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Mostrando postagens de Agosto, 2019

PAI DE NOVO >> Sergio Geia

Estou aqui na minha toca — jargão cunhado pelo Marcelino Freire para identificar o cantinho do escritor, o lugar em que ele reúne seus livros, seus textos, suas inspirações — pensando, e concluí que é hora de compartilhar. Vem aí o “folha vadia”, meu novo rebento. Que venha com saúde, com inspiração, com fluidos de encantamento, como um amigo seu para todas as horas. Oxalá, meu pai! 
Ele sairá pela Editora Matarazzo. Capa da Camila Giudice. Revisão do João Cláudio Guarnieri. E do que trata esse livro?, vocês podem estar aí se perguntando. Crônicas. 30 crônicas publicadas em veículos como o “Crônica do Dia”, o “Jornal de Caruaru”, o “Matéria-Prima”, a “Gazeta”, entre os anos de 2014 e 2019. E detalhe: algumas inéditas. 
O processo de escolha foi doloroso. Após muito trabalho, fiz uma primeira seleção com 60 crônicas, muitas delas com preciosos feedbacks de vocês. Imprimi. Espiralei. Dei para a Andréa Pristupa ler. Dei para a Marinês Santos ler. Marquei um chopinho com a Andréa e obtiv…

ABRIGO >> Paulo Meireles Barguil

Como você paga as suas dívidas?

O que você faz com as suas dádivas?

Onde você mergulha com as suas dúvidas?

Como você cuida do seu corpo nas manhãs que se apresentam eternas?

O que você faz com a sua mente nas tardes que parecem fixas?

Onde você repousa a sua alma nas noites que soam infinitas?

MANHÃ >> Whisner Fraga

a menina ensaca o estojo.

a mochila é à toa e a menina espicha o braço para encaixar a alça no ombro.

estilhaços de sono reluzem uma melancolia desconhecida.

a menina reclama e eu aponto uma manhã só de brincadeiras.

a preguiça vai murchando.

a menina equilibra o pão entre os dentes enquanto amarra o cadarço.

estamos quase atrasados, mas sempre há tempo para uma última objeção:

posso faltar hoje?

não pode, menina.

que tal se apanharmos uma semente no caminho?

que tal se a plantássemos e vigiássemos o vaso até o enigma do nascimento?

que tal se fizéssemos a lista do que mais amamos?

e o elevador já ruge em nosso andar.

a menina me lança a mão e eu acolho aquela alegria embrionária.

ajeito-lhe a camiseta, a franja, a alça e podemos caminhar.

eu queria dizer a ela para não ir à escola, que é melhor dormir um pouco mais, que é melhor ficar na cama enquanto emboscamos o mal se infiltrando na vida.

mas ela tem de ir.

EXISTIU >> Carla Dias >>

Durante a vida que viveu, sonhou e se atreveu a experimentar da realização de alguns devaneios. Por conta desse atrevimento, ganhou mais rótulos do que aqueles que engolem seus desejos, a fim de caberem em uma definição digna de colunas sociais. Nunca foi de vestir correntes, fazer? Havia quem dissesse que, com o desejo indomável que a habitava, duraria cinco minutos, depois de encarar a realidade voraz.
Nunca temeu a realidade, que, muito da atrevida, vivia a desafiá-la com sua mania de criar armadilhas de ferir profundamente. Nunca repugnou a realidade voraz, ao contrário, deleitou-se com ela, ao desafiá-la, constantemente, o que lhe rendeu dores que teve de carregar durante a própria duração.
Nada contra colunas sociais, mas sempre achou de uma tristeza de minguar atrevimentos necessários ter de caber em somente um lugar, parágrafos ou geografia. Ela nasceu para ser ao se esparramar: sonho, realidade, dor, sutilezas, gargalhadas, amores, veleidades, dissabores...
Horrores...
Feito…

