quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

BEIJE ATÉ... >> Carla Dias >>


Há esse momento em que tudo anda tudo demais. A capacidade de observar e compreender se perde em uma insistência voraz em explicar. A necessidade de explicar o que não nos cabe é de tomar espaço imenso na nossa percepção. Por exemplo, agora, nesse momento, meu tudo está tão tudo, agindo feito uma microfonia que já dura horas. Aguda, capaz de minar qualquer paciência.

Em momento feito este, eu escrevo. Algumas linhas. Alguns versos. Alguns pensamentos. Alguma piada mal construída, que não nasci com dom de fazer graça da forma sagaz que aprecio. Escrever me ajuda a abaixar esse volume, até que ele se canse de mim, do meu silêncio, e me perceba inóspita. Vá embora.

Dia desses eu estava no ônibus e entrou uma mulher com seu filho, um menino de quatro, cinco anos de idade. Enquanto esperávamos o motorista voltar de seu intervalo e nos levar para casa, esse menino insistia em beijar a mãe. Quando ela disse que já bastava de beijos, que ele tinha de se aquietar, o menino, com a voz mais doce que conseguiu entoar, disse que dentro da cabeça dele havia uma voz que mandava ele beijá-la mais e mais. E seguiu dizendo o quando amava a mãe, logo perguntando o motivo de eles estarem no mundo. A mãe explicou que eles foram colocados aqui, porque o planeta precisava de pessoas.

Intrometida, só consegui fazer uma pergunta a mim mesma: precisava mesmo?

Sempre que essa microfonia invade minha cabeça, fragilizando minha capacidade de compreender que nem todos estão sintonizados na mesma estação que a minha, silencio. Apesar dos barulhos da rua, dos telefones celulares distribuindo seus diferente ringtones, das conversas em ônibus entre mães cansadas em fim de tarde de domingo e crianças curiosas, inquiridoras, incapazes de pararem de falar, porque as vozes, as suas próprias vozes, ecoam estrambóticas em suas cabeças. E as pessoas que, usando seus fones de ouvido, nem dando chance de seus espectadores se tornarem seus ouvintes, dançam, numa coreografia ocupadora de um bom espaço, na fila do supermercado.

Quando tudo anda tudo demais, você acaba ganhando, daqueles que fazem parte da sua história, alguns adjetivos que não lhe agradam muito, mesmo sabendo que eles são tão transitórios quanto seu momento de dar mais crédito a si mesmo, e ao que sente, do que deveria. Mas faz parte do processo, certo? O processo de compreensão de que a vida não está nem aí para seus dramas particulares. Ela não quer saber se você está preocupada com as contas, com as mudanças impostas, com quem lhe quer bem ou mal ou nem mesmo lhe quer. Ela não se importa se seus cabelos estão horríveis, não tem vaga para seu filho na escola, seu bairro anda mais perigoso que nunca. A vida é o que há de mais independente. E o mais curioso de tudo é que todos nós a temos e insistimos em criar prisões particulares.

Acredito que o sentido está em ser fase e ela passar. O zumbido some, você relaxa. A vida, a sua, não a vida mãe de todas as vidas, ou seja lá como você enxergue a existência, bem, ela volta aos eixos, ameniza. Haverá sempre um período em que nos sentiremos capazes de nos identificarmos com a paz de espírito. E nós os alimentaremos com histórias para guardar em álbum, consultar em dias menos brandos.

No meu caso, devo aceitar que compreendo perfeitamente o que aquele menino disse. Para mim não passou, mas espero que para ele passe. Minha voz continua ecoando na minha cabeça, como se fosse outra pessoa, outras. Ecos de quem fui, de quem sou, de quem jamais serei. Um baile dos falantes, questionadores, preocupados, que vivem pedindo para que, independentemente das broncas da vida, que eu a beije, até ela se desmanchar de tanto carinho.

Enfim, não me cabe explicar. Explicar-me. Não hoje.

Imagem © Pietro Torrini

carladias.com




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sábado, 27 de janeiro de 2018

ACORDEI MEIO ESTRANHO HOJE >> Sergio Geia


 
Vez em quando fico assim como estou hoje, paralisado, olhando o nada. Talvez não seja um “olhando o nada”, mas certo alheamento, um distanciamento das coisas, espécie de transe, sabe?, desligamento da vida. Você deixa de ser um ser ocupando espaço, não há espaços para ocupar nesse desligar, não tá tempo, não há ruídos (nem o canto do passarinho, do bem-te-vi eu ouço), não há nada. Talvez se assemelhe a uma espécie de meditação, natural, sem forçar, sem buscar.
Desligar que acontece principalmente quando estou sem inspiração, e preciso escrever. Um dia pensei: não me faltará inspiração, sempre terei assunto. Engano.  Sofro desse mal hoje, que chega a doer. Então saio à cata de coisas, de fatos, de uma notícia, um sorriso ou uma borboleta voando, umas pedras no caminho, um casal namorando, pagode no bar da esquina, um piar. Quando vejo, não existo (ou pelo menos não existia até que vi), não ocupo espaços, não há tempo, me desligo. Aciono o botão e volto. Aí levanto, bebo um café na cozinha, vou à estante, olho lombadas, Clarice, Caio, Prata, Braga (essa estirpe de cronistas), até penso em abrir um deles, mas não abro. Chego até a sacada, observo a mangueira com frutos já maduros, um senhor caminhando na Santa Teresinha, a manhã triste de chuva fina, depois volto, sento, pego o notebook, tento encontrar alguma coisa.
Nesse processo, digamos, criativo, que depois de anos ouso dizer que conheço (mas que às vezes de criativo não tem nada), não adianta sentar na frente do computador e tentar escrever sem nenhum esboço ou ideia. Francisco de Assis, por exemplo, meu santinho favorito. Desde os tempos de menino, desde “Irmão Sol, Irmã Lua”, desde “O Irmão de Assis” de Inácio Larrañaga, desde a opereta “Irmã Clara e Pai Francisco”, que alguns amigos encenavam, e que cantavam num dado momento: “Francisco ficou biruta, Francisco ficou lelé, da cuca, da cuca, da cuca” — a melodia nunca se deixou de mim.
Francisco sempre me vem à mente quando estou sem inspiração. Isso porque tenho uma vontade louca de me encontrar com ele num texto. Francisco está nas minhas orações, me é importante, quero falar dele, preciso. Mas Francisco vem sozinho, o pobrezinho de Assis, humilde, sem roupas, desnudo das riquezas do mundo, como sempre foi. Ainda que com sua força monumental, sua fé inabalável que dobrou até joelho de Papa, sem uma mínima ideia, não vai, nem Francisco, nem a pau.
Hoje, por exemplo, acordei meio estranho (nada objetivo, apenas uma estranheza esquisita). Era dia de caminhada, de tomar café na rua, mas com a chuva desisti. Tomei café aqui mesmo, liguei o computador, fiquei olhando a tela, depois a chuva, as pessoas, as rotinas, fiquei pensando, como não me veio nada, Francisco chegou.
Sabe que sonho conhecer Assis? Quando você faz a experiência, quando você mergulha num oceano de fé e amor, conhecer Assis passa a ser obrigação. É pisar a terra onde seus pés pisaram, respirar o ar que preencheu seus pulmões, receber a brisa que o acarinhou (quem dirá que não é a mesma?), sentir sua vida através da vida de Assis. Bobagem? Você pode pensar: “Assis hoje é outra, nada a ver com aquela de 1220”. Talvez você tenha razão, talvez a riqueza que ele tanto abominou seja o combustível queimando hoje na cidadezinha turística, mas não importa.
Às vezes me relaciono com memórias, coisas boas, outras, nem tanto. Forte em mim, por isso fácil de acessar, é a sensação de que um dos melhores momentos da minha vida — e isso aconteceu lá atrás —, em que me senti pleno, numa perfeita harmonia comigo, com os outros, com a vida, cheio de tesão, confiança, alegria, força, com disposição para dar e praticar o amor, foi quando entrei num processo de mergulho na vida do pequenino de Assis. Lá, aprendi que a felicidade é uma coisa fácil de encontrar.
Hoje acordei meio estranho. Ainda estando assim (uma dor no peito me dá agonia), estou feliz, pois Francisco está aqui, sinto, como também sinto um clarão daquela experiência.
Merece uma comemoração.
Quem sabe um recomeço?
Dosinha de uísque no copo.
Viva!
 
