Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de Setembro, 2012

O DOM QUE NÃO EXISTE >> Whisner Fraga

É preciso que as pessoas se conscientizem que a escola não é o único ambiente de aprendizagem que existe, bem como os lugares consagrados à exposição da arte não detêm a exclusividade na produção ou divulgação da técnica. Exemplos não faltam de ideias bem sucedidas em ambos os campos. Então, como compreender que a escola insiste em manter seus alunos trancafiados, que os teatros ainda fecham suas portas para novas experiências, que os cinemas só inovam em efeitos especiais?

É necessário também que percebamos que ninguém é portador de todo conhecimento, de modo que não existe alguém imune a ele. Os professores devem notar que não entram em sala de aula para ensinar, mas para compartilhar experiências, para permutar informações. Assim, talvez um tenha maior afinidade com determinado conteúdo, outro goste de um assunto diferente, mas todos têm condições de se instruir, bastando que haja um espaço para o diálogo e a mediação.

Na arte ocorre fato semelhante. Não precisamos acreditar em dom o…

ARTE E CULTURA: REALIDADE DOS VALORES [Heloisa Reis]

Admito que não escapo à sensação de que estamos perdendo terreno em matéria de Cultura,  privilegiando apenas o consumo - mesmo que cultural –  m  frenética ânsia em busca de não se sabe bem o que para logo em seguida nos colocarmos em busca de outra coisa qualquer.
Mas a  Cultura – sim, com letra maiúscula –   densa, vem de gerações, carrega valor, é lenta... E compreende muitas de nossas atividades – todas, na verdade.
Mas será que estamos considerando a palavra  c u l t u r a devidamente?  Será que achamos que só consumimos cultura quando assistimos a um concerto ou a um filme importante, ou quando nos interessamos por um livro ou por uma exposição de arte? E nossos hábitos e tarefas diárias, fazem parte de nossa Cultura? Claro que sim.
Cultura é, na verdade, todas as atividades que desenvolvemos em nosso viver, em nosso espaço e em nosso tempo. É um tesouroque devemospreservar, estimular evalorizar, cultivando-o.
Contudo, a cultura de um povo é ao mesmo tempo  dinâmica, influenciável…

MINHA TÃO GRANDE CULPA
>> Zoraya Cesar

Bom dia, Padre Tércio, sou um pecador, vim me confessar.

Meu Deus, eu me arrependo de todo coração por vos ter ofendido, porque sois tão bom e amável. Prometo, com a vossa graça, nunca mais pecar. Meu Jesus, misericórdia! 
(Pequeno Ato de Contrição)

Escolhi-o para ser meu novo confessor porque o senhor é um homem de estudos e também de ação. Sei que trabalhou nos seringais, defendeu índios e desvalidos, foi ameaçado de morte... O senhor sabe o que é a vida real, longe das novelas e dos filmes, a vida real está nas sombras que as pessoas comuns não veem. Eu conheço o senhor. Eu já salvei a sua vida.

E agora vou lhe contar a minha história.

Sempre fui um ativista, Padre, sempre participei de ações sociais e políticas em prol dos pobres, dos abandonados pelo poder público. Mas nunca me senti realmente satisfeito, achava que fazia pouco. Era católico praticante, observador dos preceitos, dizimista, mas hoje venho confessar que violo o primeiro dos mandamentos.

O senhor levou um susto, Pad…

TAN TAN TAN TAN >> Fernanda Pinho

É MAIS ALÉM >> Carla Dias >>

A lua metafísica na poça de lama, Ponteiros que disparam Ao contrário das horas Hora de saber o que mudou em você, Que olha no espelho e não vê ninguém É mais, é mais, é mais, é mais além "Mais Além", de Lenine, Lula Queiroga, Bráulio Tavares e  Ivan Santos
Eu não sei contar horas, sou dissoluta e redundante quando se trata de contabilizar minutos. Esmaeço, a palidez enobrece o impossível ato de memorar segundos. Eu não sei fazer hora, porque me atropelam tantos pensamentos que nem sei quantos, e acabo correndo porque necessito de vento na cara, de mudança de cenários.
Certa vez me chamaram desagrado, porque teimava em não concordar com o definido, que era mesmo um pensamento padronizado dando cabo do destino de algo maior, muito mais humano, aquém das horas, dos minutos, dos segundos. Algo que não cabia em respostas preparadas, em decisões ancestrais, na geometria das certezas. Percebi, então, que desagrada a muitos o fato de ser preciso pensar o ser humano também como indivíduo,…