ME FALTA MEMÓRIA >> Clara Braga

Às vezes me perco em memórias e perco as memórias de algum lugar. Sento, invento e reinvento meus passos sem finos tratos, nem sei ao certo onde vou chegar. Repasso o tempo que se vai com o vento e eu junto vou só me deixando levar. Tentei lembrar, Mas a verdade é que me sinto à vontade com o pouco que consigo contar.
Ah, se você soubesse que é só sentar na janela pra ver o tempo passar. Ele vai te chamar, te dar espaço pra entrar e te ajudar a recontar o que ficou. E o que passou a gente inventa, te empresto memórias, compro histórias, te ajudo a recriar.
Quero me perder nesse lugar onde posso não lembrar e, mesmo assim, continuar a contar. Repassar o que passou de um jeito que nunca foi e ainda assim encantar. Me contam minhas histórias e eu, sem lembrar, só posso acreditar. Não me faz sempre falta a memória, de um jeito simples e sincero, gosto mesmo é de inventar.




P.S: esta crônica integra o projeto "CRÔNICA DE UM ONTEM" e foi publicada originalmente no Crônica do Dia e…

O MARTELO DO BEM >> Albir José Inácio da Silva

Déti parecia em choque com as mãos no volante e a perna ainda esticada no freio. Margô abriu a porta da caminhonete e contornou a frente. Um homem de macacão e uma mulher seguravam no chão o cãozinho, que tinha parado de latir e respirava com dificuldade.
- Ele atravessou na frente do carro. – disse Margô à guisa de explicações.
Outras pessoas se aproximaram e, sem dar atenção pra desconhecida, discutiam estratégias para salvar a pequena vítima. Decidiram procurar Tibério, que foi ajudante de veterinário num sítio e agora trabalhava na farmácia.
Margô estacionou a caminhonete e ajudou Déti a descer. Seguiram o grupo que agora esperava em frente à farmácia. O cão estava vivo, mas, com alguns ossos quebrados, ia precisar de muitos cuidados.
- Como podemos ajudar? – perguntou Déti num fio de voz. - Podiam não ter atropelado ele! – respondeu irmã Penha sem disfarçar a hostilidade.
Organizaram-se os vizinhos. O paciente ficaria nos fundos da farmácia, Tibério faria os curativos, outro tra…

QUASE FINAL >> Sandra Modesto

Agosto passando e mal chegará setembro, seremos diferentes.
Pensava a moça que escorria pela vida, escorregão aqui, ali, tropeçando perto dos sessenta anos.
Vida com muitas histórias. Fazer o que? Mulheres são bichos estranhos. Muitos humanos não entendem. No concluo do mais de meio século despedaçando e desperdiçando as linhas do tempo.
Deveras notadas agora diante do espelho, cabelos grisalhos, juventude desleal. Acorda, toma café, abre a janela, é domingo e esse tal dia é muito lento. A cidade é silenciada por famílias sem conversas, sem abraços, porque o grupo  no watsapp é o trivial. O filho da quase sessentona nunca viu uma vitrola. Ouvir discos de vinil? Isso é pra pais.
Mas nem o vinil não faz parte da sala. Um tocador de disco vendido restou a coleção empoeirada magoada numa estante. Se for pra falar de saudades, que venha uma ditadura, uma armadura nos pés.
 Isso a moça não sonha.
Ainda que a beleza não exista, quebra- se o espelho jogue o mesmo pela janela. É questão de liberdade…

O FEITIÇO MAIOR QUE O FEITICEIRO 1a PARTE - Zoraya Cesar

O interfone tocou, a campainha aguda e desagradável. Ilana sentiu as entranhas se apertarem, como sempre. Por mais que os procurasse, nunca se acostumaria a esses encontros. 
A empregada, ciente que a irascível patroa não suportava delongas, correu a atender, antes que acabasse levando uns gritos. Segundos depois, apareceu na sala:
- D. Ilana, uma tal Madama Mármore diz que a senhora marcou hora com ela.
Madama Mármore? Empregada idiota. Madame Mormânt. Mande-a subir. E tá dispensada por hoje. 
Nalva amuou com a bronca (também, aquilo era lá nome de gente?). Mas fez o que lhe fora ordenado. D. Ilana não pedia. Mandava. 
Mesmo sendo uma bisbilhoteira profissional, Nalva escafedeu-se tão logo a visita chegou. A visita de nome esquisito causou-lhe arrepios. Mais tarde, contaria às amigas – Nalva contava absolutamente tudo o que acontecia no emprego – que “teve um mau pressentimento”. Falava apenas para se fazer de importante. Não teve pressentimento algum. Teve medo.
A mulher era velha, demais…