 


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sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

RATOS - 2a e última parte >> Zoraya Cesar

Leia Ratos - 1a parte - Tenho ódio e inveja de todos e cada um, cada ser humano sobre essa Terra. E sempre que pude prejudiquei o mais possível aos outros. Isso me diverte. Isso me motiva. O ser humano é estúpido e limitado. Quero conviver entre os seres mais inteligentes do planeta e deles ser o Amo Supremo: o Rei dos Ratos. 

Dei início, portanto, à domesticação dos meus murídeos. Para ganhar sua confiança e ter sobre eles ascendência, comecei por dar-lhes restos da minha comida e ração, fazendo-os comer na minha mão. 

Quando percebi que eles, à vontade comigo, obedeciam-me, passei à segunda fase de meu plano. Seria uma aventura perigosa e estranha, eu tremia de excitação. Meus bichinhos farejaram minha disposição, e seguiram-me, entusiasmados e vorazes. Amo essa minha nova família devotada e selvagem.

Sempre fui bom andarilho: enxergo e me locomovo muito bem no escuro. Silenciosos e despercebidos, entramos na vila e, sob meu comando, matamos o poodle da professora da escola. A essa expedição seguiram-se outras, igualmente exitosas (de uma feita, pegamos um leitão, que, de tão novo, nem grunhia ainda). Assim, inaugurei uma nova forma de alimentar e domesticar minhas ratazanas. Minhas? Não, nunca tive essa pretensão. Elas eram delas mesmas, mas eu sentia que encontraram em mim um mestre, alguém que poderia elevá-las a um grau de sofisticação e poder muito maior.  Eu, o Rei das Ratazanas. 

Faltava muito pouco para a penúltima fase do meu plano. Minhas queridas passariam a se alimentar de outro tipo de carne.

Ah, sim, meu plano. Tenho de deixar tudo claro agora, não terei outra oportunidade. Eu só queria aterrorizar os habitantes da vila com a invasão dos ratos até que todos fossem embora. Isso me divertia. E queria ser o Rei dos Ratos e Ratazanas, a espécie mais inteligente e resistente do planeta.

A ratazana é uma conquistadora, que extermina os outros ratos e exaure todos os recursos do ambiente. Então, as mais fortes passam a comer as mais fracas.

Estava cada vez mais entrosado com meus bichinhos. Dormia com eles, comia com eles, adestrava-os o dia inteiro. Conhecia-os pelos nomes; eu chamava, eles vinham. Nunca fui tão feliz.

Chegara a hora do último passo. O derradeiro. Aprontei minha mochila e saí, acompanhado de minha família murídea.

O mendigo estava perdido no mato e nem se deu conta de minha aproximação. Eu o conhecia, costumava esmolar de povoado em povoado e era tido por doido. Dei-lhe uma paulada na cabeça – que devia ser vazia mesmo, pois ele morreu com aquele único golpe.

O mendigo foi apenas o primeiro, e já dessa feita meus bichinhos ficaram mal acostumados, como eu esperava que ficassem. Confesso que não foi fácil arranjar-lhes humanos para comer. Era, no entanto, imprescindível que eu o fizesse.

Fui me virando, mas não me estenderei, pois resta-me pouco tempo. Vou me ater à última vítima, pois foi essa que selou meu destino.

Foi tudo muito rápido. O viúvo daquela minha prima que induzi ao suicídio bateu à minha porta no ocaso do dia de hoje. Nem sei como o idiota me achou, mas lá estava ele. Só de vê-lo o ódio subiu aos meus olhos e nem esperei que começasse a falar.

Ataquei-o, furibundo e descontrolado. Mas ele não era igual às vítimas anteriores, fracas, indefesas ou desapercebidas. Embora pego de surpresa pelo inopinado e fúria do ataque, ele reagiu.

Foi uma cena linda, digna de registro. Pena não terem filmado, pois minhas reles palavras não traduzirão a beleza daquele momento. Ainda agora, esperando meu destino, emociono-me.

Atracamo-nos com violência. Sabíamos, ambos, que aquela seria uma luta de vida e morte. Ele era forte, mais moço, resistente. Mas eu era mais ágil e malicioso. E tinha o ódio a me guiar. Ademais, ele já começara a luta em desvantagem, abalado pelo meu golpe inicial.

Foi uma luta renhida. Suor e sangue entravam por nossas narinas, afogando-nos; e em nossos olhos, queimando-os e cegando-nos. A dor pelos dentes e ossos quebrados era quase insuportável.

Os ratos fizeram um círculo ao nosso redor, as presas batendo, as narinas fremindo pelo cheiro de sangue, pela antecipação do repasto. O barulho que faziam era assustador até para mim, quase uma ratazana, eu mesmo.

Alguns exemplares podem atingir 50 centímetros 
e pesar quase um quilo.

Meu oponente se assustou com a proximidade da rataria – pareciam demônios com suas bocas escancaradas -, e distraiu-se por um nano segundo. Isso decidiu a luta.

A platéia, antes imóvel e expectante, aproximou-se. Arrastei-me para a cabana, mas nem me dei ao trabalho de fechar a porta.

Ratos podem se espremer e passar por frestas de portas. 
Seus dentes são mais duros que metal.

Meu destino chegou no ocaso do dia.
Coincidência ou não, ratazanas são animais noturnos.
Acho que, desde o princípio, nenhum de nós teria chance.
A maioria de meus ferimentos talvez se curasse com o tempo. Mas tempo era algo que eu não teria. De um corte profundo o sangue escorria, uma deslumbrante catarata rubra. Meu pé, torcido e inchado, impedia-me de andar, quanto mais correr dali.