NÃO >> Albir José Inácio da Silva

As goteiras deixaram no chão do barraco uma lama em que afundavam os pés. Duas velhas portas de armário formavam ilhas no barro, e era aí que elas estavam sentadas. Conceição contava o assédio de uma colega pelo chefe.


- Mãe, ele é capaz de cumprir. Não tem nada a perder. E ela precisa trabalhar.


Não tinha mesmo nada a perder. Era o encarregado, e ameaçava com demissão por justa causa quem ousasse “dizer calúnia”, que significava contar qualquer coisa que ele fizesse. E em voz baixa ameaçava também as que não fossem boazinhas.


Conceição chegou há um mês na fábrica, ele ainda não tinha proposto nada, mas seu olhar a intimidou desde o primeiro dia. Sabia, pela conversa com as outras, que sua vez chegaria. No trabalho ela se destacava, aprendeu todas as funções, terminava rápido e ajudava as colegas. Era seu primeiro emprego. Antes ajudava a mãe com a roupa e com a faxina na casa dos outros. A mãe doente não podia mais, e esse trabalho parecia a salvação. Talvez por causa do seu desemp…

PROCURA-SE UM CRONISTA
>> Eduardo Loureiro Jr.

Procura-se um cronista que escreva aos domingos e que seja acordado assim pela Palavra: "Quer fazer sexo comigo?"

Procura-se um cronista que mergulhe fundo no mar para saciar a sede dos sonhos que teve ao madrugar.

Procura-se um cronista que escute intensamente em seu ouvido a música cujo ritmo seus dedos irão seguindo — "lá vem a santa maldita euforia, que me alucina, me joga e me rodopia".

Procura-se um cronista corajosamente indignado com tudo que não presta e, ao mesmo, ingenuamente esperançoso de que tudo — do bom e do melhor — está à espreita.

Procura-se um cronista que esteja descansado para falar palavras sobre as coisas sem jeito que traz em seu peito — e que eu achava tão bom.

Procura-se um cronista que faça, para si mesmo e para seus leitores, um macarrão de letrinhas simples e bem intencionado, tão saboroso de comer quanto fácil de lavar os pratos.

Procura-se um cronista que — mesmo que não tenha sono — se deite após o almoço, e que sinta a paz profunda…

o nascimento alheio o nascimento de si o nascimento de si no alheio e do alheio em si >> leonardo marona

Aconteceu uma coisa e não consigo me desvencilhar de pensar nela o tempo todo, desde que aconteceu. Algo foi gerado dentro de um corpo enquanto eu também estava dentro desse corpo gerando a mim mesmo, “ganhando vida”, como se diz nos bosques queimados. Portanto, algo foi gerado dentro de um corpo enquanto eu mesmo me gerava dentro dele. Ciúmes do algo gerado, porque esse algo gerado foi gerado dentro, por forças de fora; seu estado é, portanto, de dádiva pura, aparição, profecia, milagre da existência divina. Já no meu caso, fui gerado a mim mesmo dentro do mesmo corpo, mas esse corpo não me gerou, não se trata, portanto, de aparição; a situação é  mais sofrível, pois parte da falta de escolhas, mas da impossibilidade de não escolher. Fui eu que me gerei nesse corpo e, apesar de responder por isso em pessoa, porque eu fui até esse corpo pessoalmente, ou seja, uma pessoa fez isso por mim, no meu lugar, como que substituindo o eumesmo mais crítico e inatingível, que, este sim, através d…

