domingo, 6 de abril de 2008

LÁ É AQUI >> Eduardo Loureiro Jr.

jvc / flickr.com
O Brasil é homem. A mulher é Brasília.

Cai uma chuva fina, e eu tenho 30 minutos para escrever uma crônica. Crônicas falam de tempo, e o tempo está tão "saturado de agoras"... como dizia Walter Benjamim. Entre velhos e novos amigos, entre antigos e futuros projetos, eu me movimento. Feito um astronauta no vácuo: lento e desengonçado. Os dias explodem em possibilidades que eu tento controlar por meio de uma agenda.

Numa outra cidade, podemos ser outros. Os hábitos, mesmo os mais arraigados, sentem-se ameaçados. E se eu acordar mais cedo, ou mais tarde, do que de costume? E se eu experimentar essa fruta de nome estranho? E se eu arriscar caminhar por essa rua convidativa mesmo sem ter a certeza de que ela me levará aonde desejo?

Numa cidade nova, nós somos a novidade, o estrangeiro, mobilizamos a atenção das pessoas. O nosso passado não tem peso e pode ser contado de uma forma nova. A nossa história pode ter uma nova versão, uma versão mais verdadeira. Para os que são daqui, nós, que somos de fora, estamos nascendo agora. Se nos apresentarmos com um penteado diferente do lugar de origem, com uma roupa que pareceria exótica aos nossos conterrâneos, os habitantes do novo lugar simplesmente pensarão que sempre fomos diferentes e exóticos, logo não somos diferentes e exóticos: somos o que somos neste momento.

No princípio, as mulheres parecem reedições de nossas mulheres originais: esta aqui se parece com Andréa, aquela tem todo o jeito da Geórgia, não seria essa outra a Giovana que não vejo há 15 anos? Depois vamos percebendo que as mulheres daqui são também originais: uma beleza que a gente olha e reolha pra se certificar de que é mesmo bela e de que maneira é bela. E, num impulso, beijamo-lhe a mão, tranqüilos por saber que a veremos novamente, mesmo que seja incerta a data.

A chuva fina dessa crônica vai passando. Tão sem sentido quanto sua chegada. O tempo dessa crônica não é o tempo cronológico, mas o tempo meteorológico. Estado de nuvem na iminência do relâmpago e do trovão.

Brasília dá a impressão de ser maior do que o Brasil. Não é. A chuva fina tenta ser maior que a tempestade. Não é. E estas palavras tentam ser uma crônica. Não são. Tentativas de organizar um país, amansar a natureza e matar saudades em público.

Até domingo que vem.


Partilhar

6 comentários:

Marisa Nascimento disse...

Eduardo, crônicas são crônicas aí e aqui e elas se transportam através de distâncias, permanecendo vivas com o passar do tempo.
E você pode ser quem você quiser escrevendo um texto lindo desses com só 30 minutos! :)
Beijo!

Tia Monca disse...

Junoca,
As coisas acontecem na hora certa. Parece que sua hora certa chegou :)
Boa sorte, serenidade e sabedoria para encontrar um lugar bem gostoso para morar e realizar o que deseja.
Forte abraco,
Tia Monca

Kelly Martins disse...

morar???? vc vai morar em Brasilia?

mas professor vc disse q voltava!

Anônimo disse...

Edo,
Muito cedo cobrei sua crônica. Só agora ela chegou para mim. Já com três comentários e uma surpresa. Vc é novidade numa cidade nova. Mesmo com saudades desejo ao querido amigo toda sorte do mundo nesse novo lugar que lhe abriga. Será que vai encontrar alguém parecida comigo ou com meu jeito?

Paula disse...

Eu queria morar em Brasília. Adoro o clima. Muita chuva. Muito sol. Meu cabelo fica lindo lá pra maio-junho, quando tudo é muito seco. E não tem trânsito! E todo lugar tem música ao vivo. E o sorvete do Pier 21 é o melhor do universo. Ainda bem que eu tenho que ir muito lá (aí?). Beijo pra você!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Leitoras queridas, ainda não aprendi a combinar tempo e movimento em viagem. :)

Essa semana... só pra dizer como gosto do olhar de vocês sobre as minhas palavras.