Não havia saída possível. Ouvi-os se alimentando com o sujeito e resignei-me. Porque não tenho dúvidas: acostumados à carne humana, e tendo meu corpo ferido à sua disposição, meus próprios ratos não tardarão a vir ao meu encontro. O cheiro de sangue desperta os instintos e supera qualquer treinamento.

Ratazanas comem tudo o que veem pela frente. 

Apesar da dor excruciante e da fraqueza, consegui escrever esse relato que você agora lê. Aproveite minha experiência, seja você o Rei dos Ratos e domine a terra!

Os ratos podem passar meses sem beber água, mais tempo que camelos. Nadam centenas de quilômetros e podem cair de mais de 20 metros sem se machucar. São resistentes à radiação. E desenvolvem imunidade contra venenos.

Ouço-os se aproximando, o barulho de patas impacientes e narinas frementes. A noite está caindo e o frio me entorpece. Ou talvez seja a perda de sangue, não sei. Procuro uma faca e não encontro. Se não me matar antes que entrem, serei comido vivo, como alguns dos outros.

Olho para fora e, nessas últimas luzes antes do anoitecer, vislumbro uma dezena de olhos e presas brilhantes. E eu ainda não estou morto. 



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quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

OFF >>Analu Faria

"A gente perde muito tempo com isso, perde o norte, esquece que aquilo ali é, no fundo, uma mentirinha", declarou solenemente a colega de trabalho, ao "dar um tempo" das redes sociais. Fechou com um "O estudo agora é mais importante.." Também a amiga de adolescência, o crush da academia, o porteiro do meu prédio e não sei mais quem decidiram "se desligar". Pronto, pensei, lá vêm os intelectuais. Musos do existencialismo. Mestres do foco na carreira. Os mega blaster do "minha privacidade primeiro".

Fiquei com inveja e fiz igual. 

(Não sem antes pensar: "Como eu vou seguir as migas feministas?  E onde eu vou ler os textões problematizadores? E como vão chegar até mim as piadas? E, principalmente: E os vídeos de gatinhos????")

Até os dezenove anos de idade, eu não tomava café. Comecei a fazer um estágio na secretaria de um juízo e o negócio era bem enfadonho. Para espairecer um pouquinho, eu fazia o que todo mundo lá também fazia quando queria dar um tempo: ia para a cozinha, onde sempre havia... café e só café.  Comecei a tomar para me distrair. Hoje não consigo parar.

Na rotina de quem traçou planos para ganhar um dinheiro razoável fazendo o que gosta - e, especialmente na rotina de alguém cujos objetivos de vida e carreira mudaram tantas vezes -  pode haver um caminhozinho chato igual a um estágio em secretaria de vara judicial do interior. Distrair-se é a maior das tentações. Perceber que a distração não pode te tirar do caminho talvez seja essencial.

Ou não. Essa coisa de "foca nos estudos, larga as redes" pode ser uma desculpa minha para esconder uma fase introspectiva. Pode ser para imitar os colegas. Pode ser para pagar de intelectual, de musa do existencialismo, de mestre do foco na carreira, de mega blaster do "minha privacidade primeiro". 







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quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

CARRO E MÁQUINA DE COSTURA >> Carla Dias >>

Ainda era menino, quando assistiu àquela cena. O pai insistiu que era nada demais, somente um olhar curioso dedicado a um acontecimento que não pertencia à história dele. Há quanto tempo? Era um menino, daqueles que passam a infância na rua, envolvidos com as brincadeiras e as malandragens infantes.

Há mais de quatro décadas.

Parou de fumar há alguns anos, mas às vezes gosta de ficar com o cigarro na mão, apagado. Vez ou outra, até o coloca entre os lábios, para sentir a textura. Orgulha-se de não o acender, apesar do desejo que ainda o toma.

Passa algumas horas assim, sentado à janela da sala, observando o lá fora. Cigarro apagado entre os lábios, lembrando um vício que lhe custou muito da saúde, mas do qual não consegue se livrar de vez. O ritual ainda o acalma, assim como algumas mentiras.

O casal discutia na porta de casa. Eram vizinhos, os pais de um colega dele. Aliás, o menino estava ao seu lado, mordendo os lábios, os olhos aguados, envergonhado ao ver que as pessoas paravam para assistir ao espetáculo. O tema da discussão era o ciúme, não por outra mulher, tampouco por outro homem. Era ciúme dela pelo tempo que ele gastava cuidando de seu carro. Eram horas e horas lavando, limpando, lustrando, tratando o tal com um carinho e atenção que ela não recebia há muito tempo. Mas ele também sentia ciúme, que não se conformava com ela passar horas debruçada naquela máquina de costura, inventando roupas, repetindo que se tornaria uma famosa estilista.

Ele tinha lá os seus dez anos e sempre foi esperto. O amigo, filho do casal, era um pouco mais avoado, desinteressado em saber mais do que um garoto da idade deles naturalmente saberia. Naquele momento, ele comentou que preferia estar na casa da tia, onde costumava passar as férias, em vez de estar ali, assistindo aos pais lhe fazerem passar vergonha.

A cena chamou a atenção dele para a paixão desconcertante que aquelas pessoas exibiam em público. A paixão pelo carro, pela máquina de costura e de um pelo outro. Claro que ele não sabia do que se tratava aquilo, naquela época. Adulto, até chegou a confundir aquela paixão com a que sentia pelo cigarro. Deu-se conta do erro, muitos maços e check-ups depois.

Eles não agiram como acontece em histórias inventadas por romanceadores de tragédias. Eles não terminaram a discussão ao compreenderem que perdiam tempo com bobagens. Não reconheceram um ao outro como mais importantes do que o carro ou a máquina de costura. O pai dele, senhor muito simples e sábio, disse ao menino que ali tinha jeito nenhum. O amigo olhou para ele, desolado. Ele olhou para o pai, bravo com a sinceridade exposta na presença do amigo. Entendeu o que o pai disse, mais tarde, algumas paixões depois.

Naquele dia, o pai de seu amigo tirou o carro da garagem e sim, estava uma lindeza, brilhando. Tirou o carro da garagem, saiu cantando pneu e não voltou mais. Largou tudo na casa: roupas, documentos, o filho e seu amor para todo o sempre, amém. A mãe começou a passar mais tempo ainda com a máquina de costura. Porém, a dedicação e o desejo de se tornar uma estilista reconhecida deram lugar a uma tristeza tão profunda, que ela só conseguia costurar uniformes sob encomenda. Eram pilhas de uniformes e litros de lágrimas.

O amigo dele fez o melhor que pode e sobreviveu à ausência do pai e à tristeza da mãe. Saiu-se melhor do que os apaixonados, mas jurou que nunca teria aquilo, então que preferiu não aprender a dirigir ou a usar roupa de marca. Só para garantir.

