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Mostrando postagens de Janeiro, 2018

BEIJE ATÉ... >> Carla Dias >>

Há esse momento em que tudo anda tudo demais. A capacidade de observar e compreender se perde em uma insistência voraz em explicar. A necessidade de explicar o que não nos cabe é de tomar espaço imenso na nossa percepção. Por exemplo, agora, nesse momento, meu tudo está tão tudo, agindo feito uma microfonia que já dura horas. Aguda, capaz de minar qualquer paciência.

Em momento feito este, eu escrevo. Algumas linhas. Alguns versos. Alguns pensamentos. Alguma piada mal construída, que não nasci com dom de fazer graça da forma sagaz que aprecio. Escrever me ajuda a abaixar esse volume, até que ele se canse de mim, do meu silêncio, e me perceba inóspita. Vá embora.

Dia desses eu estava no ônibus e entrou uma mulher com seu filho, um menino de quatro, cinco anos de idade. Enquanto esperávamos o motorista voltar de seu intervalo e nos levar para casa, esse menino insistia em beijar a mãe. Quando ela disse que já bastava de beijos, que ele tinha de se aquietar, o menino, com a voz mais doc…

ACORDEI MEIO ESTRANHO HOJE >> Sergio Geia

Vez em quando fico assim como estou hoje, paralisado, olhando o nada. Talvez não seja um “olhando o nada”, mas certo alheamento, um distanciamento das coisas, espécie de transe, sabe?, desligamento da vida. Você deixa de ser um ser ocupando espaço, não há espaços para ocupar nesse desligar, não tá tempo, não há ruídos (nem o canto do passarinho, do bem-te-vi eu ouço), não há nada. Talvez se assemelhe a uma espécie de meditação, natural, sem forçar, sem buscar. Desligar que acontece principalmente quando estou sem inspiração, e preciso escrever. Um dia pensei: não me faltará inspiração, sempre terei assunto. Engano.Sofro desse mal hoje, que chega a doer. Então saio à cata de coisas, de fatos, de uma notícia, um sorriso ou uma borboleta voando, umas pedras no caminho, um casal namorando, pagode no bar da esquina, um piar. Quando vejo, não existo (ou pelo menos não existia até que vi), não ocupo espaços, não há tempo, me desligo. Aciono o botão e volto. Aí levanto, bebo um café na cozinha…

RATOS - 2a e última parte >> Zoraya Cesar

Leia Ratos - 1a parte - Tenho ódio e inveja de todos e cada um, cada ser humano sobre essa Terra. E sempre que pude prejudiquei o mais possível aos outros. Isso me diverte. Isso me motiva. O ser humano é estúpido e limitado. Quero conviver entre os seres mais inteligentes do planeta e deles ser o Amo Supremo: o Rei dos Ratos. 
Dei início, portanto, à domesticação dos meus murídeos. Para ganhar sua confiança e ter sobre eles ascendência, comecei por dar-lhes restos da minha comida e ração, fazendo-os comer na minha mão. 
Quando percebi que eles, à vontade comigo, obedeciam-me, passei à segunda fase de meu plano. Seria uma aventura perigosa e estranha, eu tremia de excitação. Meus bichinhos farejaram minha disposição, e seguiram-me, entusiasmados e vorazes. Amo essa minha nova família devotada e selvagem.
Sempre fui bom andarilho: enxergo e me locomovo muito bem no escuro. Silenciosos e despercebidos, entramos na vila e, sob meu comando, matamos o poodle da professora da escola. A essa exp…

OFF >>Analu Faria

"A gente perde muito tempo com isso, perde o norte, esquece que aquilo ali é, no fundo, uma mentirinha", declarou solenemente a colega de trabalho, ao "dar um tempo" das redes sociais. Fechou com um "O estudo agora é mais importante.." Também a amiga de adolescência, o crush da academia, o porteiro do meu prédio e não sei mais quem decidiram "se desligar". Pronto, pensei, lá vêm os intelectuais. Musos do existencialismo. Mestres do foco na carreira. Os mega blaster do "minha privacidade primeiro".