PHAROPHA>>Analu Faria

O brasileiro é cordial. E chique. O brasileiro é um cordial chique. Ou talvez a classe média seja chique. Cordial e chique. Talvez a classe média seja seletivamente cordial. Mas definitivamente é chique. 
A gente é (também me incluo na categoria) uma classe média cordial (ma non troppo) e chique. É por isso que há um tempo a gente resolveu que "vai estar fazendo" alguma coisa no futuro e não que "vai fazer". É por essa mesma razão que, depois de descobrir que " estar fazendo" tornou-se coisa comum para o pessoal do telemarketing (e o pessoal do telemarketing não é chique), a gente também deixou de usar gerúndio. A gente confundiu gerúndio com gerundismo. Então "estamos trabalhando" foi banido, mesmo que neste momento a gente err... esteja trabalhando. 
Entre os profissionais do Direito, então, nossa! é uma chiqueza danada! A gente (porque, novamente, eu me incluo na categoria) adora uma inversão de ordem na frase, tipo: "Sabe o réu que…

CONVERSA FIADA >> Carla Dias >>

É apenas conversa fiada. 
Você está aqui para uma breve, porém inconveniente conversa fiada. Ela fiada nas cruzes fincadas em terras que você conhece somente por telas e manchetes. Por seus pés nunca terem pisado nelas, sentido a umidade deixada ali pela garoa, imagina que aquele lugar é um lugar nenhum, porque a distância é um ansiolítico eficaz para aqueles que preferem não se envolver com a realidade descabida.
Não estou aqui, com essa conversa fiada, para lhe culpar pelo o que seja. Eu mesma ando com algumas distâncias a tiracolo. Porém, elas são íntimas e remetem somente ao meu questionamento. Não é distância que me leva a observar tragédias como se elas não tivessem acontecido. Não é distância que me torna capaz de abraçar indiferença pela miséria do outro. Não é distância que me nega a ciência de que aquele lugar nenhum é um lugar ao qual também eu pertenço. 
Prepotência do ser humano achar que somos divididos em lotes. Quando tem de vir, o inesperado, o improvável, o intolerá…

NO EMBARQUE >> Clara Braga

O local: aeroporto internacional de São Paulo.
Situação: eu e minha família estávamos aguardando o vôo de volta para Brasília que atrasou duas horas! Sim, duas horas de espera, tentando convencer uma criança de 2 anos que a espera do embarque do aeroporto é um lugar super legal para brincar, depois de uma semana participando de um congresso, enquanto nas cadeiras ao lado um dos jurados do MasterChef fazia flexões.
Enquanto andava atrás do meu filho ouvi meu pai comentando sobre alguém que estava próximo de nós, mas no momento não consegui identificar quem era. Logo depois vi uma moça arregalar os olhos, se agarrar na blusa do marido e dizer: meu Deus, não estou acreditando!!
Comecei a ficar bem curiosa, mas enquanto mantinha um olho no meu filho não consegui, com o outro olho, encontrar ninguém que me parecesse familiar.
Mais a frente vi um funcionário do aeroporto correr para trocar de posto com a outra funcionária que acabara de atender a tal celebridade e que dizia não saber de qu…