Ele nunca comentou com o amigo que, depois de assistir àquela cena, voltou para casa e ficou um bom tempo sentado no sofá da sala, olhando para lugar nenhum, respirando baixinho, ausente mesmo. O pai teve de lhe dar um peteleco para que ele voltasse à vida.

Desde lá, ele busca uma paixão daquela para sentir, mas que não seja boicotada por uma incapacidade cruel de não enxergar no outro a personalidade da sua paixão pessoal. Claro que ele descobriu sua paixão e ela tem sido sua principal companhia, há muito tempo. Descobriu a música, dedicou-se ao violão e a primeira canção que compôs fez grande sucesso e o ajudou a comprar sua casa.

Descobriu o cigarro, logo depois, mas reconheceu ter se enganado com essa paixão.

No dia em que a canção tocou na rádio, pela primeira vez, ele estava na casa do pai, sentado naquele mesmo sofá de antes, onde se sentiu paralisado pelo que sentia, após assistir à cena do casal. Ao seu lado, o amigo, que iria escutá-la pela primeira vez. Ele ficou assim, vidrado na expressão do outro. Foi de partir o coração, quando o amigo chorou uma vida, de um jeito tão sentido, que o pai do outro teve de dar um calmante ao coitado.

O pai repreendeu o filho com vigor. Onde já se viu fazer isso com um amigo? Apesar de adulto, o filho recebeu as palavras do pai como se ele fosse aquele menino, assistindo à vida do amigo mudar ali, por causa de um carro e uma máquina de costura.

As pessoas estão apressadas, que é véspera de feriado e elas têm de aproveitar a folga. Correr para seus amores, seus recantos, suas paixões. O cigarro entre os lábios e o silêncio da casa o confortam. A lembrança do choro do amigo ao escutar a canção o entristece. Não pela canção, que modéstia à parte, ele é bom compositor e a canção é mesmo primorosa. Merece todo sucesso que ainda faz. Porém, sim, sentiu-se mal por fazer o amigo relembrar daquele momento em que as paixões dos pais foram mais importantes que o amor pelo filho. Claro que, adulto, ele entendeu de vez que as pessoas não devem estar com outras apenas por conveniência ou medo de lidar com as responsabilidades que vêm com um fim, que isso nunca dá certo, só piora o que já está ruim.

É a lembrança que maltrata.

O pai do amigo não voltou, não mandou notícias. Corria a história de que ele tinha morrido em um acidente de carro, mas nunca se soube com certeza. A mãe até tentou se acertar com a vida, mas acabou morrendo de tristeza, depois de se apaixonar pelo álcool, alguns anos depois.

O amigo teve uma vida simples e organizada, de forma que nada o surpreendesse. Ainda assim, foi das pessoas mais surpreendentes que ele já conheceu. Nunca o perdoou por ter escrito aquela canção, porque, a cada vez que a escutava – e como ela fez sucesso tocou muito e foram várias as versões -, ele se lembrava daquele dia em que sua vida mudou completamente e não para melhor. Muitos anos depois, confidenciou a ele que adorava a canção, e que, apesar de se sentir meio triste ao escutá-la, também se sentia confortado por saber que alguém o enxergou naquele momento e que isso apaziguava sua solidão. Depois, pediu uma porcentagem dos direitos autorais, já que era a história da vida dele.

Seu amigo faleceu há alguns meses. Jovem, de vida simples e sábio. O pai apareceu no enterro, velho, complicado, dirigindo um carro caindo aos pedaços; o mesmo carro. De todos os pertences que herdou, o pai só levou com ele a velha máquina de costura.

Se a canção que ele compôs toca na rádio, ele desliga. Se alguém lhe pergunta a respeito dela, ele vira as costas e vai embora.

E, sim, ele voltou a fumar.

carladias.com



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terça-feira, 23 de janeiro de 2018

EU JÁ, EU NUNCA - PARTE III >> Clara Braga

Já aceitei o desafio de amigos de ir a um show do Aviões do Forró só para que eles pudessem me provar que mesmo sem gostar da banda eu poderia me divertir no evento. Eles estavam certos, o evento foi divertido e eu não deixei de gostar mais ou menos do bom e velho rock n’roll que eu gosto de ouvir.

Nunca fiquei com raiva ou qualquer sentimento semelhante de pessoas que acham que a melhor voz do momento é a da Beyoncé. Não curto tudo que ela faz, mas não posso negar a qualidade da artista que é. Eu mesma fiz questão de ir ao show dela para admirar o espetáculo que ela faz no palco, mas isso não mudou minha opinião: a melhor cantora da atualidade continua sendo a Joss Stone.

Não ouso falar mal da playlist de ninguém. Já escondi de muita gente que eu adoro Hanson por achar que me julgariam, mas descobri que todo mundo tem um ponto fora da curva e ninguém tem nada com isso.

Não concordo que muitas das músicas da atualidade sejam chamadas de sertanejo. Não gosto de sertanejo, mas para mim o que Almir Sater e até Chitãozinho e Xororó fazem não pode ser comparado com o que é feito hoje em dia, e não digo isso só porque fui fã de Sandy e Jr. quando era pequena. Ainda assim, respeito o trabalho de todos esses artistas, principalmente quando vejo a qualidade dos músicos de apoio, é de dar inveja! Para tocar com muitos dos músicos que estão acompanhando os sertanejos eu até aprenderia umas músicas do Luan Santana.

Nunca fiquei com raiva das pessoas que me criticaram por eu amar Nando Reis e Arnaldo Antunes. Eu sei muito bem reconhecer que eles não são cantores maravilhosos, com vozes de dar inveja. Mas as composições me tocam e eu acho que é para isso que a arte existe, para mexer com a gente.

Já ouvi que eu não podia gostar de Cássia Eller pois ela era a cantora das lésbicas. Pois eu ouvia Cássia Eller muito antes de saber o que era ser lésbica e isso nunca me afetou em nada.

Mas tudo isso foi só uma tentativa de amenizar o que eu realmente preciso assumir:

Não gosto de Pablo Vittar e isso não tem a menor relação com ser ou não preconceituosa. Uma coisa é identificar a importância de cada artista, outra completamente diferente é comprar o CD para ficar cantando junto.


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sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

ÀS VEZES >> Paulo Meireles Barguil

 
Às vezes...

entre divulgar e guardar segredo, seleciono a publicidade;

entre continuar e pedir ajuda, delibero acenar.

Quase sempre...

entre o nada definitivo e o pouco incerto, prefiro a tranquilidade;

entre não acompanhado e sozinho, opto ser ermitão;

entre olhar para dentro e espiar para fora, decido mergulhar em mim;

entre digladiar e renunciar, voto na paz;

entre o molhado "Quero mais" e o seco "Estou saciada", resolvo pela hospedagem.

Todas as vezes...

entre fazer de qualquer jeito e realizar o melhor, cravo no superior;

entre escrever e não compor a crônica quinzenal, escolho a consciência tranquila.