Fiquei com inveja e fiz igual. 
(Não sem antes pensar: "Como eu vou seguir as migas feministas?  E onde eu vou ler os textões problematizadores? E como vão chegar até mim as piadas? E, principalmente: E os vídeos de gatinhos????")
Até os dezenove anos de idade, eu não tomava café. Comecei a fazer um estágio na secretaria de um juízo e o negócio era bem enfadonho. Para espairecer um pouquinho, eu fazia o que todo mundo lá também faz…

CARRO E MÁQUINA DE COSTURA >> Carla Dias >>

Ainda era menino, quando assistiu àquela cena. O pai insistiu que era nada demais, somente um olhar curioso dedicado a um acontecimento que não pertencia à história dele. Há quanto tempo? Era um menino, daqueles que passam a infância na rua, envolvidos com as brincadeiras e as malandragens infantes.

Há mais de quatro décadas.

Parou de fumar há alguns anos, mas às vezes gosta de ficar com o cigarro na mão, apagado. Vez ou outra, até o coloca entre os lábios, para sentir a textura. Orgulha-se de não o acender, apesar do desejo que ainda o toma.

Passa algumas horas assim, sentado à janela da sala, observando o lá fora. Cigarro apagado entre os lábios, lembrando um vício que lhe custou muito da saúde, mas do qual não consegue se livrar de vez. O ritual ainda o acalma, assim como algumas mentiras.

O casal discutia na porta de casa. Eram vizinhos, os pais de um colega dele. Aliás, o menino estava ao seu lado, mordendo os lábios, os olhos aguados, envergonhado ao ver que as pessoas paravam p…

EU JÁ, EU NUNCA - PARTE III >> Clara Braga

Já aceitei o desafio de amigos de ir a um show do Aviões do Forró só para que eles pudessem me provar que mesmo sem gostar da banda eu poderia me divertir no evento. Eles estavam certos, o evento foi divertido e eu não deixei de gostar mais ou menos do bom e velho rock n’roll que eu gosto de ouvir.
Nunca fiquei com raiva ou qualquer sentimento semelhante de pessoas que acham que a melhor voz do momento é a da Beyoncé. Não curto tudo que ela faz, mas não posso negar a qualidade da artista que é. Eu mesma fiz questão de ir ao show dela para admirar o espetáculo que ela faz no palco, mas isso não mudou minha opinião: a melhor cantora da atualidade continua sendo a Joss Stone.
Não ouso falar mal da playlist de ninguém. Já escondi de muita gente que eu adoro Hanson por achar que me julgariam, mas descobri que todo mundo tem um ponto fora da curva e ninguém tem nada com isso.
Não concordo que muitas das músicas da atualidade sejam chamadas de sertanejo. Não gosto de sertanejo, mas para mim…

ÀS VEZES >> Paulo Meireles Barguil

Às vezes...

entre divulgar e guardar segredo, seleciono a publicidade;

entre continuar e pedir ajuda, delibero acenar.

Quase sempre...

entre o nada definitivo e o pouco incerto, prefiro a tranquilidade;

entre não acompanhado e sozinho, opto ser ermitão;

entre olhar para dentro e espiar para fora, decido mergulhar em mim;

entre digladiar e renunciar, voto na paz;

entre o molhado "Quero mais" e o seco "Estou saciada", resolvo pela hospedagem.

Todas as vezes...

entre fazer de qualquer jeito e realizar o melhor, cravo no superior;

entre escrever e não compor a crônica quinzenal, escolho a consciência tranquila.


[Labirinto no Parque Ecológico Visão Futuro, Porangaba – São Paulo]

[Foto de minha autoria. 05 de julho de 2015]

AQUELE MENINO >> Carla Dias >>

O menino olha para o mundo com curiosidade aguçada. Quer saber. Quer descobrir. Quer aprender. Sente a necessidade de se conectar ao todo, mas não ao um, que ele sabe como ser sozinho nesse mundo que observa. Tem sido educado a estar só, desde sempre.

Sabe coisas de astronomia, decorou rotas e diálogos de filmes de antigamente. Conhece muito disso e daquilo, sobre robótica, culinária. Tem apreço pelos mistérios do DNA.

Acontece de ser solitário o incomodar. Então, ele coloca sua mente para apaziguar coração agoniado, enquanto aprende outro idioma, outro caminho, outro sentido, outra busca. Deseja descobrir o segredo para se resgatar de si. 

