LUGAR >> Carla Dias


Perguntaram o que fazia ali. Mais uma vez, aceitou aquele como um questionamento que lhe foi dirigido em todos os cultos, terreiros, café da tarde, missa e saraus que já frequentou. Analisou a pergunta com certo descaso, em quase todas as vezes. 

Um talentoso ator tomava conta dele durante a resposta. Mil ironias, um verso roubado de filme, um aprofundamento sobre a existência que se baseava em quão doce era o palco que assumia. 

Não é isso? Bilhões de vidas, bilhões de palcos.

Talvez fosse o sentimento arrastado pelos cabelos ao compreender que não é amor o que pudesse levá-lo ao desviar-se de sua missão. Depois de viver tantas certezas construídas sobre a necessidade de ser alguém para alguém, seus gritos reverberaram o engano com a brutalidade do reconhecimento da solidão de quem não sabe o que faz ali.

Não sabe, mas de um não saber tão teimoso, que prefere desviar do assunto sempre que possível. Observa o toque da chuva na janela marcada com as digitais de quem se apoiou nela para tentar enxergar além. Quem se esforçou para não dar espaço ao suspiro e não conseguiu evitar ficar ali, a escutar canto da chuva.

A lembrança revisitando um apanhado de sons de gargalhadas que se encontraram em um esbarrão, em um quando um algo aconteceu e muitos se renderam à graça que ele reverberou. Foi daqueles uníssonos inesquecíveis, de quando as crianças sacodem seus corpos para se esbaldarem na alegria.

Talvez ele seja aquele que mudou de rumo ao se desprender de fantasmas colecionados, permitindo-se assombrar pela perspectiva de tornar-se, de apreciar o assombro do contentamento. Assim, mudou-se e ali deixou de ser lugar onde fosse um desejo permanecer.

Agora, é de rabiscar listas de quiçá, amanhã, quem sabe e de querenças, mágoas, sutilezas escoadas ao fino trato da bebida preferida. 

Sabe que que há falta de tempo para ganhar tempo e não perder tempo com o que não interessa.

Ou com quem interessa, mas não se interessa de volta.

Ser um em meio a bilhões. Um traço, um rastro, uma imensidão de possibilidades.

Ele pretende aproveitá-las, apenas lhe escapa o quando da sua chegada no lugar-ali... logo ali... 


carladias.com

Comentários

Zoraya Cesar disse…
"Sabe que que há falta de tempo para ganhar tempo e não perder tempo com o que não interessa." Eu e minha teimosia em ler Carla Dias no domingo à tarde. Lá vouficar eu , de olhos esbugalhados, olhando pra dentro, "o labirinto do labirinto dentro do apartamento"...
Albir disse…
Essa percepção de ser um em meio a bilhões pode significar o mais próximo que se pode chegar da paz. Muito bom!

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