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Mostrando postagens de Julho, 2021

MARISA, PORTAS E OUTRAS COISAS MAIS >> Sergio Geia

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    Era uma manhã fria, sentei-me ao sol. Coloquei os fones de ouvido, abri o aplicativo, demorei alguns segundos para decidir se ouvia o álbum fora da ordem, ou se obedecia à sequência escolhida pela artista. Optei pela segunda alternativa, deixei-me enlevar.    Antigamente comprávamos um vinil, havia uma bela capa, o folheto com a letra das músicas, quem era quem naquela misteriosa organização de sons. Era bom ouvir o disco pela primeira vez, deixar a melodia entrar em seu mundo. Nesse novo álbum de Marisa Monte, “Portas”, pelo menos naquela manhã fria e com sol, não havia nada de matéria, nada em que se pudesse tocar ou pegar. Havia apenas sons, que estavam dentro de um telefone. Mas, se não havia nada em que se pudesse tocar, havia sim um toque, muito suave, que eu recebia de bom grado; era eu sendo tocado por “Portas”.    Ainda dentro desse minicomputador em que se transformou o telefone, foi possível ver a capa do álbum, foi possível descobrir que havia uma obra visual assinada

DISCRIÇÃO >> Paulo Meireles Barguil

"Dizem que sou louco por pensar assim Se eu sou muito louco por eu ser feliz" (Arnaldo Baptista e Rita Lee,  Balada do louco ) Numa época em que a (hiper) exposição é valorizada, admito, sem qualquer resistência, que minhas escolhas são, para muitas pessoas, loucuras. Minha página no Facebook , que tem quase uma década, é alimentada apenas quinzenalmente com o link da crônica aqui publicada. Os poucos convites de amizade que recebo são quase todos ignorados. Desculpe-me se você estiver nessa situação. Envie-me uma mensagem privada para que eu possa sanar essa pendência. Depois de muito relutar, criei, há poucos meses, um perfil no Instagram , apenas porque, no contexto pandêmico, ele tem sido muito utilizado para divulgar atividades acadêmicas, o que não significa que eu as acompanhe... Eu sequer cadastrei foto.  E ainda não postei qualquer coisa. Acredito que não preciso divulgar na internet o que faço, vejo, como, penso, sinto... Se eu já pensava assim, imagina agora com

AZZURRINA - parte 01 >>> Nádia Coldebella

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O inverno deitou seu manto branco sobre a humilde Lamon, vestindo a cidade como uma noiva de pele cinza. O pequeno Luigi foi até a janela do quarto e contemplou a vista de rara beleza. As montanhas, muitas delas, despertas desde tempos imemoriais, esforçavam-se para tocar o manto azul do céu. E como sentinelas colossais, dedicavam-se a proteger o milenar lugarejo. Escondiam, em seu ventre, construções muito antigas, tão milenares quanto o vilarejo. Enquanto o branco da neve enchia seus olhos, seu coração encolhia: a vida estava sendo muito dura com toda a gente. Havia fome e doença por toda parte. Muitas pessoas morriam e outras tantas arrumavam suas coisas, fechavam suas casas e partiam rumo a novas terras. Estão do outro lado do mar, dissera o nono, suspirando de saudade de um sonho que nunca acontecera. O pai também pensava nas novas terras, ele sabia, porque depois de lamentar a ingrata sorte para a mãe, falou animadamente daqueles que haviam se arriscado. A mãe, uma mulher muito

GAVETAS >> Carla Dias

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Sobre importâncias que cabem na gaveta e podem ser transportadas em uma sacola de plástico adquirida no supermercado por onze centavos, que virá para casa jurada de não sucumbir aos mares e ser reciclada quando for a hora. Aquelas que cabem somente na cabeça, ela que é considerada um ambiente de vadiagem de pensamentos que se envolvem em um entrelaçado de verdades doídas, corroídas, magníficas e imaginados deslumbradores de céticos, conquistadores boêmios de quem busca fôlego para contrapor o cenário de uma pá de realidades grotescas sendo lançada a cada segundo sobre esperanças sobreviventes. As coisas que alentam ao oferecer pausa de disfarçar calamidades. Então, as calamidades se aninham na espera até serem regurgitadas violentamente e a fome as acolher. A fome aceita o que se lança a ela porque sofre de falta e a ausência é vedete do departamento das badernistas eficientes em desancar lógicas – pelas quais sente um misto de desejo e aversão – e de fazer dois e dois serem cinco. As