sobre bruxas e pintoras >>> branco

bruxa de pele sensível você não foi a minha primeira escolha mas por ser a última prova que todas as outras estavam erradas
seu rosto sujo de tinta e o pincel em sua mão mostram que você é a artista e enquanto pinta suas telas pessoas falam e carros buzinam lá fora formando outro quadro o da cidade e seus problemas mas volto a você eu - o poeta - parado em pé próximo da porta observando você deslizar por entre os cavaletes
bruxa de rosto feliz ainda não sabe que a cada sorriso me mostra que o mundo - aquele mesmo - lá fora pode ser mais bonito
nós não sabemos quase nada dos mistérios da vida mas compartilhamos o pouco saber e gargalhamos em nosso aprendizado
e finalmente quando nos deitamos  - abraçados -   só nós podemos nos ouvir palavras sussurros  - ternuras e gentilezas -   você coloca a cabeça no meu ombro para um descanso do amor - em estado de perfeita paz -  ainda sem perceber  que seu quadro mais belo está terminado pois com sua pele toque alma e espírito pintou minha vida …

SEU SERENO ME DESCOBRIU >> Fred Fogaça

Há duas semanas postei o caso de Seu Sereno e, coincidência, hoje tem mais. 
Não era senão hoje cedo, sexta-feira e eu em casa, me ocupando de me preocupar com mundanices a que se está sujeito plena semana útil, quando recebi uma ligação de número privado que, quase como geralmente, não atendi. 
Tem uma coisa: se você faz uma ligação plena pós-verdade liquida, você tem que ter coragem. 
Fora que eu, democrático de costumes, não atendo a nenhuma. Não fosse, nessa ocasião, um quê de tédio e um certo pressentimento.
Com que aparatos não se preza a discrição? Uma velha conhecida, com celular descartável só para caso de, falando que tem uma estória pra mim.
Levonor, cheia de casos. 
Já imaginava.
Talvez, mas eu não posso confirmar pra vocês, seja questão de tradição. Donde vem tais Gestrel? Não ligo sobrenome à nacionalidade, mas imagino um aconchego. Tenho de me lembrar de perguntar isso a ela.
Seja como for, estranhei a cautela: ela tem esse entusiasmo natural pelas pessoas, suas ligações e desa…

LYGIA >> Sergio Geia

Aos domingos tomo café em uma padaria que fica ao lado de uma livraria. Da minha mesa vejo pessoas chegando e parando em frente à vitrine para observar os livros. Não são poucas as que cultivam esse hábito. Curioso: jovens, em sua maior parte. 
Poucas coisas me dão mais prazer que um livro em mãos, um lugar bem iluminado e arejado, uma boa história. Mas livro livro, ou seja, de carne e osso, você entende. Sou daqueles que igual a muitos tem um tesão pelo cheiro do papel, pelo tatear, pelo movimento de virar página ou voltar, a perspectiva de tê-lo em minha mesinha de cabeceira para, sempre que quiser, dar uma olhada. 
Talvez as livrarias não resistam, muitas estão fechando, mas o livro de papel, esse sim há de resistir. Muitos títulos que procuro numa livraria física, eu não encontro, só sob encomenda. No mundo virtual eu acho o que eu quero, comparo preços, peço, eles chegam até mim. Fácil; e paradoxal. Seria uma explicação para esse funeral coletivo de livrarias?
Noite passada t…

DESLUMBRAMENTO >> Paulo Meireles Barguil

 Há alguns dias, ela estava lá.

Eu tinha passado algumas vezes do lado, mas, distraído, não a tinha visto.

Antes dela, outras já tinham nascido e morrido: descobri isso quando olhei para o chão.

Estupefato fiquei: seja pela sua beleza, seja pela minha cegueira.

Ah, quantos encantos eu perdi...

Espero que, cada vez mais, a diminuição do ritmo da caminhada me possibilite apreciar o sublime. Ah, como ele é fugaz: quando a procurei na manhã seguinte, ela já havia envelhecido...

[Eusébio – Ceará]

[Foto de minha autoria. 26 de julho de 2019]

MAL-ESTAR >> Whisner Fraga

a menina se queixa: o semáforo empaca com sua ordem vermelha.

a menina buliçosa.

o que foi, menina?

uma desordem lhe esmurra o estômago. pede que cheguemos logo.

a menina quer alívio.

o carro trêmulo nas ruas irregulares.

a menina não tem mais tempo e vomita e chora.

há um milagre que colha a dor e a traga para o fim?

o médico prescreve algo para um desarranjo qualquer.

criança é assim (é assim?), não se preocupe, vai passar (vai?).

vai passar, tudo vai dar certo.

criança é assim.

não há certeza a não ser esse deus que nunca se pronuncia.



