca a correia, a filha retira do corpo a areia. Os dois seguem seu movimento.


Nem barulho no meu ouvido, nem drama na minha mente. Lembro de minha sobrinha — por que não dizer "filha"? — e meus olhos ficam nublados de saudade.

Quando passa um caminhão, a madeira leve da cabine da lan house treme, e eu a seguro com os joelhos de minhas pernas abertas. Caminhei dois ou três quilômetros até aqui. No centro de Parnaíba, uma brecha para o mundo: mensagens dos amigos, me…

PENSAMENTOS [Debora Bottcher]

Ele se senta para escrever, esvaziar a alma, soltar as amarras e as amarguras... Pensa em muitas coisas... A Morte... Senhora absoluta que passeia em sua vida, rondando, todo tempo à espreita... A Vida... Estrada muitas vezes sem sentido, caminho sem direção, atalhos que não levam a nenhum lugar...

Acha complicado viver... Sente seu peito carregado de dor, meio que suspenso no passado, envolto em névoas, no submundo do destino...

Pensa num poço... Alguém lhe disse que os poços são encantados e que suas águas, lá no fundo, são azuis - embora pareçam negras... É a magia da luz - explicaram.

Vasculha os jardins... Sempre gostou deles. Houve um tempo em que pensou em ser jardineiro, cultivador da terra. As flores são a expressão mais pura da delicadeza. Lembra de uma rosa cor de pêssego... Ama as matas: verdes, densas, escuras, revelam segredos, guardam a sensualidade, escondem mistérios...

Ele gosta das tempestades - ventos enfurecidos arrastando a calma. Pensa nas despedidas: alguém que ama…

Pai e filho conversam sobre a morte >> Leonardo Marona

- Quando você morrer eu morro.
- Não.
- Sim, uma parte de mim.
- Não, nunca seremos tão íntimos quanto quando isso acontecer.
- Íntimos? Você num caixão... Íntimos?
- Sim, pense bem: de perto todo mundo é mais ou menos, de longe todo mundo é legal, morto todo mundo é do cacete. E de muito perto todo mundo é insuportável.

...

- Por que você não lavou a louça?
- Porque ainda estou comendo.
- Você poderia comer o dia inteiro.
- E você morreria por isso?
- Um dia, talvez, provavelmente.

...

- Você falando, parece que quer que eu morra.
- Você não. Mas eu já quis que duas pessoas morressem.
- Quem?
- Um sujeito que me roubou e outro que era pelego de uma greve que eu fiz.
- Mas você queria que eles morressem?
- Queria. Mas não podia matar nenhum deles. Então tive que esperar. Outro dia me ligaram: um de câncer no estômago, outro morto pela empregada doméstica, a facadas.

...

- Mais gente de bem mata ou mais gente de mal mata?
- Não existe gente assim.
- Como não?
- Todo mundo é meio mau. Alguns conseguem ser bon…

2040 >> Carla Dias >>

Depois dos trinta, contemplar o futuro distante passa a ser mais freqüente. Eu e minhas amigas batemos longos papos a respeito, tentando alcançar uma idéia de onde e como estaremos em 2040, por exemplo. Lá seremos senhoras, algumas beirando os setenta anos de idade; outras já bem mais além.

Cada uma de nós tem uma visão sobre as velhinhas que seremos, evitando com empenho (e ginástica, alimentação saudável etc, planos que nem sempre conseguimos seguir) a possibilidade de não estarmos auto-suficientes nessa época que chegará.

Pensar na velhice não é tão aquém da rotina daqueles que já passaram dos trinta. Muitos buscam cuidar com mais afinco da saúde, “pra ser um velhinho saudável”. Então, nossas mães questionam como será esse ‘o que virá’ já que ainda não temos casa própria, um emprego daqueles que mãe sonha para suas crias e, claro, filhos. Não sobrinhos, filhos dos amigos... Nossos próprios filhos... Quem nos cuide quando voltarmos à infância.

Mas o que mais desejamos, não só eu e minh…

LÁ É AQUI >> Eduardo Loureiro Jr.

O Brasil é homem. A mulher é Brasília.

Cai uma chuva fina, e eu tenho 30 minutos para escrever uma crônica. Crônicas falam de tempo, e o tempo está tão "saturado de agoras"... como dizia Walter Benjamim. Entre velhos e novos amigos, entre antigos e futuros projetos, eu me movimento. Feito um astronauta no vácuo: lento e desengonçado. Os dias explodem em possibilidades que eu tento controlar por meio de uma agenda.

Numa outra cidade, podemos ser outros. Os hábitos, mesmo os mais arraigados, sentem-se ameaçados. E se eu acordar mais cedo, ou mais tarde, do que de costume? E se eu experimentar essa fruta de nome estranho? E se eu arriscar caminhar por essa rua convidativa mesmo sem ter a certeza de que ela me levará aonde desejo?

