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Mostrando postagens de Fevereiro, 2021

UM PAPO COM SÃO PEDRO E SÃO PAULO >> Sergio Geia

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  De um lado vejo Pedro. Do outro, Paulo.    O velho Pedro segura uma bíblia na mão direita. Ele a tem próxima à cintura, como se fosse um caderno. Me lembra um estudante despreocupado indo pra escola. Na outra mão ele traz as chaves do Reino dos Céus. Procuro um cajado, cadê o cajado, Pedro? Não há cajado. Seu semblante é leve, está zen, bem zen, passa a serenidade dos grandes líderes, embora um pouco pálido.    Paulo também tem uma bíblia nas mãos. Diferente de Pedro, ele a traz junto ao coração, como se fosse um objeto precioso e de amor. Vendo a cena de Paulo e sua bíblia, me vem à mente o tio Nilson, Nirsão pros irmãos. Certa vez ele me encontrou numa dessas festas de fim de ano, era só assim que nos encontrávamos. Entre discussões fervorosas sobre temas variados — tio Nilson entendia um pouco de tudo e aqueles encontros em família eram ricos de discussões acaloradas — e um gole de cerveja, ele me disse:    — Serginho, você que gosta de ler, tenho um livro lá. Vou lhe dar de pre

ALARME >> Paulo Meireles Barguil

23h58 A crônica está sem título e eu busco, numa lista imaginária e em branco, um assunto para escrever.  A situação é crítica, pois amanhã de manhã não terei tempo para realizar o meu ofício quinzenal. E, então, o alarme de algum carro toca algumas vezes. Por sorte para quem está dormindo, ele logo desligou. Também sou agraciado, pois ganhei uma inspiração para redigir. Esses sinais, que costumam ser sonoros, indicam que uma situação foi modificada, ou que poderá ser em breve, sendo necessário implementar alguma atitude para restaurar o equilíbrio anterior ou minorar o inevitável prejuízo.  00h14 Consegui avançar na escrita, mas não tenho a menor ideia de como irei concluir esse texto. Uma coruja, então, avisa que está alerta, esperando o alimento incerto. Numa situação de perigo, o organismo libera adrenalina para que uma ação, lutar ou fugir, seja implementada e possibilite a continuação da vida. O único perigo que vislumbro nesse momento é não dormir bem e comprometer a qualidade d

NEVE NEGRA: PARTE 3

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A sombra da Rainha Morta    Em seu estarrecimento, o Rei não percebeu o horror no rosto da feiticeira e nem deu-se conta de que Madorno havia fixado seus olhos no espelho, pendurado logo acima da cama, e pronunciado as três palavras que devem ter sido as últimas a tocarem os lábios da rainha: escuridão, sangue e frio.    O rei parou de se mover. As palavras do anão ecoaram em seu peito oco. Tentou fazer um grito desesperado subir pela garganta, mas na verdade não queria gritar. Parecia flutuar em uma banheira de água morna, desprendido de qualquer contato com o solo.  - Morrer é assim? - estranhou-se. Não sentia nada.  Sua visão agora estava embaçada e uma névoa cinza fechou-se ao seu redor, delineando parcamente uma paisagem monocromática. Uma silhueta começou a tomar forma. Logo ele viu a si próprio e os acontecimentos das últimas semanas desenrolaram-se a sua frente. Não sabemos se ela sobreviverá, disseram os médicos. E ele saíra em busca de Angèlle, coração descompassado no peito.

QUANDO SER >> Carla Dias

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Vem assim, em uma languidez incomensurável. Carregar corpo é quase fardo. Carregar espírito é um recostar constante em dúvidas, inconveniências, engasgos. Vai se espalhando, na agilidade das interrupções, elas que são ardilosas e primam pela velocidade-corte, aquela que desanca esperanças, desacredita futuros. Tudo muito profundo, como ela tem evitado que seja há uma vida, sem sucesso. Fosse personagem de ficção, ao menos seria interessante para alguém. Porque alguém é sempre o alguém de alguém, ainda que esses alguéns nunca se encontrem. E esse desencontro, que cai na conta do destino, da falta de boa sorte, do não pertencer a uma história que mereça ser contada, desfalece os planos dela. Usurpa a energia das suas vontades, enquanto ela serve o café a conhecidos de quem não sabe os nomes, as histórias, mas que, todos os dias, enfileiram-se diante dela. Não olham para ela, apenas para suas mãos oferecedoras do líquido quente,  o arranque para a rotina deles.  Uma fraqueza intrínseca se

