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Mostrando postagens de Fevereiro, 2016

TUDO RESOLVIDO >> André Ferrer

Hoje, no momento em que você lê esta crônica, todos já sabem. De DiCaprio ao “nosso” representante no Oscar, tudo resolvido.

No que se refere à animação “O menino e o mundo”, ontem, 28 de fevereiro, domingo, 20:45 horas, permaneciam as minhas dúvidas. Uma vez mais, era a temática social da obra que me colocava uma pulga atrás da orelha.

Desde 1963, quando “O pagador de promessas” foi indicado (mas perdeu para a produção francesa “Sempre aos domingos”), todos os nossos longas indicados trouxeram, no fundo, aquela mensagem sociológica que, se ajuda na indicação, não tem força suficiente na etapa seguinte: a decisiva.

Será que os realizadores do cinema nacional só conseguem grana para produções desse tipo?

“O menino e o mundo” e “Central do Brasil” (1999) contam a mesma história da criança em busca da figura paterna. Suas peripécias habitam uma terra cheia daquelas misérias de que já nos cansamos de ver nos noticiários.

Não tardará e os estrangeiros também se cansarão.

Antigamente, o Bra…

MANUEL E FRANCISCA >> Sergio Geia

Se você me permite, caro leitor, hoje vou contar a história de dois amigos meus. A permissão deles eu já tenho, lavrada e assinada em cartório. Não quero perder a amizade desses dois lusitanos, nem sofrer um processo de indenização.

Manuel e Francisca se conheceram no curso de Letras, em Coimbra. Estudaram na mesma classe e se tornaram amigos. Era uma amizade honesta, tão pura quanto uma flor de jasmim. A amizade durou até o último ano, quando Francisca estilhaçou com o muro do amor fraternal, para incluir um elemento novo que distingue todos os amores do amor conjugal: o sexo.

Na visão de Francisca, Manuel também queria o mesmo, mas era tímido. Nesse tempo estudávamos todos juntos. Eu, meio que intrometido, fazendo um curso rápido de especialização em poesia lusitana. Um dia, Francisca, já cansada da lentidão de Manuel, inventou uma desculpa de que seu carro estava com problemas. Manuel prontamente a socorreu. Levou-a até um mecânico em Torres Novas, conhecido como Variante do Bom Am…

A SECRETÁRIA (Final) >> Zoraya Cesar

Leia A Secretária – parte I
(O plano era simples: Dr. Roberto casaria com a filha do presidente da empresa e, após a morte do sogro, assumiria seu lugar. Tempos depois, já consolidado no cargo, pediria o divórcio à mulher. E se casaria com D. Volga, sua secretária, sua amante secreta.)

Leia A Secretária – parte II
(Foram necessários dez anos para as peças se encaixarem. Dez anos de solidão para ela. Dez anos de inferno para ele. E, ainda assim, a última jogada não dera certo: a esposa de Dr. Roberto não só negou o divórcio, como ameaçou usar toda sua influência de sócia majoritária para tirar o marido da presidência.)
E agora? D. Volga não podia viver sem o homem que amara desde o primeiro momento, nem passar o resto de seus dias sendo, apenas, ‘a secretária’. Dr. Roberto não prescindiria do cargo que tanto almejara, pelo qual trabalhara 12 horas por dia e casara com uma mulher insuportável. E nenhum dos dois queria perder o emprego, ambos já não tão jovens, já mais cansados. Mas ainda mu…

FARINHA POUCA, MEU PIRÃO PRIMEIRO
>> Analu Faria

Somos o maior país católico do mundo. Era de se esperar que fôssemos solidários, compassivos, abnegados. Não somos. Gostamos de levar vantagem em tudo (ou quase tudo). Aliás, nem sei se “gostamos”. APRENDEMOS que isso é o certo a fazer. Se não seguirmos a lei de Gerson, seremos idiotas, seremos passados para trás.

Somos considerados um povo caloroso e cheio de amor para dar. Era de se esperar que nos preocupássemos com o próximo como quem se preocupa com a família. A verdade é que vemos a coletividade como inimiga e nossos “chegados” como aliados. A estes, tudo. Àqueles, bem... que Deus os proteja.