Numa cidade nova, nós somos a novidade, o estrangeiro, mobilizamos a atenção das pessoas. O nosso passado não tem peso e pode ser contado de uma forma nova. A nossa história pode ter uma nova versão, uma versão mais verdadeira. Para os que são daqui, nós,…

HÁ VIDA DEPOIS DO CASAMENTO [Ana Coutinho]

Não faz muito tempo eu era criança, uma menina tola e comum. Como tantas outras, eu brincava e pensava no meu futuro. Pra mim, o grande ponto do meu futuro era quem seria meu marido.

Encostava no verde quando falava alguma palavra junto com alguém, contávamos as sílabas e, em seguida, via em qual letra do alfabeto caía aquele número. Era a letra de algum menino que pensava em mim. Quando via um avião ou uma mulher grávida, pensava em três meninos, separava-os nos dedos da mão e pedia que alguém escolhesse um dos dedos. O escolhido representava o menino que, claro, estava pensando em mim. As meninas apertavam as mãos e contavam as ruguinhas que apareciam na lateral, ao lado do dedo mindinho. O número de rugas correspondia ao número de filhos que teriam. Olhávamos quem tinha o dedo do meio do pé maior que o dedão: era porque ia mandar no marido. Na brincadeira de pular corda, cantávamos “Com-quem-você-pretende-se-casar: loiro, moreno, careca, cabeludo...” ; a parte da música que a menin…

IRLANDA >> Leonardo Marona

Permita o céu que o leitor afoito e momentaneamente feroz com isto que está lendo encontre, sem se desorientar, seu caminho abrupto e selvagem, através dos pântanos desolados destas páginas sombrias e cheias de veneno; pois, a não ser que mantenha em sua leitura uma lógica rigorosa e uma tensão de espírito pelo menos igual à sustentada aqui, as emanações mortais deste livro lhe embeberão a alma como a água ao açúcar. (“Os Cantos de Maldoror” - primeiro parágrafo - de Isidore Ducasse, O Conde de Lautréamont).

E ainda assim falaremos. Não resta dúvida. Diremos o que mais já não tivermos. E será o suficiente por enquanto. No mais lavaremos o chão de olhos arregalados. Esperaremos as sirenes distantes, plantaremos expectativas em terrenos assombrados, onde o silêncio é uma estaca. E qualquer um nos perguntará: “Nós quem, cara pálida?”

Nós ausentes de atenção. Nós dentaduras. Nós bigornas penduradas no pescoço. Além do mais, não sabemos afinal o que perguntar. Isso no fundo explicaria muito.…

GENTE BOA NÃO ENTRA >> Carla Dias >>

Há alguns anos, eu escrevi um conto com mais diálogo do que jamais escrevera. Incluí este conto em um dos meus livros carinhosamente engavetados. E lá ele ficou: quietinho.

Um tempo depois eu o reli, numa das garimpadas que faço nos meus escritos, vez ou outra. Na época, a minha paixão pelo cinema andava pra lá de lancinante. Na verdade, eu andava lendo roteiros, porque queria aprender como chegar à tela com um texto. E então, este conto reapareceu, repleto de diálogos, timing certo para se tornar o que eu almejava: estudo sobre como conceber um roteiro.

Selecionei o tal e comecei a trabalhar nele. Das quinze páginas para mais de uma centena delas foi fácil. Aí vocês já podem ver que não consegui aprender a escrever roteiro, que estava mais para novela. Só que fui marcando como roteiro mesmo, estudando, fuçando, transformando, mas sem mexer no tema, que era o que realmente me encantava nele.

Essa viagem dura até hoje. O “Gente Boa Não Entra” ainda é material de trabalho para mim, e o con…

HERÓIS >> Albir José Inácio da Silva

Tive muitos heróis desde que me lembro de mim. Antes mesmo de conhecer a palavra herói, já havia pessoas de quem eu reverenciava até o som da voz ou dos passos. Depois vieram os super-heróis em quadrinhos e lembro até de um radiofônico chamado Jerônimo – o herói do sertão.

Tenho me deslocado pela vida ao lado dos meus heróis em naves espaciais, cavalos baios e navios de guerra. Já freqüentei pódios com Senna, estádios com Pelé e palcos com John Lennon. Cruzei latinamérica com Che Guevara e participei, sob o olhar raivoso do segundo exército, de comícios no ABC.

Meu pai foi para mim uma espécie de figura mitológica que misturava anjo com herói. Depois descobri que gostava mais do homem que do mito. Mas ele foi sempre herói, mesmo sem os superpoderes.

Foram bons os meus heróis. Se não fiquei melhor não foi por culpa deles, mas da minha dificuldade em apreender-lhes a essência.

Embora o significado de heroísmo para mim tenha mudado ao longo dos anos, os heróis continuam presentes. Agora ent…