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EXISTIU >> Carla Dias >>


Durante a vida que viveu, sonhou e se atreveu a experimentar da realização de alguns devaneios. Por conta desse atrevimento, ganhou mais rótulos do que aqueles que engolem seus desejos, a fim de caberem em uma definição digna de colunas sociais. Nunca foi de vestir correntes, fazer? Havia quem dissesse que, com o desejo indomável que a habitava, duraria cinco minutos, depois de encarar a realidade voraz.

Nunca temeu a realidade, que, muito da atrevida, vivia a desafiá-la com sua mania de criar armadilhas de ferir profundamente. Nunca repugnou a realidade voraz, ao contrário, deleitou-se com ela, ao desafiá-la, constantemente, o que lhe rendeu dores que teve de carregar durante a própria duração.

Nada contra colunas sociais, mas sempre achou de uma tristeza de minguar atrevimentos necessários ter de caber em somente um lugar, parágrafos ou geografia. Ela nasceu para ser ao se esparramar: sonho, realidade, dor, sutilezas, gargalhadas, amores, veleidades, dissabores...

Horrores...

Feito o de constatar que havia quem travasse uma verdadeira batalha, apenas para inferiorizar o outro.

Êxtases... 

Como o de amar com honestidade reverberante, levando esse amor a latejar no corpo, dissolver-se na alma.

Costumava resumir, aos interessados no entendimento que abraçava, que alma era um lugar onde depositava benquerenças devastadoras e escândalos emocionais. Nela tudo era lancinante, da alegria à tristeza. Alma era um lago interior no qual ela se banhava e também se afogava. 

Daí que a duração dela expirou.

Ao despir-se da vida, deixou afetos não correspondidos e alguns que viviam em esconderijos. Havia perigo em se assumir conectado a alguém feito ela. Não caía bem nas colunas sociais, não era aceito nas conversas familiares, não ornava com o tom pastel do quintal emocional que acolhia os requintes de quem sabia se definir em algumas palavras.

Ela nunca soube, sem contar que era dada a cair em copioso e barulhento choro, por conta da história que imaginava que era a daquele que caminhava do outro lado da rua, o desconhecido de feição triste. 

Ao despir-se da vida, provou que partir é algo feio para quem não quer encarar a morte como consequência. Pediu aos seus apenas que não a enterrassem, porque não queria ninguém em pé, ao lado dela, como se fosse um fantasma.  

Há quem diga que nunca encarou a realidade voraz, ignorando que, para viver a vida que vivera, que escolhera, ela teve de encarar a voracidade da realidade de muitos, e isso quase sempre a desalentava. 

Durante a vida que viveu, protagonizou benquerenças devastadoras, de partir o coração, assim como deleites impossíveis de serem traduzidos em palavras. Lamentou por aqueles que não permitiam que o olhar falasse. Viveu o reverberar do amor, na honestidade da sua força, na rebelião causada pela insistência dele em respirar, mesmo quando ela entregava à vida o último fôlego. 

Há quem diga que fará falta. Há quem não se importa. Há a vida que continua, apesar da ausência dela.

Imagem: The offering © Fernand Khnopff (MET Museum)

carladias.com

Comentários

Zoraya Cesar disse…
levando esse amor a latejar no corpo, dissolver-se na alma.
não ornava com o tom pastel do quintal emocional que acolhia os requintes de quem sabia se definir em algumas palavras.

Carla, você está devendo a todos nós, seus admiradores, um volume com suas frases incomparáveis.
Albir disse…
A intensidade jamais será perdoada. E a do amor menos ainda.