Somos tidos como criativos. Era de se esperar que valorizássemos os inventores, os artistas, os estudiosos. Só que não: quem expõe nas galerias é o amigo do amigo de não sei quem ou, quando muito, artistas visuais conseguem expor com ajuda governamental (isso porque ficamos só nos artistas visuais). Inventores e estudiosos têm que lutar para convencer a família, os amigos, o governo de que …

CAÇADORA DE LAMBRIS >> Carla Dias >>

Minha avó tinha uma disposição inesgotável para conhecer lambris. Era de uma indecência a forma como ela praticamente invadia o emocional das pessoas, valendo-se de histórias sobre sua infância, apenas para ser convidada a entrar nas casas delas e botar seus grandes e azuis olhos em tal peça. Minutos depois, desejo saciado, ela bradava: belíssimos!

Ela nunca encontrou lambris que pudessem mudar sua palavra final, aquela que, com o decorrer dos anos, compreendi como sendo o ponto final de sua jornada na casa alheia. Depois dela, a senhora esquisitinha, de um jeito aprazível, com a elegância que sempre lhe coube, partia e deixava ao dono da casa a sensação de ter sido visitado por alguma entidade.

Penso em minha avó nesse cenário tão diferente daquele que marcou minha infância; de pessoas que falam mais alto do que as outras, temerosas de não serem ouvidas e perderem seu espaço.

Mas que espaço é esse?

Eu tentei ser caçadora de lambris, quando menina. Sonhava em herdar o cargo da minha …

APENAS UM DESABAFO >> Clara Braga

Um professor, entendendo seu papel em sala de aula, se sentiu na obrigação de explicar naquele momento que Noé e a arca são um mito. Não demorou para que um se ofendesse e ficasse emburrado no canto, achando ruim o fato do professor estar desrespeitando a religião dele.

Em outro momento, um pai contacta a instituição e afirma: "Caso algum outro professor diga que as feições de Jesus eram mais parecidas com as de um muçulmano do que com esses traços europeus que estamos acostumados a ver, vou processar a instituição! Vocês não têm direito de desrespeitar a minha religião!"

Durante uma festa das regiões, vários grupos se apresentaram dançando músicas e ritmos típicos de cada região. Dançar funk jamais seria um problema, mas "é sério que vocês querem colocar essas crianças dançando maracatu? Elas não merecem ter suas religiões desrespeitadas!"

Em uma loja colaborativa de Brasília, os vendedores estão com medo de serem apedrejados. A todo momento, passa alguém na porta…

REVERTERE AD LOCUM TUUM (Final)
>> Albir José Inácio da Silva

[Continuação das partes 1 e 2]


Sem documentos, Augusto acordou três dias depois e informou o único telefone que sabia de cor, e a assistente social fez a ligação pra funerária, interrompendo a compra e venda que já estava assinada.
A angústia do naufrágio e as longas horas na enfermaria deram a Augusto o tempo para refletir sobre a vida, a família e a pobre Quinca. Ela passou os últimos anos tentando convencê-lo da loucura do seu empreendimento.  A Bíblia era o principal argumento:
— Deus disse a Adão, “tu és pó e ao pó tornarás”. Ao pó e não ao palácio! E Jesus disse, “deixe que os mortos enterrem seus mortos”. É pecado ficar se preocupando com o corpo que já morreu. E é viva que eu preciso de conforto!
Augusto chegou ao Rio com a cabeça enfaixada e cheia de remorsos. Era sua culpa. A pobre Quinca estava doente, sedada e algemada numa maca, e ele nem sabia se ela iria se recuperar. Havia ainda o prejuízo da funerária que chegava a milhares de reais. Mas era tempo de agir, não de l…

ONDA >> Paulo Meireles Barguil

 Na semana passada, foi anunciada a 1ª detecção de ondas gravitacionais, tal como previra Einstein há um século.

A explicação técnica desse fenômeno e as consequências para a Astronomia você encontrará em vários sites, mas não nesta crônica. :-)
Uma síntese do que entendi: quando objetos muito maciços interagem, em virtude da magnitude da força da gravidade entre eles, há uma produção de ondas que se propagam no espaço-tempo, as quais podem ser captadas.
Intriga-me, contudo, ainda não ter visto alguém relacionar isso com o fato de que, há milênios, vários povos, não sei quem foi o primeiro ou quem será o último, afirmarem que o Homem é composto de campos energéticos, os quais suscitam variadas interpretações e terapias.