REVOLUÇÕES CIBERNÉTICAS >> Clara Braga

A primeira e única vez que participei de uma live, já estávamos de quarentena à pelo menos 10 meses! Até hoje não sei quem esteve e participou dessa live, pois conversar e ler os comentários ao mesmo tempo, foi simplesmente impossível para mim! Já reuniões online eu participei de duas, ainda é pouco, mas prefiro olhar pela perspectiva que mostra que foi o dobro de lives. Uma era de fato uma reunião e outra era o aniversário de uma amiga. Porém, as plataformas usadas para cada reunião foram diferentes, o que fez com que eu sofresse em dobro, pois quando aprendi a usar uma, já estavam usando outra! O aniversário online, como era mais descontraído, não me preocupou muito! Mas a reunião realmente me deixou um tanto nervosa, pois foram necessários uns 30 minutos no qual eu mal respirava para não atrapalhar quem estava falando e rezava 30 ave marias em 1 minuto pedindo à Deus para que a cachorra não latisse, até descobrir onde ficava o botão para deixar o microfone no mudo! Outra coisa que r

HOME OFFICE >> Albir José Inácio da Silva

                                                                                                Março   O homem certo no lugar certo - era assim que se enxergava o Plínio no trabalho e na vida. Pelo menos até ser atropelado pela “prisão domiciliar”, que era como chamava o isolamento promovido pelos “maricas” que queriam parar o país.   Apesar do medo que assombrava o planeta e da ojeriza que sente pelo “fique em casa”, Plínio não podia dizer que não estava gostando. A mulher, companheira impecável de tantos anos, os filhos, seu orgulho, a quem nunca pôde se dedicar. Precisava recuperar o tempo com as pessoas mais importantes de sua vida.   Homem dinâmico que acreditava no mercado, na pátria e na produção, era também um homem prático, que se adaptava rapidamente às situações.   Ainda mais se a situação não tinha despertador, nem trânsito, nem correrias.   Compras por telefone, reuniões por vídeo, um cafezinho, conversa com os filhos, fotos antigas, nostalgia. Sim, estava g

A escritora Sandra Modesto está de férias e retorna em 21/03/2021

DILEMAS DA EDUCAÇÃO >> Cristiana Moura

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Eu já estava quase pronta quando, cedinho da manhã, Miguel entra no meu quarto  —Vovoooó!!! Exclama em voz alta. — Migueeel!!! Retribuo a exclamação. Eu estava terminando de me vestir. Coloquei a máscara e foi quando ele perguntou: — Você já vai sair? — Vou sim. Rapidamente, sem sequer mover o pescoço , lançou um olhar abrangente, considerando a pessoa miúda de quatro anos incompletos que é, sobre todo o território. Olhou nos meus olhos e questionou? — Antes de arrumar o seu quarto?

O LIVRO DOS CARREGADORES - 3ª parte > > Zoraya Cesar

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Resumo dos capítulos anteriores: O Carregador, envenenado pela Morte Violeta, não conseguiu impedir que um demônio roubasse sua preciosa carga. Mas, antes de morrer, logrou marcar o Livro com uma magia de rastreamento e, ao mesmo tempo, clamar por ajuda. Quando a Dama dos Portais veio buscá-lo para a Outra Vida, ela não veio sozinha. A invocação do desventurado Carregador fora ouvida.  ---------------- O Carregador, agora era, realmente, uma reles casca vazia. Sua ânima despregou-se do corpo e foi ao encontro da Dama dos Portais, que a absorveu num suspiro de nuvem. A partir desse momento, o Carregador entrara, definitivamente, no Outro Mundo.  A Dama dos Portais voltou-se para o homem que a acompanhara e acenou levemente com a cabeça, despedindo-se. Ainda havia muito o que fazer. Sempre havia.  ----------------------------- O homem, à primeira vista, parecia comum. Olhando mais de perto, porém, percebiam-se algumas peculiaridades: seu rosto não era jovem e sua expressão, severa, combi

NÃO HAVERÁ CARNAVAL >> Whisner Fraga

 este ano não tem carnaval?, a menina abeira, mas podemos pôr lady gagá? (gagá mesmo, rimos), podemos, e dançar também?, podemos, na piscina?, podemos, e a gente que achou que seria por decreto, né?, que seria por decreto que não haveria mais carnaval, né?, o vírus é o decreto, né?, brinquei, eu, você e mishinhi?, sim, nós três, posso passar batom?, pode, posso ir de cosplay?, na piscina?, melhor não, né?, melhor biquini, né?, mas vai ter dança mesmo?, vai, nossa, esse vai ser o melhor carnaval de todos, vai.

