sábado, 19 de abril de 2008

DIVAGAÇÕES [Debora Bottcher]


Muito tarde e ela não conseguia dormir. Na penumbra do quarto, divisada pela luz distante da rua, ela observava através das sombras uma estranha saudade, sorrateira, caminhando silenciosa sobre o tapete macio... Azul, vermelho, branco, de todas as cores... De uma só cor, porém, o vulto que atravessava seu pensamento, sua alma fria.

Não havia fantasmas ao redor, nenhum som - exceto os reflexos de seus medos nas paredes claras e o barulho inquietante de um coração que desejava parar de bater.

Madrugada... Avançava rumo ao raiar do dia, ignorando seu desespero, a inquietação: amanhecia como ontem e sempre... Passado e futuro um só tempo, o presente estancado na memória.

Quis perguntar muita coisa, mas sua voz emudeceu diante da ausência de sons que gritava por quietude. Calar-se...

Muitas vezes se sentiu só, mas nunca como naquela noite. Pairava no ar uma estranha sombra, um vazio que ela pensava não mais lhe pertencer.

Tentou desesperadamente agarrar-se às lembranças de um tempo não muito distante - talvez há menos de meia hora -, mas lhe escapavam os momentos felizes, o sorriso daquele homem tão amado, sua risada ecoando ao seu lado...

A felicidade que se perdia não queria mais ser resgatada. Em seu interior ardia a sensação incômoda de ter perdido o fio da meada da trilha onde se haviam iniciado os caminhos do fim e de novo ela estava para ser lançada ao seu abismo particular.

De certa forma, descobriu, com algum alívio, que já estava preparada para isso. Era como se no fundo de si uma voz estivesse sempre lhe acalentando, carinhosamente lhe sussurrando que aquele tempo de alegria ia se despedir, lhe abandonar, devolver-lhe para o seu antigo e conhecido lugar...

Percebeu-se sem nenhuma certeza: quem saberia se se afastava de si ou se para si retornava? Desejou adormecer, mas o sono não vinha e ela soube que estava perdida novamente num precipício raso demais até para morrer...

Então sentou-se na varanda, no sereno cálido sob estrelas de uma noite fria, tentando não mais pensar. Recomeçar... Soa muito tarde, mas ainda dá tempo...

Amanhã... Depois... Talvez sempre...

Expressões Letradas

Imagens: Woman with Red Carpet, Freyda Miller; Cheerful Young Couple Lying Down, RF Corbis; Woman with Hair Blowingin Nighttime Breeze, Vicky Emptage

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Um comentário:

Marisa Nascimento disse...

Debora, como você consegur traduzir bem as sensações de perda, solidão e impotência diante das dores humanas.
Bom te ler por dois sábados seguidos! :)