[Labirinto no Parque Ecológico Visão Futuro, Porangaba – São Paulo]

[Foto de minha autoria. 05 de julho de 2015]

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quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

AQUELE MENINO >> Carla Dias >>


O menino olha para o mundo com curiosidade aguçada. Quer saber. Quer descobrir. Quer aprender. Sente a necessidade de se conectar ao todo, mas não ao um, que ele sabe como ser sozinho nesse mundo que observa. Tem sido educado a estar só, desde sempre.

Sabe coisas de astronomia, decorou rotas e diálogos de filmes de antigamente. Conhece muito disso e daquilo, sobre robótica, culinária. Tem apreço pelos mistérios do DNA.

Acontece de ser solitário o incomodar. Então, ele coloca sua mente para apaziguar coração agoniado, enquanto aprende outro idioma, outro caminho, outro sentido, outra busca. Deseja descobrir o segredo para se resgatar de si. 

Não tem medo dos cortejos. Histórias macabras o divertem com a mesma intensidade que a dor do outro o entristece. Mergulhar em rios o acalma. Assistir às pessoas transitarem pela cidade o inquieta.

Sabe algumas palavras raramente usadas. Sente desejos complexos. Agrada-lhe - com profundidade mais adulta que ele - ser conhecedor de um e outro assunto que poucos desejam conhecer, por preguiça, medo, decoro, religiosidade moldada.

O silêncio o conforta, assim como cômodos da casa vazios.  Ele imagina esse espaço propício ao eco, enquanto a família se reúne para um café, na sala de estar. O que gritaria em eco? Por que gritaria?

A mãe lhe beija a testa. Menino é grato por tanto amor que lhe oferecem. Porém, vive nele essa inquietude, desde que ele se fez pessoa, nascendo nesse mundo. Ele sabe que irá partir o coração de seus afetos. Isso o entristece. Ele sabe que é algo que não há como ser evitado.

Lembra-se do primeiro sonho que teve, ainda nem sabia falar. Sonhou com essa aventura fantástica, sendo vivida na liberdade mais plena. Sonhou com a vida das descobertas, da intensidade dos seus sons, sabores e odores, e os pés em lugares que não sabe nem onde ficam.

Há tanta curiosidade vivendo nele, que, às vezes, ele se pega conversando com ela, como se discutisse seriedades com outra pessoa. Há tanto mundo dentro dele, que, às vezes, ele se sente transbordando de tanta variedade emocional. Então, desespera-se, até que a calma chegue e ele retome o devaneio.

O menino sabe que veio ao mundo assim, deslocado. Isso não o aflige. O que o aflige mesmo é a insistência de tantos em tentar padronizar seus anseios. Mas ele é paciente, já fez plano. Vai esperar a vida espichá-lo, oferecer-lhe o R.G. e a maioridade, para então se aventurar por ele, para além das janelas e da inflexibilidade dos sonhos.

Porque nasceu sonhando com fluidez.

Medo mesmo, daqueles que fragilizam, ele sente de se esquecer de si, como viu acontecer com o avô. De sumir, aos poucos. De se tornar indetectável pela felicidade. Obsoleto para a rotina. Esse medo ele gostaria de trocar por uma brincadeira, uma alegoria, pela sua condição de criança. Mas o que fazer se nasceu menino voltado às seriedades e aos devaneios? Daqueles que se encantam pelas descobertas da medicina, que espera por líderes justos, que se maravilha com a alegria do outro.


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terça-feira, 16 de janeiro de 2018

CABO DE GUERRA >> Clara Braga

A criança nem nasce e já começa a ser repartida. Didaticamente falando, claro! Nas primeiras horas de vida já conseguem definir: é a cara do pai. Mas recém-nascido muda de um dia para o outro. Na hora que nasce está com a cabeça toda alongada por causa do parto, a cara toda amassadinha, e no dia seguinte já está completamente diferente. Então uma nova avaliação é feita: os olhos são do pai, o nariz da mãe.

Esse ritual de identificação é normal, algo relacionado com a sensação de pertencimento talvez, criação de uma identidade, não sei, só sei que é normal! Quem nunca olhou um bebê e disse: esse parece com fulano? E o ritual vai crescendo bem como a criança. A princípio parece só com o pai ou com a mãe, depois vão descobrindo o resto da árvore genealógica. O olho da avó, o nariz da bisavó, o pé do tataravô, a dobra do pescoço do lado direito logo abaixo do queixo é do avô. O dedo mindinho do pé direito tem a unha que lembra a do tio avô do primo do tio do pai do avô. O filho da cunhada da esposa do irmão do seu marido tem um filho que nasceu com o cabelo igual ao do seu filho, será possível? Acho que não, posso estar errada mas acho que a cunhada da esposa não entra na árvore genealógica.

E claro que essa mania não é exclusividade dos parentes ou amigos, os próprios pais também observam os filhos com olhos maravilhados e se buscam neles. A diferença é que os pais não querem dividir com mais ninguém, parece com um ou com outro. Eu mesma tenho certeza que meu filho é a minha cara, embora todos digam o contrário.

Enfim, o processo de identificação é longo, mas pelo que ando observando ele tem um fim. Observo os filhos das minhas amigas, já mais velhos, com 2 ou 3 anos de idade e, nessa fase, já ouvi alguns comentários como: nossa, como você faz birra hei, isso deve ser coisa do seu pai, pois sua mãe não fazia isso quando tinha sua idade. Claro que quem faz esse comentário é sempre a avó materna. Se fosse a avó paterna seria algo como: esse cabelo despenteado é estilo novo é? Quando seu pai era menor eu adorava pentear o cabelo dele, ele só passeava bem arrumadinho.

Antes achava esses comentários super maldosos, ficava parecendo que as pessoas só se identificavam com a criança enquanto ela era tão pequena que não conseguia desagradar nem os mais exigentes. Hoje já vejo com outros olhos, embora ainda seja contra, acho que está nesse momento a chance da criança encontrar um pedacinho dela mesma para chamar de sua e, quem sabe, quando crescer mais um pouco, ter a chance de tentar ser autêntica. 