O INSANO >> Carla Dias

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Olham para ele abismados, cochichadores ininterruptos de atrocidades pertencentes aos outros. Ele sabe o que eles pensam, não por ser um leitor de mentes ou se encaixar em qualquer cargo sobrenatural. Está claro no olhar deles, na forma como seus corpos recuam, indicando que deles não sairá esforço que seja para ajudá-lo. Está escancarado, mas ainda assim, somente o insano enxerga. Ele se comporta elegantemente, curvando-se para reverenciar seu público. Estão ali para conhecer a sua história e depois voltarem para suas casas com a certeza de que a vida que têm é melhor do que a dele. Nestes tempos em que não se sabe mais o que é loucura e o que é desespero, ele é o maestro da orquestra que coloca um pouco de lucidez na loucura divagante da solidão que assola o mundo. Não olhe para o lado, porque não adianta. É a solidão acompanhada, caros espectadores! É o que lhes resta, depois de tanto esforço para se resguardarem do que mesmo? Do que é dolente.  O mentecapto fica em silêncio, até qu

Alice >> Alfonsina Salomão

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Kintsukuroi. Há dias a palavra ressoava em sua mente, como um desses refrãos de música sertaneja que grudam na cabeça e voltam cada vez que tentamos mudar o rumo do pensamento. Kintsukuroi. A palavra ia e vinha, tal uma garrafa pet largada na praia e resgatada pelas ondas do mar. Kintsukuroi. Alice mal tinha posto o pó de café no filtro e a palavra já estava na sua cabeça, kintsukuroi . Bebia o café pensando nas coisas a fazer, ia para o quarto se vestir e a danada voltava, kintsukuroi . Punha os sapatos, atravessava a porta de casa, cruzava os olhares das pessoas na rua e o termo reaparecia, kintsukuroi . Isso durava o dia todo, até o momento em que os pensamentos se misturavam desordenadamente em sua cabeça e enfim adormecia, tarde da noite. Já fazia uma semana que os dias corriam assim, à sombra da palavra japonesa, kintsukuroi. Desde que a ouvira pela primeira vez.    Tinha sido na casa de Tomoko, uma amiga sansei que conhecera nos tempos de faculdade. Tomoko havia acabado

CENAS DO QUE SE TEM PRA HOJE >> Sergio Geia

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  Nesses últimos dias ando bebendo. Uma bebida amarga, às vezes doce, às vezes uma bebida que não desce; em outras, que desce macio, que faz rir, mas sempre com o mesmo poder, de bebida que bagunça coisas lá dentro. Sinto-me um estéril, ou como se álcool estivesse a me tontear, como aconteceu numa festa, foram sei lá quantas doses. De manhã, quando o silêncio se mistura à brisa fina, eu vou. No meio da tarde, quando o calor já sufoca, eu vou. À noite, quando tudo está acabando e o Pops já baixou a porta, eu vou. Quanto mais bebo dessa bebida mais dá vontade de beber. Mas ela é finita e não há outra fonte. Ela, a fonte, não existe mais. Morreu.  Acordei hoje com a notícia estampada em sua rede social: o câncer na mama, metástase, insensibilidade de um médico estúpido que só soube perguntar se ela tinha grana pra custear o tratamento. E ela contando tudo em detalhes, pondo a cara à mostra, sem vergonha, forte, registrando, fotografando. Uma guerreira, eu pensei, uma guerreira que não tem

CASTIGO >> Paulo Meireles Barguil

Quem nunca escutou e falou (em voz alta ou baixa): "Você vai ficar de castigo!"? Essa frase pode ser uma ameaça ou a sentença fruto de um julgamento, o qual não precisa ter respeitado o princípio do contraditório, nem ser passível de recurso. As punições podem ser temporárias ou eternas. As unidades de medida das primeiras são minutos, horas, dias, semanas, meses e até anos. As demais são mais simples, pois dispensam a Matemática, sendo o exemplo mais conhecido, e que muitos creem, o que foi aplicado por Deus em Adão e Eva. Elas também variam quanto à dimensão humana que a recebe diretamente, corporal ou emocional, pois, independentemente do destino, a pessoa é integralmente atingida. A mão é, de longe, o principal órgão implementador da pena corporal, podendo ou não utilizar um instrumento para materializá-la: palmada, chinelada, cintada, açoitada, tapa, pedrada, murro... Em relação à pena emocional, a língua é o mais importante arauto, mediante ofensa ou silêncio, embora nã