CENÁRIO >> Carla Dias >>

Não nasceu para isso. Fazer o quê? Enlouquecer é que não. Nasceu para outras coisas: inventar histórias, criar canções, reverberar ideias, apaziguar angústias. Mas onde mesmo isso tudo é poderoso o suficiente para se colocar acima dos boletos vencidos e das tragédias diárias que assolam salas de espera e estações do ano? Nem precisam ser dele, as tais tragédias. Ele as identifica onde estiver, basta dar liberdade à própria atenção, que, insolente, às vezes o leva aos prantos, transformando-o em espectador impotente.
O mundo lhe causa espanto. Não sabe lidar com ele e a diversidade de suas camadas de desencantamento e luxurioso contentamento. Não irá chorar por perdas reversíveis. Não gastará seu pranto com construções alicerçadas em frágeis terrenos. O que realmente lamenta é a indiferença. Indiferença fere seu espírito, insulta sua existência. Ele enxerga na indiferença uma poderosa maneira de se liquidar felicidade.
É um pouco daquilo que seu avô costumava dizer, um cigarro apagado…

ESTRANHOS DIÁLOGOS >> Clara Braga

Na sala do médico fazendo exame para renovação da carteira de habilitação, esperando ele terminar de assinar toda a papelada necessária para liberar minha renovação. Então o médico começa aqueles diálogos estranhos, mas necessário, só para não ficar um silêncio incômodo. 
- Então Clara, o que você faz da vida? 
- Sou estudante, curso Artes Plásticas na UnB. 
- Ah, bacana (com cara de quem não acha bacana)... Quem na Globo fez Artes Plásticas? 
- Oi?! (perguntei não porque eu não entendi o que ele perguntou, mas porque eu não entendi o que ele quis dizer com isso... será que ele estava dizendo que eu só tinha escolhido esse curso porque alguém na Globo escolheu?) 
- É, quem na Globo fez Artes Plásticas como formação acadêmica? 
- Não sei, acho que ninguém... (ainda sem entender) 
- Como ninguém? Claro que alguém fez! 
- É... alguém deve ter feito e eu não sei quem foi... (preferi responder assim para não alongar muito o assunto) (... alguns minutos de silêncio depois...) 
- Artes Plás…

ACORDA, MENINO! >> Albir José Inácio da Silva

Imagem encontrada na internet


O que diz o menino que dorme na praia? Talvez fale dos perigos do mar, da displicência dos pais. Ou de um assassinato a ser esclarecido.
Mas é só um menino. Não deveria nos dar esta sensação de naufrágio da humanidade. Há dias, não adianta acusar governos, etnias, religiões, porque a falta de ar não cessa.
É lágrima que não pinga, não seca nem escorre. É mais que um cadáver, é um assombro, uma dor insepulta de que tentamos nos livrar.
E ainda suspeitamos de nós mesmos. Em nome dos deuses fazemos coisas que até o diabo duvida. 
Duvida e se defende, dizendo que não chegaria a tanto, embora comemore o resultado.
Queríamos não ter visto nem sabido — maldito fotógrafo, maldita web e maldita imagem que, mesmo escorraçada da memória, dorme no tapete da sala e à noite repousa no nosso travesseiro, naquela pose mesma que o mar beijava.
Fica-nos a sensação de que Alá deu de ombros, Jeová lavou as mãos e, embri…