FRAGMENTOS DA MESA QUINZE >> André Ferrer

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  ─ Olhe só!  ─ Uma onça de gorjeta! Na mesa dez?  ─ O bigodudo da quatro.  ─ Amanhã, eu colo nele.  ─ Tire o seu cavalo da chuva, pois o homem fará o checkout amanhã bem cedinho.  ─ Misericórdia!  ─ Libânio, é toda sua. Trago da mesa nove. Uma criançada dos diabos!  O outro garçom contornou Libânio e estacou do outro lado da pia.  ─ Que desperdício ─ murmurou. Segurava um cigarro apagado entre os lábios.  ─ Olho maior do que a boca ─ disse Libânio, que terminava de secar os pratos da bandeja anterior. ─ Saio daqui meia noite.  ─ Quem mandou deixar o agreste?  ─ É mesmo, Lib! Posso chamar você de Lib? Só para os íntimos.  Riram, os dois garçons. Depois, o que tinha o cigarro na boca convidou: ─ Silvano, venha tomar uma fresca. Eu ando doido pra fumar.  ─ Não posso ainda, Paulo. O sujeito da quinze pediu a conta. Eu levei. Então, falou assim: “Um minuto, pois estamos conversando.” Fiquei cabreiro quando vi a cara da moça e do casal de idosos que acompanham o sujeito.  ─ Oxente! ─ fez P

FÉRIAS >> Albir

O cronista Albir está de férias.

BLOCO DE NOTAS >> Sandra Modesto

  Ao acordar, depois da noite vadia que invadiu meu sono, senti um cheiro preso de um passado recente.    Era um perfume agridoce misturado às coisas do meu entrelaçar nesses dezesseis meses na vida nova. Imprevista.    Correndo dores. Choros sem despedidas. Álbum e esconderijo. Tenho lágrimas diárias diante de um país com feminicídios, gente passando fome, mulheres e crianças negras morrendo todos os dias.    É a coisa não tá preta. Porque se a coisa estivesse preta, a coisa estaria boa.    Pego um caderno. Minha memória dá um branco. Momentaneamente.    Nesse espaço entre manhãs e noites, o país pelo avesso. Entendo que, a Arte resiste. E nos Salva.    De maio a julho, na imensidão das leituras: O avesso da pele (Jeferson Tenório). Ao pó (Morgana Kretzmann). Os tais caquinhos (Natércia Pontes). Suíte Tóquio (Giovana Madalosso). Copo vazio (Natalia Timerman). Risque esta palavra (Ana Maria Marques). Um buraco com meu nome (Jarid Arraes). Doramar ou a Odisseia (Itamar Vieira Júnior).

`A PROCURA << Cristiana Moura

  Ando esvaziada de mundo. É tanta a correria cotidiana que estudos e afazeres tem me roubado a poesia. Não é coisa de assalto. Não há ameaça visível. Nem há susto ou medo. É coisa de furto que leva de leve a carteira de dentro da bolsa. Aí a gente só dá falta bem depois e não sabe direito nem onde nem como aconteceu. O cotidiano roubou-me a poesia! — Respira fundo, dilata os póros e sente — há de encontra-la. Vou coar um café para tomar na varanda enquanto procuro as palavras que ando perdendo por aí.

RESGATE DO PASSADO – 3a e última parte – uma aventura do Detetive sem Nome >> Zoraya Cesar

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Quando a viúva de Victor, meu amigo e mentor, me contratou para protegê-la do irmão dele, pensei que seria um trabalho simples. Simples e prazeroso, confesso. Mas quando o tal cunhado disse que suspeitava ter sido Victor vítima de assassinato, comprovei, mais uma vez, que nada na vida é simples. Às vezes, nem tão prazeroso . ---------------------- Resolvi que não trabalharia em favor deles, mas de Victor. Receberia, no entanto, o dinheiro de ambos. Pois dinheiro paga minha vasta cadeia de informantes. Um carro à prova de balas. Roupas próprias para impressionar os clientes. E armas de boa qualidade. Victor me ensinara isso. Sou bom aluno. -------------------- Fui visitar o médico que assistiu Victor em sua doença e morte.  Era um sujeitinho franzino, de jaleco amarfanhado, muito grande para seu corpo esmirrado. O nariz adunco, a careca oleosa e os óculos de aros grossos lhe davam um ar de cientista louco. Os lábios e os olhos diziam que era um sensualista pervertido e enfatuado. Mas nã