MIMIMI NÃO É PROBLEMA >> Mariana Scherma

Eu ando meio invocada com a expressão que virou praga moda nas redes sociais e, consequentemente, na vida real: o mimimi. Primeiro, quase gostei, achei simpática. Depois, cansei, peguei birra. Por um motivo justo, vai: (quase) todo mundo postava reclamações nas redes sociais e, por fim, acrescentava #momentomimimi, como se ficasse engraçado ou justificasse encher a timeline alheia de chateação.
Isso mesmo, chateação. A verdade é que existe uma multidão de personalidades dentro de nós mesmos: tem a versão chorona, que assiste secretamente a comédias românticas bestinhas. A versão revoltada com os abusos da política e com a palhaçada (sem graça, claro) que virou o horário político. A hipocondríaca que, ao ficar com a boca seca, não acredita que a causa é o tempo seco, mas sim uma provável diabetes. Uma superlotação em nós mesmos. E o grande desafio de ser uma pessoa agradável é juntar todas essas facetas, fazer uma média e liberar ao mundo a parte boa de tudo isso. Mais ou menos como s…

EU NÃO SOU UM CURRÍCULO >> Carla Dias >>

De alguns anos pra cá, tornou-se complicado se apresentar ao outro. Na minha cabeça moram lembranças de quando minha mãe me apresentava para as pessoas: essa é a Carla, minha filha. A partir daí, era dever do novo conhecido descobrir a pessoa que eu era e vice-versa. Levávamos certo tempo para descobrir o outro e isso era positivo.
Quando comecei a trabalhar, percebi que não bastava ser a pessoa que era. Profissionalmente, o currículo adianta o expediente, aponta o necessário, resume nossas habilidades.
Na minha compreensão, o trabalho exigia currículo e a vida pessoal exigia tempo e boa vontade para se permitir conhecer e conhecer ao outro. Era algo simples, que funcionava muito bem, que fazia sentido. Mas isso mudou.
O primeiro sinal de que seria necessário mais que um “muito prazer” para começar um relacionamento com outra pessoa, foi quando um amigo me apresentou a um amigo dele assim: “essa é a Carla, ela é baterista, toca em uma banda de Blues, junto com três caras, mora em São…

UM ÓTIMO LIVRO! >> Clara Braga

Dizem que um gesto diz mais que mil palavras. Tudo bem, concordo que um gesto diz muito, mas vai dizer que se esse gesto vier seguido de um cartão com lindas palavras de carinho, o ato como um todo não vai ficar mais bonito?

Não entendo esse medo que as pessoas têm da palavra. É bem verdade que nos últimos tempos tem ficado difícil acreditar só nas palavras, as pessoas tem falado muito e feito pouco, mas também não precisa exagerar né, as palavras não tem culpa de nada, a culpa é de quem não sabe usá-las direito.

Não me dou muito bem com as palavras faladas quando elas precisam ser ditas em público, mas contar histórias, para mim, é uma arte, e escrever é uma satisfação! Descobri que sou uma apaixonada por palavras e que isso não é ruim, por mais que eu seja criticada por pessoas que acham que palavras não significam nada, essas pessoas é que não sabem o que estão perdendo!

Descobri essa classificação, apaixonada por palavras, no livro homônimo de Paulo Pimenta, que escrevia aqui no …

ACONTECE >> André Ferrer

Há tempos, um fragmento de texto ocorreu-me. Chamei-o, logo, de O baile fantasma. Procurei um vídeo de uma canção antiga no YouTube (Guitar Man do Bread foi a escolhida). Insatisfeito, não só publiquei no Facebook como também no Google Plus.
Neste sábado, a estranha sensação que me fez escrever, ilustrar e publicar O baile fantasma de uma forma tão impulsiva reapareceu. Ela sempre volta. Acontece, a miúde, em diversos locais e ocasiões. Dessa vez eram as notícias da crise portuguesa e, num dos artigos que eu lia, encontrei uma foto clássica dos anos de 1970, emblema da Revolução finalizadora do salazarismo. A garotinha diante de um fuzil. Os braços erguidos. Um cravo que acabava de entrar no cano da arma pelas mãos da pequena. Ocorreu-me, assim, a certeza de que da imagem da flor, há muito batida, já era difícil extrair poesia no século passado. Nos dias que avançam, pior ainda! Um poeta não deve buscar a sua arte nas coisas triviais, ainda que belas, e sim no deslocamento dessas coisas.…