Não tem medo dos cortejos. Histórias macabras o divertem com a mesma intensidade que a dor do outro o entristece. Mergulhar em rios o acalma. Assistir às pessoas transitarem pela cidade o inquieta.

Sabe algumas palavras raramente usadas. Sente desejos complexos. Agrada-lhe - com profundidade mais adulta que ele - ser conhecedor de um e outro assun…

CABO DE GUERRA >> Clara Braga

A criança nem nasce e já começa a ser repartida. Didaticamente falando, claro! Nas primeiras horas de vida já conseguem definir: é a cara do pai. Mas recém-nascido muda de um dia para o outro. Na hora que nasce está com a cabeça toda alongada por causa do parto, a cara toda amassadinha, e no dia seguinte já está completamente diferente. Então uma nova avaliação é feita: os olhos são do pai, o nariz da mãe.
Esse ritual de identificação é normal, algo relacionado com a sensação de pertencimento talvez, criação de uma identidade, não sei, só sei que é normal! Quem nunca olhou um bebê e disse: esse parece com fulano? E o ritual vai crescendo bem como a criança. A princípio parece só com o pai ou com a mãe, depois vão descobrindo o resto da árvore genealógica. O olho da avó, o nariz da bisavó, o pé do tataravô, a dobra do pescoço do lado direito logo abaixo do queixo é do avô. O dedo mindinho do pé direito tem a unha que lembra a do tio avô do primo do tio do pai do avô. O filho da cunhad…

LINDA ROSA, KIARI, GADÚ >> Sergio Geia

Suave, ela me encanta; e me encantou desde logo. Na primeira vez, pensei: “roupa nova, canção velha.” O mesmo pensamento do Juarez, de Manaus, que disse: “Letra encaixada, requintes de poesia das antigas.” Contralto (ou mezzo?), a voz de Gadú amplifica o poder da poesia, e Linda Rosa me encanta: “Pior que o melhor de dois / Melhor do que sofrer depois / Se é isso que me tem ao certo / A moça de sorriso aberto / Ingênua de vestido assusta / afasta-me do ego imposto / ouvinte claro, brilho no rosto / abandonada por falta de gosto”, e não me deixa dormir. Acordo no meio da noite e fico a cantar. Não cantar assim, cantando, cantando, soltando a voz; a música, essa poderosa magia, ela é que canta em mim. E não para. Termina, recomeça, termina, recomeça, cantando e me encantando, me subtraindo o sono, a voz da Gadú. Num show, ladeando Leandro Leo, sorridente, linda (eu nunca a vi mais linda), feliz, ela empresta sua voz, traduzindo essa delícia: “Escolha feita inconsciente / De coração não ma…

RATOS - 1a parte >> Zoraya Cesar

Se eu quero, eu pego. Se tentam me impedir, eu tiro do caminho. E se me aborrecem, eu me vingo. Minha vida é simples.
Nunca fui bonito – nasci pequeno, franzino, parecendo um rato cinzento e comprido. E por ter nascido sem os dons da beleza ou empatia, lancei mão da malícia para conseguir meus intentos. Mentira. Usei de malevolência porque eu gosto. E gosto não se discute.
Nas fotos de família lá estava eu - meio escondido atrás de alguma saia ou perna de calça, apenas minha cabeça aparecia, o cabelo ralo, os olhos brilhantes, fundos e esbugalhados, o nariz afunilado. Minha boca era pequena, mas os lábios, carnudos, me conferiam um ar de sátiro lúbrico e insaciável.  
O Rattus norvegicus, a ratazana de esgoto, ou está comendo ou fazendo sexo. Pode chegar a ter 20 relações por dia.
Alguns acreditam que a aparência espelha o caráter. Outros, que, ao contrário, ela influencia em sua formação. Não sei quem está certo, nem mesmo se estão certos. O que sei é que admiro a solércia, a inteligênci…

