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A AMANTE - - Zoraya Cesar

D. Tidinha era da época em que, uma vez casada, sempre casada. Assim fora criada, assim crescera e assim casara. O noivo, Aristeu, era de família tradicional, funcionário de carreira do Banco do Brasil, dez anos mais velho, um partidão, para os padrões da época.

Mas o tempo revelou que, como marido, Aristeu era um safardana. Aristraste, falava D. Tidinha (Matilde, para os não íntimos) com seus botões, com as panelas, as paredes, o berço dos filhos.

Sim, filhos, porque no mundo em que vivia D. Tidinha uma mulher não podia se furtar aos deveres conjugais. E se Aristeu era chegado às jogatinas, bebidas e farras, era chegado também ao corpo de D. Tidinha, que, mesmo depois de dois filhos, continuava impecável, com sua cinturinha de vespa. Aliás, falemos logo, para não deixar dúvidas, D. Tidinha era mesmo – e o foi a vida inteira – muito bonita.

E, para dar ao Amigo Leitor um quadro ainda mais realista, revelamos que Aristeu jogava tanto quanto perdia. Não poucas vezes D. Tidinha recebeu a visita sempre desagradável de cobradores, ou teve de vender as poucas jóias para fazer frente às contas atrasadas.

Aristeu não chegava a cair de bêbado, infelizmente, pois se caísse poderia bater a cabeça no paralelepípedo e... esse não é um pensamento cristão. Chegava em casa alterado e agressivo. Destratava as crianças, empurrava Tidinha para o quarto e vocês podem imaginar o resto.

E por que não separava, perguntam as mulheres modernas. Porque não era tão simples assim. D. Tidinha não teria como se sustentar nem às crianças, mulheres desquitadas eram discriminadas. E ela sabia que, sozinho, aí mesmo Aristeu perderia as estribeiras e também o cargo no Banco do Brasil, já ameaçado. E perder a segurança da pensão do banco era impensável, depois de tanto sacrifício.

De forma que agüentava tudo estoicamente, inclusive as farras do respeitável Aristeu. Aliás, essa era a melhor parte, pois sempre que ele se enrabichava por uma sirigaita passava alguns dias fora de casa, para alívio geral.

Mas nem tudo era amargor, D. Tidinha freqüentava o clube do BB, tinha suas amigas. E foi no aniversário de uma delas que encontrou Lucrécia, a exuberante, independente, rica, a loura Lucrécia. Viúva, não tinha peias nem pejos, mas possuía o que as gentes da época chamavam sex appeal. Por onde passava, atraía olhares e desejos. Diziam ser fútil, inconseqüente, egoísta. Tudo o que não se poderia dizer de D. Tidinha.

Ainda assim, as duas mulheres ficaram amicíssimas, pareciam irmâs, de tão unidas. Tanto que Lucrécia jantava constantemente na casa de D. Tidinha.

Bem, não vou fazer pouco da sua percepção, Amigo Leitor, sei que você já concluiu o óbvio: Aristeu se apaixonou e fugiu com Lucrécia, deixando tudo para trás, menos o emprego. 

D. Tidinha, com a elegância que sempre lhe fora peculiar, não se abalou. Continuou sua vida e, a bem da verdade, a família nunca passou necessidade. Talvez por não terem de pagar dividas de jogo ou contas atrasadas. Talvez. 

Algumas semanas depois, recebem a notícia de que Seu Aristeu e Lucrécia haviam morrido juntos, acidentalmente asfixiados pelo gás que escapou do banheiro. D. Tidinha, para surpresa de todos, chorou copiosamente por muitos dias, e nem saber que receberia toda a pensão do Banco do Brasil pareceu consolá-la.

Nessa época, estava para ser avó – uma ainda jovem e linda avó, diga-se de passagem.

Chamou a filha e o genro no canto e comunicou, sem meios termos: 
- O menino vai se chamar Lucrécio. E eu serei a madrinha.

A filha ficou quieta, mas o genro ainda tentou argumentar. O olhar da sogra – e o fato de ela ajudá-los financeiramente – fizeram-no calar-se. Apenas pediu, tímida e respeitosamente, para colocar um segundo nome na criança, que tal Lucas, D. Tidinha? Ela assentiu. Lucrécio Lucas era um nome sonoro e forte, todos ficaram satisfeitos.

Apaziguada a questão, restou a curiosidade. Por que batizar o neto com o nome da amante do marido? E porque estava tão deprimida, afinal, livrar-se do estorvo não era o que ela queria? D. Tidinha ouvia as perguntas sorrindo como uma Gioconda e igualmente enigmática.

Uma dia, D. Tidinha recebe um envelope lacrado enviado por um escritório de advocacia. Ela se trancou no quarto, acendeu uma vela, tirou o retrato de Lucrécia do fundo de uma gaveta e colocou-o no altar, junto com seus santos de devoção.

"Minha Amada Tidinha, não fique triste. Você sabe que eu estava desenganada e que jamais me permitiria morrer definhando.
De forma que ajeitei tudo para partir de maneira rápida e indolor.
Deixo em testamento todos os meus bens para você, e levo o que te atormenta. Aristeu vai comigo.
Vivo, ele nunca te daria sossego, você é gentil demais, ele iria te deixar na pobreza.
Adeus, minha Querida Amiga, você foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida.
Lucrécia” 

D. Tidinha chorava e ria ao mesmo tempo, sabendo o que ninguém desconfiava: que, naquela história toda, o grande corno sempre fora o marido.

Conto originalmente publicado em 
A cronista está de férias! Volta dia 23 de agosto. Até lá!

Comentários

Marcio disse…
Zoraya surpreende até quando republica textos antigos!
Albir disse…
Zoraya chega a ser bíblica, "...os que se exaltam serão humilhados e os humilhados serão exaltados."