EDUCAÇÃO MINEIRA >> Whisner Fraga

Eu era nerd, todo mundo sabia, e meus pais desconfiavam. Pais têm a tendência de achar que filho é a última bolacha do pacote, né? Os meus eram muito rígidos e davam mostras de não valorizar muito o que fazíamos. Acho que só fui ouvir um elogio deles quando passei dos vinte e um e foi algo do tipo: “é, não tá de todo ruim não.” Caramba, uma vez fui chamado à sala, aquele clima de puxão de orelha e tive de escutar: “é, meu filho, e esse nove aqui, o que aconteceu?” Entenderam? Não aceitavam que eu tirasse menos de nove e meio.

Aí eu ponderava que podia haver algo errado. Acho que as famílias ituiutabanas são um pouco incoerentes. Ou será um privilégio dos mineiros? Eu rebatia: “uai, mas o meu irmão só tira vermelho e ninguém cobra um nove e meio dele!” Cada um dentro das suas capacidades, argumentavam. Ou seja: se eu começasse a vida estudantil só no quatro, quatro e meio, ninguém ia discutir. A partir dessa época, comecei a achar que a história de gostarem do mesmo tanto de todos os …

O LEILÃO [Ana González]

Será uma espécie de leilão. A casa vai ser desfeita. Quem vai ficar com o quê? E as pessoas que vão comprar o que sobrar, quem são?

Despeço-me dos objetos. Não, não sou apegada tanto como pode parecer e eu nem morei lá. É que tudo tem uma história. A cristaleira cheia de copos e a sopeira na mesa da sala de jantar. Aquela estante de livros com portas de vidro do escritório.

Dói. Se eu tirar fotos dos cantos consigo segurar o que há por lá? Pensando bem, isso nem seria justo comigo. Para quê, depois de tantas crises? Mas que família é diferente disso? Vejo famílias como caldeirões do inferno. Essa imagem é forte e um tanto caricata, mas não longe da verdade. Tá bom, há também um pouco de paraíso: o cheiro do bolo da mãe, as risadas, a comida fumegante. Risadas? Quando mesmo?

A tapeçaria comprada em viagem. As peças em metal dourado com desenhos lindos e os elefantes cravejados de pedras coloridas. Um pouco de mim ficou lá longe, testemunhando na distância. Um muito de mim ficou nesses …

O PORTEIRO >> Zoraya Cesar

O prédio era antigo, estilo art déco, grandioso, decadente, e Valdo se apaixonou por ele no instante quem subiu o primeiro degrau. Sentiu como se nunca mais fosse sair dali. Quem o recebeu foi o zelador, a quem iria substituir. — E aí, tudo bem? Preparado pra pegar no batente? — perguntou o chefe dos porteiros, olhando-o de alto a baixo. Valdo era pintosão, cara de paraíba macho, daqueles que falam pouco, forte e caladão. Era o tipo certo, pensou. — Entende de encanamento, serviço de pedreiro, essas coisas? Esse prédio é velho, vive dando encrenca. — Sei sim senhor, respondeu Valdo, sem mentir, olhando embasbacado a beleza em volta. Poucos dias depois, antes de se despedir, o zelador segurou no braço de Valdo, olhou bem pra ele e sussurrou: o segredo para ficar no emprego é a síndica, rapaz, ela tem de gostar de você, entendeu? Ela tem de gostar de você! Valdo estranhou, é claro que a síndica tinha de gostar dele, era a patroa! E foi tratar da vida. Já conhecia todos os moradores, me…

OS DO CONTRA >> Fernanda Pinho