PHAROPHA>>Analu Faria

O brasileiro é cordial. E chique. O brasileiro é um cordial chique. Ou talvez a classe média seja chique. Cordial e chique. Talvez a classe média seja seletivamente cordial. Mas definitivamente é chique. A gente é (também me incluo na categoria) uma classe média cordial (ma non troppo) e chique. 
É por isso que há um tempo a gente resolveu que "vai estar fazendo" alguma coisa no futuro e não que "vai fazer". É por essa mesma razão que, depois de descobrir que  " estar fazendo"  tornou-se coisa comum para o pessoal do telemarketing (e o pessoal do telemarketing não é chique), a gente também deixou de usar gerúndio. A gente confundiu gerúndio com gerundismo. Então "estamos trabalhando" foi banido, mesmo que neste momento a gente err... esteja trabalhando.
Entre os profissionais do Direito, então, nossa! é uma chiqueza danada! A gente (porque, novamente, eu me incluo na categoria) adora uma inversão de ordem na frase, tipo:  "Sabe o réu que s…

SEM HISTÓRIA PARA CONTAR >> Carla Dias >>

Não tenho história para contar. Não vou requentar uma, tampouco sair falando o que vier à cabeça. Até porque o que me vem à cabeça agora: refugiados. Acabei de assistir a uma reportagem sobre os que chegam ao Brasil e em outros países desse mundo, fugindo de uma vida que não é vida. Não consigo parar de pensar sobre pessoas que batem à porta de outras pedindo guarida, e como é importante ajudar. Obviamente, não de qualquer jeito ou se colocando em perigo. Mas por que é tão difícil se organizar, quando a questão é tão óbvia?

Parece que não adianta a questão ser óbvia. É preciso que os interesses de alguns se alinhem à necessidade de muitos. Vejam o amontoado de decisões equivocadas e partidárias que nossos caros políticos andam tomando.

Tá bem... Eu disse que não iria sair falando o que viesse à cabeça. Mas o que fazer quando a cabeça é sala de estar para tantos pensamentos em ebulição? Até tentei escrever um poema, mas saiu outra coisa. Melhor deixar a poesia pra depois.

Só que não te…

ESSE ANO EU VOU... OU NÃO! >> Clara Braga

Na manhã do dia 31 de dezembro de 2016 eu estava em um quarto de hotel na beira do mar me arrumando para ir a praia. Mas antes, liguei a televisão para assistir à São Silvestre. Assistir essa corrida já fazia parte da rotina do dia 31, já que meu pai sempre acompanhou, mas nesse ano o sentimento era um misto de saudade, empolgação e nostalgia, pois no ano anterior eu estava lá participando da corrida.
Ver aquela quantidade de pessoas super empolgadas por terem escolhido terminar o ano correndo me fez jogar para o universo a minha vontade para o ano que logo iria começar: ano que vem vou correr de novo e melhor do que ano passado. Mal sabia eu que meu filhote já estava crescendo dentro de mim e que, por isso, logo eu estaria trocando os treinos para provas por leves trotes e caminhadas que me permitiriam ter um parto um pouquinho mais tranquilo.
O ano foi passando, setembro chegou, meu filho nasceu e eu nem pensava mais na corrida. 3 meses depois pude voltar a pensar em correr e volta…

O AVESSO DA ADOLESCÊNCIA >> Cristiana Moura

Ainda ontem minha comadre comentava: " — Ao olhar-me, vejo que o viço da juventude foi maculado no reflexo do espelho." Tempo. Alguns hormônios declinam, outros nem sei. Tem horas, muitas horas mesmo, em que é como nadar, em dia de sol a pino, num mar de TPM. Então chega aquele dia em que se sangra e, junto com isto lembramos a crença de que vai passar o rebuliço corpo-a-dentro e, que como antes, a menstruação, apesar das cólicas, trará cores mais vívidas ao cotidiano. Não. Nenhuma ilha por perto. Um calor de dentro para fora num fogacho. A vida é nadar neste mar revolto de hormônios descontínuos, sensibilidade à flor da pele, chorar com o sorriso da criança, gritar com um objeto inanimado da casa, desejar e temer as carícias, morrer de saudades.
Bem vinda ao climatério, período que antecede a menopausa. Meno – pausa. Exato. Esta é a vontade mais íntima e absurda: a vida poderia parar a fim de vivermos este momento, apenas este. E, só mais adiante, continuar.
É experimento…