NEVE NEGRA - parte 2 -- Nádia Coldebella

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O nascimento da Herdeira       A rainha esperava um filho.. .. Havia quem dissesse que a ordem havia voltado ao palácio, mas desde seu adoecimento, a rainha nunca mais fora a mesma. Poucos sabiam que, antes de partir, Esternuto grasnara sobre o afeto que o Rei nutria pela feiticeira. E ninguém sabia que ela, em seu íntimo, desprezava a criança que crescia em seu ventre, que lhe roubava a beleza e a vitalidade. Elora não saia mais para as visitas costumeiras e permanecia muito tempo nos jardins reais. Só que não cantava mais, apenas se punha sentada, quieta, de testa franzida, rosto cansado e mãos sobre o ventre.  Quase não falava, mas era comum perceber seus suspiros profundos, seguidos de gemidos que pareciam ser de dor e consternação. Já era novamente inverno quando o nascimento da criança anunciou-se. No aposento real, o fogo crepitava na lareira, presenteando a rainha com chamas alaranjadas e bruxuleantes. Ele arriscava-se e compunha uma coreografia lúgubre nas paredes

OLHA QUE OLHAR ESTRANHO TEM O ESTRANHO QUE ATRAVESSA A RUA DO MUNDO DA LUA >> Carla Dias

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Olha que olhar estranho tem o estranho que atravessa a rua do mundo da lua. Ele que sabe de cor o verso e o esconde do mundo por medo de o tempo lhe roubar a clareza do sentimento.  Que estranho esse estranho de olhar estranho atravessando a rua dos sentidos e dos ressentidos. Suas largas passadas tão lentas, maratona em  slow motion . O infinito lhe angustia de um jeito, que só lhe resta apertar o passo para alcançar quem lhe queira, ainda que estranho de olhar estranho e ainda mais estranho destino.  Quem me quer?  ele berrou no meio da rua do mundo da lua, em tom esganiçado, em dia de desespero descarrilado. O silêncio ecoou fascinado por ele, o estranho de olhar estranho, de andar estranho, de mãos enveredando pelos cabelos do vento, pensamento tentando catar explicação para essa solidão de homem de olhar estranho, que almeja afeto que lhe ofereça beijo. Mas veja que o olhar estranho do estranho que atravessa a rua do mundo da lua, busca palavra no muro que lhe salve da solidão, qu

O USO DAS PALAVRAS E AS PALAVRAS EM USO >> Clara Braga

Grandes acontecimentos geram grandes mudanças. Não podemos afirmar se essas mudanças serão positivas ou negativas, mas não podemos negá-las. Assim como não podemos negar que grandes acontecimentos coletivos geram grandes mudanças coletivas. Sim, esse é um texto sobre a pandemia, outro texto sobre a pandemia. Mas prometo que vou compartilhar uma perspectiva diferente. Se você já chegou até aqui, te convido à ir até o fim, serei breve. Você já parou para reparar as mudanças que a pandemia proporcionou ou intensificou no nosso vocabulário? Para me explicar, começo do básico: vamos pensar sobre a palavra quarentena. Antes, essa palavra não era motivo de aflição e pouco estava relacionada à questões econômicas. Ah, também é preciso ressaltar que ela normalmente se referia à um período de, aproximadamente, 40 dias. Embora isso nunca tenha sido uma regra, hoje, no nosso "novo normal", parece até piada. Já que mencionei o fato de que o uso da palavra quarentena agora pode gerar angús

O VERBO >> Albir José Inácio da Silva

  -Seu marido foi embora, né? - Como é que a senhora sabe? Eu ainda não falei nada. - Iemanjá sabe tudo, minha filha. - E o que mais diz Iemanjá? -Iemanjá diz “trago seu homem em três dias”. Pagou, beijou a mão da madame e saiu com o coração aos pulos. Será? Deve ser. Iemanjá não mente. Devia ter vindo antes. Tantos meses de sofrimento. Um dia ele pegou a mala e disse vou pra São Paulo. Não teve choro, nem desmaio, nem pergunta que ele respondesse. Viu quando entrou no ônibus sem se virar. Andou como louca pelas ruas, depois foi pra casa e chorou todos os dias. Não é que não acreditasse. É que sua desgraça era tanta que achou que não tinha jeito. Só com muita falação das comadres é que resolveu fazer a consulta. Agora era esperar. Três dias. No primeiro dia vieram dizer que ele tinha chegado no ônibus das seis. Arrumou a casa , fez o peixe e comprou a cachaça. Ele não veio. No segundo, soube que ele perguntou por ela. Lavou os cabelos, botou perfume, e ele não veio.