proteção >> whisner fraga

 é preciso organização, disciplina, foco, receitam, a menina refuga, um indulto de alegrias, quer a amiga, mesmo de máscara, mesmo com álcool gel, o virtual há de servir, há de remendar, tudo arreganha os dentes, tudo ferroa, menina, é verdade esse negócio da vacina?, esse negócio de atraso?, esse negócio de roubo, de falta de ar, de quinhentos mil?, é verdade?, esse negócio?, a cidade estende as patas, o semáforo rateia, carros acuados por galhos vingativos: há sempre motosserras, a menina inconformada com bytes, com noticiários, com as gatas de sonos ariscos, com a necessidade de aquietar esse facho insuficiente, a noite de pernilongos encarniçados: quanta liberdade, deus!, e nós, até quando?, trancafiados em nossas separações, tudo grita, tudo espeta doído, tudo bica, é preciso nos protegermos, menina, até quando?, tudo chia, tudo mastiga, menina, tudo amordaça, é preciso nos protegermos, menina.

E AGORA, JOSÉ? >> Clara Braga

Ela já é uma senhora. Dá de mil em muita jovem, tem muita disposição, faz coisas que até Deus duvida, mas é uma senhora. Ela estava com um problema na cozinha, não vou lembrar exatamente o que era, mas era uma dessas coisas que a gente precisa chamar alguém na nossa casa para arrumar e acaba adiando até não poder mais, pois não quer chamar alguém na nossa casa para arrumar.  Pois bem, alguns familiares decidiram que era a hora de chamar a tal pessoa para arrumar a cozinha. Ela ficou um pouco contrariada, não chegou a reclamar, sabia que eles tinham razão, mas preferia postergar. Agora está feito, o agendamento do serviço foi concluído. Todos pensaram que ela ficaria aliviada, pois teria seu problema resolvido. Mas a verdade, é que ela parecia preocupada. Seus familiares disseram para não se preocupar, alguém poderia ir lá para acompanhar, caso o problema fosse o receio de estar sozinha quando o rapaz chegasse. Ou se o maior medo fosse o risco de se contaminar, era só usar uma boa másca

Alma Parte III >> Alfonsina Salomão

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Levantou-se e pôs-se a andar.  Como uma girafa recém-nascida, que mal desaba da vagina da mãe e já fica de pé, primeiro desajeitadamente, caindo e tornando a buscar o equilíbrio sobre as patas finas até que, ao cabo de alguns minutos, avança com a graça e estranheza natural destes animais. Alma sentia que era tudo muito esquisito e que deveria fazer muitas perguntas, mas por uma razão desconhecida não foi capaz de formular nenhum questionamento. Era uma sensação nova: sentir que deveria pensar e não conseguir. Estava consciente da anormalidade da situação, sabia que deveria achar tudo muito bizarro mas, ao contrário, nunca se sentira tão em casa, nunca pertencera tanto. Esta pequena obrigação auto imposta de intrigar-se quase quebrou o silêncio. Quase. Porque, por mais que uma parte de Alma resistisse, o Silêncio era mais forte. Era isso, estava no Silêncio. Então o Silêncio era um lugar, quem diria.    Fechou os olhos e saboreou o Silêncio durante alguns segundos, ou horas, não sabia.

A PROSTRAÇÃO >> Fred Fogaça

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  Se aproximando do ponto pré-estabelecido,  o ônibus frenava mais ou menos devagar, ela de pé na porta. Apertava a bolsa contra  o ombro, a outra mão que aproveitava o ensejo do suporte pra acionar o de pedido de parada. Ela se concentrava nas pernas que ameaçavam vacilar seu pressuposto e na maquina que tinha sido deixada batendo roupas -  sol não ia demorar do lado de fora num dia de frio que nem aquele, mas ela andava devagar.  O passo cuidadoso escolhia as pedras menos irregulares pra firmar, a capela ia crescendo na frente dela, bastante perto, mas o percurso durava todas as expectativas. Ela se concentrava no equilíbrio do corpo naquele caminho tortuoso e num feijão cozinhando com a calma de um fogão velho.  Os pés descansaram tranquilos no piso lisinho e alinhado da capela, mas ela tinha o pisar ainda mais leve, pra não incomodar santo nenhum - e ainda assim ia furtiva até nos bancos lá da frente, o mais próximo possível deles todos no caso de algum já estar por ali e se concen