Só continue a leitura se seu nível de misericórdia estiver razoável, pois ousarei redigir sobre algo em que me considero bronco.

Chacra, oriundo de chakra, em Sânscrito, significa roda de luz.
Não vou explicar aqui aspectos de cada chacra referentes a formato, local…

NÃO É UM SPOILER >> Mariana Scherma

Quando eu era adolescente, a gente não falava spoiler. A gente só dizia: “não me conta o fim do filme/do livro/do episódio". Não me lembro de ler, na infância-adolescência, páginas com avisos de alerta de spoiler. Essa palavra é meio nova para uma coisa antiga: pessoas de língua solta. Eu sou alguém da língua solta assumida. Quando vejo, falei demais e falei rápido demais. Foi mal, todo mundo que já quis me matar.

Mas em minha defesa acredito que as pessoas estão muito cheia de não-me-. Essa coisa de spoiler precisa ser mais definida. A gente sempre leu uma coisinha ou outra disso e daquilo. Agora tudo virou spoiler. Exemplo um, quando você vai comentar um filme com um amigo que detesta spoiler:

— Então, porque aí o protagonista viaja...

— Para de falar spoiler!

Senhor dos Cinemas, isso não é spoiler. É o começo da história, que você lê em qualquer sinopse pequenininha de jornal.

Exemplo dois, quando você vai dizer que filme viu.

— Aí o filme que vi nesse sábado...

— Não quero sa…

DE PASSAGEM >> Carla Dias >>

Há momentos em que se sente uma boa pessoa, daquelas dadas à benevolência na sua essência, sem expectativas, espera por recompensa.  Em outros, segue seu caminho acabrunhada, sem nem mesmo rasa vontade de tentar compreender seu semelhante. E há quando se aprofunda na vida de uma pessoa, por pura curiosidade.

O que pode garantir é que não nasceu para a plenitude. Quem a conhece, já sabe que dela não se pode esperar isso ou aquilo, que ela soa nesse mundo feito improviso. Há quem tente desvendá-la, mas em vão. Como aquela moça que a conheceu, ainda outro dia, na fila do caixa de um bar. Elas conversaram durante toda a espera, e a moça do bar acreditou que encontrara uma amiga para a vida. Saíram juntas, algumas vezes, até que...

O moço, sem sal, monossilábico e deveras arrogante, destoa da moça do bar, uma figura alegre, comunicativa. A moça do bar se mostra animada por, finalmente, apresentar à outra seu noivo de longa data: quatro anos, sete meses, vinte e sete dias.

A outra segura a…

FECHANDO UM, COMEÇANDO OUTRO >> Clara Braga

Ano passado fiz questão de fechar meu ano com chave de ouro. Fui para São Paulo e completei os 15km da São Silvestre. Muitos devem estar se perguntando: e isso lá é fechar o ano com chave de ouro? Bom, para mim e outras 33 mil pessoas, sim, isso é fechar o ano da melhor forma possível!

De lá pra cá, orgulhosa e feliz que estou com a minha conquista, sempre que me perguntam sobre meu Ano Novo eu digo: espero que aquela lenda de que o que você faz no último dia do ano você vai fazer o resto do ano todo seja verdade, assim vou passar meu 2016 correndo! Sério, correndo? Sim, correndo!

Os comentários são os mais diversos: não vejo algo mais idiota do que corrida, fechar a rua para um monte de idiota sair correndo não faz sentido algum! Ou então: você está correndo? Que legal, não esperava isso de você! Ou até: nossa, muito legal, mas eu costumo usar minhas férias para descansar e não cansar mais!

Além dos comentários sempre tem quem pergunte sobre o caso daquele senhor: você viu o senhor q…

TEREZA >> André Ferrer

“Entre, meu amigo!”, disse eu para ele.

Magro, sempre magro, mas um monte nas atitudes. Pior, achava-se, muito inconvenientemente, um divisor de águas.

“O que foi desta vez, meu amigo?”

“Tereza.”

“Ainda!”

“Tereza.”

“Ah, sim! Tereza.”

“Tereza.”

“Pois, então, eu vou repetir para você: meu amigo, todo ingênuo é, antes, um maniqueísta”, pausei. Eu precisava respirar e, muito a contragosto, admitir que me prestava àquele papel de Maomé desde o jardim de infância.