A escritora Sandra Modesto está de férias e retorna em 21/03/2021

O LIVRO DOS CARREGADORES - 2a parte >> Zoraya Cesar

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O Carregador sentiu que a Dama dos Portais não tardaria a chegar. E soube que não conseguiria cumprir sua missão, sequer levantaria daquele banco, não sobreviveria à noite.  Era um pesquisador, mais afeito a combater o fungo dos livros e a decifrar manuscritos que a enfrentar demônios. Mas era, acima de tudo, um Carregador. Provido da coragem própria dos de sua profissão. E, mesmo estando derrotado, ainda poderia dar uma chance de o Livro chegar a seu destino.  - Vamos, vamos, seja razoável. Me entrega logo esse pacote. Não vê que fracassou? Não quero ter de quebrar seus braços. - A mulher fez um muxoxo irônico, demonstrando cabalmente que, ao contrário do que dizia, não teria pejo em perpetrar algum tipo de violência. O Carregador, por entre a mente enevoada, a boca entreabrindo-se, um filete de baba arroxeada escorrendo, olhou para ela, balbuciando fracamente palavras indistinguíveis, enquanto tamborilava o embrulho com seus dedos frágeis. A mulher piscou várias vezes, divertindo-se.

QUEM SERIAM? >> Carla Dias

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Como são inestimáveis, mesmo quando vestem seus disfarces adquiridos em supermercados de arrependimentos. Usam péssima poesia, até mesmo manchetes de jornais e títulos de filmes para justificar a própria lamentável partida. Quem seriam os que partem, não houvesse os que ficam?  Desabraçam o que poderia ter sido, espalhando faltas e fazendo vibrar aqueles pensamentos que já não aguentam mais honestizar a insalubridade dos que ficam aqui... neste aqui de há anos, de há eras, de há milhares de canções de amor, das quais o tempo não consegue descartar o valor. Elas continuam a reverberar pelos labirintos de quem são, do que sentem os que ficam.  Desejar revide é desejo que dura o que nem se pode chamar de duração. Um arranhão naqueles segundos que se leva para entender que melhor não, bobagem!  Bobagem. Uma bobagem que faz com que você se desconecte dos acontecimentos do agora, esconda-se dentro de si, só para repassar na memória aqueles segundos outros, que nem relógio registrou, porque n

LOGO AGORA?? >> Clara Braga

Recentemente percebi que tornou-se comum o termo "pet friendly". Para quem possa ainda não estar muito familiarizado com o termo, alguns locais, inclusive shoppings, começaram a anunciar serem "pet friendly" para dizer que ali, seu pet é bem vindo. Não estou aqui para julgar se isso é bom ou não, eu gosto de poder levar minha cachorrinha para certos locais, mas não me sinto tão à vontade para levá-la para todo e qualquer lugar, mesmo sendo pet friendly. Porém, outro dia, me surpreendi ao ler o termo "kids friendly" na porta de um restaurante. Fiquei abismada e, de certa forma, com raiva. À princípio, pensei que agora teria que verificar se os locais que frequento aceitam ou não crianças. Fiquei furiosa e fui fazer uma rápida pesquisa à respeito. Para minha surpresa, descobri que certos locais, principalmente restaurantes, perceberam que eles não são atrativos e/ou receptivos para crianças. Então, esses locais decidiram se reinventar para tornarem-se um esp

CLEMENTINA >> Alfonsina Salomão

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Clementina estava parada, sem pensar em nada em especial, quando se deu conta: ela está chegando. Ela quem? Não sabia dizer ao certo. Ela, uma antiga conhecida que já a visitara em outras épocas. Quando tinha uns vinte anos, depois aos trinta, aos quarenta e poucos, e agora aos cinquenta. Que estranho ela vir assim, de dez em dez anos... Será que é a mesma coisa pra todo mundo?   Clementina não gostava de dar nome aos bois precipitadamente. Primeiro, ela a ignorava. Não fazia por querer, simplesmente não percebia sua chegada. Não era para menos, ela vinha silenciosa, perniciosa como uma serpente. Clementina só se dava conta da presença verde e mucosa quando seus tentáculos já lhe chegavam ao pescoço. Quando, pela terceira ou quarta vez repetida, num encontro fortuito, um conhecido qualquer lhe perguntava: “Tudo bem?”, e seus olhos marejavam. Esta situação era extremamente embaraçosa para Clementina. Ela sabia que a resposta era, inevitavelmente: “Tudo e você?”, e era o que replicava. M