UM AMOR QUE PEDIU PARA SER ESCRITO << Cristiana Moura

Os sons do mundo — são muitos e emaranhados os sons. Sou uma pessoa que deseja, de forma verdadeira e intensa, abaixar o volume do mundo. — Por favor, abaixa um pouco o som; — Ei, abaixa essa TV!; — Porra, está muito alta essa música! São algumas das frases que me acompanham desde a adolescência e se fazem presentes no meu dia a dia nem que seja só em pensamento comigo mesma. Em outras palavras, sou aquele tipo de pessoa que, muitos, facilmente designam: chata.
Então ele diz: —Minha filha, é porque você é sensível.
Sua fala me acaricia os sentidos. Sua palavras sábias aquietam minha dificuldade de calar. Minha remota e presente infância paulistana ganhou outros ares e liberdade de brincar e andar de bicicleta na sabedoria paterna de acampar. Ele ensina ao mesmo tempo que vive. Ensinou-me que viagem começa não quando a gente chega no destino, mas quando a gente sai de casa. E desta forma aprendi o que muito tempo depois li em filósofos orientais, que o caminho se faz ao caminhar.
Sou …

A AMANTE - - Zoraya Cesar

março 29, 2013 D. Tidinha era da época em que, uma vez casada, sempre casada. Assim fora criada, assim crescera e assim casara. O noivo, Aristeu, era de família tradicional, funcionário de carreira do Banco do Brasil, dez anos mais velho, um partidão, para os padrões da época.
Mas o tempo revelou que, como marido, Aristeu era um safardana. Aristraste, falava D. Tidinha (Matilde, para os não íntimos) com seus botões, com as panelas, as paredes, o berço dos filhos.
Sim, filhos, porque no mundo em que vivia D. Tidinha uma mulher não podia se furtar aos deveres conjugais. E se Aristeu era chegado às jogatinas, bebidas e farras, era chegado também ao corpo de D. Tidinha, que, mesmo depois de dois filhos, continuava impecável, com sua cinturinha de vespa. Aliás, falemos logo, para não deixar dúvidas, D. Tidinha era mesmo – e o foi a vida inteira – muito bonita.
E, para dar ao Amigo Leitor um quadro ainda mais realista, revelamos que Aristeu jogava tanto quanto perdia. Não poucas vezes D. Ti…

TEMPO, MANO VELHO>> Analu Faria

Se me perguntassem hoje o que eu mais quero ter, certamente "tempo" ficaria entre os meus top 5 desejos de mulher urbana. Minha última crônica foi sobre como ter tempo faz diferença para nossa qualidade de vida. Com tempo arranja-se algum dinheiro, diverte-se, estuda-se, conhece-se, ama-se, goza-se, não necessariamente nessa ordem, mas de forma mais completa. Se fosse vendido, o tempo seria um dos artigos mais caros das lojas de grife da Champs-Élysées. Deus sabe que eu daria meus pulos para comprá-lo. 
O problema é que o tempo é terrivelmente gratuito. Na sua distribuição, aliás, está a grande generosidade e a grande maldição do Universo sobre nós, humanos:  todos temos 24 horas para gastar, independente de nossas capacidades, malgrado nossas necessidades. (O tempo não é nada marxista!*)  Desconfio que é por isso que o tempo é tão sábio: quem sou eu para achar que preciso de mais tempo que meu vizinho? Que coisas eu preciso fazer que meus pares também não precisam, com o t…

NÃO O SUFICIENTE >> Carla Dias >>

Sentado à mesa, cercado por tantos. Entende bem o que acontece ali, mas é experiente em enganar os próprios sentidos, mesmo não gostando dessa qualidade da qual não consegue se livrar. Vale-se dela sempre que a oportunidade se apresenta. É um talento. Um incômodo talento.
Permanece ali, os braços cruzados, a cabeça levemente inclinada, como se observasse o cenário que se estende além. 
Já conhece as manifestações que se alardeiam, durante esses encontros sociais. Na verdade, compôs uma canção, certa vez, com uma inquietante letra gerada de combinações de algumas delas: não cabe aqui, não serve para isso, não orna com aquilo, não é sua culpa, mas não vai dar certo.
É bom, só que não o suficiente. 
Não ser o suficiente é meio que o slogan da vida dele, alguém considerado nada suficiente, até mesmo quando transborda. Acostumou-se a ser visto dessa forma.
A tal canção tomou conta dele. É capaz de cantá-la de trás para frente, formar novos versos, bagunçar as palavras e, ainda assim, elas…