“Monte, meu amigo”, não falei. Disse o de sempre. Evasivo, mas direto, eu repeti que o mundo não podia ser visto sob tão simplória cartografia. Tirante a do Equador, havia um sem-número de linhas possíveis e imaginárias: a Kundalini, as paralelas, a Sorocabana, as cortantes, a linha do meio de campo.

“Enfim, a vida não é um jogo simples.”

“Não! E Os Com Camisa versus Os Sem Camisa?”

“Esqueça”, respondi, contendo-me outra vez.

“Tereza.”

“Tereza. Cruzar ou casar. Trepar ou casar. O bem e o mal.”

“Tereza.”

"Escute, aqui, uma coi…

DE COMO ABRIR UM COFRE >> Whisner Fraga

Final de semana e o patrão liga para meu pai, aflito:

— Mamede, você se lembra do segredo do cofre aqui de casa?

— Uai, não lembro não, sô. Aliás, nem sei se você já me contou algum dia a combinação. Mas não tem problema, já abri vários cofres sem saber a numeração. Se o senhor quiser, dou um pulo aí e tento.

O patrão quis. E claro que meu pai nunca destrancara nenhum cofre, com ou sem segredo.

Verdade também que era sábado início de noite e meu pai já havia bebido umas duas cervejas, de modo que estava mais animado e corajoso que de costume. E meu pai mais animado e corajoso que de costume era um perigo.

Disparou para o corredor, pegou a lambreta e rumou para a casa do patrão.

Foi bem recebido. Muito bem, aliás.

— Aceita um uisquinho, pra relaxar, Mamede?

Não, meu pai não era disso. Mas se tivesse uma Brahma, aceitava.

Tinha.

Encarou o cofre: nunca tinha visto mais gordo. Puxou pela lembrança. Verdade, o patrão tinha lhe passado uns números anotados no verso de uma nota promissória. …

VIZINHOS >> Sergio Geia

Meu vizinho comprou uma chacrinha. Lembro-me que quando se deu a assinatura dos papéis ele estava feliz da vida. Disse-me que não tinha intenção de mudar pra lá. O que queria mesmo era poder se retirar nos finais de semana. Levar a família, a criançada, estender rede, dormir ao som dos bichos. Falou-me que não havia coisa melhor na vida que tomar uma cachaça bem de tardezinha, quando a noite começa a cair, sentir o bafo frio do mato a invadir a casa, a patroa já cuidando do ensopado no fogão.

Pois assim ocorre sem falhas. Nos finais de semana, meu vizinho some com a patroa e as crianças, deixando coisa nenhuma pra trás, exceto um moço que já não comunga mais da simplicidade da roça, e um pobre cachorro. Ah, e a minha desgraça, que hei de lhe contar.

A primeira vez que ele chorou não dei muita importância, afinal é comum a família sair e o cão ficar a resmungar de saudade. Logo acostuma, pensei. No entanto, quando a choradeira começou a se repetir todas as semanas, eu comecei a prestar…

A SECRETÁRIA (2ª parte) >> Zoraya Cesar

A Secretária (1ª parte)
Então, conforme sabemos, o sogro do Dr. Roberto morreu, deixando a filha muito bem de vida, possuidora de polpuda carteira de ações com direito a voto e a vetos. Sabemos, também, que Dr. Roberto e D. Volga, sua secretária, eram amantes de longa data. 
O que não sabemos? O que eles, chefe e secretária, pretendiam. 
O plano era simples: Dr. Roberto assumiria a presidência da empresa, aumentando seu poder financeiro e esfera de influência (coisa que o sogro, enquanto vivo, jamais permitiu), minando, aos poucos a ascendência da esposa — uma das acionistas majoritárias — sobre seu destino. E, assim, pedir o divórcio, sem correr o risco de ficar ao léu. Passados, ambos, dos 30 anos, nem ele nem D. Volga tencionavam fazer dos classificados de emprego uma leitura obrigatória. Somente algum tempo depois da separação ele assumiria seu romance com D. Volga — tudo cuidadosamente orquestrado para não causar escândalo dentro da empresa, nem parecer que fora tudo... cuidadosamen…