A CORUJA >> Sergio Geia

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  Se você me acompanha há algum tempo deve saber. Certa vez cismei de escrever sobre uma tartaruga; eu acabara de comprar uma. Na verdade, era uma crônica-pegadinha. Explico.    Quando estive em Salvador, comprei uma tartaruga. Era um adorno de sala, uma bela tartaruguinha feita de isopor e plástico. A loja tinha dezenas delas e ficava na Praia do Forte. Elas balançavam as cabecinhas impulsionadas pela brisa que vinha do mar, talvez por isso, chamaram a nossa atenção. Havia tartarugas grandes e pequenas. Escolhi uma pequena, graciosa, lindinha.    Então comecei a crônica-pegadinha dizendo a verdade, sim, era a mais tesa das verdades que eu havia comprado uma tartaruga. Só omiti que se tratava de um enfeite de sala, puro artesanato. O leitor, à medida que avançava em sua leitura, era induzido a supor que eu adquirira uma tartaruga de verdade. Um embuste. No final, claro, eu conto.    Revendo agora o meu arquivo de crônicas, encontrei diversas que trazem a temática dos animaizinhos e a

ALÉM >> Paulo Meireles Barguil

Há quem diga que ela é um círculo. As estações da natureza se sucedem sem qualquer alteração. Há quem declare que ela é um espiral. As descobertas científicas avançam de modo imprevisível. Dentro de círculos e espirais, que ecoam infinitos sons, a Humanidade, e tudo o que no Universo há, dança. O além? Estamos aquém de entendê-lo, embora nos dediquemos a isso. Amém!

UMA PRETENSA TEORIA DA COISA >>> Nádia Coldebella

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Coisa é uma palavra que cabe para praticamente tudo.  É possível, na língua portuguesa, substituir a palavra coisa por alguns sinônimos, quase com a mesma versatilidade . Posso citar alguns, só para deleite do leitor: objeto, peça, utensílio, instrumento, elemento, ente, troço, treco, trem, negócio, parada, joça, porcaria, bugiganga, quinquilharia, bagulho, cacarecos, tralha, traste. acontecimento, ocorrência, evento, episódio, caso, lance, fato, realidade, incidente, sucedido, acontecido, pensamento, ideia, noção, conceito, concepção, imagem, relação, vínculo, ligação, relacionamento, laço, elo, vinculação, conexão. empreendimento, ato, ação, realização, feito, projeto, iniciativa, motivo, razão, causa, incentivo, estímulo, motivação, impulso, compensação, mal-estar, indisposição, achaque, ataque, incômodo, doença. Aff!! Mistério, enigma, segredo, incógnita,  bens, interesses, afazeres, baseado, cheio, fininho, finório, grinfa, bagana, boró, jererê, mingote, soró, charuto, broca, ga

DESAPRISIONAMENTO >> Carla Dias

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A moça tem esse olhar desolado, porque perdeu o rumo da casa que nunca teve, onde hoje moram alguns autoproclamados deuses, que vivem a debochar da ingenuidade dessa figura de faces rosadas. Saltimbancos, desertores da benevolência, esses deuses carnavalescos e traquinas se sentam à beira do destino, sacando batatas Chips de saquinhos barulhentos, atazanando a sessão de vivência da moça, que ainda pensa que o barulho todo vem do apartamento ao lado, da falta de disciplina nos estudos do vizinho que tenta se tornar violinista. Como se não bastasse, eles, os deuses desembestados, gostam de criar desejos na alma dela, sendo a maioria deles de realização inalcançável, como o amor denso, intenso e urgente que se pegou sentindo pelo moço que sequer conhece ou a vontade de salvar o mundo de problema que não sabe qual é. Sem conseguir se tornar a amante ou a heroína, desafiada pelo enviesado humor desses deuses solitários, que, para curar as próprias feridas, divertem-se à custa da sorte dela,