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sábado, 13 de janeiro de 2018

LINDA ROSA, KIARI, GADÚ >> Sergio Geia



Suave, ela me encanta; e me encantou desde logo. Na primeira vez, pensei: “roupa nova, canção velha.” O mesmo pensamento do Juarez, de Manaus, que disse: “Letra encaixada, requintes de poesia das antigas.”
Contralto (ou mezzo?), a voz de Gadú amplifica o poder da poesia, e Linda Rosa me encanta: “Pior que o melhor de dois / Melhor do que sofrer depois / Se é isso que me tem ao certo / A moça de sorriso aberto / Ingênua de vestido assusta / afasta-me do ego imposto / ouvinte claro, brilho no rosto / abandonada por falta de gosto”, e não me deixa dormir.
Acordo no meio da noite e fico a cantar. Não cantar assim, cantando, cantando, soltando a voz; a música, essa poderosa magia, ela é que canta em mim. E não para. Termina, recomeça, termina, recomeça, cantando e me encantando, me subtraindo o sono, a voz da Gadú.
Num show, ladeando Leandro Leo, sorridente, linda (eu nunca a vi mais linda), feliz, ela empresta sua voz, traduzindo essa delícia: “Escolha feita inconsciente / De coração não mais roubado / Homem feliz, mulher carente / A linda rosa perdeu pro cravo”, eu sem compreensão, sem entender o intraduzível, a letra encaixada, a poesia, extasiado de tanta beleza, quase choro de alegria.
Nossa!
Respira, penso. Respira.
Mas afinal de contas, Gadú, o que passas com Linda Rosa?
Por partes. A música não é das antigas com roupagem nova, é nova mesmo. Quer dizer, talvez não tão nova assim, mas não das antigas, entende? Também não é da Gadú, nem do Tim Maia, como vi num comentário outro dia. É do Luis Kiari. Sim, Luis Kiari. Não conhece? Nem eu. Não conhecia. O moço tem músicas lindíssimas. “Escravo, meu amor, é o coração, que bate por bater. Sem ter algum amor como razão. (...) Devolve o que é teu, e volte a teu lugar. És livre para amar, és livre para sonhar...”, coisa fina, não? Que habilidade para brincar com as palavras e falar do amor. Está em “Teu lugar”. Depressa, mando comprar seu CD “Três”.
As composições do Kiari são delicadas, exploram as diversas vertentes da vida humana com doçura, elas vão comendo você pelas beiradas. Letras misteriosas, canções que pedem busca faminta, desejo insaciável. E são níveis de compreensão; diversos. E músicas que falam de amor, poesia elegante, gigante, doce. Assim são: “A bailarina”, “Quando fui chuva”, “Ainda cedo”, “Dentro de mim” (linda, linda, linda). Você precisa estar com fome, acarinhá-la como você acarinha um amor, desnudá-la, despi-la, deixá-la limpa, quente, penetrá-la mansamente, entrar no seu mundo.
Kiari é um talento só. E não só. Tem o Caio Sóh, a Maria Gadú, o Gugu Peixoto, o Áureo Gandur, o Tomaz Lenz, o Pedro Barnez, o Fred Sommer e o Leandro Léo, trupe conhecida como “Varandistas”: uma turma de amigos que se reunia num apartamento no Recreio, no Rio, para cantar, beber, jogar conversa fora, espantar a solidão. Desses encontros saíram preciosidades, talvez, Linda Rosa.
Entendê-la pode não ser uma tarefa das mais fáceis. Esperei o próprio autor numa entrevista longuíssima para uma tevê de Campina Grande, pôr a pá de cal. Não pôs. Nada. Nem falou nem lhe foi perguntado. Já vi na web muita gente falando coisas, um montão de coisas, que é uma canção lésbica, por exemplo. Será? Pois pra mim ela fala de uma garota de programa (prostituta ou puta são tão pesados que me recuso). Foi Julio quem me alertou. Concordei na hora.
Só você, Kiari, pode dizer qual a verdade escondida em Linda Rosa. O que o levou a talhar essa lindeza, qual foi a sua inspiração, no que estava pensando?
Sei que você não vai falar, muito menos ler essa crônica vai (ela não está na Folha, Estadão, O Globo, já imaginou?). Satisfaço-me então com a minha, só minha, (ah, do Julio, claro) interpretação.
Sim, sim, uma garota de programa, linda, uma rosa perfumada, sensual, charmosa, de coração escravo, que só bate por bater.
Quando ouço Linda Rosa, eu penso nela, assim... 

P.S.: Os autores de Linda Rosa são Luis Kiari e Gugu Peixoto

 

 

 



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sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

RATOS - 1a parte >> Zoraya Cesar

Se eu quero, eu pego. Se tentam me impedir, eu tiro do caminho. E se me aborrecem, eu me vingo. Minha vida é simples.

Nunca fui bonito – nasci pequeno, franzino, parecendo um rato cinzento e comprido. E por ter nascido sem os dons da beleza ou empatia, lancei mão da malícia para conseguir meus intentos. Mentira. Usei de malevolência porque eu gosto. E gosto não se discute.

Nas fotos de família lá estava eu - meio escondido atrás de alguma saia ou perna de calça, apenas minha cabeça aparecia, o cabelo ralo, os olhos brilhantes, fundos e esbugalhados, o nariz afunilado. Minha boca era pequena, mas os lábios, carnudos, me conferiam um ar de sátiro lúbrico e insaciável.  

O Rattus norvegicus, a ratazana de esgoto, ou está comendo ou fazendo sexo. Pode chegar a ter 20 relações por dia.

Alguns acreditam que a aparência espelha o caráter. Outros, que, ao contrário, ela influencia em sua formação. Não sei quem está certo, nem mesmo se estão certos. O que sei é que admiro a solércia, a inteligência, o esganamento de ratos e ratazanas. E nunca me incomodei em ser comparado a esses seres, em minha aparência e – digo logo, para poupar tempo – conduta.

Tenho uma raiva que me consome, uma inveja perene que me leva a destruir tudo o que está ao meu alcance. E não tenho escrúpulos ou preconceitos. É-me indiferente que o objeto de minha inveja  seja pessoa da família, vizinho, empregado, desconhecido. 

Noventa e cinco por cento do código genético dos ratos é igual ao dos humanos.

Meu avô foi o primeiro a suspeitar de minha natureza murina. Desconfiou de minhas manobras para disseminar a discórdia na família; de ter sido minha a mão que escreveu a carta anônima que levou minha prima ao suicídio; e de que fora eu a roubar o broche de minha avó, forjando a culpa sobre minha cunhada. Sim, meu avô, com seu tino de homem honestíssimo, sentia que eu, seu neto mais velho, era um verme, ou melhor, um roedor abjeto. Mas nunca pôde provar nada. Antes que conseguisse fundamentar suas suspeitas e desnudar minha alma à luz do sol, troquei os remédios que ele tomava, provocando sua morte. Um lamentável acidente, concluiu o médico. Um golpe de mestre, pensei eu.

A vila onde nasci, sendo pequena e interiorana, era habitada por gente conservadora e ciosa de sua honra. Todos hipócritas, claro. 

O tabelião, por exemplo, passava a mão na bunda das empregadas e fazia discursos em praça pública pela moralidade dos costumes nos lares. A diretora da escola, por sua vez, roubava dinheiro das auxiliares e depois o distribuía nas quermesses da igreja, para se fazer de generosa. Mas de seu bolso, mesmo, nunca saiu um centavo.

E essa gente – quase tão execrável quanto eu – murmurava sobre meus hábitos escusos e furtivos, pois eu não gostava de sair durante o dia e minha pele tinha sempre um estranho palor; que eu podia enxergar no escuro e andar sem ser percebido. Que eu era esquisito. Essa gente fala muito.

Os ratos são animais de hábitos noturnos.