ALL YOU NEED IS INTERPRETAÇÃO DE TEXTO
>> Analu Faria

A Lexicon é uma companhia que trabalha com dar nome a empresas e produtos. Não é um empreendimento de marketing exaaaatamente. Quero dizer, na verdade, é, mas não cuida da estratégia de marketing como um todo. A Lexicon é especializada em uma parte bem específica da identidade da empresa ou do produto: o nome. Foi ela quem deu o nome de “BlackBerry” ao aparelho que deveria se chamar “EasyMail”. Se o BlackBerry já não é uma unanimidade, imagina com esse lindo e funcional nome de “EasyMail”…

Vi uma entrevista na TV, feita com um dos executivos da empresa. Ele falava sobre a sonoridade do “b” e sobre como essa sonoridade poderia definir o que se pensa da marca. Também falou sobre o fato de ser uma palavra “curta e grossa” (tradução minha para as muitas palavras que ele usou, em inglês, para dizer que os fonemas de “blackberry” denotam algo que “vai direto ao ponto”) e de como essa ideia se encaixava bem no que o aparelho oferecia de diferente ao consumidor. Disse, ainda, que blackberry (…

MINUTO DE SILÊNCIO >> Carla Dias >>

Sorri, faz reverência e então...

Ao seu redor, boquiabertos e arrítmicos, os outros o observam. Alguns até ousam lançar ao vento seus comentários destecidos: o que pode um ser humano desses querer da vida, dando-se ao desfrute de desfilar tal afronta durante o minuto de silêncio?

Há muito tempo, o minuto de silêncio se tornou a forma mais cativante de angariar compadecimento, vencendo todas as campanhas publicitárias de tarimbadas agências. Quem lançou a moda, e ajudou a torná-la orgulho mundial, foi um ator não muito conhecido, que, por puro partidarismo emocional — era marido da estrela principal — acabou ocupando o cargo de mocinho corajoso em um badalado filme de Hollywood. O fiasco foi inevitável, que não houve roteirista e diretor que desse jeito na falta de talento do moço. O que os envolvidos com o filme não esperavam é que seria ele — quem se tornara a piada da vez e o ex da estrela principal do filme — que mudaria o mundo.

A atriz principal se retirou do relacionamento vale…

DIA DO AMIGO >> Clara Braga

O Facebook quase me enganou! Aliás, eu e muitas pessoas ficamos nos perguntando: mas já é dia do amigo de novo? Ou então: tem mais de um dia do amigo por ano agora? Mas não era nada disso, era apenas aniversário dessa ferramenta que nos aproxima de amigos antigos e perdidos, mas que as vezes nos afasta dos que podiam estar mais próximos.

Dei uma olhada no vídeo que me foi sugerido, provavelmente uma escolha de amigos que se baseia na interatividade na própria rede, o que fez com que algumas pessoas ali nem fossem assim tão amigos, mas valeu pelos momentos que foram relembrados. Mas os insatisfeitos tinham a opção de editar e colocar lá as fotos que eram mais significativas.

Se eu tiraria alguma foto ou algum amigo? Talvez. Mas com certeza adicionaria uma pessoa com quem não tenho contato há muito tempo, mas que é muito significativa: a minha primeira melhor amiga!

Já pararam para pensar na importância do primeiro/primeira melhor amiga/amigo? É com o primeiro melhor amigo que começamos…

REVERTERE AD LOCUM TUUM (2ª parte)
>> Albir José Inácio da Silva

(Continuação de 25/01)

O telefonema que desencadeou a crise tinha vindo de um hospital em Angra dos Reis.

Na semana passada, deslumbrado com uma escultura que viu no Cemitério do Caju, Augusto foi à Ilha Grande procurar o artista e encomendar um busto em mármore para coroar o seu chalé.  Disse à família que viajava a trabalho, a verdade só o Durval sabia.

Durval sempre sabia. Era o único que apoiava a empreitada de Seu Augusto. “É o desejo dele. Tem que ser respeitado”, dizia. Numa tarde sonolenta, Augusto tinha chegado à funerária, humilde e falando baixo. Durval, acostumado com a dificuldade desses momentos, também falava baixo, atencioso e prestativo. A conversa avançou e ele descobriu que Seu Augusto não tinha um defunto, mas tinha muitas perguntas.

— Seu Augusto, tem jazigo de todo preço, mas, uma vez adquirido o espaço, o senhor pode ir melhorando, valorizando, é como uma casa.

Augusto não se preocupava com a morte, “todos morreremos algum dia e isso não é bom nem mal, é a vida”…

10 VERGONHAS DUPLAS >> Eduardo Loureiro Jr.

Estou com vergonha de escrever esta crônica e tenho vergonha de ter vergonha.

