quinta-feira, 13 de setembro de 2012

OS DO CONTRA >> Fernanda Pinho



Há anos me dedico à análise de um tipo não muito incomum: os do contra. Quis o destino que essa linhagem de gente que tanto me intriga sempre estivesse presente em minha vida, de modo que tenho uma boa amostragem para minha análise.

Claro, antes de assumir uma postura analítica, o que os do contra despertavam em mim era uma forte irritação. São, antes de tudo, chatos (ainda que para alguns departamentos da vida possam ser pessoas adoráveis). São chatos porque não te permite compartilhar nada. Os do contra inibem nas outras pessoas o desejo de partilhar a descoberta de um restaurante legal ou de um filme genial. Porque mesmo sem conhecer o restaurante, mesmo sem conhecer o filme ele já vai rechaçar sua opinião e dizer que sabe de outro restaurante ou outro filme muito melhor. São chatos porque são inconvenientes. Quem nunca presenciou um
do contra vendo um trabalho de outra pessoa pronto e alfinetando com  um "é, até que ficou bom, mas ficaria melhor se...". Se nada! Queria ajudar? Que desse opinião antes. Não adianta botar defeito depois que outra pensou já desprendeu seus esforços em alguma tarefa. São chatos porque confundem os outros. Eu, em algum momento de insegurança em minha vida, quase mordi a isca dos do contra, chegando a cogitar: "será que eu só falo besteira?".

Eles são como os donos da verdade, mas com um plus: desde que a verdade seja diferente da do outro. Verdades que mudam ao sabor da conversa, vale dizer. Se eu digo hoje que o amarelo é o mais bonito, ele vai fazer de tudo para me convencer de que o azul é A Cor. Mas se depois de amanhã eu apareço toda de azul, ele vai dar um jeitinho de dizer "sei lá, de amarelo talvez você fique melhor". Ih, já cansei de fazer essas pegadinhas com seres dessa espécie e me divirto.

Sim, porque depois que passei a aceitar os do contra (eles são assim, e eu que não sou do contra não posso contrariar) passei a me divertir com eles. Observando os esforços que lançam para manter a postura de nunca, jamais, concordar com que o outro diz. Dá até uma certa pena, porque os do contra não relaxam nunca. Numa conversa, nunca podem se render e soltar um despretensioso e libertador "é mesmo". Precisam contrargumentar ou serão sufocados pela opinião alheia. Com o tempo, também passam a ser deixados de lado. Para quê pedir a opinião de alguém que sempre vai discordar de você? Ok. Não devemos buscar concordância sempre. Mas o do contra não tem credibilidade, pois é sabido que sua opinião só tem um sentido: o oposto.  

Já tentei, em vão, compreender de onde vem essa necessidade de remar contra a maré. O mais próximo que cheguei de uma conclusão foi a hipótese de que, talvez, a ideia de ser invariavelmente discordante venha do desejo de chamar atenção. E dá certo. Olha eu aqui dedicando minha humilde crônica a eles. Uma crônica para ninguém, convenhamos. Pois se você não é do contra, não vai se identificar.  Se é, não vai concordar comigo. 


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4 comentários:

albir disse...

Fernanda,
não gosto de ser do contra. Mas confesso que, às vezes, cedo à tentação de provocar, nem que seja pra reconsiderar depois.

Paula irmã disse...

Adorei esta crônica.. Se não me engano, o seu "do contra" favorito é o meu favorito também! hahahaha

Fabí R, Boratto disse...

Fernanda, concordo com você em muitos aspectos, acho também que pessoas "do contra" são as que menos tem opinião, pois querem apenas contrariar o que os outros dizem e acabam não mostrando sua própria opinião e sim uma contrária à qualquer outra.

Anônimo disse...

Isso mesmo! Querem apenas contrariar o que oa outros dizem sem o mínimo de análise, chegando a níveis extremos de ignorância! Pois sem argumento plausível algum, se limitam a responder com o fundamento do "porque sim ou porque não" lamentável este tipo de personalidade. Tenho curiosidade de saber se isso é algum tipo de transtorno ou de trauma, deve haver alguma explicação!