Enxergo bem, verdade, e, sendo magro e flexível, esgueirava-me com facilidade por entre as sombras (quantos segredos descobri, quantos valores roubei, quantas desavenças provoquei por conta disso!) E, justamente por temer ser pego de surpresa ouvindo ou perscrutando sobre a vida alheia, andava sobressaltado, a olhar por trás dos ombros. Vou, no entanto, confessar, pois é só o que me resta a essa altura: eu tinha, realmente, características, hábitos e pensamentos estranhos para aquela gente simplória e maldita.

Ratos são habilíssimos para se localizar, aprender caminhos novos e criar atalhos. Sua noção espacial é incomparavelmente mais evoluída que a do reles Homo sapiens.

Naturalmente, aos poucos as pessoas foram juntando os pontos, coligindo coincidências – como é lento o ser humano em aceitar a maldade por si mesma, justificada pelo simples desejo de realizá-la, e não, necessariamente, porque ela vá trazer algum benefício ou vantagem ao seu perpetrador.

Quando, finalmente, familiares e vilãos se deram conta – embora nunca tenham provado nada; era mais uma certeza íntima - da intriga, roubos, maledicência, enfim, de todo prejuízo e destruição que eu provocara, vi-me obrigado a me afastar de seu convívio. 

Como se isso me afetasse! 

A casa estava abandonada.
Seu antigo habitante desaparecera, simplesmente.
Eu bem desconfiava o que lhe acontecera.
Fiz uma pequena reforme e me mudei para lá.
Era o lugar perfeito para meus planos.
Fui morar numa casa velha, afastada o suficiente para que eu tivesse sossego e pudesse viver em paz com os seres mais inteligentes do planeta: ratos e ratazanas.

Ratazanas podem ser domesticadas. Se retornam à vida selvagem, no entanto, adaptam-se rapidamente à liberdade.

Comecei, então, a pôr em prática o sonho que acalentei desde sempre: ser maior que o Flautista de Hamelin. Eu não ia somente encantar os ratos. Eu iria domesticá-los. E, em os domesticando, colocá-los a meu serviço. Um serviço já inteiramente planejado.

2a parte em 26 de janeiro

foto: StockSnap on Pixabay





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quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

PHAROPHA>>Analu Faria

O brasileiro é cordial. E chique. O brasileiro é um cordial chique. Ou talvez a classe média seja chique. Cordial e chique. Talvez a classe média seja seletivamente cordial. Mas definitivamente é chique. A gente é (também me incluo na categoria) uma classe média cordial (ma non troppo) e chique. 

É por isso que há um tempo a gente resolveu que "vai estar fazendo" alguma coisa no futuro e não que "vai fazer". É por essa mesma razão que, depois de descobrir que  " estar fazendo"  tornou-se coisa comum para o pessoal do telemarketing (e o pessoal do telemarketing não é chique), a gente também deixou de usar gerúndio. A gente confundiu gerúndio com gerundismo. Então "estamos trabalhando" foi banido, mesmo que neste momento a gente err... esteja trabalhando.

Entre os profissionais do Direito, então, nossa! é uma chiqueza danada! A gente (porque, novamente, eu me incluo na categoria) adora uma inversão de ordem na frase, tipo:  "Sabe o réu que sua conduta irregular está." Daqui a pouco a gente vira o Yoda. Mas um Yoda chique, porque a gente é classuda. Aliás, não pode falar "classuda", porque "classuda" não é uma palavra chique. 

Acho que é também por isso que a gente evita falar "a gente". Quanto mais chique a gente fica, mais a gente usa "nós". A mudança acontece primeiro na escrita, que a gente (chique) achou por bem considerar o terreno da formalidade. Depois a coisa se alastra para a fala. O suprassumo do chique é chegar a uma reunião e dizer "vamos apresentar nossas metas para o próximo ano, para que possamos entender o que nos espera." Eu fico até emocionada.

Proponho, portanto, que deixemos quaisquer resquícios de deselegância verbal para trás. Que não usemos mais "a gente". Que invertamos as frases o quanto pudermos. Proponho até que troquemos o "F" pelo "PH", pelo valor aristocrático óbvio desse dígrafo. Sim, teremos, por exemplo, de trocar a grafia da palavra "farofa" por "pharopha" - algo rebuscado, é verdade, mas é o preço que se paga pela galhardia.


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quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

SEM HISTÓRIA PARA CONTAR >> Carla Dias >>

Não tenho história para contar. Não vou requentar uma, tampouco sair falando o que vier à cabeça. Até porque o que me vem à cabeça agora: refugiados. Acabei de assistir a uma reportagem sobre os que chegam ao Brasil e em outros países desse mundo, fugindo de uma vida que não é vida. Não consigo parar de pensar sobre pessoas que batem à porta de outras pedindo guarida, e como é importante ajudar. Obviamente, não de qualquer jeito ou se colocando em perigo. Mas por que é tão difícil se organizar, quando a questão é tão óbvia?

Parece que não adianta a questão ser óbvia. É preciso que os interesses de alguns se alinhem à necessidade de muitos. Vejam o amontoado de decisões equivocadas e partidárias que nossos caros políticos andam tomando.

Tá bem... Eu disse que não iria sair falando o que viesse à cabeça. Mas o que fazer quando a cabeça é sala de estar para tantos pensamentos em ebulição? Até tentei escrever um poema, mas saiu outra coisa. Melhor deixar a poesia pra depois.

Só que não tenho algo específico a dizer, até porque hoje estou particularmente desapontada com o meu ser humano. Eu tenho uma lista de coisas a fazer, durante as férias, e não cheguei nem mesmo ao item três, de uma longa lista, considerando que o item dois é o tradicional check-up. As férias já estão acabando e não vejo meio de ticar esses itens todos. Além do mais, ando meio miss na lista, pedindo coisas bem loucas, como a paz mundial.

Um amigo sugeriu que eu escrevesse sobre ele e mais dois amigos correndo no parque, enquanto eu faço a minha caminhada na sala de casa. Eu declinei, alegando que, morrendo de inveja, eu acabaria escrevendo um manifesto sobre eu não estar lá com eles.

Meu dia rendeu tão pouco, que parece que ele nem me aconteceu. Com telejornal de trilha sonora – eu vinha evitando telejornais há meses, mas durante as férias, não sei o que me acontece, eu me rendo a eles. Enfim, com telejornal de trilha sonora, rabisquei umas coisas, toquei outras, mas nenhuma eu finalizei. Nada de ticar mais um item da lista. Para piorar, fui incluindo mais e mais itens nela, entre eles:


  • Mergulhar e socializar com uma baleia. Eu vi essa reportagem sobre uma mulher que nadou com uma, que ainda a empurrou para que um tubarão não chegasse a ela. O problema é que não sei nadar, a ideia de mergulhar me deixa sem ar. E a baleia? Linda, mas... E o tubarão? Lindo, mas... 
  • Assistir ao A Forma da Água, de Guillermo del Toro, no cinema. Bom, não sei quando irei – acredito que estreará amanhã -, mas me bateu uma nostalgia e tive de assistir, pela não sei qual vez, O Labirinto do Fauno.