Tenho vergonha de dormir enquanto outras pessoas trabalham para mim e tenho vergonha de lhes pagar um salário que eu mesmo não aceitaria se fizesse aquele tipo de serviço.

Tenho vergonha de ganhar dinheiro e tenho vergonha de gastar dinheiro.

Tenho vergonha de me vestir bem e tenho vergonha de ficar nu.

Tenho vergonha ao ser repreendido e tenho vergonha ao ser elogiado.

Tenho vergonha dos meus sonhos e tenho vergonha de invejar os sonhos realizados dos outros.

Tenho vergonha de olhar e tenho vergonha de ser olhado.

Tenho vergonha de dizer o que sinto e tenho vergonha de não sentir o que digo.

Tenho vergonha de escrever coisas bem específicas e tenho vergonha de estar escrevendo coisas genéricas.

Tenho vergonha de falar das minhas vergonhas e tenho vergonha de lhe perguntar: Quais são as suas vergonhas?

NA FAIXA >> Cristiana Moura

E por um segundo a menina parou. Doou-me um sorriso. Não sei quem é nem seu nome. É miúda, penso que tenha quatro ou cinco anos. Eu sorri quase que por um reflexo pleno de gratidão.

Puxada pela mão ela atravessava a faixa de pedestres saltitando. Quase ao fim da travessia olhou para mim novamente como se fôssemos velhas conhecidas. Já do outro lado da rua, após uma lenta lambida num picolé cor-de-rosa, seu olhar mais uma vez cruzou o meu com a cumplicidade de quem explicava sua alegria prévia ao atravessar a faixa.

— Meu Deus, que possamos compartir os sorrisos que nascem das pequenas coisas.

POSSIBILIDADES NO EXISTIR >> Paulo Meireles Barguil


ASSISTIR

CONSISTIR

DESISTIR

INEXISTIR

INSISTIR

PERSISTIR

RESISTIR

SUBSISTIR

À PROVA DE LÁGRIMAS >> Carla Dias >>

Conversava com um amigo sobre séries de tevê, especialmente sobre uma que outro amigo me indicou e eu não consigo parar de assistir, How to Get Away with Murder.

Acho que devemos ser gentis com uma conversa. Quando entro em uma, estou pronta para seguir o rumo que ela apontar. Nesse acaso, acabamos nos filmes e séries em que a tecnologia impera soberana, como acontece em Black Mirror. A partir daí, as coisas ficaram mais complexas. Entraram na conversa as questões existenciais, e meu amigo começou a me explicar o quão científico é muito do que penso em tom poético.

Tudo o que remete à inteligência artificial me assusta, não pela descoberta em si, mas pelo hábito do ser humano de se deslumbrar com o poder que adquire e consigo mesmo. Tenho essa impressão, que me incomoda de um jeito, de que não estamos prontos para tratarmos as descobertas que já estão ali, batendo na porta, com a responsabilidade que elas exigem.

Algumas horas depois dessa longa conversa sobre séries, filmes, intelig…

DEPOIS DE TODO AQUELE TEMPO >> André Ferrer

O problema estava naquilo que era ser um professor de Química e sempre discutir a vida em termos de reagentes e produtos. Naquilo que sempre tinha sido transpirar e urinar Lógica. De repente (à luz de um sol que degelava um embrião esquecido), descobriu-se.

Na padaria, inacreditavelmente, deixou passar o tubo de reações "desbalanceadas" do “tiozinho” da caixa. Tolerou, minutos depois, a entrópica ignorância do jornaleiro.

No carro, à “Rádio Que Toca Notícia”, preferiu uma que tocava música e o repórter do helicóptero, dito “fodão do real time”, nem foi lembrado. Trânsito sem oráculo. Dia deixado à ventura.

“Noto que comprou jornal! E que tal?!”, disse o chato na entrada do colégio. “Derrapou, de novo, aquele ‘seu’ herói delator! Hein? Hein? Hein?”

Mesmo sendo minoria — no pátio e na vida —, o bedel não incomodou. Quis. Ardeu. Desejou. E, decerto, como se aquilo fosse o ar de todas as manhãs, aspirou! Inútil. O professor de Química deu de ombros para a política (depois de tod…