Ocorre-me agora essa coisa do Guillermo com monstros. Ele disse, certa vez, que quando era menino, tudo nele era estranho. Foi assim que ele se identificou com os monstros e que os incluiu de forma crucial em sua vida. Eu gosto dos monstros do Del Toro como gosto dos anjos de Wim Wenders. Para mim, eles fazem poesia cinematográfica com esses personagens.

Ok, voltando à lista:


  • Aprender um novo idioma, o holandês. O ritmo que essa língua tem me soa fascinante, mas estou longe de saber uma única palavra. Continuo achando o som interessante.
  • Aperfeiçoar a minha habilidade em deixar pra lá. Porém, se eu for me apegar ao horóscopo, não vai rolar. 
  • Sair para dançar, mas música de mil, novecentos e só Deus sabe. Sim, sou vintage.


A questão com as listas é que, a partir de determinado ponto, enlouquecemos. Minha lista se tornou algo surreal, e o pior é que, quanto mais surreal, mais ela me agrada. Isso não muda o fato de que hoje não tenho história para contar, nem impede que meus pensamentos mergulhem no sobre como seria meu monstro, se eu decidisse criar um para uma possível história.

Guillermo del Toro me inquieta.

Para justificar minha passagem por aqui, vou contar o último item da minha lista:


  • Dormir muitas horas seguidas.


Eu sei que para alguns é item fácil de ticar. Na minha lista, mergulhar com a baleia e evitar o tubarão me parece mais provável.

Boa noite.

carladias.com



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terça-feira, 9 de janeiro de 2018

ESSE ANO EU VOU... OU NÃO! >> Clara Braga

Na manhã do dia 31 de dezembro de 2016 eu estava em um quarto de hotel na beira do mar me arrumando para ir a praia. Mas antes, liguei a televisão para assistir à São Silvestre. Assistir essa corrida já fazia parte da rotina do dia 31, já que meu pai sempre acompanhou, mas nesse ano o sentimento era um misto de saudade, empolgação e nostalgia, pois no ano anterior eu estava lá participando da corrida.

Ver aquela quantidade de pessoas super empolgadas por terem escolhido terminar o ano correndo me fez jogar para o universo a minha vontade para o ano que logo iria começar: ano que vem vou correr de novo e melhor do que ano passado. Mal sabia eu que meu filhote já estava crescendo dentro de mim e que, por isso, logo eu estaria trocando os treinos para provas por leves trotes e caminhadas que me permitiriam ter um parto um pouquinho mais tranquilo.

O ano foi passando, setembro chegou, meu filho nasceu e eu nem pensava mais na corrida. 3 meses depois pude voltar a pensar em correr e voltar a fazer meus treinos. E no dia 31 de dezembro de 2017 estava eu em casa, com meu filho no colo, assistindo à mais uma São Silvestre. Difícil não ficar ainda mais nostálgica, repensar o ano que passou e, mais uma vez, jogar a vontade para o universo: ano que vem vou correr de novo, mas dessa vez vai ser empurrando o carrinho do filho.

Logo depois pensei: será que é uma boa jogar essa vontade para o universo? A última vez não deu certo! E então cheguei a seguinte conclusão: sempre vale a pena vibrar positivo para as coisas que a gente deseja que aconteça, pois se elas não acontecerem é porque algo muito melhor veio de surpresa no meio do caminho, mesmo que no início seja difícil entender que esse algo é melhor. Não adianta terminar um ano já querendo que o ano seguinte esteja todo planejado, o que vale é focar no que você quer que aconteça e, ainda assim, estar aberto a novas possibilidade, pois se tem uma coisa que eu aprendi em 2017 é que em qualquer dia ou mês do ano pode surgir a possibilidade de se começar um ano novo. 


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sábado, 6 de janeiro de 2018

O AVESSO DA ADOLESCÊNCIA >> Cristiana Moura


Ainda ontem minha comadre comentava: " — Ao olhar-me, vejo que o viço da juventude foi maculado no reflexo do espelho." Tempo. Alguns hormônios declinam, outros nem sei. Tem horas, muitas horas mesmo, em que é como nadar, em dia de sol a pino, num mar de TPM. Então chega aquele dia em que se sangra e, junto com isto lembramos a crença de que vai passar o rebuliço corpo-a-dentro e, que como antes, a menstruação, apesar das cólicas, trará cores mais vívidas ao cotidiano. Não. Nenhuma ilha por perto. Um calor de dentro para fora num fogacho. A vida é nadar neste mar revolto de hormônios descontínuos, sensibilidade à flor da pele, chorar com o sorriso da criança, gritar com um objeto inanimado da casa, desejar e temer as carícias, morrer de saudades.

Bem vinda ao climatério, período que antecede a menopausa. Meno – pausa. Exato. Esta é a vontade mais íntima e absurda: a vida poderia parar a fim de vivermos este momento, apenas este. E, só mais adiante, continuar.

É experimento no próprio corpo. Modificações da matéria viva que somos. Reaprender o tamanho dos peitos, a textura da pele, a umidade da vagina. É a certeza sensorial da finitude. Como um luto belo de quem já tem muitas histórias para contar, e as possibilidades por vir são morada de desejos e expectativas. É gostar da memória juvenil, mas sem nostalgia. Foi bom, agora o tempo é outro. Tempo de doçura e graciosidade ainda por se desenhar em linhas ora sutis, ora densas e turbulentas.

 É como ter quinze anos de novo só que pelo avesso. E, de repente, dar-se conta que, já há algum tempo, não se tem mais interesse pelas bonecas. É um momento de amar a idade mas nem sempre querer revelá-la. Isto para não correr o risco de precisar caber em estereótipos do que se deveria viver a cada estação da vida. Somos uma geração de mulheres sem idade. Na adolescência buscamos o grupo. No seu avesso — o recolhimento.

O filho canta: “— Mamãe, mamãe não chore. A vida é mesmo assim, eu fui embora (...) eu tenho um beijo preso na garganta, eu tenho um jeito de quem não se espanta (...),  ser mãe é desdobrar fibra por fibra os corações dos filhos. Seja feliz, seja feliz. Mamãe, mamãe, não chore...”*

Aos sons da música e da ausência de Gabriel pintei a parede com as mãos e comprei novas almofadas. Outras cores e tons tentando reinventar a beleza e aconchego dos seus sons.

No reflexo da juventude maculada pelo tempo enxergo-me mais bela. É tanta a fortaleza que vejo nas novas fragilidades. Isto deve ser a tal sabedoria anunciando que está por chegar e que é transparente. O corpo muda, o amor renasce, o desconhecido já não é o outro sou eu mesma. Nada merece ser adiado.

Quero é dançar como se cada gesto movesse o planeta inteiro. Gosto mesmo é dos cabelos brancos por entre os negros. Parecem iluminar pensamentos e emaranhados de vida descompassada no tempo.



* Trecho da música Mamãe Coragem de Torquato Neto

Imagem: Das Estratégias Para Me Ver Melhor de Cristiana Moura


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